O preço de uma dívida
19 Confissões e casamento
Notas iniciais
Delegacia de Starling (Domingo, 5/9 – 6:02 a.m)
Tommy
Abro os olhos mas logo os fecho sentindo-me incomodado. Não pela claridade posto que praticamente não existia. O que incomodava-me a dor de cabeça e as lembranças da noite passada.
—Maldição!! Que besteira fui fazer?? – xingo-me, esfregando o rosto com as mãos.
—Fazia-me a mesmíssima pergunta– a voz extremamente familiar de Monsenhor Robinson chega-me aos ouvidos e sento-me de um salto sobre o colchão – Como sente-se meu jovem? – quer saber, encarando-me, a postura ereta e firme indicando-me que estava encrencado. Deveras encrencado.
— Bem – limito-me responder.
—Uhum... Faz ideia de aonde encontra-se e o porquê? – interroga, e emudeço por alguns segundos – Estou aguardando meu jovem – pressiona ante meu silencio.
—Na cadeia – respondo, tentando evitar o assunto “ Burrada Homérica que pode custar-me a vida ou apenas a liberdade, se der sorte ”, e por conseguinte, Caitlin. Não que arrependia-me do que fiz , isto não. Mesmo que de forma errônea, impedi que fosse dada em casamento a outro.
—Por sua demora em responder-me, suponho que lembra-se bem do motivo pelo qual encontra-se neste lugar, estou certo? – Monsenhor questiona-me, não dando-me tempo responder – Deixe-me adivinhar: agora que a carraspana* passou, arrependeu-se e pretende voltar atrás no que disse ante todos na ....
—Não!! – apresso-me interrompe-lo – Não, Monsenhor, não arrependo-me – sustento – Sei que fui imprudente em fazê-lo em meio a estranhos...que deveria ter-me controlado e procurado o senhor Snow particularmente ou mesmo confessado a meu pai o que passou-se entre mim e a senhorita Caitlin...mas vi-me pressionado a agir antes que a perdesse para sempre. Amo-a Monsenhor, com todo meu coração – confesso – Não posso perdê-la... não sei o que faria caso fosse dada em casamento a outro – admito.
—A julgar por sua atitude intempestiva seria capaz de rouba-la mesmo correndo o risco de tomar um tiro em meio ao cornos!! – exclama e rio levemente, porém o suficiente para deixa-lo bravo – Isto não é engraçado meu rapaz! É da honra de uma jovem que estamos falando aqui – frisa, fazendo-me abaixar a vista — E da confiança em você depositada pelo pai da mesma. Como pôde trai-la desta maneira? – pergunta.
—Por amor – reafirmo, erguendo meu olhar– Assumirei a responsabilidade por meus atos. Quero casar-me com Cait – declaro, seguro.
—Acaso passou-se, por um ínfimo segundo que seja, nesta sua cabeça dura, que ao invés de obriga-lo casar-se, Dominique Snow poderia exigir ao delegado pô-lo a ferros? Que o prende-se por tempo indeterminado? Ou ainda decidir lavar a honra da filha com sangue? – enumera, deixando-me tenso – Parou para pensar em sua família, na reação de vossa mãe em ver o filho que tanto ama ser morto? Pensou na jovem que diz amar, em como sentir-se-ia sabendo que morrera pelas mãos do pai por causa do que fizera a ela? – questiona-me, tamborilando os dedos uns contra os outros – Por certo que não ou ter-se-ia controlado e buscado aconselhamento em outro local que não no bar, em várias jarras de cerveja, se fui corretamente informado. Precisou buscar na bebida a coragem que faltou-lhe para falar com o pai da moça? – atira-me na cara.
—Busquei refugio para afogar as mágoas, não coragem – corrijo-o – Havia declarado ao senhor Snow, tão logo chegamos, meu desejo em corteja-la mas fui preterido por conta do ódio existente entre nossas famílias. Ódio este que sequer sei o motivo e do qual sou tão vitima quanto ela! Não quero eximir-me de culpa, mas se tivesse-me sido dada permissão nada disto teria acontecido – declaro, revoltado.
—Thomas, não é algo corriqueiro ou mesmo que seja levado em consideração normalmente, mas sempre pareceu-me um rapaz diferente, disposto a não impor-se a nenhuma jovem se esta não o quisesse – diz e mesmo antes que formulasse a pergunta, sabia o que iria questionar-me – Acaso passou-lhe pela cabeça que a senhorita Caitlin possa não sentir o mesmo por você? Que possa ter-se deixado seduzir pelo momento, pela situação anormal e até certo ponto romântica pela qual passavam? – levanta a hipótese que por vezes havia-me incomodado – Ela não passava de uma menina, inexperiente e romântica como todas de sua idade normalmente o são e você, meu jovem, tirou proveito da situação em favor próprio! Tem mais idade. É experiente. Acha mesmo que a senhorita iria resistir-lhe? – interroga-me.
—Eu não... não agi de caso pensado, Monsenhor – defendo-me, sentindo o peso e o amargor de suas palavras – Cait não é mais uma conquista para mim. Quero-a como esposa e sei que que sente o mesmo. Sei que me ama tanto quanto a amo – afirmo — O sentimento que nos une nasceu antes de ficarmos isolados. Surgiu aqui, no dia a dia, passo a passo – conto, a confiança crescendo em meu íntimo – Iria arriscar-me fazer o pedido ao senhor Snow antes de tudo acontecer, mesmo sabendo que o negaria. Pretendia sim lutar por ela, por menor que fossem minhas chances – asseguro – Fraquejei, admito, mas por amá-la– prossigo, sustentando seu olhar – Não aproveitei-me da situação para a seduzi. Apenas cedi ao que sentimos um pelo outro e deixei-me guiar, em parte, pelo medo de não sobrevivermos...de não ter chance de viver este amor. Agi errado, bem sei, mas não de má fé. E agora que tudo veio a tona, meu desejo é fazê-la feliz – asseguro, vendo um sorriso formar-se lentamente em seu rosto, até então carrancudo.
—Dou-me por satisfeito. E os senhores? – declara, voltando-se para o lado de fora da cela.
Sigo seu olhar, surpreendendo-me ao deparar-me com meu pai, o senhor Snow e o delegado a olhar-nos.
—Também estou – Snow declara, respirando profundamente – Solte-o delegado, para que possa buscar minha filha, casarem-se o quanto antes e evitar mais falatórios, se é que isto ainda seja possível levando-se em conta o local aonde encontra-se – completa, a olhar alguém fora de meu campo de visão.
—Garanto-lhe que vossa filha está mais segura, neste momento, em minha casa do que com vossa esposa meu caro – a voz aveludada de Mama Smoak faz-se ouvir, a mesma surgindo por detrás do delegado – Nunca havia visto tamanha frieza em uma mãe para com a filha em toda minha vida – afirma, sacudindo seu leque – Já acolhi jovens por terem sido desonradas por parentes e estarem sendo ameaçadas, por terem sido enganadas entre outros motivos e jamais presenciei tamanho desprezo como o demonstrado por vossa esposa noite passada quando a largou em minha porta, sob....
—Como? Caitlin está em sua casa Mama Smoak?? – interrompo-a, pondo-me de pé rapidamente.
—Sim, sob minha proteção – confirma.
—Por que? Tenho que ir até ela agora mesmo!! – declaro, fazendo menção sair, deparando-me com a cela trancada – Delegado..
—Acalme-se Thomas, irei soltá-lo dentro em pouco – avisa, exibindo as chaves.
—Quanto a sua pergunto meu bem, acho que sabe a resposta – Mama diz, abanando-se – Homessa, o tempo preparando-se para chover e ainda assim este abafado dos infernos!! – resmunga – Perdoe-me Monsenhor – pede ao escuta-lo limpar a garganta.
—Por que a senhora Snow a levaria para sua casa Mama? Por causa do que eu disse? – interrogo, aflito.
—Não apenas por isto meu querido, mas por conta do que houve enquanto estavam perdidos – explica, sorrindo complacente – Como você mesmo disse a pouco, existe um ódio não explicado entre vossas famílias e saber que a filha deitou-se justamente com o filho de seu.... desafeto, foi demais para a senhora Snow, suponho eu – comenta, voltando-se para o senhor Snow.
—Deixemos isto de lado – desconversa o pai de Caitlin – Há assuntos mais importantes no momento – declara, encarando-me – Meu rapaz, tem minha benção para casar-se com minha filha. Abençoo os dois. Diga-lhe isto quando a buscar – pede, fazendo menção sair.
—Não o acompanhara senhor Snow?? – questiona Mama ao mesmo tempo em que o delegado finalmente libera-me.
—Não – confirma – Por mais que doa-me, não posso demonstrar publicamente como sinto-me em relação a este romance sob pena de destruir o que resta de meu casamento – justifica-se, triste – Amo minha esposa e nossa outra filha. Preciso resguardar-me. Basta que saibam, você e Caitlin, que não os condeno e estou feliz por não fugir a sua responsabilidade meu rapaz. Peço-lhe que a faça feliz – declara, estendendo-me a mão, que aceito, apertando-a forte
—Farei senhor – prometo, um breve silencio se fazendo antes de ele despedir-se de todos e sair, cabisbaixo.
—Eis um homem verdadeiramente infeliz!! – Mama exclama, seguindo-o com o olhar – Quando entenderão que amar alguém de verdade não é algo doentio ou que cause sofrimento? – questiona, amarga.
