O primeiro hétero a gente nunca esquece

3 Capítulo Dois: O destino tarda, mas não falha


Vocês já ouviram falar de “Lei da Atração”? Espera. Pausa. Só para avisar, o começo deste capítulo é um ótimo momento para vocês ouvirem “Finding You” da Kesha enquanto leem, vai ser um momento super Tumblr, vão em frente e coloquem para tocar no Spotify... Okay. Colocaram? Continuando. Vocês já ouviram falar de “Lei da Atração”? É uma lei do universo que diz que você atrai para sua vida tudo o que você pensa, fala e foca sua energia sobre. Quanto mais você se importar com algo na sua mente, mais ele vai acontecer do lado de fora. Algumas pessoas apenas consideram coincidência, sorte ou sei lá, bênçãos de Deus. Eu particularmente sempre acreditei nisso de Lei da Atração, mas nunca vi uma manifestação verdadeira dela acontecer em na minha vida... Isso, claro, até agora.

Prazer, meu nome é Lucas, e eu tenho vinte anos.

Eu não diria que passei os últimos anos da minha vida pensando sobre o Lucas, claro que não, ele foi apenas um crush da época de escola, não uma grande paixão; um amor inesquecível, porém, aparentemente, eu o deixei aceso e presente de alguma forma na minha cabeça. Tudo bem, eu admito, eu sempre fazia piadas para a Tisha sobre como tinha saudades da bunda dele depois que a escola acabou; sempre fiz algumas referências á forma como ele dizia meu nome errado na época que a gente estudava (Êriquis, ele me chamava de Êriquis) e, ok, o mais estranho, ás vezes, quando eu estava sofrendo por algum macho ao longo dos anos, eu soltava um: “Ai, saudades do Lucas. Pelo menos ele não me fazia sofrer, e era gostoso para cacete”.

Porém, eu lá ia saber que isso ia atrair ele de volta? Meu Deus, não.

No momento em que aquele Deus Grego disse que se chamava Lucas, eu o olhei de novo, e tudo pareceu diferente. Eu não sei bem como explicar, não sei se existe uma palavra para este sentimento, mas... Foi como ler um livro de mistério e descobrir que o assassino era o personagem principal o tempo todo e você não notou, mas fez todo o sentido no final. Ou foi como entender uma piada que te contaram no natal, enquanto você tomava banho no domingo de Páscoa. Isso foi uma... Realização Latente, isso, vou chamar de Realização Latente. Eu acho que chamam isso de cair à ficha, mas tudo bem, eu crio meus próprios termos.

Não que o Lucas estivesse diferente, irreconhecível, a própria Kylie Jenner antes das cirurgias plásticas, porém, acho que eu idealizei tanto a beleza dele durante a época do colégio que não me toquei que ele ficaria... Mil vezes mais gostoso ao longo dos anos, Ave Maria. Que homem ele se tornou, que homem!

— Eu me mudei aqui para a cidade de São Paulo recentemente, e soube sobre a República dos Dotes e este curso de Iniciação Teatral por meio de uma amiga — Lucas continuou a se apresentar e eu só consegui pensar: Gente, ele já falava certinho assim antes? — Eu tenho estado interessado pela arte de atuar nos últimos dois anos.

Okay... O quê? Eu sei que a gente não era melhores amigos, nem tão íntimos para mim saber sobre o que ele gostava de fazer, mas o Lucas mal conseguia apresentar um trabalho de física ou ler em voz alta quando a professora pedia, e agora ele curte atuar? Isso está sendo tão esquisito.

— Bom, eu acho que é basicamente isso — disse ele e deu uma risadinha que me atingiu até o ânus mesmo naquela distância.

Eu rapidamente me virei para Tisha, com os lábios entreabertos e uma expressão no rosto que dizia: Eunãoseinemoquefalarputaquepariuoquequitáacontecendoaquihojemeujesus.

— Tisha... — sussurrei ainda sem reação para aquela situação tão surreal. Outro aluno aleatório começou a se apresentar para a roda.

Tisha começou a gargalhar da minha cara silenciosamente.

— Tá rindo do quê, minha filha?

— De você — retrucou, praticamente engasgando em meio ás risadas. — Você tá fodido, Erick.

E por um momento, eu só consegui pensar:

Sim, eu estou fodido.

***

— Lucas.

— Hã? — perguntou Tisha.

— Lucas voltou — digo aleatoriamente. — Lucas voltou. Lucas. Lucas voltou.

— Voltou, Lucas — brinca Tisha.

