O paraíso
6 A quinta pessoa
Notas iniciais
O silêncio encheu Hawks de dentro para fora. A conexão mental recém-descoberta se foi, restou um buraco em forma de Touya. Hawks o chamou repetidas vezes, em sussurros trêmulos e gritos raivosos, mas apenas o eco de sua voz ressoou no apartamento carbonizado.
Touya não estava lá e Hawks não sabia como chegar até ele.
Apertou os braços ao redor de si. Um frio ártico dissipou qualquer sinal de calor. Sem as asas, a impotência reduziu-o a uma coisa frágil demais para sustentar o próprio peso. Encolheu-se no chão em meio as cinzas de suas penas. Congelou no vazio, implorando ao céu para levá-lo de uma vez a sua quinta e última pessoa.
*
Um tempo indeterminado se passou — uma hora ou um ano, Hawks não saberia precisar. Então o apartamento enegrecido pelas chamas começou a desvanecer. Um espaço em branco o substituiu; sem início, meio ou fim.
Ali, Hawks viu uma mão invisível desenhar os contornos de um novo lugar.
Um piso de madeira surgiu sob o corpo dele. Paredes de tijolos avermelhados criaram um cômodo amplo. O teto apresentou um limitado conjunto de lâmpadas que mergulhou o ambiente na penumbra. Mesas e cadeiras de aparência gastas ocuparam os espaços vazios. Um largo balcão de madeira apareceu diante de Hawks, junto com bancos altos de estofado vermelho-sangue. Prateleiras iluminadas por luzes de LED deram destaque para uma vasta coleção de garrafas de bebida.
Um bar, percebeu Hawks.
A falta do peso das asas comprometeu seu equilíbrio e uma dor no estômago trouxe memórias infelizes dos seus últimos dias na terra. Em posse desse corpo deteriorado, apoiou-se em uma cadeira para se levantar. Olhou ao redor com o cenho franzido. O bar emanava uma energia perigosa, semelhante aos antros de vilões que visitou ao longo de sua carreira como herói. O silêncio sepulcral tornou o ambiente ainda mais ameaçador. Saber que sua quinta pessoa estava em um lugar como aqueleo inquietou.
— Tem alguém aí? — Um tilintar de vidro soou atrás do balcão. Hawks usou a cadeira como um andador para se aproximar. — Olá?
Um borrão negro irrompeu de pé e exclamou:
— Escolha o seu veneno!
Hawks congelou. As bordas de sua visão se estreitaram até restar apenas os olhos brancos da máscara a sua frente. Encarou-a de boca aberta, a respiração estrangulada.
— Qual é, Hawks, não vai cumprimentar o seu velho amigo? — Twice meneou a cabeça e sua voz mudou de tom. — Espera, não somos amigos! Você me matou!
Hawks apertou a cadeira em suas mãos. Sentiu as palmas viscosas — não de suor, mas de sangue. Um sangue que passou décadas tentando lavar.
Twice inclinou-se sobre o balcão e descansou o queixo nas mãos. O preto profundo do traje de vilão se destacou contra o brilho das prateleiras de bebida. A máscara era uma barreira para suas expressões, mas sua linguagem corporal falava sobre uma pessoa sem qualquer preocupação no mundo.
Hawks, ao contrário, enrijeceu como concreto. Flashes de Twice sorrindo durante seus encontros disputavam espaço com a imagem de seu corpo morto sobre o chão. Uma história dividida em três atos: manipulação, traição e assassinato. Hawks fora o autor; Twice, o lamentável protagonista. O final trágico costumava fazer sentido. Quando duas pessoas não cedem, uma delas tem que morrer. Era a conclusão lógica. Contudo, sustentar a lógica se mostrou um desafio quando Hawks encarou o homem que apunhalou pelas costas.
O homem que chamou de amigo.
— Twice...
— E aí?
— Você...
— O que?
O caos no interior de Hawks dificultou o processo de formular frases. Twice estava ali. Não era um clone ressuscitado para ser a arma de guerra dos vilões. Não era o fruto de um pesadelo regado a culpa e medo. Ele estava ali. Esperando pacientemente enquanto Hawks reencontrava sua capacidade de raciocinar.
Twice morreu há trinta e cinco anos. Por trinta e cinco anos, Hawks acalentou um único desejo:
— Não queria ter te matado.
*
A morte de Twice nunca fez parte dos planos. Sim, o HPSC exigira a neutralização do vilão. Eles também deram o aval para o assassinato de um herói do alto escalão, até ofereceram os meios para encobrir o crime. Nos dois casos, Hawks dispensou as frias resoluções da diretoria e seguiu o caminho mais arriscado.
Às vezes, tirar vidas era uma necessidade, mas nada o fazia esquecer que o principal objetivo do trabalho era salvá-las.
Por isso, assim como fizera com Best Jeanist, investiu tempo e recursos para dar a Twice uma chance de sobreviver. Agentes confiáveis o escoltariam até a delegacia, onde uma dupla de advogados já aguardava para auxiliá-lo durante o depoimento. Hawks se oferecera como testemunha da instabilidade mental de Twice. O homem não era uma pessoa ruim, só estava doente e em péssimas companhias. Se ele se entregasse sem resistência, conseguiria uma significativa redução de pena.
Foi por esse detalhe que o plano de Hawks falhou.
*
— Você queria que eu traísse os meus amigos — disse Twice. — Não sou você, seu traidor covarde! A Liga era... um bando de psicóticos! ... Eu amo esses malucos, sabia? Não menospreze eles!
