Notas iniciais
Oii

Bianca abre a porta, posso deduzir pela sua expressão que está surpresa de ver me aqui. Liguei para Daniel e perguntei aonde Edu estava, contei que estava enfim pronta para conversa, pelo menos a mais pronta que um dia estaria. Meu irmão ficou orgulhoso, seu apoio era essencial.

—Oi querida, entre. Tudo bem?

—Oi. Está sim, preciso falar com Edu. Ele está?

—Claro, vou o chamar. Só um instante.

Ela sobe as escadas, está tudo como lembrava apenas alguns itens a mais na decoração. Tem uma foto de Edu nova em cima da lareira aonde costuma ter uma foto nossa, mesmo a que tinha eu, ele e Dan não está mais ali, pergunto-me se obrigou a mãe a tirar.

—Hey, Emy.

—Oi, podemos conversar?

Edu parece surpreso.

—Sim.

—Você acha que seus pais podem ouvir?

Estou nervosa, meu coração parece querer sair pela boca.

— Creio que não, mas se preferir podemos ir até o jardim.

—Melhor.

Edu segue para a cozinha, ali tem uma porta de vidro que dá para os fundos da casa e onde fica o jardim de rosas de Bianca, área de lazer e a piscina. Tivemos ótimos momentos aqui, alguns amassos escondidos atrás da roseiras, banhos de piscinas. Ficamos frente a frente do lado do jardim de rosas de Bianca.

—Edu, eu preciso falar sobre o que eu fiz a cinco anos, sobre...o aborto.

Meu corpo parece ser outro, quero entrar em pânico. Respiro fundo.

—Emili faz cinco anos, esta um pouco atrasada essa conversa, não?

Seu tom é carregado de ironia e raiva.

—Eu sei, mas eu preciso.

Minha garganta aperta,

—OK, fale.

—Eu não sei por onde começar.

Ele bufa.

—Tem certeza que quer falar sobre isso? Já que não quis antes, tomou decisão sozinha, não é?

Está aqui toda sua mágoa e eu mereço. Mereço cada nota de desprezo que sair da sua boca.

—Eu achei que fosse o que você queria, quando Paula falou da clínica, eu só pensei que era a chance.

—Então você foi e decidiu me avisar por mensagem.

Ele passa a mão nos cabelos. Está tenso, posso ver pela sua postura.

—Você disse que éramos novos e íamos dar um jeito. Eu achei que não ia se importar.

—Por que, Emy? Por que não confiou em mim? Você pediu ajuda de uma estranha, eu, seu irmão, suas amigas, fomos descartados. Eu fui descartado Emili, EU. Era uma parte minha e você não teve a decência de me avisar. O pior não foi você ter feito o aborto, foi você sequer ter me dito. Ainda mandou uma mensagem, uma mensagem. Seu namorado merecia apenas, um fiz um aborto por uma mensagem.

—Eu fui no desespero não pensei direito. Paula disse que podia ficar na casa dos avós dela, então liguei para papai e mamãe, menti que era aniversário da Paula. Eu só queria que tudo voltasse ao normal, eu não queria ser a adolescente grávida. Eu só queria apagar aquele teste da minha vida.

As lembranças inundam minha mente, sinto as lágrimas descendo pelo meu rosto.

—Por que você não me disse, Emy? Nós sempre fomos próximos, companheiros, eu não consigo entender, por que você me ignorou?

Ele grita, a dor nas suas palavras acaba comigo.

—Eu não queria te pôr na sujeira, eu não queria que tivesse que falar para seus pais que tinha concordado com o aborto da namorada. Meus pais iriam me perdoar, mas os seus não. Eu achei que ia fazer, te avisar, ia me dar uma bronca e ficarmos bem. Eu achava que tudo ia voltar a ser como antes.

—Mas eu fui embora né? Eu cortei os seus planos, eu sempre concordei com todos os seus erros, passei a mão na sua cabeça. Acontece que uma mensagem não foi o bastante para passar a mão na sua cabeça dessa vez.

Caminha de um lado para o outro. Eu sabia que não ia ser fácil.

