O preço do prazer
14 The burden of guilt
Notas iniciais

Já estava ficando cansada de tanto esperar. Sentada em uma das cadeiras acolchoada da grande mesa, observei meu corpo e o que acontecia ao meu redor. Estava com uma calça jeans normal, nem de longe eu era a jornalista que costumava se arrumar e andar sempre na ponta do salto. Não estava depressiva, só era mais natural. Meus cabelos longos estão soltos, sinto os fios castanhos cobrirem um pouco meu rosto por estar com a cabeça baixa e uma perna balançando de ansiedade e uma tensão notória. Estou sem maquiagem e com uma blusa regata de um azul muito claro, quase branco. A peça tinha alças finas. Em meus pés apenas sandálias rasteiras.
Cruzei os dedos procurando um passatempo enquanto adornava minhas unhas sem esmalte. Meus pulsos continham duas argolas grossas de aço interligadas por uma corrente do mesmo material. Eram algemas. E estamos aqui reunidos para prestar um novo depoimento de esclarecimento de toda situação.
A psiquiatra pediu duas semanas para que eu me recuperasse. Bom, o tempo se esgotou e eu me recuperei, não totalmente é claro. Mas sobre falar da situação... preferia sinceramente passar uma borracha e apagar aqueles dias da minha vida pra sempre. Eu só queria ter minha vida de volta. Não queria que repórteres tivessem chegado ao ponto de fazer plantão na porta do meu prédio, ou encontrado meu e-mail para contato, eu não queria ligar a TV e ver que alguma nova evidência do chocante caso que parou Nova York foi supostamente encontrada. E principalmente, não queria que eles encontrassem uma solução. Parece loucura, não é? Mas quanto mais eles tocam nessa ferida aberta, mais machuca. Como cicatriza algo se você continua arrancando o cascão?
— Por que ela tem que usar essas algemas? Ela não foi julgada ainda... — olhei de soslaio para Neji que estava sentado em uma cadeira ao meu lado, meu corpo estava jogado desleixadamente na minha. Ao contrário dele que sentava-se ereto. Sua indagação fora para o guarda que estava prostrado na porta como uma estátua humana.
— Porque ela é uma criminosa. — a voz azeda da Inuzuka sentada na ponta distante de mim me fez revirar os olhos, buscando dentro de mim algum controle pessoal. Minha mente está uma bagunça ainda, e apesar de estar melhorando com o tratamento, parece que estou cada vez mais explosiva e sentimental. Ontem mesmo chorei ao ver noticiário um gatinho que ficou preso numa árvore, ainda bem que ele foi resgatado pelo corpo de bombeiros porque quem estava a ponto de ir lá era eu. — Quem me garante que ela não vai tentar me matar?
— Se não pulasse cerca não precisaríamos passar por nada disso. — sussurrei falando rápido, literalmente resmungando. Num tom alto o suficiente para ela ouvir, mas não entender.
Lancei meu melhor olhar que mesclava deboche e instinto assassino na direção da megera. E ela devolveu na mesma intensidade. Percebi Neji erguer os olhos diante de nossa reação, pedindo força a alguma divindade.
— Disse alguma coisa? — essa mulher tem uma negatividade, uma áurea negra ao redor dela, sabe? Uma pessoa visivelmente infeliz, obcecada por um cara ao ponto de destruir o próprio casamento.
— Disse que: Olha que não me seria um problema. — respondi e a vi fumegar de ódio ao ponto de suas narinas dilatarem. Cerrando os punhos com raiva, ri de canto. Que linda. Penso irônica.
— Não está em condições de ameaçar minha cliente, Mitsashi. Creio que sua situação já esteja muito delicada. — o advogado dela falou e arqueei uma sobrancelha o olhando, quem esse idiota tá achando que é?
— E você dobra sua língua antes de tratá-la como se fosse sua empregada. — a fala de Neji me fez olha-lo de canto com as duas sobrancelhas arqueadas.