— O Lucas voltou, Tisha. — peguei nos pulsos magrelos dela e a balancei desesperadamente. — Ele voltou. Ai, meu Deus.

Naquele momento, eram cinco e meia da tarde, e eu e Tisha havíamos acabado de descer do ônibus no ponto em frente ao nosso prédio. Após a primeira aula de teatro acabar (o primeiro dia havia sido apenas sobre apresentações, uns exercícios teatrais e alongamentos, e o professor já perguntando se a nossa turma sentia vontade de apresentar uma peça no final daquele semestre. Resposta da turma: sim.), eu tinha puxado Tisha e feito a gente ir embora correndo, tínhamos muito sobre o que conversar porque eu ainda estava impactado com aquela situação, afinal de contas, Lucas estava de volta na minha vida.

Será que é exagerado e petulante demais dizer isto? Quer dizer, ele não voltou para a vida de ninguém na verdade, ele só tá vivendo a vida dele e uma ENORME coincidência o mandou para perto da minha também. E meu Deus, eu nem sei o porquê estou me importando tanto com isto, quer dizer, Lucas voltou, e daí? No final das contas, ele é só mais um garoto hétero por quem eu já me apaixonei. Não, apaixonei não. Gostei. Eu preciso parar de ser dramático, nem é uma situação tão Uau assim. Lucas está de volta e tudo continua perfeitamente normal.

Mas, caramba, ele precisava voltar tão bonito?

— Ai, Erick, ‘seje menas’ — diz Tisha, enquanto nós caminhamos pela esquina até a porta do prédio. — Não é nada demais, no final das contas.

Começo a observar a grande praia em frente á avenida. Sim, nosso apartamento é de frente para a praia, mas relaxem, não é “A Praia”, isso nos custaria bem mais. Na verdade, a aparência é tão pequena e pobrinha que nem de praia eu gosto de chamar, ás vezes só me refiro como “Uma grande caixa de areia com um mar alojado”. O lugar vive vazio também, no momento, por exemplo, só há os quiosques de sorvete e pastel de sempre e alguns banhistas que aparentemente não trabalham nas tardes de quarta-feira.

Eu dou uma longa respirada funda.

— É. Você tem razão. Eu exagerei mesmo. Eu não ligo se o Lucas está de volta e fazendo a mesma aula que a gente. Eu já superei minha quedinha por ele há anos. Ele não é nada demais.

Tisha abre um daqueles grandes sorrisos que ela sempre dá, mostrando os lábios carnudos e brilhantes de gloss.

— Ótimo — diz ela.

— Ei, pessoal! — alguém grita por trás da gente, e eu reconheço aquela voz no mesmo exato minuto. Deus só pode estar de brincadeira com a minha cara. — Tisha! Êriquis!

Meu coração acelera os batimentos cardíacos, tipo, dez bilhões de vezes.

— Ai meu Deus, é o Lucas! — eu dou um sussurro desesperado para Tisha e começo a passar a mão no meu cabelo freneticamente. — Rápido! Como eu estou?!

Tisha revira os olhos e olha para trás junto comigo. Acertei em cheio. Lucas está correndo na nossa direção na mesma calçada.

— Ufa! Ainda bem que vocês me ouviram — arfa ele, ao finalmente chegar onde nós estamos. O garoto consegue ser lindo até suado depois de correr. — Eu não consegui falar com vocês depois que a aula acabou, ‘cês’ sumiram em dois segundos.

— É, o Erick... — começa Tisha.

— A Tisha queria que a gente passasse na farmácia e comprasse absorvente depois da aula, era uma emergência — interrompo, antes que Tisha diga algo que me exponha. — Ela tá naqueles dias. Sabe como é, né?

— Quê?! — Tisha me fuzila com o olhar, e já sei que ela está bravíssima.

— Ei, que saudades, dá cá um abraço! — digo eu, pulando em cima de Lucas com os braços abertos, por dois motivos: Acabar com aquele momento esquisito e trocar de assunto antes que Tisha me assassine, e também aproveitar e abraçar o Lucas. Eu sei que ele é hétero e nada vai rolar, mas, eu não era bobo na época da escola, e não vou ser agora, tenho que aproveitar da maneira que eu conseguia aproveitar também durante o segundo ano.