—Muito bem, acho que todos concordamos quando Snow diz haverem assuntos importantes a serem resolvidos – o delegado lembra, limpando a garganta, quebrando o breve silencio após o comentário dela – Então sugiro que vá até a casa de Donna, se permite-me chama-la assim – indaga, garboso, Mama sorrindo-lhe afável – Entender-se com a jovem senhorita em questão a fim de que possam casar-se o quanto antes, concordam? – sugere, olhando de meu pai para mim e Monsenhor.
—Certamente – meu pai adianta-se – Monsenhor, acompanha-nos nesta visita? – inquire.
—Decerto que irei – responde, pegando seu chapéu sob a mesa – E melhor que o façamos agora, antes de a cidade acordar e os comentários e maledicências fortalecerem-se. Já que caímos de nossas camas com está finalidade, não o façamos em vão – pontua, fazendo aspas no ar – Venha meu rapaz. Busquemos vossa noiva – convida e não penso duas vezes em fazê-lo, tomando a dianteira, meu pai, Mama Smoak e Monsenhor seguindo-me.
Pelo caminho, peço intimamente para que Cait não esteja muito zangada comigo.
*** Casa de Donna Smoak (6:17 a.m) ***
Cait
Algo que não sei identificar desperta-me e sento no colchão, olhando em volta, confusa.
Corro os olhos pelo ambiente, não o reconhecendo. Era claramente um quarto de mulher...mas qual mulher?? De minha mãe decerto que não!!
—Aonde estou? – questiono-me baixinho, o mesmo som que acordara-me ecoando novamente, deixando-me alerta – São risos que ouço?? – indago-me, atenta, outros sons parecendo unir-se ao primeiro. Algo mais grave e gutural, parecido com....- Gemidos??? – estranho, a percepção de Onde encontrava-me atingindo-me como um soco no estomago.
Lembranças da noite passada assolam-me com a força de um vendável. O jantar em casa de meus pais... O asqueroso senhor Wilson a rodear-me... Stephen Crumble e seu pai ...Liv ao piano....
—Thomas!! – sopro, liberando o ar que sequer notara haver retido em meus pulmões.
Relembro sua chegada tempestuosa, seu relato e tudo que causara. Por fim, lembro a atitude de minha mãe, o choro vindo-me sem que pudesse controlar.
Chocada, olha a volta outra vez, querendo certificar-me estar enganada, um baque surdo seguido de um grito e gargalhadas altas sobressaltando-me.
Pulo para fora da imensa cama de casal e num impulso dirijo-me a porta do quarto, abrindo-a e saindo, estancando em meio ao corredor, chegando a triste confirmação de não estar enganada: encontrava-me na casa de tolerância da cidade. A casa da mãe de minha amiga Felicity. Mama Smoak, como era conhecida pelos rapazes da cidade, incluindo Thomas.
“...Vim trazer-lhe mercadoria nova!!...Faça bom proveito!”... as palavras ditas por minha mãe ecoam em minha mente atordoando-me, fazendo-me buscar apoio na parede. Somente quando sinto o hálito em meu pescoço e mãos grosseiras envolvendo-me a cintura, dou-me conta de não estar mais sozinha.
—Ora, ora, que temos aqui?? Carne nova e ninguém avisa-me?? – a voz grave questiona ao mesmo tempo em que sinto um nariz pressionado contra minha nuca – E que cheiro bom!!! – exclama, apertando-me mais.
—Largue-me!! – peço, recuperando-me do choque inicial, tentando, em vão, livrar-me das mãos que apertavam-me como garras – Largue-me, por favor! – imploro, chorosa, sentindo-me ser erguida do chão.
—Pode espernear o quanto quiser doçura. Adoro uma boa luta antes....
—Solte-a agora mesmo!! – uma voz feminina porém imperiosa, ordena e ergo a vista deparando-me com uma figura alta usando trajes mínimos – Mandei solta-la – reforça, vindo até mim, segurando-me pelo pulso, arrancando-me dos braços que prendiam-me – Está pequena não é para seu bico ou de qualquer outro aqui!! – ressalta e dou-me conta de haverem surgido mais pessoas no corredor – Andem, voltem para seus divertimentos enquanto podem. O dia não tarda raiar e logo terão de ir-se – ordena ela, sendo quase que imediatamente obedecida – Quanto ao senhor, melhor que concerte o que quebrou ou Madame o fara pagar o prejuízo – avisa.
—Homessa mulher, quem raios pensa que é para dar-me ordens?? Não passa de uma rameira....
—Que ira fazê-lo perder algo do qual orgulha-se caso insista em xinga-la – ameaça ela, não se deixando intimidar – E considere-se com sorte ser eu e não Madame Smoak ou já teria sido atirado a rua do jeito que está – afirma – Damaris, leve seu cliente de volta ao quarto e trate de o manter por lá – manda, uma moça aparentando ser pouco mais velha que eu usando trajes semelhantes aos seus obedecendo-a, conduzindo o homem que agarrara-me, de volta ao quarto, fechando a porta atrás de si – Venha senhorita, vou leva-la de volta ao quarto de Madame. Não deveria ter saído, ainda mais vestida assim – admoesta de maneira suave, enquanto caminhamos.
—Eu... não tinha percebido...não recordo-me de haver-me despido – assumo, olhando meu reflexo no espelho da cômoda tão logo adentramos o aposento, corando violentamente.
—Mama e eu a despimos para pô-la mais confortável – informa-me, parecendo mais descontraída – Chamo-me Valquíria, a propósito – apresenta-se, andando de um lado para o outro, carregando, entre outras coisas, meu vestido sujo – Porei água para que banhe-se e trarei um dos vestidos de Alameda, acho que usam o mesmo manequim – avalia-me – Decerto que sim! – exclama, animada, indo até uma banheira no canto do aposento, despejando o conteúdo de um balde próximo sem dificuldade, aparentemente – Aqui tem sabonete e toalha limpa. Não tema fazer uso, são novos. Pertencem a Mama – diz-me, olhando a volta como a buscar algo, encontrando – Isto ajudara a esfregar suas costas – estende-me uma espécie de escova feita com bucha vegetal – Deseja que a ajude despir-se? – pergunta, encarando-me.
Por um segundo encaro-a de volta, confusa, sem saber se a obedecia e banhava-me, se interrogava-a a respeito do que passara-se fora do quarto ou buscava por informações sobre a senhora Smoak. Opto por todas as opções.
—Posso despir-me sozinha, obrigada – agradeço – Onde está a senhora Smoak? Quem é aquele homem que agarrou-me? Saberia dar-me notícia de minha mãe? – disparo enquanto caminho até a banheira, estancando.
Apesar de não ser-me estranho ficar despida diante de outra mulher (o fazia sempre que Adissa ia ajudar-me no banho), não a conhecia portanto senti-me envergonhada.
—Importa-se em virar-se um segundo? – peço, sem graça.
—Oh, sim, sim claro – responde, atendendo-me rapidamente – Respondendo seus questionamentos, o...hã...cavalheiro em questão é um caixeiro viajante que ...hospeda-se aqui quando de passagem pela cidade e agarrou-a por estar...animado em demasia – explica – Quanto a vossa mãe, sinto mas não sei nada a respeito – segue, ainda de costas para mim – Mama Smoak foi ter com o delgado posto que este mandou chama-la cedinho – conclui.
—Pode voltar-se – libero-a tão logo entro na banheira, ela pondo-se de frente para mim.
—Lhe trarei roupas limpas, senhorita. Não se preocupe em ficar sozinha, ninguém, que não seja da casa entra aqui. Nem mesmo clientes – avisa, saindo sem esperar resposta.
Ao ver-me sozinha, as lembranças tomam-me a mente, uma mistura de sentimentos invadindo-me.
Se estava feliz por não haver terminado a noite comprometida? Evidente que sim. Se estava brava com Thomas pela forma como “resolveu” as coisas....?
—Estou. Deveras brava! – admito, ensaboando-me vigorosamente – Por que não procurou meu pai em particular? Por que tinha de aparecer em nossa casa bêbado? – questiono baixinho, suspirando, atendo-me ao ambiente a minha volta, reparando no quão surpreendentemente comum era.
Não fossem as cores um pouco exageradas (mas não muito), a decoração e a enorme cama de casal ornada por um tipo de cortinado que dava-lhe um ar exótico e ao mesmo tempo romântico, passaria por um quarto qualquer. Pego-me a imaginar o que acontecia naquele local depois que a noite caia, meu rosto e corpo esquentando a ponto de sentir calor mesmo estando dentro d’água.
—Já tem problemas por demais para ficar enchendo sua cabeça de caraminholas Caitlin – admoesto-me, retirando a espuma, dando meu banho por encerrado.
Após certificar-me não haver ninguém por perto, ergo-me, enrolando a toalha felpuda a meu corpo, saindo cuidadosamente da banheira.
Como a senhorita Valquíria não regressara, tomo a liberdade de pegar um roupão que descansava no encosto da cadeira defronte a penteadeira, sentando-me no banco acolchoado da mesma após vesti-lo.
Admiro-me com a grande quantidade de perfumes e produtos de beleza, surpreendendo-me mais uma vez ao provar um deles, a fragrância levemente doce lembrando-me um perfume que costumo usar e sinto o peito oprimir ao pensar em tudo que ficara para trás em meu quarto: meus livros, bibelôs, perfumes, distraindo-me a ponto de não notar a presença de mais alguém no cômodo.
