O nascimento de Pain

3 O traidor de Nagato


Mais um dia em sua sentença, cada dia ali parecia eterno e cada nova manhã desperta roubava de si uma dose de esperança, deixando-a pouco a pouco mais evanescida. Konan se levantou da cama simplesmente porque não aguentava mais ficar ali com os olhos abertos olhando para o nada, pensando igualmente em nada.

A noite anterior fora difícil, mais uma. A tal organização de assassinos sujos e mercenários fora finalmente concluída e conquistada pelo ruivo através de acordos mundanos e chantagens das mais sujas e baixas. Mas isso pouco importa, a felicidade doentia de Nagato por ter alcançado seus interesses após tantas disputas o levou mais uma vez ao quarto de sua “amada” prisioneira.

Mais uma noite de terror para a azulada, banhada a sangue e lágrimas pela violência que ele não ligava em lhe causar. Mais uma manhã em que seu corpo acordava completamente sujo, ferido e dolorido, suas costas doíam tanto que teve praticamente que se arrastar pelo colchão até conseguir alcançar sua extremidade e colocar-se finalmente de pé, mal podendo se manter ereta.

Os punhos marcados pelas amarras de aço ardiam em vergões paralelos que ela evitava olhar enquanto guiava os dedos mais finos de quem em todo esse tempo perdera mais quilos do que um ser humano pode ser capaz de suportar, pela esfera da maçaneta da porta do banheiro. A claridade do novo ambiente a incomodou demais, desde as últimas semanas quando Nagato passou a abordar-lhe quase diariamente Konan passou a esquecer de ligar as luzes dos aposentos e também de abrir as janelas, temia que a menor claridade pudesse a fazer ver sua própria imagem refletida em qualquer objeto.

Sua pele além de mais pálida estava mais fina, ela não podia evitar perceber o detalhe enquanto removia o que restava das roupas rasgadas e ensanguentadas, seu próprio sangue. Descobria sem surpresa os muitos hematomas, alguns novos causados na noite anterior outros ainda não curados de datas posteriores. Não chorava mais ao vê-los, apenas deixava a água morna cobrir seu corpo enquanto passava com leveza a esponja macia pelos locais feridos. Mais um dia, quantos dias? Sua pena era cada vez mais perpétua.

Realmente acreditou que um primeiro contato com Yahiko fosse uma fonte de esperança, mas essa fonte logo se secou. Controlar o próprio corpo era uma tarefa que exigia demais do ruivo de mechas alaranjadas e eram muito raras as vezes que tinham conseguido ultrapassar aquela mesma singela barreira que havia lhe dado esperança longos meses atrás.

Konan até tinha contado o segredo para o namorado, mas era impossível distinguir se ele tinha mesmo entendido, sem falar no temor que era não saber se seu algoz era capaz de interceptar ou não os pensamentos de seus bonequinhos vudus. Acima de tudo tinha vergonha de se mostrar à Yahiko daquela maneira deplorável e na maioria dos últimos dias tinha feito todo o possível para evitar ou fingir não ver o corpo pela casa, mas pouco faria diferença, pois já cansara das vezes que tentara explicar ao ruivo que apesar de ser parte de Nagato havia uma linha tênue de individualidade entre seus corpos.

Era essa linha que tinha que ser utilizada como uma última e arriscada manobra para se ver livre daquele inferno, pois Konan sabia que cada corpo era ligado e ao mesmo tempo separado de Nagato de forma como que se um dos corpos sofresse algum dano o dono do Rinegan não sofreria em seu próprio corpo a perda. Sabia que não podia lutar contra todos os corpos mais Nagato, mas com pelo menos um ao seu lado era possível sonhar em arriscar, entretanto, a consciência de Yahiko se mostrava tão distante.

A água que caía do chuveiro enchia aos poucos a pequena e estreita banheira arredondada de granito branco. Konan se sentou abraçando as próprias pernas flexionadas enquanto olhava a água cair diante de si.

Diante de tudo que já tinha passado seu íntimo desejava intensamente o passado distante quando se escondia da guerra com seus dois amigos órfãos, pois até mesmo passar fome fugindo pelas ruínas da pequena vila devastada era menos degradante que aqueles dias de terror em seus dias cárceres. Ali sentada naquela banheira era fácil ver um fim rápido para tudo isso.

No começo ela apenas não se matava, pois fazer isso seria como fazer a morte de Yahiko ser em vão, mas depois de tantos meses... ela já estava mais morta do que viva. Ela soltou as pernas e deixou seu corpo pender para trás até ser amparada pelo mármore gelado, escorregou o corpo a todo comprimento até ficar deitada.

A água subia torneando o corpo cobrindo-lhe primeiro as pernas, as coxas, o ventre e abdome muito magro, ombros e joelhos até cobrir boa parte de seus seios já tocando em seu queixo e orelhas. Agora já era fácil escorregar um pouco mais seu corpo e submergir em meio ao calorzinho gostoso da água morna que dava ao corpo gélido a gostosa sensação de deixar um mundo para entrar em um outro muito melhor. Ela queria deixar esse mundo.