—Quando mandou aquela mensagem que ia se mudar na manhã seguinte e que era o fim acreditei que era só o momento, ia voltar atrás.

—Quis te atingir como tinha me atingindo, eu me senti um nada quando mandou aquela mensagem. Servia nem para a minha namorada pelo menos avisar que estava indo tirar nosso bebê. Eu bebi horrores e mandei mensagem. Deveria a ter encarado, mas eu estava com tanta raiva. Deixei para depois e fui deixando. Então você não estava aqui quando vinha visitar. E o que ia adiantar né, você já tinha decidido por nós dois, não tinha mais como voltar atrás.

—Eu só queria acabar com problema.

—Emili, por que disso agora? Faz cinco anos. Você se livrou do problema, fim. Pare com essa tortura, se não doí em você doí em mim. Eu não consigo lidar com o que fui responsável. Se eu tivesse lembrado da maldita camisinha.

Seu olhar é desesperador, um olhar que eu causei. Se pudesse eu veria meu coração destroçado nesse momento é assim que ele está. Se é que eu tenho um coração.

—Porque eu preciso. Eu preciso contar mais coisas.

Minha voz está embargada pelo choro, engulo o choro e continuo.

—Quando não me procurou eu senti que tinha te perdido, doeu, chorei por dias. Nisso contei para as meninas e Dan. Mas eu ainda achava que tinha sido a melhor opção, você estava indo atrás dos seus sonhos e eu também, sem obstáculos. Um dia conheci Mel era dois anos mais velha que eu, estava na faculdade, ela tinha uma garotinha de um ano e meio. O pai não assumiu, mesmo assim ela teve a menina. Em uma conversa ela disse que ela só tinha feito o que qualquer mãe teria feito, ela amou um pedacinho dela. Angel era nome da menina, tão parecida com a Mel. Mel foi para faculdade, a vida dela não parou. Angel nunca tinha sido um obstáculo pra Mel. Nesse dia eu sonhei com uma garotinha, tinha meus olhos azuis, mas o que mais me encantou foi seu sorriso. Era igual ao seu, eu acordei aos prantos. Eu queria aquela menininha, eu queria a nossa bebezinha, Edu, mas eu tinha a matado, não podia voltar atrás. Eu não sentiria seu cheirinho de bebê, nem a embalaria. Eu não podia voltar atrás. No mês que ela deveria nascer eu tive a primeira crise forte e tomei uma cartela de remédios. Nesse dia, todos conheceram o grande monstro que fui. Psicólogos e psiquiatras tentam me convencer que eu devo me perdoar, eles não sabem que todos os dias quando fecho e abro meus olhos é ela que vejo, a minha menina, seu sorriso. Eu não aguento mais, eu não suporto mais. Eu não posso voltar atrás, Edu, não existe a porra de uma máquina do tempo. Eu só queria me livrar dessa dor, dessa culpa. Eu tentei duas vezes, tentei acabar logo com tudo, mas meus pais, não posso fazer isso com eles.

Eduardo

Emy chora descontroladamente na minha frente, seu choro é desesperador. Soluça, seu corpo treme.

—Eu sinto tanto.

—Emy, eu não sabia. Acreditava que estava bem com a decisão que tomou.

Ouvir da sua boca que tentou acabar com a própria vida acabava comigo, eu não poderia sequer imaginar a ideia de ter que me despedir assim dela. Doía saber que tinha abortado nosso filho, a culpa que podia ter evitado me corroía, nela deveria ser mil vezes pior. Droga, quero descontar a raiva em algo. É isso, raiva. Raiva da vida.

—Eu sinto tanto, eu faria qualquer coisa se pudesse voltar no tempo. Eu só queria a aqui

Ela chora, puxo a para meus braços. Seu corpo treme, seu desespero é notável. Passo a mão sobre seu cabelo. É uma garota quebrada, minha Emili, minha garotinha está destruída. Eu a amo, acima de tudo eu a amo. E dói a ver assim, ainda mais sabendo que tenho uma parcela de culpa, se eu tivesse evitado.

—Sabe ela tem seu sorriso.

Diz com a voz tremida do choro.

—Ela quem?

—A menina dos meus sonhos.