Ele não olhava pra mim ou pro dito cujo, mas seu tom foi ameaçador. Quando fitei de esguela o tal advogado, apesar de estar visivelmente com raiva, o vi torcer sua língua fechando a boca numa linha rígida. Sua cliente não estava muito diferente, acho que ela não está feliz de ver o Hyuuga me defendendo de alguma maneira. Tô dizendo, essa mulher tem algo muito ruim rondando ela. Não é implicância.
Estamos aguardando a chegada de Itachi e do delegado que conversavam na sala do segundo. Eles haviam apurado alguma nova pista reveladora e no âmago eu tinha medo do que poderia ser. Agradeci mentalmente ao mesmo tempo que senti o coração falhar algumas batidas quando a porta foi aberta e por ele passou o Uchiha e o homem que comandava ali. O moreno sentou-se ao meu lado me olhado desconfiado, isso me deixou em alerta máximo. Céus, o que será que houve?
— Tenten... — ele me chamou falando baixo, olhei em sua direção após cruzar as mãos sob a mesa. Tentei parecer mais confiante do que realmente me sentia.
— Sim? — pergunto.
— Independente de qualquer pergunta que ele fizer, responda a verdade. — eu não falei de nada do ocorrido com Itachi. Sei que deveria fazê-lo, afinal era ele quem intercedia por mim e estar no escuro tornava seu trabalho complicado. Por outro lado não só eu, como Neji, nos daríamos muito mal por mentirmos para a polícia. Embarquei de cabeça nessa quado assumi a culpa, agora é ir com isso até o fim. — Qualquer coisa que contar que distorça a realidade poderá te causar problemas, está me entendendo? Pode ser julgada como inocente pelo assassinato e culpada por mentir, Tenten. Isso é sério! — desviei meus olhos fechando a boca, oprimindo o ato automático de engolir em seco. Estava na cara que Itachi sabia mais do que contava.
Assenti apenas, vendo o delegado dar a volta na mesa e colocar algumas provas lá. Todas dentro de sacos plásticos. Assim como alguns laudos da perícia. Céus, estou tremendo e mal consigo disfarçar. Pelo menos posso ater isso ao meu trauma e fingir que aquilo me fazia relembrar a sensação. Mais mentiras. Pelo menos não cem por cento.
— Ótimo. Estão todos aqui. — ele disse colocando as duas mãos sob a mesa, vi seus olhos passarem por cada um de nós como se fossem gaviões e internamente aquilo me fez tremer. — Então vamos... Começar. — completou pegando alguns materiais.
Inconscientemente, rever o homem segurar a sacola que estava com a arma fez a lembrança passar diante de meus olhos lentamente. Aquela sensação perturbadora me fazia passar mal mesmo. Não era mentira. Eu não estava recuperada totalmente e isso ficou evidente pra todo mudo.
— Tenten! — a voz grave me despertou e pulei na cadeira jogado a cabeça pro lado. Me percebi trêmula e suando frio, meus olhos cravaram nos de Neji, os quais tinham aquela nítida preocupação no olhar. Preocupação essa cada vez mais frequente. Lancei um olhar rápido para o resto dos presentes, e fora a megera da Inuzuka que parecia gostar de me ver naquele estado, os demais pareciam curiosos e interessados. Engoli em seco me ajeitando na cadeira, baixei os olhos evitando olhar para qualquer um. Droga, isso não passa nunca? — Você está bem? Ficou branca de repente. — Neji perguntou e levantei a cabeça com a boca aberta para responde-lo, mas Itachi foi mais rápido:
— Claro que ela não está bem, Hyuuga. Passou por um trauma por sua culpa. — disse e o olhei intrigada perante a fala, caralho será que ele sabe de algo ou só está jogando verde? Quando voltei minha atenção para o outro, Neji estava mais murcho do que planta em sertão. As palavras do Uchiha atingiram ele em cheio, estava na cara. Aquilo me fez compadecer de sua situação.
— Certo! Pode continuar... — apartei a situação antes que algo se agravasse aqui.
Em outro momento teria deixado esses dois leões brigarem pela tigresa aqui, mas estou cansada. Senti os olhos da Tamaki me queimarem, mas não retribuí. Minha melhor reposta é o silêncio. Era obvio que ela parecia incomodada. Isso mesmo querida, em terra de sereia, piranha não tem vez. Por outro lado o dia mal começou e já quero que termine. Nunca fui tão caseira na vida.
