O real... imperdoável?
2 Vinho.
Ela cozinhava uma massa rápida, um spaghetti ao molho sugo que só se permitia aos domingos, uma refeição para ela mesma. A mesa já estava posta, uma garrafa de vinho tinto – seu melhor amigo nos últimos tempos – uma taça, um prato, um conjunto de talheres. Ela sabia que teria sua família sempre presente nos bons e maus momentos, seus melhores amigos que, apesar de poucos, sempre a apoiavam em qualquer situação e a qualquer distância... mas se sentia tão só... lhe faltava algo. Faltava ele.
Meses haviam passado desde sua partida e desde aquela despedida dolorosa no aeroporto, das meninas abraçando-a e do beijo cheio de saudade antecipada que se deram às escondidas. Já não havia mais contato entre eles, era melhor assim. Ela sempre pensou que separação é como uma injeção: deve ser feita de uma vez, para ser uma dor única e cessar na retirada da agulha. Assim ela acreditava que fosse, que ao retirá-lo de sua vida, a dor e os sentimentos cessariam. Que errada ela estava! Parecia que por mais que passavam os dias, os meses, a saudade aumentava mais e mais. Parecia que cada noite em seu apartamento, agora silencioso sem aquela voz máscula e terna que a acompanhava, era uma eternidade. Parecia que toda e qualquer música que tocasse no rádio contava sua história. Que os filmes românticos passavam na tv de propósito. Que todos faziam questão de lembra-los, do ótimo trabalho que fizeram juntos, da parceria que tinham.
Sentou-se à mesa trazendo consigo a porção de spaghetti. Serviu-se de um pouco de vinho, apreciou seu aroma e desfrutou do primeiro gole. Mal sabia que aquele primeiro gole seria a porta de entrada para uma noite inesquecível.
Após alguns minutos terminou sua refeição e percebeu que sua garrafa de vinho já havia praticamente terminado. Adorava aquela sensação de amortecimento dos sentidos e sentimentos que o álcool lhe proporcionava, apaziguando seu coração, oferecendo-lhe uma leveza que há muito tempo a culpa não lhe deixava sentir. Quando se levantava para caminhar cambaleante até a adega e conseguir outra garrafa, escutou algo que pareceu ser a campainha.
Lentamente dirigiu-se até a porta e sem nem mesmo olhar ou perguntar quem era que chegava sem avisar àquela hora da noite, abriu a porta. Ela pressentia quem era, sabia quem era.
– Tú...
Aquilo não era uma pergunta, não era uma exclamação nem uma constatação... era mais uma confirmação do que seu coração sentia que fosse.
– Vine por ti, tonta.
Como? Por que? Aquilo não fazia sentido. Como ele havia chegado ali? Em que momento atravessou o oceano por ela? Bem, nada disso importava, não agora.
Seus lábios se encontraram em um beijo lento, terno e cheio de saudade. As mãos dela viajavam pelo cabelo dele, pela barba que tanto gostava, pela nuca. Ele por sua vez guiava os passos dos dois em direção ao sofá, fechando a porta do apartamento atrás de si.
Como tantas e tantas vezes, ele a ergueu e ela entrelaçou suas pernas em sua cintura. Em nenhum momento suas bocas se separaram, lhes urgia matar aquela saudade, sentir o toque de suas peles, seus perfumes misturando-se ao suor e todo aquele amor por tanto tempo reprimido tomando forma e movimento.
De alguma forma chegaram ao quarto e lá amaram-se intensamente: uma, duas, incontáveis vezes naquela madrugada. Palavras de amor, de entrega, de desejo, sentimentos misturados, sensações inesquecíveis a cada toque, a cada sussurro. A lua que aparecia e iluminava-os através da janela de cortinas abertas dava um toque mágico à cena, que em nenhuma novela ou filme seria tão perfeita como era naquele momento.
Exaustos, porém sem separar-se, acomodaram-se de forma que cada centímetro de suas peles estivesse em contato. Ela aninhou-se no peito malhado de seu amado, enquanto ele acariciava com ternura seus cabelos, suas costas... escutavam suas respirações pesadas, seus corações acelerados. Por última vez olharam-se nos olhos e naquele instante palavras sobrariam. Todo o amor, a saudade, o desejo e a paz que encontravam um no outro foi transmitida somente naquele olhar. Um sorriso escapou dos lábios de ambos, enquanto fechavam os olhos e adormeciam com a serenidade de um bebê.
PI PI PI PI PI berrava o despertador, enquanto ela distribuía tapas no celular tentando desligar aquele ruído que mais parecia uma ambulância dentro de sua cabeça. Efeitos do vinho.
Abriu os olhos lentamente, sofrendo a cada raio de luz que percebia, sentindo seu coração bater em suas têmporas. Efeitos do vinho.
Olhou ao seu redor e não o encontrou. Na verdade, não encontrou nenhum vestígio da presença dele ali. O único que conseguiu ver foi uma garrafa de vinho vazia junto à porta de seu quarto, somando-se à outra que já havia sido terminada em cima da mesa da sala de jantar.
Efeitos do vinho.
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