No momento em que decidiu retornar a Nova Orleans, Miles teve de relance uma velha lembrança que guardava com carinho. O dia de sua formatura. Com sua pequena espada em mãos, quepe na cabeça, e roupa formal branca.

— Você está lindo. — Ouviu uma voz vinda de trás dele.

Quando Miles se virou, pôde encarar Thomas, seu velho amigo que esteve com ele durante sua Jornada.

Miles estava inevitavelmente feliz e sabia que Thomas estava feliz por ele. Vê-lo daquele jeito provocava lágrimas nos olhos de Thomas. Miles o abraçou.

— Esperei tanto por esse dia. — Disse Thomas com a cabeça encostada na de Miles.

— Eu também, meu amigo. Eu também.

A vida para garotos pobres e negros costuma ser difícil. Porém Miles tinha um pouco de sorte e a benção de Odin. Era um verdadeiro guerreiro e Thomas o amava por isso. O dia de sua formatura havia sido de fato uma memória na qual ele se agarrava antes mesmo de ter, seus lábios contavam histórias que seus ouvidos haviam escutado e sua memória trabalhava constante para se lembrar daquele sonho rotineiro.

Sua vida como fuzileiro naval era seu sonho, e ele ainda estar vivo era o sonho daqueles que eram próximos a ele. Miles levantou-se da cama. Sua cabeça ainda estava confusa e agoniada por não conseguir organizar os fatos de maneira linear.

Aquilo o deixava agoniado. Miles já de pé foi-se até o banheiro e lavou rosto com água fria. Olhou seu reflexo admirado no espelho. Gotas de agua pingavam de seu rosto recém-molhado. Ele estava ficando velho. Sorriu para si mesmo. E sorriu Ainda mais quando se lembrou dos elogios que Thomas proferia em relação aos seus olhos espremidos quando ele ria.

Miles sentia falta de Thomas, ou pelo menos Thomas achava que ele sentiria. Thomas se descobrira apaixonado por Miles desde muitos anos atrás e nunca parará. Miles indagava se era mesmo esse cara digno desse sentimento infinito. Thomas era a voz que soava em sua cabeça quando vestia o uniforme e descia ao trabalho. "Não morra" dizia Thomas com carinho. "Não vou" Miles respondia, e sempre tentava honrar sua promessa.

Tirou o resto de roupa que vestia e entrou no chuveiro. A água gélida costumava fazer seu corpo encolher. Já estava acostumado, já passara por coisa pior. Enquanto passava sabão, Miles se questionou se passaria o resto do dia nessa melancolia nostálgica. Perguntou-se se aquelas memórias continuariam brigando por atenção em sua cabeça até que ele colocasse os pés em Nova Orleans. E as memórias continuaram fluindo vividamente como sempre nos dias seguintes.