— Claro. — o delegado assentiu ao ver a tensão no local. Ainda com a arma na mão, ele começou falando algumas coisas sobre como estava indo a investigação. Dizendo algo sobre estar procurando afinco um motivo plausível para a atitude do Inuzuka — como se não soubéssemos —, porém novamente me via inerte, estática. A voz foi se tornando distante a medida que tudo ao redor ia se transformando num borrão. Era apenas eu e aquela arma. Quando fui puxada novamente a realidade ao ouvi-lo me chamar.
— Sim!? — exclamei, estava quase com as mãos abraçada ao próprio corpo, se não fossem as algemas com correntes curtas. Mais uma vez eu era o centro das atenções, mas que porra. Suspirei desgostosa.
— Estava dizendo que, encontramos suas digitais na arma do crime. Porém, por cima delas também há digitais de Hyuuga Neji... Bem quentes. — enfatizou colando os olhos na reação do moreno ao meu lado esquerdo. Senti o mundo congelar ao meu redor. Puta que pariu. E agora?
Engoli em seco tentando processar, será que Itachi já sabia disso?
Pensa Tenten, pensa.
— Ele tirou a arma de mim. — disse antes mesmo de conseguir pensar em algo melhor, não havia tempo a perder. Senti meus olhos caírem sobre mim mais uma vez. Quando me dei conta já encarava Neji que me olhava da mesma maneira, o idiota estava pronto pra contar a verdade. Não Hyuuga, não vou me meter em mais merda por sua culpa. Não serei presa por mentir pra polícia por sua culpa, isso já foi longe demais, não há meios irreparáveis de voltar atrás e não ter consequência. É claro que eles não nos deixariam sair impunes por tê-los feito trabalhar por duas semanas como trouxas tentando descobrir um motivo plausível enquanto sabíamos. Não mesmo. Então suspirei baixando a cabeça, mais consciente daquilo, dando minha melhor cara de vítima traumatizada. — Depois de... Ter atirado duas vezes contra Kiba, fiquei paralisada sem saber o que fazer. Ele tentou ajudar... Eu... Eu estava tão assustada com tudo... — engoli em seco, evitando olhar para qualquer pessoa. Ao menos nisso não precisei mentir, relembrar a sensação que senti ao ver o corpo morto de Kiba me dava calafrios. Era algo perturbador.
— E merece morrer. — a voz azeda da Inuzuka quebrou todo clima dramático que criei ao redor de mim, meu olhar mortal se voltou em sua direção.
— Ela se protegeu, é diferente. — Itachi veio em meu socorro. E ela riu desgostosa, bancando a vítima prestes a chorar. Desgraça fingida, até tremer os lábios ela fazia.
— Ela é uma assassina! E não vou descansar até que você evapore numa cadeira elétrica. — ameaçou me olhando no fundo dos olhos e de certa forma aquilo me atingiu. Após dar seu veredito ela se levantou e saiu. Estava na cara que ela nunca me deixaria em paz e usaria todo o dinheiro da que tinha se preciso fosse pra me arruinar.
***
— Ótimo, você está se recuperando muito bem. — a psiquiatra falou anotando algo em minha ficha médica, mas estava mais interessada em olhar a paisagem do lado de fora da janela de vidro. Admirando a visão matutina da minha cidade que não para nem por um minuto. — Como falei, você possui uma personalidade forte e uma cabeça muito centrada. Isso auxilia muito na recuperação porque sua mente trabalha como uma espécie de anticorpos para livra-la do trauma. — então virei-me para ela, observando-a deixar a prancheta sobre a mesa e admirando um pouco da beleza do consultório. Era tudo branco e muito limpo, eu sempre gostei de branco por dar essa sensação.
