O poeta descarado

1 Ep1 - O Arrogante


Eu não me lembro de onde venho, mais sei que estou nas ruas por muito tempo. Tenho a sensação de que estou sozinho, mas ando sempre acompanhado do meu cachorro, Duck. Na rua, tenho as estrelas como atração principal, e durante o dia, vejo pessoas indo e vindo de algum lugar. Sempre estão com muita presa, algumas nem me notam, outras me tratam como um pobre coitado que não tem onde cair morto. Mas não me importo. Me incomodo apenas quando alguém vem me oferecer migalhas. Não sou homem de migalhas! Gosto das coisas inteiras.

Duck e eu dormimos em praças e becos. As vezes até dividimos papelões com outros moradores de rua. Carrego sempre comigo meu violão e minha mochila. Dentro dela, levo coisas que acho por aí e dou um jeito de melhorar. Canto para ganhar uns trocados e como sempre na mesma lanchonete antes de cair a noite. O Duck sempre some durante o dia, mas não importa o lugar em que eu esteja, ele sempre me acha e traz um bilhete preso na coleira. Neste bilhete, sempre tem um nome e um endereço. E sempre foi assim, desde que conheci Duck. E pode até parecer estranho, mas ele não me deixa dormir enquanto eu não for ao destino que ele me trouxe. Então eu arrumo minhas coisas e caminho até o endereço que estava preso na coleira de Duck.

As ruas à noite, me lembra filmes românticos. Penso que nada é difícil para quem ama. Me banho com a iluminação da lua e a brisa que corre pelo meu rosto. E por fim, chego em uma praça, e pelo incrível que pareça, à uma pessoa a minha espera. Não literalmente a minha espera, mas é a pessoa com quem devo conversar alguma coisa, a qual o nome estava escrito no bilhete. Duck sempre se apressa para chegar na pessoa primeiro que eu. Facilita muita das vezes a minha abordagem. Então me sento num banco próximo e puxo assunto.

— Bonita a noite, não é?

O chato de se começar um diálogo com um estranho, é que eles não te dão bola de primeira. Te julgam pela aparência e depois analisa o que tem. Com isso, determina se irá falar ou não. E como de costume, eles se levantam e dão as costas. Isso é chato, porquê daí, tenho que chama-los pelo nome, e isso torna um pouco incomodo a situação e assustador por um outro lado.

— Porque não se sentar, Arthur? Está cedo ainda para querer ir embora...

— Como sabe meu nome?

— Meu cachorro me contou, e adivinha só? Foi ele quem me fez vir até aqui.

— Você é louco!

Ser chamado de louco é como receber um bom dia, não tem tanto efeito sobre mim. Acho que virou costume.

— As vezes parecemos estrelas solitárias e perdidas tentando iluminar a escuridão. Se acha mesmo que sou louco, deveria sentir medo ao invés de repugnância.

— Não irei dá ouvidos a um velho que não sabe o que diz.

— Duck, você ouviu! Ele não quer conversa. Posso ir embora agora?

É estranho, eu sei. Mas se eu sair sem a permissão do Duck, ele me morde, e quando faço a pergunta a ele, ele sempre late e aponta uma direção. O foda é que ele ainda apontava o indivíduo arrogante que estava de pé a minha frente.

— O seu cachorro te da ordens? — pergunta Arthur.

— Sim! As vezes.

— Porquê confia num cachorro?

— Porquê não confiar?

— Eu sou um pouco inseguro e um tanto desconfiado. Como sabe meu nome?

— Duck me disse!

— Mesmo se seu cachorro pudesse falar, como ele iria saber? Eu nunca vi esse cão.

— Duck sabe de muita coisa.

— O que ele mais sabe de mim?

— Não sei, mas quer um conselho?

— Que conselho?

— Aquilo que consome a sua mente, controla a sua vida. Nem tudo precisa de atenção. Mude de perspectiva quando a que tiver, for por um caminho difícil.

— Mudar?

— Sim! Mudanças são necessárias na vida da gente.

— Porque acha que devo mudar?

— Porque algumas pessoas amam o poder e você me caro, tem o poder de amar. Só não saber como ou com quem.

— Você é estranho...

Estranho era uma das palavras que eu ouvia bastante também, porém era pior do que ser chamado de louco. Aquela situação não estava me agradando e eu sentia que precisava ir embora, então me levantei antes que Duck pudesse latir e pular em cima de mim, e comecei a andar na direção oposta do menino que estava parado em minha frente.

— Estranha é sua mãe que te colocou no mundo e não soube te dar educação.

— Quem você pensa que é? — grita Arthur.

— Aprenda uma coisa garoto! Seja sempre gentil, mesmo quando a gentileza sair de moda. E ah, antes que eu me esqueça, me chame de PD.

Depois de atravessar a rua e andar por dois quarteirões seguidos, Duck que me acompanhava, já não aguentava mais de faminto que estava. Tirei um pão de dentro da mochila e parti ao meio, dando um pedaço ao Duck.

— É Duck, hoje você não me fez encontrar uma pessoa legal. Mas aquele garoto teve a chance de conhecer um cara legal, tipo eu... Quem sabe da próxima eu não te ajude?