O mundo acaba essa noite
2 Capítulo 1 – Antes do pré-fim-do-mundo
Notas iniciais
Espero que se divirtam!
Nessa noite, eu havia sonhado que estava sozinha no meio de um lugar escuro. Sem céu, sem chão, sem caminho. Não havia nada, só a escuridão avassaladora. Cobria-me por completa, preenchendo todo o espaço vazio. E eu corria, corria desesperadamente procurando por socorro, clamando por ajuda e obrigando minhas pernas a se movimentarem no meio da escuridão que me sufocava.
Acordei em um pulo, suando. O despertador ainda não tinha tocado. Olhei pelo vidro da janela ao lado da minha cama e vi o céu da madrugada de verão, um céu muito escuro, parecia meia noite ainda, uma linda noite sem estrelas. No geral, eu gostava do céu noturno, gostava das cores que ele tomava na alvorada e da lua brilhando acima das estrelas. Gostava de deitar no terraço de casa à noite e ficar observando o céu e imaginando a sua infinidade de estrelas e planetas, constelações e nebulosas, ficava imaginando o mais profundo dos mistérios nos confins do universo.
Por fim, cedi á falta de sono e me levantei. Espreguicei-me de forma exagerada e dei uma olhada no meu quarto. Ele não era um quarto grande, nem pequeno, era adequado para mim e as paredes tinham tons claros entre o bege e rosa, havia também meu guarda roupas de marfim e minha escrivaninha, grande o suficiente para uma pilha de livros e um computador. Abri minha janela e deixei o ar frio da madrugada escura invadir meu quarto. Peguei uma toalha, caminhei até o banheiro do corredor sem acender nenhuma luz. Mas chegando lá, lembrei-me que era inevitável. Preparei os olhos e apertei o interruptor ao lado da porta. A dor na vista foi súbita, e eu demorei alguns segundos para me habituar com a luz irradiando por todo o local. O banheiro era igualmente simples. Azulejos azuis e brancos nas paredes, um chuveiro, o box, a pia e uma privada. Tudo simples, para uma vida simples. Antes de me acostumar com a luz, fechei os olhos e molhei o rosto com a água gelada da torneira, numa tentativa frustrada de acordar direito. Abri novamente os olhos e me encarei no espelho.
Fitei-me por alguns segundos, olhando no fundo dos meus olhos verdes, um pequeno bônus que eu herdei graças á genética. No final das contas, eu não era lá uma das pessoas mais atraentes de São Paulo, mas graças a Deus estava muito longe de ser a mais feia de toda essa cidade. Minha pele era muito branca e meu cabelo era castanho e longo, começava liso e cacheava nas pontas. Eu o adorava. Magra, não muito alta e nem tão baixa, diria que era uma pessoa comum, sem nenhum atrativo, nada em especial, exceto meus olhos verdes.
Embora minha aparência fosse doentia, devido a pele branca e a minha falta de músculos, sempre fui muito esportista. Eu adorava correr, jogar futebol, vôlei, eu era totalmente atlética e tinha tudo para ser uma daquelas lideres de torcida dos colégios americanos, com a exceção da beleza cirúrgica artificial delas. Se eu pudesse mudar algo em mim, não mudaria nada. Gosto de não ser o tipo de garota que tem o mundo rastejando aos seus pés e milhares de garotos querendo pedir para dormir consigo.
Não que eu seja assexuada ou algo do tipo. Eu já tive minha primeira paixão, e posso afirmar que foi extremamente frustrante. Foi o Kaio, ele era normal, comum. Seu cabelo era curto e castanho, pele bronzeada e olhos escuros, estatura mediana... éramos muito amigos no ensino fundamental, me apaixonei por ele na sexta série mas só me confessei na oitava. E me arrependo. Ele me pediu desculpas por não poder corresponder aos meus sentimentos e disse que estava passando por uma fase difícil. Agora, no segundo ano do ensino colegial ele se assumiu gay pra mim. Senti-me feliz por saber que o problema não era exatamente com a minha aparência ou o meu jeito, e sim com o fato de que eu sou uma garota. Somos colegas até hoje. Ás vezes nos sentamos juntos no intervalo das aulas e ficamos jogando conversa fora.
Por fim, parei de me encarar no espelho. Despi meu pijama de coelhinhos e cenouras coloridas e joguei-os para a parte de trás da porta. Liguei o chuveiro e alguns segundos depois a água começou a cair quente e eu me enfiei debaixo dela.