— Então acha que já posso voltar ao trabalho? — eu precisava ocupar minha mente. Depois de mentir novamente para a polícia e ter que contar uma versão da história que não aconteceu, eu temi ser interrogada de novo e acabar esquecendo de algum detalhe. Quantos criminosos não já se encrencaram por causa disso? Bom, embora eu tenha ciência que ser criminosa e assassina podem ser coisas diferentes. Afinal, mesmo que eu tenha cometido um crime, foi por autodefesa, mas isso não faz de mim menos assassina. Mesmo que eu não tenha matado de fato Kiba, fui eu quem o parei quando atirei em sua perna. Complicado, né? Eu sei.
.
.
Estática por acabar de atirar em Kiba, vi o homem ignorar a própria dor e a perna imobilizada. Ainda rastejando ele tentava aproveitar do momento de torpor de Neji ao bater com a cabeça no chão para tentar corta-lo com a navalha que tinha em mãos.
Gritei horrorizada temendo o pior e sai correndo aproveitando que ele estava de costas para mim. O que aconteceria se Neji morresse? Não queria descobrir. Segurei seu pulso ainda de pé e entramos numa briga onde tentava afanar a peça cortante de sua mão, no movimento soltei a arma.
Estava totalmente descontrolada e senti a dor aguda quando ele acabou me acertando uma bela cotovelada na boca do estômago que me desestabilizou, cai sentada com a mão na barriga sentindo aquela falta de ar e os músculos latejarem, e ele se virou para mim. Seus olhos queimavam de ódio e um instinto assassino, um calafrio percorreu minha espinha ao me dar conta de que havia virado seu alvo principal por tê-lo atrapalhado. Ele estava cego de ódio e vingança, engoli em seco.
O Inuzuka estava preparado para vir pra cima de mim, quando ouvi Neji chama-lo e nos viramos em sua direção, novamente aquele som agudo explodiu em meu ouvido quando o Hyuuga puxou o gatilho. Duas gotas de sangue salpicaram em meu rosto assim que a bala perfurou o tórax de Kiba num tiro certeiro. Estava novamente suando frio, com minha taquicardia atacada e a sensação de imponência. Inerte, estática.
Girei o pescoço lentamente na direção do moreno que ainda jogado sob o chão, usada as mãos de dedos longos para segurar a arma de fogo. Seu corpo um pouco inclinado pra frente perante a ação do momento. Meus lábios tremiam, meu coração palpitava ameaçando parar.
Seu corpo imóvel jazia no chão, sem vida.
— Eu o matei. — ele disse deixando o corpo cair com um braço estirado e o outro sob a barriga, ofegando.
.
.
— Mitsashi Tenten!? — a voz feminina me despertou do transe e pisquei voltando minha atenção na direção da mulher que me olhava intrigada.
— Sim? — indago tentando não demonstrar nada, eu só quero que isso acabe logo e não dar mais motivos pra ela continuar me tratando como uma coitada. Eu odeio ser tratada como uma coitada.
— Está se sentindo bem? — seu tom é notoriamente desconfiado e tenho que controlar meu instinto de soar ríspida, tendo em mente que ela só faz seu trabalho. Sem dúvida deve estar achando que eu tive uma alucinação ou algo do tipo.
— Sim, estou ótima. Só estava pensando na vida. — sorri forçadamente, mas sei que ela não acreditou. Dane-se, estou cansada de tanta gente se metendo na minha vida como se eu fosse uma dependente química ou viciada. Não preciso que monitorem meus passos ou que uma das minhas amigas durma comigo todas as noite. Não preciso que a outra cubra meu trabalho e muito menos de auxílio médico, estou cheia de tudo isso. Cheia. E só anseio por ter minha liberdade outra vez. Liberdade. Isso me tem soado tão distante nos últimos dias. — Então? Posso voltar ao trabalho? — eu sabia que era barra dura, não importa pra eles o que eu acho e sim como me sinto de acordo com a renomada psicóloga cara que os Hyuuga's estão fazendo questão de custear. Tsc. A verdade é que preciso da autorização dela para voltar as minhas atividades normais. Até lá eu estou de licença médica, como eles costumam dizer.
Seu sorrisinho fechado e seu olhar não me agradaram em nada, mas que porra, o que foi agora?
