O primeiro hétero a gente nunca esquece
4 Capítulo Três: A melhor série de livros adolescentes

Eu sempre acreditei em almas gêmeas. Sempre, sempre, sempre. E, Okay, eu até tenho ideia de que provavelmente não existem almas gêmeas e de que todo esse papo é apenas uma romantização idealizada que filmes, livros, séries, música e toda a cultura popular vêm construindo em nossos cérebros desde o começo dos tempos, nos fazendo acreditar que somos seres humanos incompletos, vazios e precisamos da metade uma laranja para sermos felizes e viver uma vida plena, eu tenho noção disso, tudo bem? Mas ainda sim, acredito que existem almas gêmeas. Acredito que há em algum lugar do mundo, um dia, uma pessoa que vai compartilhar comigo uma conexão transcendental, uma pessoa que vai me entender e eu vou entender mentalmente, emocionalmente e espiritualmente como ninguém jamais entendeu. E claro, alguém que vai compartilhar muitos dos mesmos gostos que eu, justamente por isto.
Particularmente, eu, Erick, acredito que minha alma gêmea vai entender todos os meus transtornos mentais e ansiosos que batem de vez em quando, pois também já vai ter lidado com eles, e assim nós iremos poder acalmar um ao outro; minha alma gêmea também vai ser um romântico incurável como eu sou, e é justamente este fator que vai fazer com que nosso relacionamento seja ainda mais incrível e lindo; com toda certeza, minha alma gêmea vai passar noites e madrugadas acordado conversando comigo sobre o universo, sobre a vida, sobre Deus existir ou não, sobre meditação, Buda, a Beyoncé e todos estes assuntos espirituais, e nós iremos concordar na maior parte dos assuntos, mas também, aprender e evoluir um com o outro.
E claro, minha alma gêmea vai ser um fã de Pretty Little Liars e também achar que é a melhor série de livros adolescente já feita, ao contrário do que a sociedade cega por Harry Potter diz. Eu mal posso esperar para conhecer minha alma gêmea.
O primeiro grito ouvido dentro daquele apartamento na manhã de quinta-feira é meu:
— Tisha! Você esqueceu de comprar o pão hoje?!
São dez horas da manhã e estou na nossa pequena cozinha, usando meu shortinho amarelo e regata do pijama do Bob Sponja, segurando uma faca de mesa em uma mão e o pote gelado de manteiga recém-retirada da geladeira na outra, encarando a retangular mesa de metal sem nenhuma sacola ou pacote com pãezinhos frescos. Que decepção logo cedo.
— Eu comprei ontem, meu anjo! — Ti grita de volta do quarto (usando a palavra anjo em um tom debochado, é claro). — Inclusive, eu já estou levantando, então é melhor você correr e ir buscar os malditos pães!
Reviro os olhos me lembrando de que, realmente, Tisha tinha comprado os pães ontem. Maldita hora em que eu criei aquela regra de que eu ia buscar os pães em um dia, e ela no outro seguinte, e então, eu no seguinte, e ela no outro depois desse.
A minha preguiça de vestir algo e descer até a padaria da esquina estava enorme, então, decidi por voto unânime comigo mesmo, ir de pijama, afinal, não estava frio, ninguém devia estar na rua ainda e minhas coxas eram lindas (obrigado, seis meses de academia que fiz durante a época do colégio pois minha maior preocupação era ser sexualmente atrativo).
Após comprar os pãezinhos frescos e cheirosos da padaria do senhor Manuel, — um italiano que reforçou muitos estereótipos ao se chamar Manuel e trabalhar vendendo pão aqui no Brasil — caminhei um pouco pela calçada da avenida e observei a paisagem. O céu estava de um azul artificial, a luz do sol estava brilhando num nível irritante porém também apaixonante e o barulho do vento e as ondas do mar estavam relaxantes como em um videoclipe (aquelas cenas de introdução que sempre mostram o mar e as ondas batendo calmamente antes da música começar a tocar e o artista fazer danças aleatórias sobre a areia, sabe?)
O dia estava conceitualmente lindo, tipo, num nível que se eu tivesse um Iphone 6 para tirar uma foto do sol, ela ganharia muitos likes no Instagram e seria usada em postes melancólicos do Tumblr sobre a vida. Uma pena que eu não tenho um Iphone 6.
