O real... imperdoável?
1 Despedida
Notas iniciais
- Me tengo que ir.
Disse ele, com seu sotaque espanhol já quase imperceptível, vendo-a sentada no deque, admirando a imensidão azul turquesa proporcionada pelo mar do Caribe lá embaixo.
- Ya me imaginaba que eso pasaría. Es solo que… — calou-se e ficou pensativa. Em sua mente passavam imagens daqueles dias que passaram juntos em Isla Mujeres. Muito diferente da pseudo lua de mel que haviam tido em Cancún meses antes, esta viagem havia sido bem, digamos, familiar: as filhas dele os haviam acompanhado e enquanto ela lembrava dos passeios que haviam feito os 4 juntos, das trilhas ao ar livre, do nado com golfinhos, das risadas e brincadeiras, continuou:
— ...es solo que yo ya me aferraba a las niñas. Ya me las estaba ganando, ellas ya me querían... pero ni modo. Así son las cosas y esto es lo correcto.
Ela estava a ponto a irromper em lágrimas, mas seu orgulho não permitia que o choro tomasse conta. De qualquer forma, era perceptível sua dor e sofrimento pela separação. Seu carinho pelas meninas era sincero, elas haviam ganhado um lugar em seu coração e também o sofrimento por se separar dele... Ele que havia se tornado seu companheiro de aventuras nos últimos meses, seu maior fã e admirador em todos os projetos e quem mais a apoiava em seus sonhos, quem lhe brindou momentos de ternura, amor, carinho... e também momentos de paixão e calor, como ninguém antes.
Tudo começou num teste de química para um trabalho e terminava ali, em um sentimento que não cabia no peito dos dois e se externalizava em seus personagens. Tudo era tão real que até os telespectadores sentiam tudo aquilo. Eles estavam cientes pois recebiam todo o feedback do público, e gostavam disso. Mas o correto deveria ser feito. Ele tinha uma esposa, a mãe de suas filhas e, apesar de ambos não serem mais um casal no sentido romântico, ainda mantinham um relacionamento de aparências por causa das meninas. Aquela viagem teve a desculpa de ser uma despedida do papai da companheira de trabalho e elas realmente gostavam muito da moça, mas não a ponto de aceitar o divórcio de seus pais e um oceano de distância entre eles.
- Regresaré.
- No lo harás y bien lo sabes – seus olhos de enchiam de lágrimas, enquanto ele se agachava e a abraçava por trás.
- Te amo.
As palavras dele eram sinceras e ela sabia disso. O amor que eles tinham era quase tangível, seria loucura negar. Ele, como inúmeras vezes havia feito, aproximou-se da nuca dela e delicadamente acomodou seu rosto em seus cabelos, sentindo o perfume que tanto gostava, que impregnava seus pensamentos todos os dias e suas roupas a cada manhã depois das noites que passavam juntos.
O que tinham não era só paixão, calor, sexo. É claro que tudo isso fazia parte de sua relação, mas algo muito mais forte os unia. Suas almas se completavam, ela entendia suas debilidades e ele aceitava suas inseguranças. Ambos se admiravam pessoal e profissionalmente, eram fãs um do outro. Eram cúmplices nas escapadas do set de gravação, mas também nas aventuras como sair de madrugada para comer tacos na rua sem que os vissem juntos. Podiam passar horas se amando, como também passavam horas abraçados, ouvindo os batimentos cardíacos um do outro no mesmo ritmo, trocando confidências e segredos de infância, confessando seus medos ou simplesmente divagando sobre o sentido da vida.
A verdade é que a relação que eles tinham é o que toda pessoa deseja ao encontrar um parceiro, alguém que o complete e que é completado. Almas que se encontraram e se fundiram e dois corpos diferentes, mas que juntos são um só.
Porém ali tudo isso se acabava. Ele teria de voltar para seu país natal, para sua família “oficial”. Ela continuaria lá, com as lembranças das quais cada lugar, edifício, esquina daquela cidade era testemunha. Mas nem sempre as histórias de amor da vida real têm finais felizes como as novelas, e ambos tinham plena consciência disso...
- Te amo, mi pequeño bipolar.
“Pero todo no fue suficiente, me mata perderte, quisiera arrancarme el dolor…”
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