Sem se importar com a ardência incomoda os olhos claros permaneceram abertos fitando o teto distorcido sobre o espelho de água que a cobria, submersa, as gotas insistentes do chuveiro vibravam embalando seus pensamentos nulos, lembrando-lhe da chuva. Não era mais o anjo educado por Jiraya, era apenas um fantasma tão fantoche de Nagato quanto seus cinco cadáveres.

Na mente turva duas crianças perdidas com fome e frio na chuva. Sempre chovia. Dividir o que não tinham com aquele garoto de olhos estranhos aparecido do nada foi tão natural quanto os pingos ávidos da chuva fria.

Crescer, dividir, sonhar, proteger, Nagato era aquele que jurou nos proteger a qualquer custo e fora justamente Nagato quem nos matou. “Yahiko” o sussurro não deixou a mente, mas Konan fechou os olhos para ver o rosto bonito da felicidade em pessoa, o ar já lhe fazia necessário, mas não tinha a mínima intenção de se mover para buscar por mais. Tudo o que queria era ter a imagem de Yahiko lhe sorrindo até perder a consciência.

Quase imediatamente lembrou-se daquele beijo, o primeiro e único beijo, a confissão de amor, sua sentença de morte. Perdeu-se na lembrança daquele beijo, o sorriso, Yahiko, seu amor. Os dedos em suas mechas eram quase como se fossem reais, não queria perder aquelas imagens por nada, mas estava cada vez mais difícil ficar sem respirar. Zonza as coisas ficam confusas, a presença de Yahiko era tão forte em si que quase acreditava que ele estava mesmo ali.

Sem saber exatamente há quanto tempo havia fechado os olhos sentiu o frio se apossar de seu corpo, franziu o cenho, não queria sentir frio no fim. O rosto de Yahiko em sua memória não combinava com o frio em seu corpo. Quanto tempo já estaria ali, quanto tempo mais teimaria em existir?

E quando o corpo frágil já quase se acostumava com o frio o calor a encobriu novamente jogando-a em um mundo tão aconchegante e macio. Não resistiu um suspiro, aconchegou seu corpo fosse lá no que estivesse a envolvendo, devia ser a morte a recebendo em seus braços eternos. Devia ser a morte e seus longos dedos gélidos que lhe tocavam a face, pelo menos no mundo dos mortos seria recebida com carinho.

– Konan? – Foi chamada docemente, a morte é elegante e educada. – Konan respire! – Lhe foi pedido enquanto leves tapinhas eram dados em sua face, não há motivo para os mortos respirarem, a azulada não queria sentir o cheiro pútrido de sua própria morte deposta. – Vamos criança, não seja teimosa. Ainda estás viva, pois respire.

“Viva? Como ousa vida impudica e ingrata ainda estar implícita às minhas veias?”

A garota de olhos amarelados franziu o cenho com a informação e tão imediato a consciência lhe tomou a mente a boca pequena se abriu em desespero em busca do ar que lhe faltava. Se não era a morte vindo lhe receber, de quem era aquela voz calma e sombria que clamava piedosa por sua volta para o mundo o qual por pouco não havia deixado?

Olhos verdes a encaravam ainda preocupados, a máscara que ele usava tornava os grandes orbes ainda mais destacáveis no rosto amadurecido, deixando-os tão verdes que até pareciam tóxicas. Já tinha visto aquele rosto uma vez na única reunião daqueles que se uniriam à Nagato.

Apenas mais um assassino. Suspirou, com certeza aquele era apenas mais um que seu sádico dono mandara para manter intacta sua prisioneira, não queria ficar olhando aquele homem e talvez assim que perceber todas as marcas do abuso em seu corpo ele será mais um a tomar-lhe por força, quem sabe até com o consentimento de Nagato.

Mas ao virar-se na cama quente e macia, onde Kakuso havia a colocado enquanto a tirava sem que ela percebesse da banheira, viu tudo aquilo que menos queria; Yahiko em pé ao lado de sua cama a olhando. Ele era incapaz de falar, quem sabe ainda incapaz de guiar seus próprios atos, mas em seus olhos residiam a mais intima pena da garota cujo corpo estava inteiramente ferido e marcado por hematomas.

Os olhos que haviam secado com o tempo sentiram-se arder pelo calor repentino, preferiria que fosse Nagato e que o garoto lhe desse mais uma surra como punição por tentar tirar a própria vida, quem sabe esta fosse forte demais para o corpo já arrebentado suportar e então se livraria sem culpa deste fardo tão árduo de se suportar. Mas Yahiko era muito mais difícil, não queria mostrar ao amado para o que ele tinha morrido ou o quanto sua ausência a fazia fraca e os olhos não mais arduamente secos inundaram-se com todas as lágrimas que havia suprimido.

O corpo pequeno se fechou em posição fetal puxando para si um cobertor que somente agora percebera ter sido aquela sensação gostosa de aconchego que tinha sentido. Os soluços compulsivos invadiam as barreiras do tecido macio enquanto o corpo todo se movia em movimentos bruscos e involuntários movidos pelo som descontrolado de seu pranto.