—Então Damaris não mentiu-me. A princesinha de Starling encontra-se de fato sob o mesmo teto que nós! Quem diria – ironiza uma jovem ruiva, olhando-me de alto a baixo, como a avaliar-me – Custo acreditar que Thomas tenha-me preterido pela ...senhorita – desdenha sem nenhuma cerimônia, deslizando os dedos por seu colo sem deixar de olhar-me.
—Perdão?? – peço, sustentando seu olhar, incomodada.
—Disse não acreditar que fui preterida por alguém tão... sem graça – repete sentando-se sobre o colchão, cruzando as pernas bem feitas, exibindo-as – O que fez para deixa-lo tão encantado? Sexo certamente que não posto que era virgem ...Isto!! – estala os dedos de repente, rindo-se de maneira exagerada – Era virgem! – repete, balançando a cabeça negativamente – Homens! São todos iguais. Uns fingidos – afirma – Adoram a sensação de deflorar uma mulher, de ser o primeiro em suas vidas. Por que ele seria diferente?? – declara, mexendo nos cabelos curtos – Mas quando a sensação passar, quando deixar de ser novidade, voltara para meus braços. Irá deixa-la de lado e voltara...
—Perdoe-me, mas por que está a dizer-me estas coisas? Acaso fiz-lhe algum mal? – interrompo-a recebendo um olhar irônico mas antes que responda-me, a senhorita Valquíria retorna.
—Eis as roupas limpas. Perdoe-me a demora mas,... Camy, que faz aqui? – questiona, estancando.
—Desde quando devo-lhe satisfações? E que saiba temos livre acesso ao quarto de Mama – a ruiva declara, encarando-a.
—Livre acesso desde que Ela autorize – corrige-a Valquíria – Agora saia. A senhorita necessita vestir-se – ordena.
—Perdão: acaso devo-lhe obediência? E agora é serva dessa ai?? – indica-me com um gesto de mãos.
—Camille, não comece. Saia antes que a tire a força. Sabe que o farei se preciso for – ameaça, e ao ouvir o nome da garota, entendo sua agressividade para comigo.
—Camille? – repito, ambas encarando-me – Seu nome é Camille? Então você é... era com você que Thomas costumava-se deitar! – exclamo, olhando-a.
—Costumava e voltara muito em breve Chérie e sabe porquê? Porque eu sei como agradá-lo. Sei do que ele gosta na cama – vangloria-se, erguendo o queixo – Já você, Ma Cher, não passou de uma novidade da qual certamente já enjoou!! – desdenha.
—Basta Camy! Saia antes que a expulse – a senhorita Valquíria impacienta-se.
—Já disse, Não lhe devo obediência Val!! – devolve a ruiva, olhando-a desafiadora.
—Mas a mim sim – ouço e volto-me em direção a porta – Saia agora de meus aposentos Camille – ordena e desta vez a ruiva nada diz ante o olhar severo que recebe. Apenas levanta-se e sai, murcha.
—Desculpa Mama. Fui pegar roupas limpas para a senhorita e quando voltei Camy havia entrado – justifica-se a senhorita Valquíria.
—Fique tranquila Val, sei bem como Camy é – tranquiliza-a a senhora Smoak– Aqui, dê-me as roupas. Cuidarei da senhorita. Pode ir tomar seu desjejum com as demais – libera-a, ela saindo sem contestar – Como está meu bem? Mais calma? – pergunta, indo até a cama, pondo as roupas sobre a mesma,
—Sim – respondo – Senhora Smoak, acaso... dar-me-ia notícias de Thomas? A senhorita Valquíria disse-me que o delegado mandou-lhe chamar logo cedo – lembro, encarando-a ansiosa – Era sobre ele? E meus pais? Dar-me-ia noticias deles também? — peço, ela tomando respiração, sentando-se sobre o colchão antes de falar.
—Venha aqui meu bem – convida, tocando o espaço vazio a seu lado e obedeço-a – Estive na delegacia até a pouco. Fui convidada por vosso pai para dar-lhe notícias suas – conta e sinto meu coração alegrar-se um breve segundo– Também estavam presentes Monsenhor Robinson, o senhor Merlyn, o delegado Lance, obvio....e Thomas, que passou a noite na cadeia – informa, cuidadosa – Conversaram a vosso respeito, sobre o que seria correto fazer, qual a melhor decisão a tomar – enumera, sua hesitação fazendo-me entender o que passava-se.
—Meus pais não virão buscar-me não é? – inquiro, não lhe dando oportunidade responder – Thomas...ele...a senhorita Camille estava certa não é? Ele esqueceu-me não foi? Não quer-me mais não é isso? – concluo, abaixando a cabeça, esforçando-me para conter o choro.
—Acha mesmo que Thomas iria arriscar-se ser morto por vosso pai como arriscou-se se não a quisesse? – devolve, fazendo-me erguer o rosto – Ouvi a pouco, na delegacia, a mais linda declaração de amor feita por um homem a uma mulher até hoje – conta e retenho o ar – Ele não apenas a ama como irá desposa-la, com a benção de vosso pai e não, eles não virão busca-la. Vossa mãe endureceu o coração e vosso pai teme destruí o casamento caso a contrarie – explica e sinto as lágrimas escorrerem mansamente – Não chore criança! Sei o quanto dói, acredite – consola-me, fazendo-me recostar a cabeça em seu ombro, deixando-me chorar alguns minutos – Deixe-me perguntar-lhe uma coisa: Agora, neste momento, após ele ter tomado a atitude que tomou, que sente em relação a Thomas? Não estou questionando seus sentimentos, entenda-me. Sei que o ama ou não haveriam deitado – indaga fazendo-me corar – Quero saber se está com raiva por a ter exposto ante sua família e estranhos e principalmente, por ter feito vossa mãe trazê-la para cá- quer saber.
—Eu...- pondero um segundo, analisando meus sentimentos – Estou brava sim porque queria que tivesse agido de outra forma. Queria que tivesse procurado meu pai em particular, que não tivesse bebido...- enumero, sentindo as lágrimas aflorarem outra vez – Por que pergunta?
—Porque ele está em minha sala neste exato momento, acompanhado do pai e de Monsenhor Robinson, agoniado, a espera para falar-lhe – comunica, fazendo meu coração disparar – Os homens decidiram, como sempre, que deveriam casarem-se o mais rapidamente possível, mas enquanto caminhávamos os convenci a pelo menos ouvi-la. Não que não concorde em casarem-se. Concordo sim – apressa-se dizer – Porém o fazer sob estas circunstancias já é por si só uma violência, em minha opinião, quiçá nutrindo sentimentos tão fortes e difusos quanto suponho esteja em vosso coraçãozinho neste momento. Por isto quis saber como sente-se em relação a ele. Já sofreu tantas violências nas ultimas horas que ser forçada dizer sim diante de Deus com o coração ferido não seria justo consigo meu bem – diz e emociono-me – Não, não, sem lágrimas!! Faria o mesmo por minha Felicity – garante, enxugando meu rosto – Agora, diga-me: deseja vê-lo? – pergunta, olhando em meus olhos.
—Sim – respondo num sussurro – Mas não a sós – condiciono – Não estou certa de como reagirei ao vê-lo – admito, sem graça.
—Entendo – anui, sorrindo complacente – Vou ajuda-la a vestir-se e em seguida irei ter com eles – avisa, pondo-se de pé, pegando as roupas – Não é tão luxuoso quanto os que está acostumada, mas servirá – compara, ajudando-me vestir as peças intimas e logo a seguir o vestido – Serviu direitinho – comemora ao terminarmos, olhando-me com admiração – Não é de admirar Thomas ter-se apaixonado. É realmente linda senhorita – elogia, fazendo-me corar forte – Bem, normalmente a faria descer para terem esta conversa no salão mas conheço os ouvidos curiosos que me cercam! – exclama, rindo – Aqui terão total privacidade – assegura, olhando em volta, recolhendo uma ou outra peça que encontrava-se espalhada, arrumando os lençóis, fechando gavetas e portas de armários – Prontinho. Agora posso permitir um de Deus entrar aqui – declara, piscando e rio – Vou chama-los – avisa, segurando minhas mãos fortemente entre as suas, transmitindo-me força antes de sair.
A ver-me sozinha novamente, a ansiedade toma-me a ponto de minhas pernas fraquejarem, obrigando-me sentar sobre a cama, apertando as mãos, nervosa, em antecipação ao reencontro com Thomas. Seria a primeira vez que nos veríamos após havermos regressado e mesmo ciente de que não estaríamos a sós, meu coração insiste em bater descompassado.
*** Narrador (7:43 a.m) ***
—Senhora Lanik, onde estão as meninas? – Donna Smoak questiona enquanto desce a escadaria, chamando atenção ao três homens na sala, que erguem-se para recebe-la.
—Na cozinha, conforme ordenou madame – responde a mulher, parada junto a porta lateral.
—Mantenha-as lá até que diga poderem sair e avise que se alguém questionar ou rebelar-se irá ver-se comigo! – alerta, a mais velha rindo divertida, acenando afirmativamente antes de adentrar a cozinha – Já pode subir para vê-la Thomas – avisa, parando junto aos três – E antes que pergunte Monsenhor, meu quarto é o lugar mais tranquilo e reservado em toda casa. Ninguém irá interrompe-los – garante, o religioso rindo discretamente.
