O paraíso
7 O paraíso
Luzes brancas iluminavam o corredor vazio. A largura comportava a passagem de duas pessoas lado a lado — medidas milimetricamente calculadas para permitir a agilidade do fluxo de agentes no menor espaço possível. O HPSC prezava a eficiência nos mínimos detalhes. Dezenas de portas metálicas ladeavam o corredor, nenhuma com identificação. Qualquer um que ali passasse devia saber para onde ia ou perderia horas batendo em portas erradas. E o HPSC não tolerava erros, tampouco atrasos.
O treinador de Hawks guiou-o pela mão todos os dias durante seu primeiro ano na agência. No segundo, os pés dele já tinham memorizado o trajeto. Seguia a rotina no automático, passo a passo, até chegar no destino definido na agenda: sala de treinamento, sala de estudos, sala de reuniões, enfermaria...
Por anos, a principal paisagem da vida dele era a linha reta daquele corredor.
Deparar-se com a intransigência das paredes cor de chumbo após encontrar suas cinco pessoas mergulhou Hawks na mais profunda desolação.
Estava no inferno.
Hawks avançou a passos lentos. Seus olhos não avistaram o final do corredor, apenas um caminho infinito emoldurado por portas fechadas. Ecos do passado encheram seu peito com a ansiedade de não saber para onde ir, embora soubesse racionalmente que nenhum treinador o puniria por se atrasar.
Estar ali já era sua punição.
*
Contudo, o céu não aplicava punições. Neste ponto do espaço-tempo, cada pessoa definia seu destino com base nos próprios conceitos.
O inferno era inescapável para aqueles que o carregavam dentro de si.
*
Hawks nunca perdoaria seu pai. Pessoas ruins mereciam ir para lugares ruins. O fato dele terminar do mesmo jeito era um desenvolvimento lógico.
Fora um péssimo filho.
Um péssimo marido.
Um péssimo amigo.
Tentara ser um herói. Conseguira por pouquíssimo tempo.
Até o fim de seus dias, fora o soldado perfeito da Comissão. Uma vida em linha reta, usando os fins para justificar os meios, sem se desviar do caminho programado.
Nunca importou o quanto odiava aquela vida.
*
O paraíso era inevitável para aqueles que descobriam onde guardaram o seu coração.
*
Hawks tinha determinação para punir a si mesmo pelo resto da eternidade. Porém, lhe faltava a frieza para esquecer a jornada.
O sorriso doce de sua mãe.
A versão infantil de Endeavor.
O otimismo de Saeko.
O revirar dos olhos de Touya.
As palavras de Twice.
Lide com isso.
Hawks deteve seus passos. Afinal, por que Twice disse isso? Soou mais como uma constatação do que uma condenação. A lógica, melhor amiga de Hawks nos momentos difíceis, argumentou que Twice não era obrigado a perdoá-lo. Logo, também não era responsabilidade dele o destino da alma de Hawks.
Hawks era o responsável pelos seus erros. Lidar com as consequências era sua obrigação. O vazio em suas costas provava que o passado o acompanharia aonde quer que estivesse. Um corpo mutilado, uma peculiaridade perdida...Não havia como mudar. Contudo, estar no inferno era... uma escolha.
O horizonte infinito daquele corredor árido fora uma escolha da culpa. Hawks não queria estar ali. Havia um lugar —um paraíso— a sua espera.
— Ei, céu — disse ele —, quero ir pra casa.
Um clique quase inaudível atraiu o olhar dele. Uma das portas se abriu e luz quente escapuliu pela fresta.
A verdade lhe trouxe leveza. Um folego novo inflou seus pulmões. A dor se foi. Hawks atravessou a porta a passos firmes.
Um calor tocou sua mente, junto com a consciência de que havia mais alguém ali, dentro dele.
Bem-vindo de volta, penas.
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