O que o destino aprontou dessa vez?
17 Capítulo 17 - Quero fazer uma coisa
Notas iniciais
As janelas abertas possibilitavam que os raios solares invadissem o quarto. Em pouco tempo, a luz foi cobrindo toda a cama até chegar no rosto da ruiva, acordando-a. E parece que a tristeza e a falta que ela sentia de Lucas desde a briga, foi preenchida em seu peito com as maravilhosas e memoráveis noites em claro que havia passado conversando com um certo barbixa.
O número de conversas que não se poderiam contar nas duas mãos, haviam feito um bem enorme para Luana. Era incrível como as pessoas certas sempre estavam com ela quando precisava, mesmo que por uma simples troca de mensagens. Claro que eles não poderiam conversar sempre, afinal ele tinha a agenda muito lotada de compromissos e trabalhava muito, porém sempre que possível, arrumavam um jeito de se comunicar.
Ela então, ainda na cama, pensou consigo: “Mais um dia de trabalho”. Levantou-se, tomou uma ducha e encontrou Ellen na cozinha, preparando tapiocas.
– Tapioca pode! – Luana brincou fazendo referencia ao musical que havia visto em um dos vídeos do espetáculo de improviso preferido.
– Pode tapioca? – Ellen entrou na brincadeira.
– Sem recheio gorduroso. – Ambas caíram na gargalhada.
– Vejo que acordou de bom humor.
– Não se acostume. Você sabe que a bipolaridade me persegue.
– Tanto que sei disso deste que tinha 13 anos.
– Mas e então? Quer carona pro trabalho?
– Vou aceitar. Ao menos vou economizar minha gasolina. Do jeito que os impostos estão hoje em dia, é até difícil não aceitar uma oferta.
– Tudo bem. Vamos, quero comer. – O olhar sorrateiro que se formou no rosto de Ellen foi instantaneamente notado pela outra. – O que foi, Senhora das Mentes Poluídas?
– Calma, eu nem disse nada.
– Mas pensou. – Luana retribuiu o gesto.
Pouco tempo depois, saíram. Luana deixou a amiga no trabalho como havia dito e foi para a clínica nutricionista logo em seguida. Chegando lá, ela fez o de sempre: bateu o cartão, pôs o jaleco, conferiu o agendamento dos pacientes, foi para o consultório, atendeu um a um, e etc. De segunda a sexta, a rotina era a mesma.
Geralmente ela só atendia pela manhã, já que existiam outros profissionais da mesma clínica nos demais horários. Por acaso, naquele dia ela fez hora extra, já que um dos colegas de trabalho não pôde ir e ela teve que substituí-lo. Quando terminou seu expediente, recebeu uma mensagem em uma de suas redes sociais.
Daniel Nascimento: Boa tarde, ruiva.
Bem, seria típico que ela desse pulinhos de alegria como nas primeiras vezes, porém, havia praticamente se acostumado com as mensagens, principalmente noturnas, que recebia do barbixa. Mas mesmo com essa habitual ação, ela não pôde conter um sorriso bobo. Procurou não pensar muito e logo respondeu.
Luana Bell: Boa tarde, moreno.
Daniel Nascimento: Ocupada?
Luana Bell: Não, imagina. Pode falar.
Daniel Nascimento: Bem, você sabe que há muito tempo não nos vemos, não é? E eu acho que só conversas virtuais não são suficientes.
Luana Bell: Sei Sr. Nascimento... o que você está tentando insinuar?
Daniel Nascimento: Bem Srta. Bell, eu tenho a tarde vaga. Você não quer me fazer companhia?
Luana Bell: Adoraria. Estava mesmo com saudades.
Daniel Nascimento: É bom ouvir isso. Ou melhor, ler isso.
Luana Bell: Então está bem. Onde seria?
Daniel Nascimento: Estou aberto a sugestões.
Luana Bell: Talvez uma praia?
Daniel Nascimento: Combinado. Te busco 16:00 horas.
Luana Bell: Estou no aguardo. Até mais.