—Não seria melhor eu acompanha-lo? – Malcom pondera, preocupado.
—Meu caro Merlyn, como servo do Senhor e responsável por estas ovelhas, é meu dever cuidar de cada uma mesmo que para isto precise adentrar locais pouco recomendados para mim, sem querer desmerecer vossa casa muito menos ofende-la senhora Smoak – diz-lhe, fazendo uma mesura mínima.
—Se todas as ofensas que ouço fossem como esta, dar-me-ia por satisfeita Monsenhor – Donna retruca, sorrindo-lhe afável – Agora melhor subirem antes que Thomas tenha uma sincope! – brinca ao notar a agitação do rapaz.
—Estou percebendo – o religioso anui, dirigindo um olhar severo ao mesmo – Qual quarto madame? – pergunta.
—Ultimo do corredor – indica – Senhor Merlyn, acompanha-me em um drink enquanto esperamos? – convida, enlaçando seu braço ao do empresário – Aproveite para contar-me como estão aquelas duas lindas princesas que ajudei trazer ao mundo – pede com olhos brilhantes, conduzindo-o ao bar.
Contendo a ansiedade, Thomas acompanha o passo lento do religioso a seu lado. Estava receoso em como Caitlin iria recebe-lo após o estrago em casa de seu pai. Temia que o estivesse odiando e mesmo ao saber que ela o receberia, seu coração agitava-se. Além disto, aquele seria o primeiro encontro entre eles depois do resgate posto que passara a evita-lo. A lembrança o faz recordar as palavras de Monsenhor mais cedo, trazendo duvidas a sua mente, a leve batida tirando-o do devaneio.
—Senhorita, podemos entrar? – pergunta o religioso, olhando-o atentamente, a resposta parecendo-lhe durar uma eternidade.
—Sim – ouvem, Monsenhor tomando a frente, girando a maçaneta, abrindo a porta lentamente e na medida em que o fazia, as batidas dos corações dos dois jovens aumentavam em uníssono, tornando-se quase audíveis.
—Que espera Thomas? – questiona Monsenhor, já dentro do cômodo, arqueando a sobrancelha ao notar lhe a inércia.
Tomando forte respiração, Tommy adentra o quarto, abrindo e fechando a boca diversas vezes ao deparar-se com Caitlin, de pé, junto a cama, encantando.
—Olá – diz, finalmente, quebrando o silencio que se instalara, encarando-a.
—Olá – responde Cait, sustentando seu olhar, novo silencio caindo sobre eles, obrigando o religioso intervir.
—Acredito terem mais a dizer um ao outro que um simples Oi – observa, olhando-os alternadamente – Thomas – instiga-o começar a falar.
—Caitlin eu...eu ...- Tommy gagueja, sentindo-se desesperar ao ver as lágrimas aflorarem nos olhos dela – Cait...
—Por que Thomas? – corta-o, enxugando o rosto com o dorso da mão, sentando-se – Por que fez isto a mim? A nós? – interroga, abrindo os braços – Por que não foi em busca de meu pai para contar-lhe, em particular, o que houve entre nós? Precisou embebedar-se e invadir minha casa? Por que?? – questiona-o, chorosa.
—Por medo Cait – responde ele, pondo-se de joelhos a sua frente, tomando-lhe as mãos entre as suas – Vosso pai havia-me dito que não permitir-me-ia corteja-la, que deveria conformar-me e buscar outra para amar, que devia esquece-la, deu-me entender que a senhorita já o havia feito ...e tomei por verdade posto que evitava-me e quando soube do jantar e dos pretendentes desesperei-me – admite -Tentei, dou-lhe minha palavra, agir racionalmente, mas o maldito Chase instigou-me todo o dia...
—Estava a agir daquela maneira para protege-lo!! – Cait o interrompe – Mamãe ameaçou fazer meu pai prende-lo ou coisa pior. Ordenou-me afastar-me e tive de obedecer para proteger-te! Contei o que se passava na carta que Adissa entregou-te pela manhã – revela, enxugando o rosto outra vez, enrugando o cenho ante a expressão de Tommy – Adissa entregou-te a carta, não? – quer saber.
—Sim...mas não a li — confessa o rapaz, retirando o envelope amarrotado de seu bolso – Chase não deu-me folga e à noite....bem... eu...- titubeia o rapaz, abaixando o olhar.
—Já não importa mais, agora que todos sabem do acontecido – declara Cait tristemente, silenciando.
—Está certa criança. O importante agora é corrigir o erro cometido – Monsenhor fala, quebrando o silencio uma vez mais – Lhes darei uma benção para que possam viver sob o mesmo teto – avisa, preparando-se.
—Aqui? Agora? – Caitlin questiona, surpresa.
—Seu futuro sogro os espera lá embaixo para leva-la. Já cometeram erros em demasia e como vosso orientador espiritual não posso permitir mais este – diz, preparando-se.
—Mais este Monsenhor?? – Tommy pergunta, confuso.
—Coabitarem sem as bênçãos de Deus meu filho – explica-se, dirigindo um olhar carinhoso a Caitlin – Sei que não é o que sonhava para si filha, mas, como disse, não posso permiti-lhes mais este pecado — consola-a, sinalizando para erguerem-se– Ponham-se lado a lado, por favor – pede, o jovem casal obedecendo-o – Deem-se as mãos – orienta sendo prontamente obedecido – Gostaria de fazê-lo na igreja, mas como a situação não permite...- lamenta, concentrando-se.
—Algum dia conseguira perdoar-me por destruir seus sonhos, Caitlin? – Thomas pergunta de repente, tomando coragem e voltando o rosto para ela, que lhe sorri timidamente.
—Não destruiu, creia-me – assegura ela, suspirando profundamente – Meus sonhos seriam destruídos se fosse obrigada a casar-me com....
—Mas está sim, sendo obrigada casar-se, Cait – Tommy corta-a, soltando-lhe a mão, passando as suas pelo cabelo, agoniado.
—Sei disso, mas o estou com o homem que amo e que ama-me também – declara com brilho no olhar – Homem este que protegeu-me quando necessitei; Que fez o que foi preciso para não perder-me mesmo sabendo que pôr-se-ia em perigo causando a fúria de meu pai ao confessar nosso envolvimento – relembra, afagando o rosto dele no local arroxeado pelos socos desferidos por Snow e Wilson.
—Que a expos ante todos fazendo vossa mãe a trazer para...E se vosso pai não liberasse-me? Se atendesse vossa mãe e deixasse-me a ferros? Que seria de você??- questiona mais para si mesmo do que a ela, cerrando os punhos e fechando os olhos, angustiado.
—Thomas... – Cait começa mas ele não a deixa prosseguir.
—Quero confessar-me Monsenhor – pede repentinamente, voltando-se para o religioso, que os observava.
—Agora? – indaga, surpreso.
—Sim. Agora – confirma – Diante de Deus e de Caitlin – acresce, encarando-a uma vez mais – Espero que possa perdoar-me novamente e entender as razões pelas quais fiz o que fiz – declara, contendo o protesto ensaiado pela jovem ao erguer a mão – Deixe-me falar tudo que tenho a dizer e se após ouvir ainda me amar e quiser ser minha esposa, gastarei todos os dias de minha vida compensando-a por todo sofrimento que a fiz passar – prossegue, ambos, Monsenhor e Caitlin, ficando confusos – Tudo começou quando, meses atrás, escutei, acidentalmente, uma conversa entre Chase e Wilson em seu escritório na qual ele, Wilson, declarava ter intenção de desposa-la – conta – Já amava-a na época e senti ciúmes pois sabia que vossos pais consentiriam. Tencionava alerta-la mas por uma infelicidade aconteceu de no mesmo dia ser-me impingida severa punição por causar prejuízo a Chase e depois veio o noivado de vossa irmã e a fatídica viagem a Central City – relembra, tomando folego e coragem para seguir – Durante o tempo em que estivemos perdidos a respeitei, mesmo amando-a cada dia mais, a respeitei, sabe disso.
—Jovem Merlyn, aonde quer chegar? – Monsenhor cobra, desconfiado.
—Jamais faria algo que pudesse trazer-lhe sofrimento Caitlin. Jamais – enfatiza, respirando profundamente outra vez – Não fui totalmente honesto quando afirmei que havíamos nos deitado – afirma, voltando-se para o religioso – Nem quando disse não haver tirado proveito pois o fiz. Mas apenas da confusão que causei ao invadir o jantar.
—Thomas...
—O que fez meu rapaz? – Monsenhor interrompe Caitlin, encarando Thomas, sério.
—O que julguei preciso para impedir Caitlin ser dada a outro – admite – Nós...Eu e Cait nos deitamos durante os dias em que estivemos longe... mas não da maneira como fiz todos, inclusive ela, acreditarem – confessa, encarando a jovem – Perdoe-me – pede, não dando chance a ela contestar – Precisávamos nos aquecer a noite e por isto dormíamos abraçados. Foi assim nos primeiros dias. Em todos mantive-me firme. Respeitei-a cada segundo – garante, mantendo os olhos fixos nos de Cait – Apenas após o beijo...o primeiro... senti-me fraquejar – cala-se um segundo – Aquela noite...ao deitarmos juntos a fim de aquecermo-nos, beijamo-nos novamente e deixei-me, por alguns minutos, dominar-me pelo desejo – nova pausa curta – Atrevi-me tocá-la um pouco mais ...a beija-la mais intensamente...a cobri seu corpo com o meu... Mas não a possui. Não a fiz minha como afirmei perante todos – confessa, por fim – Ainda é pura Cait. Não te desonrei – assegura, olhando-a nos olhos.