Hoje era feriado na cidade, o que significava que a maioria dos moradores daquela região do bairro estava dormindo ainda, então, fiquei surpreso ao ver que tinha um indivíduo já pela manhã sentado em um dos banquinhos de mármore da praia, na mão o que parecia ser um livro. E uau, que indivíduo, o cara parecia um gatão com aquelas pernas cruzadas e coxas grossas a mostra em um short que não cobria muita coisa. Os braços musculosos na regata me lembravam até o... Ah, não. Apertei bem os olhos para ver melhor as feições e o corpo dele.
O indivíduo era o Lucas.
Eu não sei quantas vezes mais isso vai acontecer, mas espero parar de me surpreender e me confundir sempre que encontrar esse moleque por aí.
— Que menino culto — eu digo ao me aproximar do banquinho onde Lucas está sentado na praia. Aimeudeuseletempernastãolindas.
Lucas dá um pulinho assustado, ele estava bastante concentrado no livro de capa salmão.
— Êriquis — suspira com a mão no peito. — Que susto. Não tinha visto você aí.
— Foi mal.
Lucas aponta para o meu pijama e sorri.
— Gostei do look. Você tem coxas bonitas.
Só tenho a agradecer meus pais pelo DNA que me deu essa pele bronzeada e cor de chocolate, porque se eu fosse branco, estaria vermelho da cor de um pimentão neste segundo. Porra, o pijama de Bob Sponja, eu tinha me esquecido do dito cujo antes de decidir vir até aqui falar com o Lucas. Espera, ele disse que minhas coxas são bonitas?
— Tá lendo o quê? — pergunto procurando trocar o assunto, e me sento ao lado dele no retângulo de mármore frio. Um pouco de areia entra nos meus chinelos, e eu percebo que cometi o erro de me sentar ao lado do Lucas. Não devia ter feito isto, eu sempre começo a tremer na presença dele.
— Ah, um livro de uma série ai. Num sei se você conhece, não. — Lucas responde e levanta no ar o livro, me mostrando uma capa laranja com uma boneca de brinquedo e grandes letras cursivas roxas no centro.
— Quê?! — grasno. — Você tá lendo Pretty Little Liars?
— Você conhece?! — exclama Lucas de volta, em uma empolgação que eu nunca imaginaria ver um garoto como o Lucas ter ao falar sobre PLL.
— M-mas é claro que eu conheço! E-eu tô surpreso que VOCÊ conhece.
— É claro que eu conheço. É só a melhor...
—...série de livros adolescente dos últimos tempos. — concluo a frase e Lucas balança a cabeça concordando de forma empolgada.
— Eu acho mais legal até que Harry Potter, para ser sincero. Com todas aquelas bruxarias e vassouras, argh. Eu nunca fui muito um fã de fantasia, sabe? Prefiro PLL que é algo que realmente dá para acreditar que pode acontecer, afinal, tá cheio de maluco stalker por aí no mundo e... Êriquis? Êriquis, você tá bem?
Eu deveria ter congelado no tempo quando Lucas perguntou isso, porque meus olhos estavam arregalados encarando o livro nas mãos dele a mais de um minuto. Eu nem sei com o que eu estava mais chocado naquele segundo:
A) Lucas lia livros agora.
B) Lucas lia Pretty Little Liars.
C) Lucas concordava que Pretty Little Liars era a melhor série de livros adolescente dos últimos tempos, inclusive melhor que Harry Potter.
D) Lucas sabia pronunciar a palavra “stalker”, mesmo que ainda não soubesse pronunciar meu nome.
Apenas me sinto em uma grande pegadinha de câmera escondida do Sílvio Santos neste momento. Nãovoumeapaixonarnãovoumeapaixonarnãovoumeapaixonar.
— Caralho, eu estou muito assustado — sussurro.
— O que você tem aí? — indaga Lucas, apontando para a sacolinha de papel quente nas minhas mãos.
— Pão.
Ele abre um sorriso malicioso e diz:
— Nossa, Êriquis, você acredita que eu ainda não tomei café da manhã?
***
— Espera, você tá realmente me dizendo que é a terceira vez que você lê PLL? A série inteira? — falo em tom duvidoso. — Ah, você é só um pequeno mentirosinho!
— É verdade, cara — Lucas ri, enquanto serve café fresco da garrafa em uma xícara escrita “GAY OK” (Eu comprei aquilo no ano passado em uma feira LGBT). — Eu amo essas garotas, amo como a Ali é doidinha de pedra.