— Seu tratamento está no fim, senhorita, é verdade! Mas aconselho que volte apenas quando tudo isso acabar. — ou seja, não vou te deixar ser livre e dona de si mesma até que seja julgada.
Julgamento esse marcado para daqui a duas semanas. Não sei como está ocorrendo o processo jurídico, Itachi não me conta nada para não me perturbar. Que porra. Por outro lado descobri que quem conseguiu a liminar para adiantar o processo foi o advogado da senhora Inuzuka. O que provavelmente deve resultar em problema pra mim, mas eu tô pouco me fodendo, sinceramente. Se eu for morrer, não quero passar meus últimos dias presa em casa... Meu céu o que eu tô falando? Eu não quero morrer.
Bem, acho que no fim essa mulher tem razão, eu não estou totalmente recuperada. Suspiro cansada por estar cansada. Irônico, não é? Seria cômico se não fosse trágico. Estou fadada a continuar sendo tratada como uma coitada.
***
Estou a um dia do meu julgamento. Outras duas semanas se passaram desde que fui a psiquiatra e desde então permaneço em casa por indicação sua. Meu apartamento tá uma bagunça. Tem sachê de chá pela minha pia espalhado por todo canto, xícaras de porcelana perdidas em cada mesa, escrivaninha ou centro.
Tenho vivido de chá. Achei que estava bem, que estava preparada. Mas cada vez mais o momento se aproxima eu não sei o que fazer, não estou preparada. Não conversei com Itachi e não sei como me portar sendo réu. Evito ligar a TV ou acessar a internet, todos os sites de notícia tem fotos minhas publicadas contra minha vontade, assim como as de Neji e as suposições do que realmente houve, dadas por pessoas que vivem pelo dinheiro e a chance de ser popular. Esses jornalistas de quinta, tratam os outros como mera ferramenta para alcançar o próprio sucesso.
Agora estou aqui, com Hyuuga Neji sentado no meu sofá totalmente à vontade, me olhando enquanto permaneço de pé a sua frente com os braços cruzados.
— Subornou o guarda outra vez? — indaguei e ele fechou a cara. Não estava mais tão desleixado como antes, mas aquela veia de preocupação continuava saltando em sua testa. O vi virar a cara com as sobrancelhas juntas de irritação. Tentei manter seriedade.
Apesar de não ter mais pesadelos ou ter medo da minha própria sombra, ainda estou nos extremos. Ainda me irrito fácil e choro mais fácil ainda.
— Não. Consegui uma liminar que me dá direito de visitar você assim como qualquer outro. Afinal eles já sabem do nosso pequeno caso... — ergui o dedo indicador fechando os olhos em claro sinal para que ele não continuasse. Quando voltei a fitá-lo Neji estava com os braços abertos no alto do sofá, me olhando sem expressão.
Sim, fomos descobertos. A perícia examinou todas as câmeras do prédio para saber como o Inuzuka havia entrado aqui com um de seus capangas sem levantar suspeitas. Então quando assistiram ao vídeo do elevador, nos viram na maior pegação. Bom, pelo menos não transamos lá, não estou nenhum pouco afim de ser uma diversão pornô pra nenhum desocupado. Tsc.
Agora eles estão tentando ligar isso ao caso. Como se meu rolo com Neji tivesse sido motivo de algo. Fala sério, eles são loucos. Quem merecia tá sendo investigada não sou eu e sim aquela psicopata da Tamaki. Ela é louca, doidinha de pedra. E ela me enoja.
— Eles já sabem. Não precisa ficar repetindo. — ele não diz nada, apenas continua me olhando. E então joga:
— Amanhã vou me entregar. — mandou de uma única vez e o olho puta, surpresa e com vontade de estapear essa cara bonita. — Não me olha assim, Tenten. Nem deveria ter assumido essa culpa! — ele diz desgostoso e irritado, coloco o punho sobre a boca e mordo o dedo indicador para não socar ele até que me acalme.
— Neji... Não pode fazer isso. — tento ser o mais compreensível possível, ele me olha num misto de raiva e instinto assassino. — Isso já tomou proporções muito grandes, não é algo que você vai reverter só contado a verdade! — digo fazendo gesto com as mãos na intenção de ser o mais branda possível.