— Como assim? – pergunta, confusa – E quanto a dor que senti quando estava sobre mim? E quanto ao sangue em minhas vestes? Thomas, senti suas mãos em meu corpo! Senti seu toque em minhas pernas! Não imaginei essas coisas! – exclama, aflita ao vê-lo balançar a cabeça negativamente.
—A toquei, não nego, mas por sobre suas vestes intimas, nada além – garante – Quanto a dor e ao sangue...só posso supor ter sido o chão irregular ou algum pedregulho que não percebemos no calor do momento a machucá-la. Lembro de meu joelho estar dolorido na manhã seguinte. Só pode ser isto – conclui.
—Não pode ser. Não posso ter-me enganado desta forma!! – aflige-se ela, levando as mãos a boca – Não posso ter mentido a meus pais!!
—Não culpe-se. Eu a induzi faze-lo – acusa-se — Como Monsenhor bem disse-me mais cedo, sou experiente ao passo que você...
—Como pôde fazer isto comigo? – corta-o, olhando-o indignada – Mentiu para mim. Enganou-me e fez-me enganar meus pais! – exclama, desferindo socos contra o peito dele – Como foi capaz de fazer isto a mim? É assim que diz amar-me, enganando-me em proveito próprio?? – acusa, socando-o mais algumas vezes antes de sentar-se sobre a cama, chorando – Minha mãe estava certa: foi a nossa casa por estar com seu orgulho ferido, não por amar-me!! – volta acusar, evitando a ele segurar-lhe as mãos.
—Não, por favor Cait não diga isto. Amo-a mais que tudo, acredite! – implora, ajoelhando-se novamente– Estava desesperado... sabia que iria perde-la para sempre...Agi mal, eu sei...perdoe-me uma vez mais, por favor!!
—Eu...- Cait começa dizer, calando-se, balançando a cabeça negativamente, um longo silencio envolvendo-os, Monsenhor sendo o primeiro a quebra-lo mais uma vez.
—Thomas, percebe a gravidade de seus atos? – questiona-o o religioso – Difamou uma jovem perante a sociedade, mentiu perante a família da mesma, mentiu para seu pai, para o delegado, para mim – enumera, aumentando gradativamente o tom de voz – Está sujeito as mesmas punições de quando adentrou a residência dos Snow...Que diabos tem na cabeça meu jovem?? – exaspera-se, erguendo as mãos para o céu tão logo as palavras saem de sua boca – Perdão Senhor, mas esta ovelha conseguiu tirar-me do sério!!
—Eu...Perdão Cait. Perdão – é tudo que Thomas consegue dizer, sentando-se no chão de cabeça baixa, silencioso.
—Céus Thomas, que farei com você?? – questiona o religioso, soltando um longo suspiro – Precisamos concertar esta bagunça. Irei ter com vosso pai. Explicar-lhe-ei tudo e juntos buscaremos uma solução pacifica posto que após saber a verdade não apena ele mas Dominique Snow quererá trucida-lo e desta com razão!! – exclama – Sem contar o delegado!! – lembra, dirigindo-se a porta, estancando ao escutar a voz de Caitlin.
—Não pode contar-lhes o que sabe Monsenhor. Thomas o disse em confissão – surpreende-o a jovem, fazendo-o voltar-se e encara-la surpreso – Permaneci apenas porque ele pediu-me para fazê-lo, mas isto não desqualifica como confissão não é? Não pode revelar a ninguém o que ouviu, correto? – interroga.
—Aonde está querendo chegar minha jovem? – devolve o religioso, arqueando a sobrancelha – Acaso cogita não contar a verdade a vossos pais? – questiona-a.
—Mesmo que vá a meus pais, podem não acreditar – pressupõe — Meu pai irá pensar que Thomas arrependeu-se e tenta fugir ao compromisso. Minha mãe está tão certa de que me entreguei que trouxe-me para cá, sem hesitar um segundo sequer e igualmente não hesitaria em dar-me ao senhor Wilson mesmo julgando-me desonrada. Disse-me que o faria e que este aceitar-me-ia caso Thomas não o tivesse feito em público – prossegue Cait, mordendo a unha, ansiosa.
—Senhorita Snow...- Monsenhor tenta argumentar mas ela impede-o.
—Não quero casar-me com aquele homem desprezível!! – declara, taxativa – Nem com o jovem senhor Crumble, por mais simpático que seja – acresce – Mesmo Thomas enganando-me, é a ele que amo, embora vá levar um tempo para perdoa-lo – avisa ao ver o rapaz erguer o rosto – Casaremos, conforme planejado, mas não significa que o perdoarei de imediato – reitera, fazendo-o pôr-se de pé rapidamente.
—Não esperava que o fizesse – afirma ele, tomando-lhe as mãos — E juro-te, diante de Monsenhor, que não a tocarei enquanto não for de sua vontade – promete.
—Está ciente do que promete meu rapaz? – questiona o religioso, encarando-o por sobre os óculos.
—Não consumarei o casamento enquanto não for de sua vontade o fazer – ratifica, fazendo-a corar intensamente – Apenas, e tão somente apenas, quando julgar ser o que deseja, deitaremos como marido e mulher– promete – Que diz-me Monsenhor? – questiona-o Tommy, sem desviar o olhar de Caitlin.
—Digo que devo estar ficando louco em concordar com esta sandice ...Mas entre celebrar um casamento e uma missa de corpo presente, opto pelo primeiro! – exclama o religiosos, bufando – Que ovelhas me deste Senhor!! Que ovelhas!! – roga, unindo as mãos, dirigindo-lhes um olhar severo.
—Então concorda em casar-nos mesmo eu tendo faltado com a verdade? – quer saber o jovem, ansioso.
—Evidente meu rapaz! – confirma o religioso, massageando a fronte – E rápido. Por inúmeras razões, posto que se esta história vazar, estará em sérios apuros e não apenas diante da lei!– relembra, pensativo.
—Monsenhor...- Caitlin começa, silenciando ante o erguer de mão do religioso.
—Deixem-me pensar um segundo – pede, pondo-se a andar de um lado para o outro – Como não perdeu-se, nada impede-a ter a tão sonhada cerimônia que toda jovem anseia...Por outro lado, como justificar-me-ei não casa-los de imediato? – questiona-se em voz alta.
—Pode dizer que pedi por uma cerimônia simples na igreja e quer atender-me – Cait sugere.
—Posso ir ter com meu pai e dizer-lhe que preciso de tempo para preparar meu quarto para recebe-la – Thomas acresce – Ele próprio levantou está questão enquanto nos dirigíamos para cá – lembra.
—Pode ser – reflete o religioso, olhando de um para outro –Há outro porém: não posso permitir-lhes viverem sob o mesmo teto antes de uni-los, o que cria-nos nova problemática: onde a senhorita ficara até a cerimônia? – inquire.
—Aqui – Caitlin responde com simplicidade, causando espanto aos dois.
—Cait, aqui...Não é lugar para uma moça de família – Thomas retruca, surpreendendo-a
—Então não considera a esposa do senhor Oliver moça de família?? – questiona-o — Até onde sei, Felicity vivia nesta antes de casar-se e ainda assim manteve-se pura – contesta, encarando-o – A senhora Smoak garantiu-me que não seria molestada e não fui. Por certo não fara questão hospedar-me mais um tempo – supõe.
—Cait, as pessoas falarão – insiste o rapaz, não escondendo seu desagrado.
—Que mais poderão dizer que já não tenha sido dito? – rebate ela, estreitando os olhos, desconfiada – Preocupa-se com os comentários a meu respeito ou com o que Camille pode dizer-me Thomas? – insinua.
Pego de surpresa, ele não reage de imediato.
—Com ambos – assume, cuidadoso – Senhorita, Cait... Camille... ela não é importante para mim. Nós apenas nos...
—Meu rapaz, não creio que isto seja assunto a tratar com vossa futura esposa – apressa-se em dizer Monsenhor, impedindo-o prosseguir – Reconheço a validade do que afirma senhorita – diz o religioso, limpando o suor do rosto – Vejamos o que diz a senhora Smoak acerca desta possibilidade – sugere, sinalizando aos dois saírem a sua frente.
Na sala, Malcom e Donna ouvem os argumentos e mesmo não estando completamente em concordância, aceitam-nos especialmente após Caitlin justificar-se dizendo temer represálias àqueles que resolvessem acolhe-la.
—Entendo sua preocupação meu bem – Donna afirma, sorrindo gentil – Só preciso saber quanto tempo permanecera para tomar as providencias necessárias – quer saber, voltando-se para o religioso.
—Não mais que dois dias. Comunicarei a meus superiores a urgência em casa-los para justificar a faltar dos proclamas – anuncia.
—Sem problemas de minha parte – garante a loira, abrindo seu leque, abanando-se.
—Neste caso, dirijamo-nos para casa a fim de agilizar as mudanças necessárias a receber sua esposa filho – Malcom determina, Tommy anuindo com um aceno.
—Poderia dar uma palavra a sós com Caitlin? – pede.
—Contanto que não demore-se e não saiam de nossas vistas – condiciona Malcom, afastando-se em companhia do religioso e Donna, sem no entanto deixar de enxergar o filho e a futura nora.