Mas diferente do que Konan imaginava as habilidades do ruivo que tanto amava tinham evoluído muito em todo o tempo em que ela o havia evitado e Yahiko se moveu quase naturalmente ao se sentar na beira da cama ao lado da azulada, a tocando no ombro com certo receio em assustá-la.

– Não! – A voz gritou sem nem mesmo ver quem tinha a tocado, o corpo que tinha aprendido a ficar sempre em alerta se contraiu involuntariamente ao toque fazendo a garota se contorcer e parecer ainda mais frágil sobre a cama.

– Nós não vamos ferir você criança. Tente se acalmar. – A voz calma de Kakuso foi a que se fez ouvir.

– Yahiko... Yahiko... – O nome soava entre os soluços – Não quero que me veja assim. Saia.. SAIA – Gritou entre o desespero de suas grossas lágrimas estapeando a mão que insistia em se manter em seu ombro.

– Shh acalme-se menina. Não é se virando contra quem quer a ajudar que vai conseguir se ver livre de Nagato. – Aquela voz do homem velho continuava branda e sábia. O tom de sua voz instigava respeito ao ambiente.

– Não minta! Você é um deles, eu me lembro de você. Você estava aqui na reunião, é um dos mercenários que vai colaborar com Nagato.

– Realmente, eu sou um mercenário mesmo. Talvez o mais sujo e vendido que você irá encontrar. Por isso preciso de Nagato, preciso do poder dele. O que não quer dizer que seja como ele, eu senti o cheiro de podre daquele garoto no momento que o conheci, mas só pude ver o quão baixo ele podia chegar quando a vi naquela reunião. Quer se livrar de Nagato, Konan? Eu a ajudo nisso e tudo o que eu peço em troca é que mantenha a organização que ele formou e que me de poder sobre todo dinheiro que esta arrecadar.

Os soluços pareceram calar, as lágrimas ainda molhavam o seu rosto e ela evitava ao máximo olhar para o velho. O que era aquilo afinal, mais uma brincadeira sádica de Nagato? Por um acaso ele estaria lhe testando? O que poderia fazer com a azulada caso aceitasse aquela ajuda que de tão inesperada lhe parecia suspeita demais.

Então as pontas gélidas dos dedos do ruivo sentado ao seu lado na cama foram sentidas pela tez pálida de seu rosto. Suspirou ao sentir que seu coração acelerava numa dor descompassada ao lembrar-se de toda dor ‘vivida’ por Yahiko. Tão pior do que mostrar ao ruivo o quanto sua morte não fora capaz de salvá-la era deixar assim tão claro para ele que tinha perdido todas as suas forças, que tinha se entregado à tragédia imposta pelo semideus portador do Rinegan.

Não podia ser uma pegadinha, aquilo não podia ser obra de Nagato. Yahiko ali ao seu lado com aquele carinho tão singelo lhe fazia acreditar naquele estranho maluco que se compadeceu com sua situação. Como Yahiko e Kakuso acabaram no mesmo caminho para seguir em sua direção talvez ela nunca saberia, mas pelo sacrifício do ruivo ela se sentia novamente com aquela força da teimosa esperança que gritava em seu coração em alto e bom som o incentivo de que ela devia tentar, tinha que arriscar e lutar por si mesmo.

Tão súbito quanto o ato de tentar afastar o ruivo cheio de pircings ela se agarrou às pernas do mesmo que ainda se encontrava ali sentado no colchão. A cabeça deitada com força sobre as coxas pareciam buscar ainda mais uma certeza de que aquilo era mesmo real, a luz havia sido novamente acesa.

– Como posso fazer isso? – perguntou de olhos fechados, ainda com a cabeça deitada no colo do ‘namorado’ com as pontinhas dos dedos se fechando no tecido escuro do manto negro que Yahiko usava. Não direcionou a palavra a ninguém, pois sabia que apenas um deles seria capaz de responder algo.

– Antes de mais nada, cuide de você. Não irá a lugar algum fraca e ferida dessa forma. Enquanto isso, bolaremos um plano.

– Como você...

– Seu namorado está mais determinado do que você possa imaginar. Foi difícil compreende-lo no início.. até achei que fosse algum tipo de especulação de Nagato ou coisa do tipo, mas no fim encontramos um meio de nos comunicar. Ele ainda não está pronto para conseguir romper uma ordem de Nagato, mas estamos fazendo progressos. Até você ficar em forma ele com certeza já via estar bem melhor...

E a mão fria do ruivo deslizou por seu rosto dando início a um carinho que era completamente repleto de sentimentos que nem mesmo sua pseudo morte fora capas de fazê-lo esquecer. Entre os dedos sem vida, apenas o calor das lágrimas aquecia a pele pálida da azulada. Se ainda havia esperança em Yahiko, ela iria ser forte novamente para lutar por aquilo pelo qual o ruivo dera sua vida.

– Eu vou poder contar com sua ajuda senhor....

– Kakuso

– Kakuso-san – O velho lhe respondeu apenas com um movimento de cabeça