Agora, estamos de volta á cozinha do meu apê, e Lucas e eu estamos sentados á mesa tomando café juntos. Por sorte, eu comprei seis pãeszinhos nesta manhã, entretanto, eu não sabia que o preguiçoso estava esperando na praia que Tisha ou eu acordássemos para que ele pudesse aparecer de surpresa e tomar café conosco. De acordo com Lucas, ele não sabia onde ficava a padaria ainda. Sim, certo. (E não, não vou nem comentar a emoção de afirmar que estou tomando café da manhã com Lucas e de que ele está usando um short curto de praia e camiseta regata, e de que, aparentemente, ele também foi á academia por um tempinho nos últimos anos)
— Okay, isto é apenas inconcebível, eu mesmo só li a série duas vezes, e ainda estou terminando a segunda vez, na verdade.
— Qual é o seu livro favorito da série? — quis saber Lucas, arrancando um pedaço de pão com os dentes de uma forma que eu me senti estúpido por achar sensual. Ai, tudo que ele faz é sensual.
— Eu nunca parei para pensar nisso, porque sei lá, todos são muito bons. Mas, acho que é exatamente esse aí que você tá lendo, “Arrasadoras”. Eu amo a introdução do livro, os flashbacks em cada capítulo e o final é muito bom quando elas descobrem que são dois A’s! — eu disse e soltei um gritinho agudo logo em seguida, o que fez com que Lucas soltasse uma risada.
— Eu também. O capítulo da Aria confrontando o Noel é o que eu mais estou ansioso para ler novamente.
— O meu segundo favorito depois desse acho que é... — paro no meio da frase quando vejo Lucas mergulhando apenas a pontinha do pão na xícara de café. — O que você tá fazendo?
— Hã? Ah, isso? Eu gosto de molhar o começo do pão no café ás vezes, dá um gostinho especial, Êriquis.
Observo provavelmente fazendo uma expressão enjoada, porque é como eu me sinto no momento.
— Isso parece meio nojento, Lucas.
— O quê? Claro que não! — exclama Lucas, e então, pega o pão que está no meu pratinho azulzinho e mergulha na minha xícara de café azulzinha sem minha permissão. — Pronto. Agora prova.
— Você acabou de arruinar um momento muito importante da minha manhã, que é o momento de tomar café, sabia?
— Prova logo. — retruca ele, e com muito cuidado e receio, eu mordo o começo do pão que está molhado e escuro de café.
Enquanto mastigo com nojo, eu começo a notar que o sabor na verdade é... Bem gostoso.
— Isso... Até que isso é bom.
— Num disse? — Lucas arqueia a sobrancelha e faz uma pose amostrada com aquele lindo sorriso de comercial de paste de dente. — Você tem que aprender com o papai aqui, Êriquis, aposto que está comendo todas as suas refeições erradas desde que nasceu.
— O.k. — respondo, tentando não achar muito sexy que o Lucas chamou a si mesmo de “papai”. Ah, isso é apenas ridículo, eu pareço um adolescente achando tudo que ele fala ou faz sensual. — Mas, então, PLL...
E nós voltamos a conversar sobre a série de livros.
Lucas me contou que ele só começou a ler os livros depois de assistir a série de TV, que não, não é tão boa quanto os livros — não chega nem perto —, mas é legalzinha de se assistir. Nós conversamos sobre nossos personagens e vilões favoritos, enquanto eu disse que amava a Mona, Lucas falou que adorava a cega Jenna e ambos fomos unanimes ao elogiar a Ali. Ele também me disse que seu casal favorito dos livros eram Aria e Noel, entretanto, na série, ele gostava mesmo era da Hanna e do Caleb, exatamente como eu. Nós elogiamos a escrita da autora Sara Shepard, e Lucas me recomendou alguns outros livros dela, o que apenas me deixou em choque: Lucas estava me RECOMENDANDO livros, meu Deus, como o mundo gira.
E depois do que eu acho que foram uns trinta minutos apenas falando sobre Pretty Little Liars, Tisha finalmente se levantou da cama e nos interrompeu:
— Deus, são onze horas da manhã e vocês já estão falando dessa série maldita — falou ela ao entrar na cozinha usando um shortinho rosa de seda e um cropped preto, enquanto eu explicava para Lucas como eu faria para matar meu irmão gêmeo se eu fosse a Ali.