—Como dizia, Camille nada significa para mim e não digo isto por ela ser ...trabalhar aqui – retoma, encarando a jovem – Digo-o por não a amar. Nós apenas... – começa, calando-se, buscando encontrar as palavras certas a dizer-lhe.
—Tudo bem Thomas. Eu entendi...acho – Cait declara, hesitante – Não dar-lhe-ei crédito caso venha falar-me novamente – assegura, deixando-o tenso – Agora é melhor que se vá. Vosso pai parece-me impaciente – alerta.
—Ok – anui ele, ainda tenso – Posso pedir-lhe um beijo de despedida? – questiona-a, aproximando-se cuidadoso, o sorriso tímido servindo-lhe de resposta.
Devagar, pousa seus lábios sobre os dela exercendo leve pressão, o gesto não durando mais do que alguns segundos.
—Até breve – despede-se, afastando-se lentamente.
—Até – sopra ela de volta, soltando sua mão da dele sem pressa, nenhum dos dois notando o olhar ressentido da jovem a espia-los por entre a fresta da porta.
***Casa Donna Smoak (terça, 7/9 – 8:15 a.m) ***
“Never, never have I felt like this before;
Forever, I just wanna be forever yours;
So, take me in your arms and say you love me;
Hold me close and never let go...”
Caitlin
—Senhorita Caitlin, quer por favor largar este balde!! Já disse-lhe que não precisa fazer isto – Alameda ralha, as mãos nos quadris, a saia erguida e presa a cintura revelando suas pernas bem torneadas, falhando miseravelmente em aparentar zanga.
—Não preciso mas quero. Odeio sentir-me uma inútil!! – declaro, vendo pelo canto do olho, Camille rir de maneira irônica.
—Não o é senhorita e já mostrou isto diversas vezes nos últimos dias – Valquíria afirma, tomando-me balde e esfregão – Mas, irá casar-se em poucas horas e precisa estar preparada – lembra, trazendo a sensação de calafrio de volta a meu estomago – Tem de estar linda e descansada...
—Para servir vosso marido na cama de maneira satisfatória se não quiser que a largue no leito nupcial e busque quem saiba agrada-lo! – Camille adianta-se, alfinetando-me – Melhor ter aprendido direitinho como abrir a pernas para recebe-lo senão irá machucar-se feio!! – provoca-me, rindo-se alto ao ver-me corar – Céus, e não é que ainda cora ante algo tão corriqueiro e banal! Quanto tempo Thomas irá achar isto atraente? Ou quanto ficara satisfeito com o papai-mamãe diário? – desdenha e sinto meu sangue ferve
—Certamente mais do que algumas poucas horas uma vez ou outra ao mês. Ou seria ao ano?? – revido no mesmo tom, deixando-a furiosa.
—É o que veremos, princesinha!! – exclama, atirando o esfregão que tinha nas mãos ao chão, girando nos calcanhares e saindo.
—Não dê-lhe atenção. Está com enciumada pois nutria sentimentos, que nunca foram correspondidos, diga-se, por Thomas – Angelike, uma das mais jovens da casa aconselha-me, sorrindo gentil – Ele a ama, estou certa disso e vosso casamento durara para sempre, como nos contos de fadas – diz, suspirando, sonhadora.
—Obrigada Angelike – agradeço, sorrindo-lhe de volta, meu corpo parando de tremer lentamente.
—Então agora sente-se e descanse – Valquíria insiste, fazendo-me sentar numa poltrona próxima.
—Não quero sentar. Quero ajudar! – protesto, pondo-me de pé – Preciso ajudar. Quero manter-me ocupada para não pensar na cerimônia de logo mais e na ...- calo-me, percebendo estar prestes a confessar meus temores – Na vida que terei de hoje em diante – concerto, sem graça.
—Será feliz senhorita, esteja certa – Damaris afirma, também a sorrir-me e sinto-me constrangida.
O fato é que, para elas e todos que nos conheciam, nossa história havia-se tornado uma espécie de conto de fadas, como Angelike comparara. Algo como Romeu e Julieta sem o final trágico (espero!). Apenas nós e Monsenhor sabíamos não ser bem assim.
Evidente que espero ser feliz e faze-lo feliz. Mas até lá, pressinto termos um caminho tão longo quanto o que fizemos ao sermos resgatados. Ou mais. A começar pela bendita noite de núpcias!!
Mesmo sabedora que Thomas cumpriria a promessa feita, o simples fato de passar a conviver com ele diariamente, a dividir o mesmo quarto e cama, estava deixando-me com os nervos à flor da pele!
“Acaso não dormiram tantas noites abraçados, aquecendo-se do frio? Que há de diferente nesta e nas que virão??, questionava-me meu subconsciente, ao qual respondia a mesma coisa, sempre: ele terá direitos sobre mim.
E se cansar-se de esperar que tome a iniciativa? Irá cobrar-me ou vira em busca dela? E quanto a mim? Quanto tempo precisarei para tomar coragem e o buscar ou irei simplesmente libera-lo para ter-me? Saberei o quê e como fazer? Lógico que não! Se fui tola o suficiente para julgar já ter-me entregue, como saberei o que fazer ou como fazer? E se descobrir, serei de seu agrado? E se Camille estiver com a razão? Se Thomas enjoar de mim, que farei?...
—Senhorita, sente-se bem? – a pergunta tira-me do devaneio e encaro a jovem morena a olhar-me preocupada – Ficou pálida de repente.
—Estou bem Angelike, não se preocupe – acalmo-a, sorrindo-lhe.
—Ah, ai está senhoria. Estava a procura-la. Venha, suba até meu quarto – Mama Smoak chama-me – Vocês duas venham junto – indica Angelike e Valquíria.
—Sim Mama – respondemos ao mesmo tempo, obedecendo-a.
Qual não é minha surpresa ao entrar no quarto e deparar-me com Thea, Kara, Sara, Laurel, Íris, Adissa e Felicity a esperar-me no quarto juntamente com Mama Smoak.
—Surpresa!! – dizem juntas, vindo abraçar-me.
—O ... o que fazem aqui? – questiono-as emocionada. Desde o jantar não as tinha visto. Em verdade, não via ninguém. Passei estes dias dentro da casa, indo no máximo a cozinha. Descobri que as segundas e terças a casa não funciona. São dias dedicados a limpeza, descanso e qualquer atividade que as meninas, como Mama as chamava, desejassem. Para minha surpresa, estava a divertir-me lá – Como entraram sem que as visse? Estive todo o tempo próxima a entrada e nada vi.
—Perdoe-me senhorita, mas da maneira como estava distraída, mesmo que passassem debaixo de vosso nariz não as teria visto! – Angelike brinca, provocando risos.
—Entramos por uma passagem lateral a qual utilizava-me quando morava aqui – Felicity esclarece, abraçando-me carinhosamente – Como está minha querida? – quer saber.
—Bem, na medida do possível – digo, ganhando abraços de Thea e Kara – Adissa!! – exclamo, dispensando a reverencia que fazia-me, abraçando-a – Não sou mais sua patroa. Aliás, nunca fui – afirmo – Dê-me notícias de casa. Como estão todos? Olivia, como está? E papai? – pergunto, engolindo a vontade de perguntar sobre minha mãe.
—Todos estão bem...dentro do possível – parafraseia-me, abaixando a vista – Sentimos sua falta, especialmente a senhorita Olivia. Anda numa tristeza de dar pena – conta e preciso esforçar-me para não chorar – Vosso pai igualmente, embora disfarce – diz, erguendo o olhar – A senhora tem passado bastante tempo em casa da senhora Eveline. Está ajudando-a com o marido enfermo e com os preparativos para a chegada do bebê – avisa.
—Não é muito cedo para um bebê?? – Kara questiona, pondo o vestido que mantinha junto ao corpo sobre a cadeira ante o olhar inquisidor de Mama.
—Não se tiver ido a lua de mel antes do casamento. Bem antes, diga-se – Thea insinua.
—Thea, cuidado com o que diz – Laurel alerta-a.
—Fico feliz por ela – digo, sincera – E estou feliz em ver vocês todas – acresço – Mas ainda não disseram-me porque vieram, não que esteja achando ruim! – apresso-me dizer.
—Bem, irá casar-se com meu outro irmão em poucas horas e precisamos preparar sua festa entre outras coisas – Thea anuncia e enrugo o cenho, confusa – Seu vestido Cait! – exclama, rolando os olhos.
—E enxoval – Íris acresce, animada.
—Mas eu não tenho – lembro-a – Não tenho nada. Nem roupas! — constato, controlando a muito custo a vontade de chorar.
Na segunda pela manhã, Mama Smoak disse-me que daria um jeito de alguém pegar minhas roupas e outros pertences em casa de meus pais e de fato o fez. Alameda, passando-se por uma criada dos Queen, foi até lá mas regressou de mãos vazias. Minha mãe rasgara ou queimara tudo que pertencia-me. As roupas que usava foram-me dadas por Angelike e a própria Alameda, duas das três únicas a usarem o mesmo manequim que eu. A terceira era Camille.
—Como assim não tem? Onde estão seus pertences? Vossa mãe não pode simplesmente negar-lhe...
—Elas os queimou! – interrompo o discurso de Sara, deixando-as em choque – Ou rasgou tudo que pertencia-me. Atirou fora meus perfumes, meus livros, sapatos...- revelo, o nó na garganta impedindo-me continuar.