Após o banho, me enrolei na toalha e fui para o quarto colocar meu uniforme escolar (calça jeans, camisa branca, nada em especial com nomes ou símbolos). Me vesti, sequei o meu cabelo com o secador e o prendi num rabo de cavalo. Tomei café, arrumei meu material escolar dentro da bolsa e nesse meio tempo meu irmão mais novo, Enzo, acordou. Ele tinha nove anos, era pequeno pra idade, mas não parava quieto de jeito nenhum, e assim como eu, era bem atlético.
– Bom dia Lana... – ele disse, enquanto ia até o armário pegar a tigela e a caixa de cereais.
– Bom dia Enzo... levantou cedo, que aconteceu? – Perguntei curiosa. Crianças não acordam as 6:30 da manhã.
– Tive um sonho estranho. – Ele respondeu, e o papo morreu por ai. Não perguntei o que ele havia sonhado pois já estava perturbada demais com o meu próprio sonho. E estava atrasada.
Despedi-me do meu irmão e corri para o quintal. Abri o pequeno portão, tranquei-o ao sair e continuei descendo minha rua. Fiz todo o percurso para o colégio em silêncio e em passos ligeiros, cheguei a tempo da primeira aula.
Ao entrar na classe, cumprimentei meus amigos e acenei para alguns colegas, tive um leve papo sobre como o dia aparentava ser ensolarado e, depois, assumi meu lugar na última fileira, ao fundo da sala. Era mais confortável lá, parecia mais seguro e o risco de um corretivo voador me acertar na cabeça era bem menor.
A primeira aula foi de matemática, e após a professora Rosangela terminar de passar os exercícios sobre probabilidade, Jéssica veio e se sentou do meu lado.
– Vamos na festa sábado? – Ele parecia esperançosa de que eu fosse e tinha um entusiasmo excessivo na voz.
– Hmm, não sei – respondi sem entusiasmo — eu pretendia passar esse fim de semana estudando, sabe como é, semana de provas tá chegando e eu estou totalmente perdida em biologia... – respondi, com um meio sorriso e tentando parecer realmente ocupada.
– Ah, mas vai ser tão legal! Você pode passar o dia estudando e a noite você sai! Vamos Lana, por favor! – Ela dizia tais palavras com um entusiasmo tão grande que fiquei com medo de recusar e o mundo da garota desabar ali mesmo. – Eu quero muito ir e você sabe que meus pais só vão me deixar ir se você for... – Realmente, o mundo dela ia desabar.
– Ai ai – suspirei — tudo bem, eu vou. – Aceitei minha derrota. Eu gostava da Jéssica e não queria vê-la triste ou me ignorando o resto do mês por eu ter recusado seu convite.
– Eba! Obrigada Lana! – Ela me deu um beijo na bochecha e voltou para a carteira onde se sentava.
Jéssica era uma garota normal, era meiga, divertida e engraçada, além de inteligente. Mas adorava sair, e era do tipo que curtia os colírios da capricho e Justin Bieber. Eu odiava essas coisas, não sei como conseguia aguentar ela falando sobre isso o dia inteiro. Mas no fim das contas, eu a adorava. Jéssica era do tipo que não fazia muitas perguntas quando eu estava mal pois sabia que eu gostava do meu espaço particular, embora no seu caso fosse extremamente o contrário e eu tivesse de aguentar e rir dela se lamentando e fazendo drama o dia inteiro.
A próxima aula era de Biologia. Tentei me concentrar ao máximo, mas era impossível. Eu simplesmente não conseguia entender ou me lembrar das organelas citoplasmáticas ou suas funções, eram muitos nomes confusos, decidi que ia precisar estudar em casa ou ficar ouvindo áudio aulas no meu iPod até decorar tudo.
Finalmente deu o sinal do intervalo, peguei minhas coisas e caminhei para o pátio. A fila se formava na cantina e para a minha sorte, percebi que eu não tinha fome. Procurei pelas mesas e encontrei meus amigos sentados, conversando em uma mesa qualquer. Caminhei até eles, me sentei entre Jéssica e Alana e tentei me enturmar no papo. Pela cara de raiva da Alana, as risadas do Fernando e a expressão vaga do Daniel, conclui que eles falavam sobre alguma das competições da escola.