Coloquei a mão em formato de concha sobre a minha boca e sussurrei para o Lucas:
— Ela é fã de Harry Potter, não se misture, Lucas.
— Ei, eu ouvi isso, ok? — Tisha me deu um leve tapinha na nuca da minha cabeça, e se sentou ao nosso lado na mesa. — Lucas, seu bobão, mal se mudou para cá e já tá vindo filar o café da manhã da gente?
— Ele disse que não sabia onde era a padaria. — digo, fazendo aspas com os dedos e dando ênfase em padaria.
— Minha bunda.
— Meu lugar tá uma bagunça ainda, Ti — diz Lucas. — Me dá um desconto porque ontem á noite eu jantei na minha banheira.
— Sério? — pergunto com as sobrancelhas franzidas.
— Não, eu não tenho uma banheira, né.
Tisha começa a passar uma quantidade mínima de manteiga em seu pão, o que eu acho trágico, não consigo comer pão francês a menos que ele esteja transbordando com manteiga. Sim, nada saudável, mas gostoso.
— Ainda bem, eu já estava preocupada que nós tivéssemos feito um negócio ruim ao escolher esse apartamento que só tem um chuveiro ruim.
Lucas dá risada da piada de Ti. A risada dele é daquelas risadas esganiçadas. Tão fofo.
— Mas, falando sério, se qualquer hora vocês quiserem passar lá para me dar uma mãozinha e arrumar tudo... — diz ele, se levantando da mesa e colocando suas incríveis coxas e pernas no meu campo de visão novamente. — Bom, vou indo nessa. Obrigado pelo café, Êriquis — antes que eu possa responder “por nada”, Lucas me dá um beijinho na bochecha esquerda. De novo. De. Novo.
E claro, meu corpo começa a tremer.
— Não vai ficar aqui para filar o almoço também, não, meu anjo? — brinca Tisha, enquanto Lucas se despede com um beijinho no rosto dela também e eu apenas acaricio minha bochecha disfarçadamente com um sorriso bobo no rosto.
— Ei, Ti, já te disseram que você parece a SZA? — indaga Lucas, enquanto começa a caminhar pela sala. Sigo atrás dele até a porta do apartamento.
— Você ouve a SZA?! Meu Deus, Lucas, você tá muito mudado desde a última vez que eu te vi! — exclama Tisha, enquanto eu ainda estou congelado demais mentalmente para reagir aquilo.
SZA era uma cantora que Tisha e eu éramos grandes fãs, e que, na minha opinião, você precisa ter um gosto requisitado para poder apreciar a música ou conhecer ela, então, Lucas... É, não sei, não sei como isso pode ter acontecido. Alguém matou o Lucas e está se passando por ele.
— Eu sou um Pokémon em constante evolução. Tchauzinho, pessoal. — Lucas dá um sorriso lindo, abre a porta do apartamento e saí.
— Tchau, Lucas... — sussurro eu, provavelmente ainda com o sorriso bobo no rosto enquanto fecho a porta atrás dele e deslizo de costas sobre ela; minha mão acariciando a bochecha beijada por ele.
— Alguém está apaixonado. — diz SZA, quer dizer, Tisha, após um momento.
— Eu acho que estou amando. — respondo.
— Bom, vai ser divertido ver você apaixonado por um hétero outra vez. Já fazem o quê desde o último? Quatro dias?
— Rárárá, engraçadinha.
Me levanto pois ficar sentado de costas para a porta dói e volto a me sentar na mesa, onde Tisha me encara depressivamente enquanto morde os pãezinhos franceses do senhor Manuel.
— Meu Deus, Erick, larga esse sorriso bobo — Tisha arranca um pedaço de miolo do pão e joga sobre o meu rosto. — Ele é hétero!
— Você não sabe disso, Okay? É muito cedo para afirmações.
— Nós conhecemos o Lucas — ela retruca e eu começo a me sentir desconfortável pois sei que Tisha vai me dizer algumas verdades e provavelmente ficarei triste. Ou, não. Quer saber? Tisha nem sempre tem como estar certa, ela não tem como saber quem é ou não é hétero.
— Não o novo Lucas, quer dizer, ele está diferente, Tisha — argumento, me servindo de mais uma xícara de café. Café desperta minha ansiedade, mas é um vício terrível que não consigo largar.