Ainda ostentando um sorriso, ela pegou o carro e foi até o trabalho de Ellen para buscá-la. Chegando lá, ela não esperou muito.
– O trabalho foi bom, né? – Ellen ironizou, entrando no veículo.
– Por que você diz isso?
– Eu leio sorrisos. E de acordo com o que eu vejo... – Disse como uma renomada cartomante. – ... parece que envolve um certo humorista da cidade de São Paulo, que faz parte de um trio de cinco no qual ele é o quinto membro... acertei? – Ela brincou com a parte do “trio de cinco”, como os próprios gostavam de denominar.
– Como sabe de tudo isso? Tá melhor que a Mãe Diná. – Elas riram. Luana enfim deu partida no carro.
– É simples. Você tem vários sorrisos.
– Espera aí, você define cada sorriso meu?
– Lógico. – Ela respondeu naturalmente, como se isso fosse um feito normal. – Então, me fala mais.
– Ele me chamou pra lhe fazer companhia hoje.
– Tradução: te chamou pra um encontro.
– Você fala como uma genuína especialista.
– E quem é que te dava conselhos e opiniões sobre os garotos do colégio? Eu. Portanto, sou especialista sim. E onde vocês vão se encontrar?
– Numa praia, que eu ainda não sei qual é.
– Olha que romântico!
– Ellen...
– Desculpa, já sei que minha querida amiga não gosta de coisas fofas. E nem de admitir que gosta dele.
– Não é que eu não goste de admitir. Só não gosto muito de tocar no assunto. Já basta os devaneios da minha cabeça.
– Mudando de assunto, você precisa se arrumar. Certo?
– Certo.
– E quando a gente chegar em casa, eu vou te ajudar. Você vai ficar um arraso.
– Ellen, é uma praia e não uma balada.
– E quem disse que pra ir pra praia também não precisa se arrumar? Vou te ajudar sim, nem teime, mocinha. – Ellen viu um sorriso discreto se formar no rosto da outra. Luana realmente contava com a amiga pra tudo, desde que eram bem jovens.
Chegando no apartamento, elas fizeram um lanche rápido e foram para o quarto. Lá, Ellen a ajudou com a roupa, como prometido. Depois de muito combinar peça com peça e depois de ter feito do quarto uma zona, elas enfim chegaram a um acordo: um short claro com uma simples blusa branca, sem contar no biquine, logicamente. Com os cabelos soltos e a cara limpa de sempre, ela finalmente estava pronta.
E o barbixa? Atrasado como sempre, chegou às 16:24 e logo que o porteiro anunciou pelo interfone que ele estava a sua espera, Luana passou a sentir seus batimentos acelerarem um pouco mais.
– Ele chegou.
– Tá esperando o que então? Vai lá.
– Pode deixar. Ah e obrigada pela ajuda.
Assim que saiu do prédio, avistou Daniel dentro do carro. Quando a viu, saiu do veículo e parou diante da calçada enquanto a mesma caminhava até ele. Ele vestia uma roupa simples, porém lhe caía muitíssimo bem. Era uma combinação de diferentes tons de azul: uma blusa escura e uma bermuda pouco mais clara. O óculos que costumava usar fora dos palcos, também se fazia presente.
– Pronta para a aventura? – Ele a perguntou com ar e olhar intimidador, ao tê-la em sua frente.
– E desde quando ir à praia é uma aventura?
– Nunca se sabe o que vai acontecer na praia.
– Tipo o que?
– Salvar ruivas indefesas. – Ela riu sem graça.
– Ok então, aventureiro, podemos ir? – Ele não disse nada. Apenas estendeu uma das mãos, e logo que ela concedeu a sua, o barbixa depositou um leve beijo sobre ela, bem próximo de seu punho, como um gesto de cavalheirismo. Aproveitando a oportunidade, ele a puxou delicadamente para um abraço, aconchegante como sempre.
– Eu estava com uma baita saudade, sabia?
– Eu também. – Somente então, se desprenderam e entraram no carro, partindo para a praia.