No segundo ano do ensino médio, eu usava qualquer e todo tipo de desculpa para ficar próximo do Lucas ou do corpo dele: Passava perto demais da mesa dele sempre que ia jogar algum lixo no cesto; Sentava na carteira ao lado da dele quando queria enxergar melhor a lousa (o que nem fazia sentido, já que a carteira dele era no fundo da sala, mas tudo bem); Praticava esportes na aula de educação física só para jogar o mais próximo dele o possível; Nos abraços em grupo da sala, eu dava um jeito de abraçar ele por mais tempo que o normal; Enfim, tudo que eu queria era um esbarrinho, uma esfregadinha, uma leve roçada naquele lindão. Sempre irei me lembrar de quando estava com as meninas na sala, brincando daquele joguinho ‘Stop!’ no caderno e Lucas sentou-se ao meu lado na mesma cadeira e começou a me ajudar falando nomes e palavras. Mesmo que apenas nossos braços tivessem se encostado, e que tivesse sido trapaça ele me falar nomes, aquele tinha sido um dos melhores dias.

— Êriquis? — chamou Lucas, me trazendo de volta a realidade. Eu ainda estava abraçando ele. Meu Deus, quanto tempo tinha se passado?

Me afastei.

— Jesus — disse Tisha com a voz baixinha para mim, e então, também deu um abraço em Lucas. — Que saudades, seu bobão!

“Seu bobão” era como Tisha costumava chamar Lucas na época do colégio. Eles até que eram bons amigos, o que sempre me deu uma pontinha de ciúme, admito.

— Eu não sabia que vocês também estavam morando por aqui, quase morri do coração quando reconheci você e o Êriquis na aula, Ti — diz ele, e eu noto só agora que ele ainda está pronunciando meu nome de forma errada. O que não me irrita de forma alguma, eu sempre considerei isso muito fofo. Burro, mas fofo. — Confesso que só percebi que eram vocês lá pro meio da aula, estava até começando a estranhar o Êriquis me encarando.

Eu nunca fui do tipo de pessoa que cora, porém tenho certeza de que fiquei vermelho sangue quando Lucas disse aquilo. Eu não notei que ele havia notado que eu estava notando ele. Espera, ele disse “também”?

— E-eu... — começo a gaguejar.

— Bom, o que você está fazendo por aqui? — Tisha atropela minha fala quando nota que eu estou nervoso.

Lucas sorri com sua arcada dentária perfeitamente branca no tom certo de branco. Ah, como eu queria beijar a boca dele.

— Eu estou morando aqui, me mudei ontem á noite.

Tisha olha para mim com um olhar que diz: É, com toda certeza, você está fodido.

— O quê? Nessa rua? — ela pergunta, já que eu estou muito sem reação para participar da conversa. Ainda sinto o cheiro do abraço do Lucas em mim. Ele tem cheiro de melancia, eu adoro melancia. Espera, como assim “morando aqui”?

— Aham. Vocês também moram nessa rua aqui? — Lucas aponta para o nosso prédio, onde estamos parados a poucos metros de distância. — Meu apê é nesse prédio gigante aí, no número 102B.

Não. Não pode ser.

— Mentira! — exclama Tisha, colocando os dedos sobre os lábios que sorriem. — Você tá zoando, né?

Só pode ser zoeira, só pode ser zoeira, meu Deus.

— Não, por quê? — pergunta Lucas de forma inocente.

— Porque esse é o nosso prédio — respondo eu com a voz trêmula. — E a gente mora no número 101B.

— Cara, vocês estavam mesmo falando sério! — diz Lucas quando saímos do elevador e entramos no corredor do nosso prédio. Bom, nosso e agora dele também, aparentemente. — Vocês são realmente meus vizinhos, que coincidência legal!

Eu que o diga — sussurro de maneira distraída.

— O quê? — indaga Lucas. Droga, esse menino ouve tudo que eu digo.

— Eu falei que este andar é ótimo para se morar. — minto, fazendo Tisha rir disfarçadamente.

Enquanto nós entrávamos no lobby do prédio, apertávamos o botão, esperávamos o elevador e depois subíamos, Lucas começou a contar tudo que ele tinha feito e havia acontecido na vida dele nos últimos anos desde a escola: Após o fim da escola, ele tinha tirado um ano sabático (que no caso dele, pode ser traduzido apenas como ano preguiçoso) para pensar sobre o futuro dele, viajar, ler, assistir, ouvir e conhecer novas culturas, e de acordo com Lucas, foi possível fazer tudo isto direto do quarto dele usando internet, revistas em quadrinhos e muita maconha. Mas ele gostou da experiência, porque no fim daquele ano, o conhecimento popular dele estava expandido em anos-luz: Antes do ano sabático, apenas um garoto hétero que ouvia funk, fumava narguilé e jogava sinuca com um monte moleques por aí. Depois do ano sabático, um ser humano cheio de diversidade cultural e espiritual, aberto sexualmente e mentalmente, inteligente e experiente, com gosto avançado para todo tipo de entretenimento e opiniões políticas fortes.