– O 3ºA perdeu o jogo para o 2ºE – Fernando parecia animado com o fato.
“Bingo” – pensei.
– Aff, saí daqui Fernando – reclamava Alana – 3ºA é a minha sala, e nós jogamos muito bem, e não importa, por que a gente vai ganhar na final mesmo! – Sempre com o mesmo tom mimado e de superioridade.
– Por isso adoro ver os terceiros anos se ferrarem! – Jéssica dizia, rindo descontraidamente – Vocês são tão cheios de sí!
– Para de ser recalcada Jéssica! – Respondeu Alana.
A mesa explodiu em gargalhadas, até eu me permiti rir um pouco da palhaçada das duas. Eu adorava eles, me sentia bem, era como se fossem uma segunda família pra mim. Um refúgio, mesmo que sendo tão diferente de todos.
– Por fim – Interrompeu Daniel – Vamos falar sobre coisa boa, quem vai na festa do Michael no sábado?
– EU! – respondeu Jéssica, erguendo a mão, animada. Animada até de mais. – Eu e a Lana! Vamos juntas!
Todos me deram um olhar torto. Não sei se mencionei isso antes, mas eu não sou de ir em festas, embora eu adore dançar e beber. Normalmente, eu bebo em casa com minha mãe, nas sextas á noite quando não temos nada pra fazer e ficamos descontraídas falando sobre a vida.
– Você vai mesmo? – Fernando me olhava pasmo, como se eu fosse uma serial killer prestes a libertar a vitima que estava presa em cativeiro á semanas. A pergunta podia ser facilmente trocada por “Vai libertar mesmo?”
– Sim, eu vou – respondi, tentando aparentar normalidade — não entendo o por quê dessa reação de vocês. Que exagero gente. – Rebati, com um tom de voz indignado que aparentemente fez o pessoal se sentir culpado por estarem-me olhando daquela forma.
– Isso vai ser, no mínimo, interessante. – Não era uma pergunta, era uma observação, e vinda de alguém que não estava na mesa.
Virei-me e encarei o meu debochador. O cabelo ruivo cacheado preso num rabo de cavalo, o sorriso cheio de malicia, o olhar estreito que beirava o sarcasmo e a dúvida.
– Oi, Joshua. – respondi secamente.
– Iai, você vai mesmo nessa festa? – Havia um tom de malicia na voz dele e eu vi um meio sorriso no canto do seu lábio.
– Isso não é da sua conta. – respondi seca e me virei de volta para a mesa. Meus amigos me observavam, alguns com vontade de rir, outros com uma expressão confusa. Abaixei a cabeça e comecei a mexer no meu celular, logo em seguida, o papo sobre a festa retomou a mesa.
Joshua se virou e foi na direção do campo. Minha história com ele, é no mínimo estranha, principalmente porque a gente não tem história. Ele fica me encarando o tempo todo e eu não sei qual é a dele, e eu odeio ele, ele é um babaca, idiota. Odeio a presença dele. Odeio o fato de ele ser lindo, estupido e irônico.
Mas além disso tudo, odeio o fato de ser perdidamente atraída por ele. Joshua é alto, tem um corpo esguio. Esguio não é atlético, e eu adoro isso. A pele dele é bem branca, lisa, sem sardas nem manchas, o cabelo ruivo cacheado sempre está preso em um rabo de cavalo, ele tem o sorriso perfeito. Mas o olhar... o olhar é o mais frio e mais sedutor que eu já encarei.
Odiava me sentir atraída por ele.
Voltei a prestar atenção no assunto da mesa, pessoal falando da festa, rindo, já fazendo planos e piadas para jogarem “desafio ou consequência”...
Festa... “ isso vai ser, no mínimo, interessante.”, o que ele quis dizer com isso? Como ele pode saber se...
Espera, espera ai... não.
– O Joshua vai na festa?! – Perguntei assustada, com os olhos arregalados e pegando na mão de Jéssica, quase que implorando para que ela me dissesse que não.
– V-vai Lana, é claro que vai... todo mundo que a gente conhece vai. – Ela me olhava nos olhos ao responder, com uma expressão de assustada.
O resto do dia foi monótono e chato, e eu só ficava pensando em uma coisa:
“Ferrou”.
Mas realmente, ferrou tudo. Estava tudo perdidamente ferrado no dia seguinte.
Notas finais
Obrigado!
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