O poder da saudade
8 Capítulo 8
Notas iniciais
Durante alguns minutos, o silêncio permaneceu no local. Adrien encarava atentamente seu pai, que continuava sentado na cadeira giratória, de costas para ele. O loiro lembrou da pergunta feita por sua tia: "quando a relação de vocês chegou a esse ponto? De discutir toda vez que conversam?" Ele realmente não queria que fosse assim.
— Alguns dias antes de você viajar, completou um ano desde o desaparecimento da sua mãe. — Gabriel, finalmente, quebrou o silêncio.
— Sim, eu sei. — Respondeu o loiro.
— Eu… tentei ocupar minha mente com o trabalho, achando que ia esquecer a ausência dela, mas… sentia que ela estava presente, de alguma forma. Não em fotos, mas em algo bem mais forte. Foi então que eu percebi. Os olhos, o sorriso e até a teimosia dela estavam aqui, em você. — Adrien surpreendeu-se com a confissão repentina do pai — Te coloquei em aulas de esgrima, chinês e piano para te manter distante de mim, achei que meus problemas tinham sido resolvidos, mas sempre acabávamos nos encontrando. Pensei que te manter distante de mim era a melhor maneira de esquecermos tudo isso…
— Tudo isso o quê? Que um dia minha mãe esteve aqui? — O menino não conseguia acreditar no que estava ouvindo.
— Não é isso, Adrien. — suspirou — Pensei que poderíamos continuar nossas vidas e…
— Vida? Chama isso de vida? Afastar seu filho de você só porque ele te lembra sua esposa que desapareceu? Então eu estava certo. Esse tempo todo, o senhor só queria se livrar de mim.
— Eu nunca quis me livrar de você. — disse o homem, ainda de costas.
— Ah, não? Então por que me mandou para outro país? Tenho certeza que não foi para me proteger.
— Eu… estava com medo. Já perdi sua mãe, não quero perder você também por causa desses "akumas".
— Me perder não seria muito ruim para o senhor não é? Afinal, nunca mais teria que olhar para minha cara, que lembra tanto a minha mãe.
— O quê? Adrien, eu já disse que não quero me livrar de você. Você é meu filho e é a melhor lembrança que eu tenho da sua mãe. — O silêncio permaneceu durante alguns segundos.
— Então por que o senhor me mandou para outro país? — perguntou o loiro.
— Eu… estava confuso. Pensei que poderíamos começar uma vida nova, mas agora sei que estou errado. Tentei voltar atrás e liguei para a casa da Margot, mas ela sempre dizia que você estava dormindo ou que não podia falar. Eu conheço a minha irmã, sei quando ela está mentindo, então imaginei que você não queria falar comigo. Resolvi parar de ligar e seguir a minha vida. — O silêncio voltou a permanecer no local. — Olha, eu sei que você está com raiva de mim. E eu te entendo. Te afastei da sua cidade e de seus amigos, sem nem perguntar se era isso o que você queria. E fiz tudo por um desejo egoísta que não faz o mínimo sentido.
— Não faz mesmo.
— A Margot estava aqui e me contou sobre você. — O loiro ficou apreensivo. Será que ela tinha falado sobre seu amor secreto? — Ela me disse que você estava infeliz lá e com muita, muita raiva de mim. — O loiro imaginou a tia dizendo aquilo e sorriu — Também me disse que não adianta tentar esquecer sua mãe, isso será impossível, principalmente quando se tem um quadro enorme dela na casa. — Os dois riram — E… eu odeio dizer isso, mas a minha irmã tem razão. Bom… eu já consigo imaginar sua resposta, mas mesmo assim irei perguntar. Você me perdoa? — O loiro ficou em silêncio. Não acreditava que o pai tinha mudado tanto em tão pouco tempo.
Gabriel virou a cadeira giratória e Adrien pôde ver os olhos do pai. Estavam vermelhos e uma lágrima insistia em cair pelo rosto dele. Nas mãos, o mais velho segurava uma foto de sua esposa.
— Me desculpe, pai, mas eu não consigo te entender. Me afastar para esquecer a minha mãe? Eu ainda não consigo acreditar no que ouvi.
— Eu imaginei que você fosse dizer isso…
— Eu… também sofri muito com o desaparecimento dela e sofri sozinho. O senhor não me ajudou, pelo contrário, me colocou em diversas atividades como se nada tivesse acontecido e o pior, nem me perguntou o que eu realmente queria, o que eu gostava de fazer. Quando me deixou frequentar a escola pública eu pensei que, finalmente, nossa relação iria melhorar, mas agora eu sei que tudo o que o senhor queria era mais um motivo para ficar longe de mim.
— Eu pensei que você faria amigos na escola e eles iriam te ajudar a esquecer…
— Pai, você não entende? Eu não quero esquecer! — Gritou o loiro, deixando uma lágrima cair. — Lembra de quando a mamãe cantava para que eu pudesse dormir?
— Lembro. A voz dela te acalmava de um jeito que até hoje eu não sei explicar.