Pelo menos, foi à versão que eu entendi de tudo que ele disse.

Enfim, assim que fez dezenove anos, Lucas conseguiu um emprego como recepcionista de alguma empresa farmacêutica, e que nem Tisha e eu fizemos, ele juntou dinheiro do seu salário durante um ano inteiro, planejando se mudar para a cidade de São Paulo e morar sozinho também quando fizesse vinte. Decidiu que quando se mudasse, ele iria começar a estudar artes cênicas (algo que aparentemente vinha deixando ele muito interessado desde os dezoito anos) e fazer alguns cursos livres para conhecer mais sobre o universo. Então, uma amiga dele falou sobre a República dos Dotes e Lucas decidiu procurar por um apartamento barato que não fosse tão longe do local, parando aqui.

É chocante o tanto de coincidências que a vida criou até este momento, eu não quero me iludir, mas isso parece tão... Destinado.

— Bom... bem-vindo, vizinho! — exclamo eu, assim que chegamos á porta do meu apê com Tisha, que, ironicamente, é em frente á porta do apê de Lucas.

Eu consigo vagamente me lembrar do começo deste ano, quando a antiga moradora do 102B se mudou; o nome dela era Sheila, ela tinha uns quarenta anos, seis gatos que moravam sozinhos com ela naquele apartamento e era a nossa vizinha desde que nos mudamos para cá, mesmo que apenas nos cumprimentássemos ou pedíssemos uma xícara de açúcar de vez em quando. De acordo com Bóris, o cara da recepção, Sheila mudou-se pois tinha arrumado um maridão rico e ido morar em um bairro nobre no interior do estado, deixando todos os seis gatos em um abrigo de animais ali perto. Depois que Bóris terminou de contar esta história a mim e Tisha, eu me lembro de ter dito: “Nossa, quem será que vai ser nosso novo vizinho, então?” E ali estava ele, o nosso novo vizinho, Lucas. A vida é muito esquisita e sarcástica.

— Valeu, vizinho — Lucas sorri e talvez eu me derreta todo por dentro (e com certeza solto um sorriso bobo por fora). — Ah, eu não podia estar mais feliz de reencontrar vocês! Pensei que ia ter que viver sozinho e solitário aqui, me tremi todo na base, galera.

“Me tremi todo na base” Que raios de expressão heterossexual é essa, meu Deus?

— A gente também tá muito feliz de reencontrar você, não é, Erick? — indaga Tisha em um tom debochado.

— Muito — respondo, começando a sentir que se não acabar logo com aquela conversa vou explodir de alguma maneira não humanamente possível. — Enfim, eu ainda tenho que trabalhar hoje, então, acho que já vou entrando.

— Pode pá, moleque — diz Lucas, e eu já quero morrer, pois o encanto de reencontrar ele já está passando e eu estou começando a perceber que ele continua o mesmo hétero de sempre, com suas expressões hétero de sempre e seu jeito hétero de sempre e só de pensar nisso já fico exausto, afinal, ele será meu vizinho e estará no mesmo curso que eu estou toda semana e terei que aguentar toda a heterossexualidade dele sendo desperdiçada nesse corpo lindo, assim como na época da escola.

— Também já vou entrar, Luquinhas, tchauzinho. — Tisha se despede de Lucas com um beijo no rosto e começa a abrir a porta do nosso apartamento, quase quebrando a chave com seu jeito impaciente. Eu já reviro os olhos, pois sei que Lucas vai bater na palma da minha mão fazendo aquele toque que héteros fazem com todos os homens do planeta para se despedir. Outra coisa que sempre invejei em meninas foi o fator de elas poderem cumprimentar todos os homens lindos e héteros com beijos no rosto. Eu por outro lado, provavelmente levaria dez murros se ousasse chegar com meus lábios perto de qualquer cara que não fosse gay também.

— Falou, Ti. E, falou, Êriquis. — diz Lucas, e então, me dá um beijinho na bochecha direita.

...

...

...

O quê?

— Hein?! — eu grasno, em um impulso aleatório de susto, surpresa e satisfação.

— Que foi? — pergunta Lucas, também já abrindo a porta do apartamento dele.

— N-nada... — gaguejo, ainda sem reação. — Falou, Lucas...

Em passos lentos e estáticos, eu entro no apartamento enquanto Tisha me espera com a porta aberta.

— Erick? — chama ela. — Erick, você tá bem?

Me sento no sofá em formato de L e fico encarando o vácuo.

