O poeta descarado
2 Ep2 - Você não entenderia
" Se te faz bem, mal nenhum tem." Dizia uma pichação em um muro num beco onde quase ninguém passará. Eu gostei da frase, e fiquei olhando por uns dez a quinze minutos, mas ainda assim, não concordava. Existe o mal em querer fazer o bem e existe o bem em querer fazer o mal. Poucos conseguiram me entender quando disse isso em uma conversa sobre o que comer e de quem roubar, com os moradores de rua, em uma dessas praças da vida. Estavam todos falando do quanto era ruim roubar e lembrando do quanto era preciso comer. E foi quando pensei na frase e acabei dizendo para dá estimulo, mas nada aconteceu. Duck estava ao meu lado fazendo aquela cara de paisagem sem entender o que eu tanto fazia ali parado de frente a um muro. Eu me perguntava o que se passava pela cabeça daquele cão. Ele parecia entender cada situação difícil e mal compreendia um ato simples.
— Ei, Duck? – Duck me olhou e balançou seu rabo de um lado para o outro. – Por que não aprendeu a falar? Você é um cachorro tão estranho!
Passei a mão na cabeça de Duck, e logo em seguida, ele latiu. Parecia querer responder minha pergunta. Sorri, pois ele era um cachorro para lá de esquisito, mas era o meu melhor amigo.
Caminhei até a lata de lixo mais próxima, e procurei por algo útil, não encontrei nada. Duck já não estava mais ao meu lado, imaginava que teria ido atrás de alguém necessitado de atenção ou coisa parecida. Sabia que teria de encontrar outra pessoa por ele, para conversar sobre sei lá o quê. As vezes eu só queria que ele voltasse e ficasse tranquilo e numa boa do meu lado, mas isso nunca aconteceu. Sempre que Duck saia, ele trazia um novo de volta. Eu já até reclamei, mas nada mudou. Ele continuou trazendo os nomes.
Mais a frente, tinha uma moça. Seu cabelo estava bagunçado e suas roupas sujas estavam cheias de buracos e remendos. Tinha uma bolsa enorme que ela carregava e arrastava também um carrinho. Não dei tanta importância, até ela cair com aquela bolsa pesada por cima dela. Corri na direção dela o mais rápido que pude e tentei ajuda-lá.
— Ei, está tudo bem?
— Sim, estou bem! – Dizia a moça que se sentava e levava as mãos até o rosto.
— Está machucada?
— Estou! – A moça disse com uma voz baixa e tremula. Parecia exausta.
— Eu posso te ajudar?
— Eu queria sumir por dias, semanas, meses, sei lá...
— As vezes a solução não está em sumir, e sim em aparecer mais e mais vezes. – rebati, sem ao menos tentar entender o problema dela.
— Sabe? Eu nunca precisei de muito para viver. Eu não queria ser notada. Não queria ganhar muito. Não queria querer muita coisa. Mas como toda pessoa gananciosa e egoísta, eu quis, eu fiz. E como consequência, eu perdi. Mas não perdi muito, eu perdi pouco. Pra falar a verdade, eu perdi o que eu menos esperava perder. E esse pouco que perdi, era tudo aquilo que me motivava a ser quem eu era. E foi assim, de uma hora para outra. Acabou sem ter um fim. Acabou sem despedidas e juras. Acabou porque eu não soube olhar para o lado.
— Perdeu alguém? – quis saber.
— Acho que não é hora para falar disso. Desculpa! – a moça se levanta, e pega novamente a bolsa pesada e a corda que amarrava o carrinho.
— Por favor, não vá! – Parei em frente a moça, que de cabeça baixa estava. – Eu não sei o que aconteceu, mas estou disposto a ajudar. Não somos perfeitos. Somos pessoas com defeitos procurando por alguém que aceite nossas imperfeições. Nossas melhores lembranças não ficam nos momentos bons, mas sempre a algo bom nisso tudo. Não esquecemos do que realmente importa. Não é verdade?
— Verdade ou não, você é um tipo de pessoa que sabe muito bem o que sente, mas finge não sentir para parar de sentir, e desculpa informar isso a você, mas a dor precisa ser sentida, a vida exige isso.
E então a moça que havia caído, tinha se levantado. Mesmo com o peso da vida nas suas costas, ela continuo a andar com uma bolsa pesada e um carrinho que arrastava. Me vi, pela primeira vez sem ter o que falar. Sem argumentos. E me senti como a pessoa que tinha o nome no papel. Me vi nela, mas não podia deixa-lá ir deste jeito.
— Ei! – gritei. – Não guardo rancor. Mas também não tenho amnésia. O erro de algumas pessoas é pensar que palavras podem consertar atitudes. Não quero eu ter que deitar minha cabeça num pedaço de pano qualquer e ainda ter que pensar em como poderia ser as coisas. Eu vou viver, vou construir minha história como eu quero. E assim as coisas vão dando certo.
— Você não pode ser feliz sozinho! – rebateu a moça, que ainda puxava o carrinho.
— Cada escolha uma oportunidade. Cada queda um aprendizado. Cada atitude uma consequência. Acha mesmo que pensei em ser feliz sozinho?
— É o que mostra!
— É o que você quer ver.
— Eu não vejo nada além do que me mostra. E você me mostrou isso. Não me culpe por ter essa opinião sobre você. Eu nem deveria ter uma opinião sobre você. Eu mal te conheço. Disse o que disse por descuido. Não quis me abrir contigo e não mudei de ideia. Então se toca. nem tudo mundo que ajuda. Nem todo mundo entenderá o seu ponto de vista. Então para de tentar me mostrar que estou vivendo de maneira errada. Quem decide viver a droga da minha vida, sou eu!
Então me calei e deixei ela seguir puxando seu carrinho e carregando sua bolsa. Suas palavras foram duras demais e eu não estava em condições de rebater. Não sabia se conseguiria dar conta de mais meia duzias de palavras mal ditas. Resolvi dá as costas e seguir pelo caminho contrario. Quando avistei duck, correndo em minha direção. Sorri, e comentei baixinho: – Já estava na hora, garoto! – Quando Duck passa desesperado por mim, e vai em direção a moça. Morde algo que estava pendurado no carrinho e saí em disparada.
— Ei seu cachorro idiota, me devolve isso! – Grita a moça.
Corro atrás de Duck, que parece não perder o folego e continua a correr, passando pelos carros nas ruas e pelas pessoas.
— Duuuuck. – gritei. – volta aqui!
E Duck correu por mais três quarterões. Sempre que notava que eu iria parar, diminuía para que eu pudesse alcança-lo.
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