Tisha aperta os olhos e me encara como se estivéssemos em um interrogatório policial.
— Diferente como?
— Ora, fazendo teatro, dando beijinhos no rosto, lendo Pretty Little Liars... Até mesmo ouvindo SZA, é óbvio que ele voltou super gay!
Na minha cabeça aquilo parecia fazer mais sentido e ser mais sólido do que no momento em que pronunciei em voz alta.
— Ah, não, vão começar os estereótipos. Erick, você entende que ler Pretty Little Liars não tem nada a ver com ser gay, né? Você conhece o conceito de homossexualidade, não conhece?
— Eu só estou dizendo que normalmente héteros como o Lucas costumava ser, não teriam esses gostos da cultura popular, e isto é suspeito, apenas.
Tisha revira os olhos.
— Jesus, eu gostaria de entender como você consegue se iludir e mentir para si mesmo tão facilmente após todas as vezes que você gostou de um menino hétero e quebrou a cara. Eu vou realmente precisar falar sobre o Arthur?
— Não tem porque falar sobre o Arthur — respondo secamente, me levanto e começo a guardar o pote de manteiga na geladeira e colocar as xícaras de café no meio da louça suja do jantar de ontem á noite: Macarrão. E apenas macarrão, nem eu e nem Tisha sabemos cozinhar muitas coisas.
Eu não queria falar sobre o Arthur, e nem ia falar sobre o Arthur, mas para não deixar ninguém confuso: Arthur tinha sido a minha última paixão hétero, que acabou de forma trágica e mais para á frente explicarei com detalhes. Ou, não.
— É claro que tem! — exclamou Tisha de uma maneira que ela exclama poucas vezes, uma maneira que eu chamaria de “tentando provar seu ponto”, que é algo que Tisha nunca precisa fazer, pois ela sempre tem certeza do ponto dela. — O que aconteceu com ele te deixou o mais triste que eu já vi você ficar, e ainda sim, aqui está você, pronto para ir atrás de mais um.
— É, é diferente, Okay? Quer dizer, olha para o Lucas agora. É possível.
Sei que estou me enrolando para falar e não estou argumentando, mas Tisha me deixou nervoso e agora me sinto estúpido e idiota e triste, e tudo que quero fazer é atravessar o corredor e abraçar o Lucas.
Tisha se levanta e coloca a xícara dela — uma xícara preta escrita I LOVE PUSSY em letras rosa (ela havia comprado pelo Aliexpress, ou, em uma sexshop lésbica, não tenho certeza). — na pia também, e então, pega no meu braço e me encara nos olhos.
— Erick... Por favor, a última coisa que eu quero é ver você magoado.
— Eu não vou ficar magoado, eu prometo — digo, balançando a cabeça incertamente tentando passar segurança e paz de espírito, o que provavelmente não foi passado. — Inclusive, assim que eu provar que o Lucas é gay, eu vou estar o oposto de magoado.
— O quê? Provar?! — Tisha grita como se eu não tivesse no mesmo cômodo que ela, a poucos centímetros de distância. — Você tá doido? Pelo amor de Deus, não saía se atirando em cima dele.
— Relaxa. E para de gritar, esqueceu que ele é nosso vizinho?
— Não é legal forçar ninguém a sair do armário ou ficar incomodando, se o Lucas fosse realmente gay, ele já teria deixado claro uma hora dessas.
— Bom, isso ele já fez, indiretamente — sorrio de forma debochada. — Você viu o tamanho daqueles shorts?
— Erick... — Tisha sussurra em um tom de repreensão, algo que minha mãe fazia quando eu era pequeno e tinha uma ideia perigosa que podia botar fogo na casa. Odeio quando ela age como minha mãe
— Relaxa, Ti. — eu falo, pois não sei como argumentar e me dirijo para o meu quarto. — Apenas observe porque as próximas semanas prometem ser muito interessantes.
E naquele momento eu só consigo pensar que as próximas semanas vão ser verdadeiramente interessantes, mesmo que uma sensação ansiosa e de medo esteja pairando sobre meu peito (não deveria ter tomado café) após ter conversado com a Tisha, que inclusive tenho certeza de ter ouvido falar as seguintes palavras em espanhol (ela fez um curso básico quando tinha onze anos) enquanto eu adentrava o quarto:
— Ay dios mío.
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