Pela segunda vez na trajetória de sua existência, Hawks olhou para Twice e se sentiu o mais impotente dos homens.
Se Twice tivesse cedido, se tivesse aceitado a proposta dele, Hawks teria o levado em direção a um futuro decente, longe dos perigos da vida criminosa. Hawks ficaria do lado dele. Seria seu protetor, seu financiador, seu amigo.
Mas Twice o rejeitou.
E continuava a rejeitá-lo.
— Por quê? — Era a pergunta cuja resposta nunca encontrou. — Eu também era o seu amigo. Por que não me escolheu?
— Meus amigos nunca tentaram me matar. Tentaram, sim! Não tentaram!
Os olhos de Hawks se encheram de lágrimas. A culpa ganhou um peso diferente ao notar que condenou Twice a uma eternidade com a mente em colapso.
— A Liga nunca te ajudou a melhorar. Se você tivesse recebido o tratamento adequado, as coisas teriam sido diferen...
— Ah, sim! — Twice o interrompeu. — Quase esqueci.
Twice pulou por cima do balcão e atingiu um soco no rosto de Hawks.
A ausência de uma explosão de dor não diminuiu o impacto do golpe. Hawks desabou no chão. Antes dele sequer considerar uma reação, Twice pressionou o joelho em seu estômago.
— Isso é por tratar a minha vida como algo miserável E isso... — Twice desferiu outro soco. — ... é por ser um idiota arrogante. Isso... — Outro soco. — ... é por questionar a minha lealdade. — Outro soco. — Isso é por me enganar! — Outro soco. — Por trair os meus amigos! — Outro soco. — Por estragar os nossos sonhos! — Outro soco. — Por me matar!
Hawks não tentou se defender — dos golpes ou das palavras. Um fluxo de lágrimas escorria pelas laterais do rosto. Ansiou pela intensidade da dor física. Sentia apenas o latejar que motivou sua morte e uma agonia a dilacerar o seu peito.
Twice era o seu amigo, mas... talvez... Hawks nunca tenha sido amigo de Twice.
*
Hawks lembrava do incidente como uma experiência extracorpórea. Os instintos de anos de treinamento assumiram a posse do corpo dele enquanto seu espírito flutuava a dois passos de distância. A aparição furtiva de Dabi era a prova de que cometera um erro fatal. Logo ele, o homem rápido demais para o próprio bem, perdera um tempo precioso tentando convencer Twice a salvar a si mesmo.
Twice não lhe deu ouvidos. Dabi o encurralou. Já não havia mais salvação para qualquer um deles. Restava para Hawks cumprir a missão.
Tudo aconteceu em questão de segundos. Hawks viu as costas de Twice do outro lado do cômodo — partindo para a batalha, para ajudar os vilões a machucar mais heróis e pessoas inocentes. Então tudo ficou preto. Quando o mundo voltou ao foco, Twice estava caído em uma poça de sangue. Somente quando Dabi surgiu com sua ira vingadora que Hawks se deu conta do que fizera.
*
— Eu te matei — disse Hawks, cansado demais para atenuar a verdade de suas ações. — Me desculpe, Twice. Você merecia mais.
Twice soltou um suspiro pesado e, sem aviso, retirou a máscara.
O rosto dele não era uma visão com a qual Hawks estivesse familiarizado — a única vez em que o viu por completo foi no fatídico dia em que o matou. Twice tinha olhos acinzentados, do mesmo tom de nuvens de chuva. Aparentava estar na faixa dos trinta anos. Uma leve camada de barba recobria a mandíbula quadrada. Os cabelos loiros desafiavam a gravidade em uma bagunça espetada. A ausência de sobrancelhas era algo que Hawks lembrava bem, porém estava em dúvida se Twice tinha ou não uma cicatriz no meio da testa. Agora, nenhuma cicatriz marcava a pele dele.
Twice encarou a máscara.
— Esqueci o quanto essa coisa é sufocante.
Jogou-a por cima do ombro, displicente. Hawks ergueu as sobrancelhas.
— Você não precisa da máscara para... — se manter unido?, pensou, incapaz de cutucar a ferida em voz alta.
— Esse é o meu paraíso, cara. É claro que não preciso dessa merda. — Twice se ergueu. Com movimentos firmes, que combinavam com a estabilidade de sua voz, puxou Hawks para colocá-lo de pé. — Demorou um tempo, mas até um maluco como eu pode encontrar a paz.
Ele se apoiou no balcão enquanto Hawks se acomodava pesadamente na cadeira. Olhar em seus olhos desnudos era uma experiência nova. A expressão de Twice misturava placidez e seriedade, duas emoções que Hawks não associaria ao vilão mais insano da Liga.
— Quer saber, entendo por que me matou. Quando duas pessoas não cedem alguém tem que morrer e essas coisas. Eu teria te matado se tivesse a chance, pode apostar. Essa conversa aconteceria de um jeito ou de outro.
— Sei que não tenho o direito de te pedir perdão, mas... sinto muito, por tudo.
As palavras flutuaram no ar, pedindo clemência, oferecendo um coração.
Twice colocou uma das mãos no ombro de Hawks e deu um aperto forte.
— Nunca vou te perdoar. — Com um tapinha leve, quase consolador, se afastou. — Lide com isso, Hawks. Adeus.
Hawks abriu a boca — para aceitar ou protestar, não tinha certeza —, porém uma rajada de vento o calou. A escuridão o engoliu.
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