—Mas...mas...isso é terrível!! – Kara exclama – Como fara com seu casamento? E a noite de núpcias? E os demais dias e noites? – interroga, aflita.
—Angelike e Alameda emprestaram-me...
—Demos – as duas corrigem-me – Lhe demos de presente senhorita – Alameda frisa e rio minimamente.
—Deram-me de presente diversas peças suas. A maioria sequer haviam usado ainda – pontuo, olhando-as com carinho – Terei de começar com o que tenho enquanto consigo comprar...- paro, lembrando-me de que não tenho ou teria dinheiro para tal nem contaria mais com meu pai. Teria de contar com meu marido doravante.
—Enquanto Thomas não lhe der dinheiro para comprar – Laurel vocaliza meus pensamentos – Não consigo me conformar com isto!! Termos que depender de nossos pais ou maridos para termos Nossas coisas – enfatiza, bufando, Sara, Thea e Kara imitando-a.
—Um dia essa escravidão por certo cessara! – profetiza Sara, cerrando o punho.
—Um dia, decerto que sim – Felicity concorda – Mas por hora, como ainda não pode contar com o dinheiro de vosso marido – começa, sorridente – Contara conosco! – exclama, pondo-se de lado, permitindo-me visualizar a cama atrás de si onde um vestido branco encontrava-se esticado.
—O que...o que é isso? – gaguejo, olhando-a.
—Seu vestido de noiva, que mais!! – responde e abro a boca, estupefata, enquanto Thea e Kara batem palmas.
—Mas....mas...como?? – inquiro, cada vez mais confusa.
—Bem, na verdade seria o meu vestido – conta, Mama emitindo um breve suspiro – Mas, como não usei-o, será seu. Seria um desperdício joga-lo fora – diz, tranquila.
—Sem querer ofender a nenhuma das duas, mas você é um pouquinho maior que Caitlin – Sara comenta, escondendo-se atrás de uma almofada.
—Sorte sua que este comentário reflete a realidade antes de minha gestação ou dar-se-ia mal, senhorita Sara Lance!! – Felicity exclama com fingida magoa.
—Então como servira para Cait? Há tempo hábil para ajustes? – Íris pergunta, curiosa.
—Os ajustes já foram feitos – Mama revela, indo até a cama – Depois que Allie contou-nos o que a senhora Snow fizera, procurei minha filha e falamos sobre o vestido – conta, pegando-o – Sabe quando as meninas tiraram-lhe as medidas com a desculpa de ver quais roupas lhe serviriam? Elas mentiram! Era para os ajustes – conclui, entregando-me o vestido – Prove-o para ver se ainda precisa ajustar algo mais – pede.
Durante alguns segundos paraliso, encarando o belo vestido a minha frente. Mas logo sou literalmente puxada para o biombo por Thea e Angie, que ajudam-me despir e pô-lo.
—Está maravilhosa!! – exclamam juntas, fazendo-me sair detrás, guiando-me direto para o espelho.
—Linda. Simples e linda – Mama elogia, emocionada.
—Sim – um coro repete e rio, desviando o olhar de meu reflexo um segundo, voltando admirar-me logo a seguir, encantada com cada detalhe do vestido.
—Só mais um detalhe – ouço Mama dizer e logo a seguir um véu é posto sobre minha cabeça – Agora sim!
—Está linda Cait – Thea repete, olhando-me encantada.
Durante alguns minutos fico muda, as palavras faltando-me ante a visão do traje completo, uma lágrima solitária escorrendo em minha face.
—Lindo...mas é branco – suspiro, lembrando a mim mesma a farsa a ser mantida.
—E que tem isto? Nada, em minha opinião, a desqualifica usá-lo – Mama retruca.
—Penso o mesmo – Laurel endossa, postando-se as minhas costas – Não impinja-se mais está punição. Aceite-o – aconselha, encarando-me através do espelho.
—Certo – anuo, sorrindo pequeno – Mas irei vesti-lo apenas na igreja. Não quero mais escândalos – condiciono.
—Está certo meu bem – Mama concorda, unindo as mãos – Agora que já resolvemos este detalhe, senhorita Slone, pode dar-nos as boas notícias? – pede e volto-me para Adissa.
—Gostaria de serem melhores senhora – diz ela, dando-me atenção – Senhorita, vossa irmã incumbiu-me de trazer-lhe as poucas coisas a escaparem da fúria de vossa mãe – anuncia, caminhando até a pequena maleta sobre a poltrona próxima a janela – Alguns vestidos e trajes íntimos que ainda não haviam sido postos em seu armário após lavados, uns poucos frascos de perfume – anuncia, abrindo-a – Também pusemos um jogo de toalhas pertencentes a senhorita Olivia, um par de pantufas e duas botas suas que havia pego emprestada com a senhorita. Infelizmente foi tudo que conseguimos e somente agora, após vossa mãe sair, pude trazer-lhe — lamenta.
—Não lamente-se. Arriscaram-se por demais! Não desejo que prejudique-se por minha causa – digo, segurando suas mãos – Estou-lhe muito grata. E a Liv. Sinto falta dela – suspiro relembrando nossas conversas.
—Ainda está a servi a senhora Snow, senhorita? – Sara pergunta estapeando Kara e Thea, que xeretavam a cômoda de Mama.
—Por hora sim, mas a senhora deixou-me de sobreaviso. Disse-me que decidira se ainda precisara de meus serviços – diz, triste.
—Se a dispensar, procure-me. Precisarei de ajuda muito em breve, quando o bebê nascer – Felicity comunica trazendo um brilho aos olhos de Mama Smoak.
—Um netinho ou netinha!! – suspira, acariciando o ventre da filha – Serei...Vovô?? Céus!! Avô!! – exclama, rolando os olhos, fazendo-nos rir – E ainda não preparei nada, nenhuma roupinha, manta, nada. Que avô má sou!! – dramatiza e desta é Felicity a rolar os olhos.
—Temos tempo ainda mamãe. Sem dramas, por favor! – pede – Mas voltemos nossa atenção a Caitlin. Hoje é o dia dela e não meu – lembra, generosa – Se não engano-me, agora falta-lhe, além de lençóis e outras coisas que podem ser vistas com o tempo, uma camisola para a noite e ao menos mais uma para a diária – contabiliza e sinto o rosto esquentar – Mamãe, acaso guarda algo meu ainda? – interroga.
—Não, joguei fora – Mama responde, indignada, levando as mãos a cintura – Evidente que guardo bebê! – exclama, dirigindo-se a seu armário, retirando de lá duas caixas que põe sobre a cama, abrindo-as – Duas camisolas novinhas, duas não tão novas, mas limpas, um vestido, que pode ajustar depois e...Ops, isto é meu!! — esconde algo rapidamente sob o travesseiro – Não creio estejam prontas, qualquer das senhoritas, para uma peça como esta – justifica-se – Trata-se de uma...
—Não precisa dizer mamãe – Felicity apressa-se dizer, sacudindo as mãos – Muito bem, Angie, por favor veja uma mala ou duas aonde possamos arrumar as coisas de Caitlin enquanto Allie finaliza os ajustes. Apressemo-nos porque o tempo urge e ainda temos muito a fazer! – avisa, batendo palmas.
—Bem lembrado bebê – Mama Smoak anui – Dividamo-nos. Fique aqui com Allie e a noiva enquanto as senhoritas e eu cuidamos do resto – ordena, enrolando o poá rosa ao pescoço de Thea – Movam-se senhoritas, movam-se – comanda, uma correria frenética iniciando-se, cessando apenas perto do final do dia, quando minhas amigas retornam a suas casas indo fazer o mesmo que eu: preparem-se para o casamento.
*** Thomas (19:07 p.m)***
“...Lately;
It seems like you are Always on my mind;
And baby;
I want you be forever mine;
So, hold me closer;
And wrap you arms around me;
Love me with all your heart and soul...”
Tomo folego após colocar a derradeira saca de trigo sobre a pilha, enxugando o suor em minha testa. Conseguira finalizar todas as tarefas a mim delgadas por Chase.
—Finalmente! – sopro, olhando o velho relógio na parede do armazém – Oh, droga, estou atrasado!! – xingo, preparando-me para sair, a voz de meu “senhor” impedindo-me.
—Aonde pensa que vai Merlyn? – questiona e volto-me, encarando-o.
—Terminei minhas tarefas senhor. Todas elas – pontuo – Devo ir-me. Estou atrasado para...
—Só terminou quando Eu disser! – corta-me, escorando-se em uma pilha, fazendo varias sacas irem ao chão – Não parece-me haver terminado nada – ironiza – Arrume está bagunça – ordena, dando-me as costas.
—Não – respondo-lhe, controlando a raiva com dificuldade.
—O que disse escravo?? – interroga, voltando-se rápido.
—Disse que Não irei arrumar nada. Derrubou-as propositadamente! – acuso – Não arrumarei nada!! – sustento, encarando-o.
—Com quem pensa estar falando? Deve-me obediência e ordeno-lhe que arrume...
—Não!! – repito, cortando-o, irritando-o mais.
—Ora seu...
—Vejo que chegamos em boa hora! – ouço e volto-me, deparando-me com o delegado Lance e Eddie – Merlyn, quem costuma atrasar-se é a noiva e não o contrário – brinca, mas não está a sorrir quando encara Chase – Caso tenha esquecido, caro senhor Chase, Thomas tem um compromisso ao qual não deve faltar – lembra, não o deixando falar – Espero não o esteja retendo propositadamente – insinua.