— Você acha que eu posso ter esquizofrenia e estar vendo coisas que não estão realmente acontecendo que nem aquela menina do filme ‘Cisne Negro’? — pergunto, me relembrando do quão bom é esse filme. — Aquela cena que ela acha que está transando com a mulher, mas na verdade, não está, sabe?

— A Mila Kunis tá muito gostosa nessa filme. — É tudo que Tisha me responde e então, caminha até nossa cozinha, um cubículo cor de creme onde cabe apenas uma pequena mesa, uma pequena geladeira, um pequeno armário e um pequeno balcão.

— Ti... Eu juro que não quero me iludir mais com meninos héteros.

— Então não se iluda.

— Mas ele beijou minha bochecha! — Pulo do sofá e começo a andar em círculos ao redor da sala, uma mania que eu tenho desde criança. — Porra, você tem ideia do quanto isso era um sonho para mim só no ensino médio? Só um leve beijinho na bochecha dado pelo Lucas já me faria dormir nas nuvens durante o segundo ano.

Ti retira uma garrafa de vinho da geladeira e se vira para mim. Todo mês no trabalho dela acontecem essas festas da empresa onde sobram mil garrafas de vinho e champanhe, Tisha sempre as rouba e traz para casa.

— Erick, ele provavelmente sabe que você é gay, agora, então, apenas está tentando te tratar como trataria uma menina. Héteros fazem isto. — diz ela, retirando a rolha da garrafa com um abridor de lata. — Um beijo no rosto não significa nada além de um cumprimento.

Uma sensação de irritabilidade gigantesca cobre meu peito porque eu sei que Tisha tem razão. E eu odeio isso. Odeio quando eu procuro o mais mínimo sinal para acreditar que talvez um menino hétero esteja me querendo e Tisha vem com sua racionalidade e destrói minhas ilusões.

— Ai que inferno — digo, me jogando de volta no sofá com os braços cruzados. — Por que raios ele tinha que voltar para a minha vida do nada? Poucas horas desde o retorno e eu já estou aqui, me sentindo todo apaixonadinho como se fossem quatro anos atrás.

— Você é tão dramático — Tisha revira os olhos enquanto bebe vinho de uma taça de plástico amarelo. — Vai trabalhar.

Outra coisa em que ela tinha razão, meu turno começava em meia hora. No momento, eu estava trabalhando como assistente de uma editora de livros que era nova na cidade, e quando eu digo assistente, é literalmente assistente. Eu sou o cara que faz o café, serve o café, leva o café, lava a xícara do café e compra o café quando o café acaba. Além de levar e imprimir mil papeladas para lá e para cá, mas tudo bem, até que o salário é bem acessível para um assistente.

— Queria estar morta. — falo, e começo a caminhar para o meu quarto.

Quando entro no banho, percebo que Lucas ainda não saiu da minha mente. Nem ele, nem o lindo corpo dele, nem o lindo rosto dele, nem o lindo bumbum dele, nem o beijinho no rosto que ele me deu. Sinto que preciso me controlar para não pensar nele demais e ficar animado demais durante o banho, porque comigo é sempre assim, um pensamento impróprio e uma coisa leva a outra. Santo Deus, eu passei o segundo ano inteiro me masturbando compulsivamente com uma explosão de hormônios e imaginações sobre o Lucas, e não, não sinto vergonha de dizer isto, afinal, que adolescente gay não se masturba compulsivamente no auge de seus dezesseis anos? Só Deus pode me julgar.

Mas caramba, isso é apenas tão idiota. Como é possível que alguém fique fora da sua vida por quatro anos (alguém que nem foi tão relevante assim na sua vida para ser sincero), e consiga em poucas horas de retorno, foder com o seu cérebro todinho? Eu devo sofrer de algum distúrbio mental, não tenho explicações melhores para essa loucura. Ah, ótimo. Agora estou considerando ter problemas mentais também, estão vendo o que esse garoto faz comigo?

Lucas voltou. Lucas voltou. Lucas voltou, minha cabeça continua repetindo isso em loop, e ao mesmo tempo que sinto um misto de ansiedade e empolgação, sinto um pouco de tristeza e melancolia porque não sei o quão bem vou lidar com isto. Eu estou muito acostumado a me apegar e desapegar de héteros, mas com o Lucas... Algo me diz que com ele não vai ser tão fácil assim.

Notas finais
aaaaaaa eu nunca realmente sei o que falar aqui, mas espero que tenham gostado do capítulo e estejam curtindo a história, e eu acabo enrolando mas vou responder todos os reviews viu gente, enfim, é isto. beijin e até o próximo capítulo.