Ela sai dos meus braços, lagrimas ainda são derramadas, morde os lábios.

—A nossa filha, sonho com ela.

Fecha os olhos, suspira. Quando volta a abrir os olhos estão tomados pela dor.

—É tão linda. Toda vez que acordo e não a vejo, lembro que sou a responsável por isso. A pior parte é saber que eu sou culpada, às vezes eu encaro meu reflexo no espelho e o culpo, simplesmente para poder xingar, culpar outra pessoa. Eu culpo meu reflexo para poder imaginar como é não conviver com a culpa, porque eu não lembro mais a última vez que senti livre, com a consciência livre.

Sinto minhas próprias lagrimas descer pelo meu rosto. Quando recebi a mensagem, eu senti tanta raiva. Era um filho nosso. Além disso ela sequer tinha vindo a mim, não avisou, nada. Mas vendo seu desespero, vendo o quanto está destruída tudo fica lá, só quero cuidar dela. Aliviar a sua dor.

—Vai ficar tudo bem.

—Edu você sente nojo de mim?

Seu olhar é perdido.

—Não, Emy.

—Será que um dia vai conseguir me perdoar?

—Vou, eu já perdoei.

Beijo sua testa.

—Vai ficar tudo bem, garotinha.

5 anos antes.

Positivo. Encaro Edu. Tomamos um porre e esquecemos da camisinha e nesse exame está a prova da consequência.

—Somos tão novos, mas vamos dar um jeito, garotinha

Lágrimas rolam pelo meu rosto. Adormeço com Edu dizendo que ia ficar tudo bem. No dia seguinte Edu já tinha ido embora. Na escola passo mal, uma colega me ajuda. Paula. Vejo quando reconhece qual minha doença, seu olhar é de pena. Odeio esse seu olhar.

—No interior, cidade dos meus avós. Tem uma clínica. Se quiser podemos ir até lá.

Não penso, é sexta. Peço para papai, um fim de semana com Paula no interior, seu aniversário. Edu não precisa concordar no momento, seus pais não aprovariam. Nem os meus. Mas sei que vou ser perdoada. Edu não. É uma casa normal por fora, bonita de dois andares, por dentro uma clínica. Uma médica mesmo, trabalha em um hospital e por fora realiza o procedimento. Não pergunta se quero isso mesmo, apenas pede o dinheiro. Tenho mesada, tenho dinheiro a minha disposição. Tinha a quantia. Sou sedada, quando acordo não tenho mais nada, sou só eu. Passa me umas vitaminas, mede pressão. E acabou, menos de 24 horas, sinto dores e ela diz que é normal, que talvez sangre, mas é normal.

Mando uma mensagem para Edu, não quero ligar. No momento vai discutir, depois passa.

Eu fiz um aborto.

Sinto sono, durmo. Acordo com uma mensagem sua.

Acabou, Emíli. Amanhã vou embora.

Choro, mas sei que vai passar.

Não passou, ele não voltou.

Eduardo

Um filho. Éramos novos, mas íamos conseguir. Tínhamos o principal amor, tinha certeza que nossos pais não nos deixariam na mão. Havia dinheiro suficiente. Montei mil planos, saídas. Quando Daniel falou que a irmã tinha viajado, estranhos afinal ela não me avisou. Fiquei preocupado, ela tinha passado mal algumas vezes. Passei dia preocupado até receber sua mensagem. Meu mundo caiu, meus planos também. Parece que Emíli não me amava suficiente para confiar em mim, se tivesse me falado. Ela sequer perguntou o que achava, sequer me falou. Se eu tivesse lembrado da porra da camisinha, ela matou meu filho e culpa era minha. Precisava afogar minhas lágrimas, bebi. Precisa me vingar então mandei uma mensagem, ela tinha acabado meu mundo por uma mensagem eu terminei com ela do mesmo jeito. Eu só queria que sentisse a mesma dor que eu.

"Se lembra quando a gente
Chegou um dia a acreditar
Que tudo era pra sempre
Sem saber que o pra sempre sempre acaba"

Por Enquanto- Renato Russo

Notas finais
Até amanhã ♥