—De forma alguma delegado. Apenas pedi-lhe que terminasse suas tarefas antes de ir-se, nada mais – defende-se – Afinal, amanhã talvez não esteja tão disposto quanto hoje – provoca-me.
—Não seja por isto – Eddie diz, alcançando as sacas rapidamente, começando empilha-las.
Apresso-me ajuda-lo e logo tudo está no lugar de novo.
—Pronto. Tarefa finalizada – anuncia meu amigo, limpando as mãos – Acredito que podemos ir, não delegado? – sugere, voltando-se para Lance.
—Decerto que sim – concorda ele – O convidaríamos juntar-se a nós na igreja, mas isto por certo iria causar-lhe desavença com seu amigo Wilson logo... Boas noites senhor Chase – despede-se, gesticulando para que saísse e obedeço, Eddie e o próprio seguindo rapidamente.
—Devo-lhes uma! – exclamo tão logo vejo-me do lado de fora – Chase não deixar-me-ia sair tão cedo – comento, fazendo menção ir para casa, Eddie retendo-me pelo braço – Eddie, preciso preparar-me para...
—E irá, mas na delegacia – avisa e sinto meu sangue esfriar.
—Eu...por que? Que houve? – questiono, tenso.
—Relaxe Thomas, irá apenas prepara-se lá por ser mais perto que vossa casa – Quentin Lance avisa, olhando-me de soslaio – Vosso pai já deve estar a nossa espera com suas vestes – avisa.
—Minhas...vestes? – inquiro, confuso.
—Acaso pretendia casar-se com trajes parecidos com estes? – Eddie questiona-me, rindo divertido e somente então noto o quão arrumado estavam ele e o delegado.
—Ah, finalmente! – meu pai recebe-nos a porta, não escondendo a ansiedade – Já estava a ir encontra-los – avisa, entrando conosco – Apresse-se Thomas, sua noiva acaba de seguir para a igreja. Suas vestes estão no canto, junto a porta da ultima cela. Há uma tina com água suficiente para que possa limpar-se – completa, e sigo diretamente aonde indica-me, surpreendendo-me com o que encontro.
Sobre uma cadeira estava um fraque completo e sapatos novos. Tento mas não consigo reter o choro, emocionado com tal gesto. Adentro a cela, dispo-me, banho-me da melhor maneira possível, enxugo-me, visto-me indo ao encontro de meu pai.
—Eis o noivo! – Raymond exclama, aplaudindo-me ao mesmo tempo em que Eddie estapeia sua nuca.
—Está muito bem filho – meu pai elogia, tentando não demonstrar emoção. E falhando – Melhor irmos andando antes que Monsenhor em pessoa venha buscar-nos – sugere – Preparado filho? – inquire, tocando meu ombro.
—Sim...acho – vacilo, nervoso, fazendo-o rir.
—É natural sentir-se inseguro. Esta prestes a dar um grande passo – tenta acalmar-me (o que não acontece) – Com o tempo irá sentir-se mais seguro – garante – Vamos? – convida e anuo com um gesto de cabeça, seguindo-o para fora tendo Eddie, Ray e o delegado Lance logo atrás de nós.
Andamos em silencio pela rua praticamente deserta, o senhor Brolin parando um segundo sua tarefa de acender os lampiões para cumprimentar-nos.
Enquanto caminho, pego-me a imaginar como este dia seria caso as circunstancias fossem outras. Provavelmente meus amigo preparar-me-iam uma despedida de solteiro em casa de Mama Smoak no dia anterior. Beberíamos até tarde e talvez deitasse uma ultima vez com alguma das meninas, Camille provavelmente. Acordaria de ressaca, levaria um bronca de meu pai enquanto minha mãe apaziguava a situação e logo estaríamos na igreja a espera de Caitlin, que seria entregue a mim pelo pai. Mas nada disto aconteceu.
Ao invés de uma despedida, trabalhei exaustivamente até a pouco servindo um homem mesquinho e cruel que odeia-me e nem sei porque. Minha noiva havia sido expulsa de casa por minha culpa e precisara refugiar-se justamente no bordel. Seu pai não a entregaria a mim e provavelmente não teria o vestido que merece. Nem a festa. Nem a vida.
—Thomas, tudo bem? – escuto meu pai perguntar assim que chegamos a igreja.
—Sim – minto, subindo os degraus a seu lado, alegria e tristeza mesclando em meu peito, a primeira suprimindo a segunda tão logo corro o olhar pela nave – O que...? – estanco, surpreso.
—Acaso pensou que o deixaríamos sozinho justamente no dia mais importante de sua vida? – Oliver interroga, vindo a meu encontro, sorridente.
—Acho que sim posto que parece surpreso em ver-nos! – Barry comenta, socando meu ombro.
—Eu...não sei o que dizer – assumo, olhando em volta enquanto caminho para o altar, os rostos sorridentes de minha mãe, meus amigos e suas famílias deixando-me comovido.
—Não tinha ideia do quão é querido não é filho?- Monsenhor questiona-me, apertando minha mão – Você e sua noiva.
—Aliás, espere até vê-la! — Felicity exclama, seu rosto iluminado num sorriso.
—Agora que estamos todos presentes, podemos dar início a cerimonia – Monsenhor sugere – Posicionem-se por favor – pede, sendo prontamente obedecido – A noiva já pode vir – avisa pondo-me em alerta.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Uma melodia suave invade o ar e volto-me vendo Kara Danvers tocando seu violino. O movimento alguns passos a minha direita chama-me atenção e volto-me. De uma porta lateral, vejo-a surgi ao lado de Robert Queen. Linda. Simplesmente...Linda!
—Feche a boca meu amigo! – Ollie cochicha em meu ouvido.
—Como se ele fosse conseguir fazê-lo! – Laurel exclama, provocando alguns risos mas não dou-lhes atenção.
Tudo que vejo é ela, deslizando suavemente. Linda. Vindo a meu encontro...
“...Every night I see you in my dreams;
Only when I’m with you do I feel complete;
You’re the only one who can fulfill my needs...”
Quando finalmente estamos frente a frente, sinto que tudo valeu a pena. Cada soco, cada sofrimento que passamos foi valido só por este momento.
—Está linda! – elogio tão logo o senhor Queen a entrega-me, vendo-a corar por debaixo do véu.
—Grata. Você também – devolve, tímida.
—Olhando para mim meus jovens – Monsenhor pede e obedecemos – Estamos hoje aqui para unirmos este jovem e apaixonado casal no sagrado laço do matrimonio – começa ele – Os desígnios e caminhos de Deus são, por vezes, misteriosos para nós. Mas ele nunca erra nem escreve por linhas tortas como costumam dizer. Seus caminhos são sempre retos e acertados – prossegue, enumerando motivos para nos alegrarmos apesar de as circunstâncias indiquem o contrário, surpreendendo a todos ao não estender sua fala – Dito isto, pergunto: Thomas, é de livre e espontânea vontade que recebe a Caitlin Snow por esposa? – pergunta.
—Sim – respondo sem hesitar, olhando-a nos olhos.
—Caitlin, receba Thomas por esposo. Promete-lhe ama-lo, honra-lo e respeita-lo todos os dias de sua vida até que a morte os separe? – questiona-a.
—Prometo – Cait responde também sem hesitar.
—As alianças – pede e gelo. Não havia lembrando-me providencia-las. Estava prestes a declarar isto quando Ollie estende-me um par.
—Que tipo de padrinho seria eu se não tivesse pensado nas alianças?! – diz, piscando e agradeço-lhe com um aceno.
—Segure a mão esquerda de sua esposa– ordena e o faço – Repita depois de mim: Eu te desposo Caitlin e prometo-te cuidar e amar todos os dias de minha vida até que a morte nos separe. Recebe esta aliança em sinal de minha promessa.
—Eu te desposo Caitlin e prometo-te cuidar e amar todos os dias de minha vida, até que a morte nos separe. Recebe esta aliança em sinal de minha promessa – declaro, pondo a aliança em seu dedo, beijando-lhe a mão ao final.
—Agora a senhorita repita: Recebe esta aliança, Thomas, em sinal de minha fidelidade, meu amor e devoção. Te prometo honrar e respeitar todos os dias de minha vida, até que a morte nos separe – ensina.
—Recebe esta aliança, Thomas, em sinal de minha fidelidade, meu amor e devoção. Te prometo honrar e respeitar todos os dias de minha vida, até que a morte nos separe – repete ela, pondo a aliança em meu dedo, olhando-me apaixonada.
—Tendo trocado alianças e promessa, pelos poderes a mim investidos pela santa madre igreja e pela autoridade Inglesa, vos declaro marido e mulher- conclui Monsenhor – Pode beijar a noiva – libera e me aproximo devagar, erguendo o véu que cobria-lhe o rosto, cobrindo seus lábios com os meus suavemente, afastando-me minimamente a fim de ver-lhe a face corada, a saudação de Thea quebrando a magia do momento.
—Viva os noivos!
—Viva!!....
Continua ..
“...Baby, please, stay with me;
Your love is heavenly;
Won’t you please say it’s me;
Have your love forever;
Baby, please saty with me;
Hold me so tenderly;
Won’t you please say we’ll be;
Be in love, together”

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