— Ah é!? E acha que eles não vão adicionar a sua pena caso seja condenada quantas vezes se perdeu nos depoimentos ou não soube responder uma pergunta? Fora que você contou várias versões da sua história, Tenten. Nenhuma delas compatível com a minha. — falou. Parecia triste, sem saída. — Não tem o que contestar! — ele dizia como se fosse a única solução e então me olhou inquisidor. — Por que fez aquilo? — eu já me fiz essa pergunta mil vezes, mas ainda não cheguei a uma resposta exata. Me virei de lado para não encara-lo diretamente.
— Pensei em legítima defesa! — disse o olhando de soslaio e ele franziu o cenho.
— Mas foi legítima defesa...
— Não! — esperneei com as mãos na cabeça, que droga. — Eu pensei em assumir a culpa porque era eu quem não conhecia o Kiba e só tinha me envolvido nessa merda toda por causa de você. — ele desviou o olhar, acho que coloquei sal em sua ferida aberta. Mas continuei: — Eu pensei que seria mais fácil pra mim porque querendo ou não você aprontou também... Foi tudo tão rápido... Só depois eu me dei conta de que pra eles entenderem a sua culpa teriam que descobrir o que houve de verdade. — suspiro cansada. — Eu agi por impulso. E tive medo de dizer a verdade e só piorar tudo. — confessei deixando os braços caírem ao redor do corpo. No dia em questão eu estava tão absorta, tão horrorizada que não tive tempo pra pensar nas consequências daquilo. Eu achei que estava ajudando, mas só me enterrei ainda mais num rio de areia movediça.
Quando finalmente crio coragem para fitá-lo, ele está me olhando de um jeito estranho. Parecia perdido, mas com ainda aquela dosagem de culpa. Respiro fundo meneando, aquele olhar me entristeceu. E evito deixar que ele perceba isso, desviando a atenção dele. Isso tudo é tão complicado e eu me sinto tão fraca. Não quero ser fraca. Eu não posso.
— Neji. — o chamei, embora ele já me fitasse. Em resposta seu cenho se franziu. O olhei de canto colocando ambas as mãos na cintura, não sabia ao certo como falar isso ou perguntar, era um assunto delicado. — O que Kiba disse era verdade? — questiono e seu cenho se franze, embora eu já imagine que ele saiba exatamente do que estou falando. — Você tá apaixonado por mim? — viro meu rosto totalmente para fita-lo. O Hyuuga está calado e estático, me olhando profundamente. Ele não meche um músculo, suas mãos agora caídas de forma desleixada no colo de pernas abertas, ele piscou.
Seu suspiro foi triste quando passou a fitar o chão.
— Por que? — sua indagação foi grave. Há tempos não o ouvia tão frio e tão sério. Inconsciente um frio percorreu minha espinha e eriçou todos os meus pelos, me trazendo sensações que não sentia há algum tempo. Engoli em seco. — Você não se importa mesmo. — completou virando o rosto na direção da varanda. Abri a boca ao me sentir ofendida, me virei em sua direção e novamente o olhei com o cenho franzido, pronta para defender-me. Esse desgraçado tá me chamando na maior cara dura de coração de pedra? Porém minha voz se perdeu quando não consegui formular uma frase.
No âmago a forma como ele disse aquilo tão naturalmente me atingiu em cheio. Sou tão fria assim? Sou tão frígida e insensível assim? Por que ele fala de uma forma tão normal, aceitando tão bem? Ainda me forcei a tentar dizer algo, mas ele foi mais rápido:
— É por isso que eu vou me entregar! — minha expressão passou de perplexa para irritada. — Não vou passar o resto da minha vida livre por aí enquanto você que foi a única vítima disso... vai pagar por alguma coisa. — enfatizou se levantando.
Naquele momento fiquei sem saída, fiquei sem resposta. Eu queria acreditar que estava fazendo um bem, mesmo que de alguma maneira todo o peso caísse em minhas costas, mas eu não podia julga-lo por tentar fazer o mesmo. Culpa é uma droga e tava na cara que ele tava sendo consumido por ela. Ah Neji.