Depois de muito tempo de trajeto, enfim chegaram. Daniel estacionou o carro e foi para a parte de trás do veículo. Ao abrir o porta malas, tirou uma mochila e uma capa de violão.
– Você trouxe um violão? – Luana perguntou com um sorriso surpreso.
– Sim. Quem sabe ele seja útil pra nós. – Ele respondeu novamente com aquele ar e olhar intimidadores.
– Deixa eu ajudar. – Ela disse pegando a mochila e pondo nas costas.
De longe era possível sentir o familiar cheiro da areia molhada e da maresia. Não haviam muitas pessoas no lugar, talvez pelo horário e por estarem no meio da semana. Logo mais, já estavam acomodados na areia.
– Posso? – Ela indagou ao apontar para o instrumento musical.
– Você sabe tocar?
– Sim, e muito bem, modéstia a parte.
– Pois então... – Ele lhe entregou o violão, e logo de cara notou sua intimidade com o instrumento.
E assim o tempo se passou. Foram diversas músicas, diversas conversas, diversas piadas e diversos risos. O lugar ficava cada vez mais vazio. O sol já estava para se por quando ele lhe fez um convite.
– Não quer nadar?
– Claro. – Ele levantou-se primeiro e a ajudou a levantar. Tirou a camisa, e permaneceu com a bermuda. Luana tentava não olhar, mas era inevitável. Era como se seus olhos fossem dois imãs que eram inconscientemente atraídos por seu corpo. Para disfarçar, começou a tirar sua blusa também. E dele se podia dizer o mesmo, principalmente ao poder desfrutar da bela visão que era seu busto, coberto apenas pelo biquini vermelho.
– Vem. – Ele foi em sua frente. Ambos caminharam um pouco mais quando puderam sentir a água fria tocar em seus pés despidos. Foi então que Luana parou. Ficou encarando o chão de areia úmida, como alguém que vai a praia pela primeira vez. Daniel percebeu que ela havia “estacionado” lá atrás e voltou para buscá-la. – Aconteceu alguma coisa?
– Não exatamente... é que... aparentemente eu criei um certo medo de entrar na água.
– Talvez pelo afogamento, não?
– Provavelmente.
– Não se preocupa não. Vem, eu te ajudo. É só vir devagar. – Ele lhe estendeu a mão e sem pensar mais, ela passou a segurá-la. Foram andando cada vez mais e mais, e aos poucos a ruiva foi se deixando levar pela confiança.
– Obrigada. – Ambos ainda estavam de mãos dadas e quando percebeu, Luana ficou meio sem graça. Tentou se desprender dele, porém ele não permitiu. Para não ser importuna, ela não fez uma segunda tentativa.
– Quero fazer uma coisa.
– O quê?
– Só vai saber quando permitir.
Ela já tinha noção do ato, como se lesse seus pensamentos. Ele a puxou para mais perto de si, quando ficaram um a frente do outro. Seus rostos estavam a centímetros de distancia, e essa tal distancia diminuía cada vez mais a cada segundo. Foi quando enfim, selaram os lábios. Um beijo calmo e passivo, que aos poucos foi se tornando cálido e intenso. Ele pôs uma das mãos em sua cintura, e com a outra depositada em sua nuca, puxava excitantemente seus longos cabelos ruivos. Já ela repousava ambas as mãos em seu pescoço, gesto esse que o fez arrepiar-se dos pés à cabeça.
Ele, mal sabia o que pensar naquele momento, então achou melhor não pensar em nada. Simplesmente se deixou levar, aproveitar os lábios dela junto aos seus, o calor daquele beijo, e a paixão que se acendia aos poucos. Ela, parecia flutuar, e se não estivesse sentindo todos aqueles toques e aquela explosão de sensações, poderia jurar que era um sonho.
Apenas o pôr do sol testemunhava aquele beijo. O primeiro de muitos, certamente. O mar parecia mais quieto e a maresia mais presente, como se tudo conspirasse a favor dos dois.
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