— E no Natal? Quando a tia Margot ainda morava aqui? Minha mãe tocou algumas músicas natalinas no piano e nós cantamos.
— Foi o melhor Natal da minha vida. Nós nos divertimos tanto nesse dia.
— Viu? Não devemos esquecer dela. Mas lembrar e mantê-la por perto, em nossas memórias.
— É, você está certo. Eu… sinto muito por tudo o que te fiz passar.
— Tudo bem. — Disse o loiro, abraçando o pai e deixando mais lágrimas caírem, mas desta vez eram de felicidade. Finalmente tinham se reconciliado. Ficaram abraçados por alguns minutos.
— Agora posso te perguntar como foi a viagem?
— Bom, foi ótima, tirando as turbulências e a demora. Mais de dez horas em um avião! Dez horas! — os dois riram.
— E como foi lá? Gostou de Pequim?
— Sim, gostei muito e o meu chinês melhorou bastante, já que a tia Margot não me deixava nem assistir um filme em francês. — riram novamente — Estou tão feliz.
— Por ter voltado para sua cidade? — perguntou o mais velho.
— Pelas coisas terem voltado a ser como eram antes. — Gabriel olhou para o porta-retrato com a foto da esposa.
— Nem tudo… — Adrien abraçou novamente o pai e assim permaneceram por mais alguns minutos. Um turbilhão de sentimentos estava contido naquele simples abraço: saudade, arrependimento e felicidade. — Eu… sinto tanta falta dela.
— Eu também. Mas um dia toda essa dor vai terminar e tudo voltará a ser como antes. Eu sei, um dia, ela vai estar conosco novamente.
— Você acha?
— Que ela vai voltar? Com certeza.
— Não… que tudo voltará a ser como antes.
— Disso eu não sei. Mas é só uma questão de tempo até que…
— Quanto tempo, Adrien? Quanto tempo? Estamos esperando há um ano e nada. Estou começando a perder as esperanças.
— Não perca, pai. Ela vai voltar, eu sinto isso. — Novamente se abraçaram. — Vamos? A tia Margot deve estar entediada.
Quando chegaram na sala, a irmã de Gabriel surpreendeu-se em ver o sobrinho e o pai sorrindo.
— Não acredito! Vocês ainda estão vivos? Pensei que não iam sair daquele escritório nunca! Já estava nervosa, a Nathalie me deu até um chá de camomila para me acalmar.
— Sério? — perguntou Gabriel.
— Do jeito que o Adrien falava de você…
— Tia! — disse o loiro, fazendo todos rirem.
Os três continuaram conversando até Adrien olhar para o relógio e lembrar de uma coisa muito importante. Aquele dia ainda não tinha chegado ao fim.
— Bom, está ficando tarde, eu estou muito cansado da viagem e ainda tem a questão do horário. Vai ser difícil me acostumar de novo. Eu… vou dormir. Boa noite.
— Boa noite!
— Boa noite! — Gabriel e a irmã disseram juntos.
Adrien foi para o seu quarto e encontrou tudo exatamente do jeito que deixou. Arrumou suas roupas que estavam na mala em seus devidos lugares e deu um pedaço de queijo para Plagg.
— Ah, meu querido camembert de Paris! Como eu senti sua falta! — disse o kwami, enquanto engolia de uma só vez um pedaço de queijo que era quase de seu tamanho.
— Não sei qual é a diferença. Todos tem o mesmo cheiro horrível. — disse o loiro, torcendo o nariz.
— Você não entende nada sobre queijo.
— Entendo que você precisa dele para me transformar.
— Vai se transformar? Hoje? — o loiro assentiu.
— Agora.
— Para quê? — perguntou o kwami.
— Encontrar a Ladybug.
— É sério, Adrien? A essa hora, ela já deve estar dormindo, o que você deveria estar fazendo.
— Não vou conseguir dormir sem vê-la, Plagg.
— Você pode vê-la em seus sonhos, como sempre.
— Preciso ouvir aquela bela voz, ver aquele lindo sorriso e voltar a encarar aqueles lindos olhos azuis.
— Ai, que coisa mais brega!
— Plagg, mostrar as garras!
— Não, espera! — disse o kwami, que logo foi sugado pelo anel de Adrien, seu miraculous, e o transformou, depois de mais de um mês, em Chat Noir. O loiro tinha até esquecido como era a sensação de liberdade que a transformação o proporcionava. Como super-herói, poderia ser ele mesmo.
O loiro vagou pela cidade, em busca de sua amada, mas não a encontrou. Passou pelos principais pontos turísticos, e nada. Foi então que lembrou do lugar mais óbvio de Ladybug estar e, por isso, o menos provável: a torre Eiffel.
Chat Noir chegou ao local e um sorriso se formou em seu rosto quando viu a azulada de costas, observando as luzes da cidade, exatamente como a vira pela última vez. Se aproximou e a encarou por alguns segundos. Estava apreensivo. Será que ela o responderia dessa vez? Como não tinha nada a perder, resolveu arriscar:
— Sentiu minha falta, my lady?
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