— Tem que ter outra saída. — digo num sussurro baixando a cabeça e deixando os braços caírem ao redor do corpo. Ele suspirou, o que novamente chamou minha atenção, o fitei inquisidora e ele respirou fundo:
— É isso ou convencer a Tamaki a não ir pra frente com esse processo. — o olhei com a minha melhor cara de bunda. Como se aquela doente fosse querer pacificidade. — Olha Tenten... Sinceramente, por mim teria esquartejado aquele desgraçado só pelo que ele fez com você. — arqueei as sobrancelhas olhando-o surpresa, ele pareceu ter percebido que falou demais. — Não tinha que te envolver nisso, era só eu e ele... — tentou disfarçar e não me olhou. Falando e tentando parecer convincente. — Eu já aceitei que o que eu fiz não tem volta. Eu vou pagar isso aqui ou no inferno então que seja logo! — exclamou me lançando um olhar desconfiado, desviando rapidamente. Franzi o cenho de maneira inquisidora. Questionei:
— Neji, o que você fez? — meu tom saiu mais alto do que deveria. O Hyuuga então fez uma careta. — Fala! — disse entredentes e ele voltou a me fitar. Puta que pariu, será que ele disse algo? Revelou algo pra polícia e só veio me contar agora? Ah seu maldito, cansei de me ferrar por tua culpa.
— Tenten... A Tamaki ela... Ela me procurou e me deu uma proposta de tirar a queixa contra você e não ir pra frente com o processo se eu... Ficasse com ela. — estou completamente perplexa com o que acabei de ouvir.
Como é que é? Qual é o problema daquele encosto? Acabou de perder o marido que nem deve ter esfriado no caixão e já vem jogar uma dessas? Permaneço com a minha expressão estupefata e surpresa até que meu cérebro consegue finalmente formular algo:
— Qual o problema dela? — joguei quando finalmente consegui elaborar uma frase completa. Estou abismada com a frieza daquela pessoa. Uma manipuladora... Não, ela não é inteligente a esse ponto. Ela é aproveitadora. Sim, está se aproveitando da situação pra conseguir o que quer. — Achando que pode comprar assim a atenção de alguém... — comento mais pra mim que pra ele. Ele continua parado com as mãos na cintura, me observando absorver a informação. — É claro que você não aceitou isso, né? — voltei a fitá-lo ainda irritada, com ela, na verdade. Mirei os olhos incolores enquanto via o tempo passar perante um silêncio sepulcral. Aguardando a resposta dele e nada de sua parte. Franzi o cenho desconfiada. — Neji... Neji você não aceitou isso, não é? — disse mais enfática sentindo o rosto esquentar de raiva, apontando pra ele com uma enorme vontade de arrancar fora aqueles olhos brancos. Ele parecia com raiva também, no limite. — NEJI! — disse mais grave, entredentes. Ansiosa, nervosa e irritada por uma resposta. Mas sinceramente, preferia não tê-la tido.
— E você se importa!? — jogou de volta, alto, como se me gritasse. Inconscientemente me vi pequena, fraca e assustada perante aquela muralha que me fitava como se fosse me bater, me quebrar todos os ossos sem que eu pudesse me defender. Ele me olhava com tanta raiva... Tanta raiva. — Fala sério, Tenten! O que eu faço ou deixo de fazer da minha vida não é da sua conta! — disse enfático. Engoli em seco, querendo revidar, mas me sentindo quase nada perto dele. Senti minhas mãos tremerem numa terrível vontade de chorar. Não grita comigo. — Volta pra sua vidinha de classe média e vai correr atrás de um idiota que talvez te coma direito. Alguém que você não precise pagar! — disse se afastando em direção a porta, mas estava estática, perplexa, pequena. Não tinha reação. Não grita comigo. — Aproveita e limpa isso que tá um chiqueiro. — esnobou antes de bater a porta e me despertar do transe. Uma lágrima solitária escorreu de meu olho esquerdo, assim como minha boca que tremia.
Não consigo definir o que estou sentindo. Mas... Não grita comigo.
Fale com o autor