O real... imperdoável?
3 Reencontro.
Acabava de acordar. Era uma manhã de domingo ensolarada e ela tinha vários planos para aquele dia: passear de bicicleta, almoçar com alguns amigos e passar o resto da tarde deitada no sofá assistindo filmes bobos, descansando.
Depois de checar seu celular, as notificações do Instagram, Twitter e, é claro, Whatsapp, criou coragem e se levantou para tomar banho. Depois do ritual matinal, com os cabelos molhados e bagunçados (como a maioria das pessoas jamais a vira) foi preparar um café na cozinha.
Enquanto apreciava o aroma do café, percebeu que seu celular vibrava alucinadamente. Receosa, olhou a tela e identificou o número. Hesitou por um momento. Deveria atender? Bom, depois do que combinaram, se ele estava ligando é porque era algo no mínimo importante... pelo menos era isso o que ela desejava.
– Bueno?
– Hola... soy yo.
– Ya se... que pasó? Cómo andas?
Ela tentava manter uma conversa normal e desinteressada, mas em sua voz notava-se a curiosidade e a urgência que tinha de entender o motivo da ligação.
– Apenas voy llegando a México y quisiera saber si podemos ir a comer.
Seu coração palpitava muito mais rápido do que o normal, suas mãos suavam frio e ela parecia estar em outra dimensão.
– Qué haces aqui?
– Me llamaron para un trabajo… sí te puedo llevar a comer?
– Fíjate que no! Yo ya había quedado de ir a comer con unos amigos… y también creo que es mejor que vengas para acá, ya no quiero chismes.
– Bueno, en la noche voy.
Encerraram a chamada e ela ficou pensativa. Por mais que ele tenha dito que estava lá a trabalho, ela pressentia que havia algo mais que ele não queria contar. Seus planos estavam todos arruinados, mas ela não deixaria de fazer nada do que tinha programado por ele. O problema é que o dia passou e ela cumpriu tudo o que tinha planejado, porém em nenhum segundo deixou de pensar nele e em sua volta. Seus amigos até reclamaram que ela estava ausente no almoço, mas ela simplesmente deu a desculpa de que tinha muito trabalho ocupando a mente e por isso andava distraída.
Depois do almoço com os amigos, chegou apressada em casa. Queria que estivesse tudo na mais perfeita ordem, para que ele não percebesse que ela estava mal pela separação e que até tinha se descuidado da casa. Não que ela se encarregasse dos afazeres domésticos, mas nos finais de semana quando a empregada não aparecia, o apartamento ficava uma bagunça.
Arrumou todo o apartamento e até se atreveu a varrer e passar um pano na sala. Tomou um banho demorado, perfumou-se e maquiou-se. Nada muito chamativo, mas que lhe desse um ar reestabelecido depois daquele dia tão cheio. Nem ela entendia o porquê de tudo aquilo, já que tinha certeza de que não voltariam, mas seu orgulho de mulher não lhe dava outra opção.
Ao ouvir a campainha, jogou os cabelos numa tentativa de arrumá-los e dirigiu-se diretamente à porta, abrindo-a sem hesitar. Agora sim ela tinha certeza de que sofreria um infarto ali mesmo, nunca sentira seu coração bater tão forte e rápido ao vê-lo parado, ao sentir o seu perfume tão conhecido e lembrado nos últimos meses entrar por suas narinas, ao sentir-se em seus braços em um abraço apertado e cheio de saudade.
Quando finalmente e com muito custo soltaram-se daquele abraço, entraram no apartamento e ela o convidou para se sentar. Ouviram uma trovoada que os fez estremecer, parecia que aquela seria uma noite de tempestade, lá fora e lá dentro. Aquela situação era tão estranha para os dois, tratar-se com tanta formalidade naquele lugar onde tantas vezes passaram a noite juntos, trocando confidências e segredos, amando-se e desfrutando da companhia um do outro.
Ela os serviu de vinho e, como sempre direta, perguntou o porquê de ele estar ali. Esperando escutar como resposta a mesma história que ele havia lhe contado de manhã, que era por trabalho, surpreendeu-se quando ouviu suas palavras:
– Yo la verdad no se a que vine. Sí es cierto que me han invitado a hacer un trabajo de modelaje aquí en México y teóricamente a eso vine, pero hay algo más. Yo echaba de menos todo eso, el lugar, el ambiente… tú. Me haces mucha falta, Ana.
Ela não sabia bem o que responder. Obviamente ela também sentia a falta dele, mas eles haviam concordado que o melhor era a separação. Ele era um homem de palavra, não deveria estar ali por ela. Ao mesmo tempo em que sua consciência lhe gritava essas palavras, um sorriso saía em seu rosto. Era seu coração que reagia ao saber que o sentimento dele era verdadeiro, assim como o dela.
– Y tú a mi, me haces mucha falta. Yo te extraño, pero no se que hacer o como portarme en esta situación. Lo hablaste con tu esposa? Que pasó con tus hijas? Estos meses que estuvimos alejados me hicieron reflexionar sobre muchas cosas… yo te amo, Iván, pero no puedo ser la otra. Es algo que va más allá de mis sentimientos, son valores que tengo. Y no solo eso, la culpa que sentía por estar juntos sabiendo que tienes otra familia era algo que me consumía y yo la neta no quiero sentir eso otra vez...
As palavras brotavam de seus lábios como um texto decorado de novela. Talvez nunca antes tivesse sido tão honesta, mas ela deveria se impor. Falava com firmeza mas sentia aquele nó familiar se formar em sua garganta.
Ele se aproximou e a abraçou. Ela sabia o que era aquilo: uma tentativa de escapar da conversa e ambos terminarem cedendo aos sentimentos e desejos. Mas dessa vez ele não conseguiria usar essa estratégia. Desvencilhando-se do abraço, ela levantou-se do sofá e caminhou pela sala, tentando encontrar alguma solução para aquele problema que voltava à sua vida.
– Ana, ven... yo te amo y no puedo estar sin ti! Siento que me muero cada vez que recuerdo tu voz, tu olor, el roce de tu piel… es algo más fuerte que yo o que mi consciencia y culpa… extraño las pláticas hasta la madrugada que solíamos tener.. Extraño tenerte en mi vida. De hecho, mi vida no es mi vida si no estás. Si no te tengo no vivo, no más sobrevivo… Eso no es justo.
A chuva e o vento lá fora parecia que chegavam aos dois ali dentro daquela sala. Seus corações gelavam a cada palavra de dor e amargura que saía, assim como seus rostos pareciam que se molhariam de lágrimas a qualquer momento.
– A poco si te parece justo que yo tenga mala fama? Aunque me valga lo que piensen de mi, yo no puedo estar bien contigo sabiendo que al otro lado del océano hay otra mujer que te espera, me entiendes? Siento una agonía, un dolor por ella… porque al fin y al cabo ella no tiene la culpa de nada. Y yo tampoco.
– No es el caso de echarse la culpa a nadie. Nadie tiene culpa por sentir lo que siente, simplemente hay que ser honestos…
– Está bien, seamos honestos entonces. Divórciate de tu esposa y luego hablamos.
Ela sabia que ele não reagiria depois desse ultimato e rapidamente o colocou para fora de seu apartamento. Apesar de aparentar ser forte e decidida, recostou-se na porta e deixou-se cair até o chão, sentindo as lágrimas brotando de seus olhos como gotas de chuva que lhe chegavam ao coração, esfriando por onde passavam. Sentia-se perdida, confusa, como se de um momento a outro tivessem-lhe roubado o chão. Como se estivesse em um bote, no meio do mar, sem remos, sem vento...
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