O mundo acaba essa noite
3 Capítulo 2 - Epidemia
Notas iniciais
Capítulo 2 – Epidemia
- Mana, acorda! – Enzo me cutucava e me dava tapas na cama – Levanta logo!
Abri os olhos atordoada e perguntei ao meu irmão que horas eram.
– 6:40, vai logo, você tá muito atrasada! – Ele me cutucou mais um pouco – eu vou jogar água em você!
6:40! Nossa, eu estava realmente atrasada. Levantei num pulo e corri para o banheiro despindo a roupa no corredor. Liguei o chuveiro e acabei nem lavando o cabelo pra não ter de perder tempo depois secando ele. Coloquei meu uniforme e fui para a cozinha. Minha mãe já estava em pé fazendo café da manhã.
– Bom dia mãe! – cumprimentei-a enquanto passava apressada pela cozinha.
– Bom dia Lana, ah, fiz torradas para você, pegue-as e coma no caminho – Minha mãe, no geral, era muito caridosa. Meu pai desapareceu logo após que o Enzo nasceu, e desde então ela tornou-se uma mãe dona de casa trabalhadora. Nós dividimos as tarefas, mas ela é muito mais prestativa do que eu. Nós éramos muito parecidas, brancas, o cabelo cacheado... algo que eu não herdei da minha mãe, mas que eu gostaria muito de ter tido, é a bondade e a simpatia que ela possuí.
– Obrigada mãe! – Peguei a torrada e falei – Preciso ir, já estou muito atrasada! Te amo!
Corri até a porta e abri-a, então me lembrei de algo. Olhei para trás e vi o Enzo indo para o sofá com o cobertor dele e perguntei:
– Você acordou antes de mim... sonhou algo ruim de novo?
A expressão dele mudou, nunca o vi com aquela expressão. Era algo que beirava o medo e a preocupação. Ele assentiu com a cabeça.
– Relaxa, são apenas sonhos. – Dei um sorriso e disparei porta afora, quase caindo no quintal e me atrapalhando pra pegar as chaves.
Fiz meu percurso até a escola e cheguei ofegante na sala, dei sorte de a professora ainda não estar lá. Era aula de química e minha professora era muito exigente, e chata.
Sentei-me no meu lugar de costume, e a Jéssica veio falar comigo. De novo. “Vai falar da festa”, pensei.
– Iai, tudo certo pra festa? – ela perguntava quase saltitando no meio da sala.
– Na verdade, ainda não falei com minha mãe... mas creio que sim. – Bem, ela não precisava saber que na realidade eu não falei com minha mãe porque não estava mais afim de ir. Ficar no mesmo ambiente que o Joshua seria o inferno, eu ia precisar ter muita paciência para aguentar os comentários idiotas dele. Porém, eu precisava fazer o sacrifício pela Jéssica, não podia deixar ela na mão.
– Ah, mas ela vai deixar! Sua mãe é legal e entende que a filha nerd precisa se divertir né?
Rimos um pouco, continuamos o papo por uns 3 minutos mas a professora chegou na sala de aula. E já dando bronca.
– Voltem já para os seus lugares – Jéssica não pareceu ouvir a ordem rabugenta da professora – Senhorita Riveira? Está surda? Eu disse para voltar já para o seu lugar. Ali – E apontou para a carteira
– Eu sei onde é meu lugar, querida professora. – Jéssica se levantou, deu uma piscadela para mim e prosseguiu – Aliás, se eu tirei 10 em conteúdo, trabalho, prova e participação, não entendo a necessidade em me fechar com 9. A senhora esqueceu-se de como fazer contas? – Ela era louca de enfrentar a professora daquele jeito, mas preciso admitir que adorei o que ela fez. A Jéssica tinha um tipo diferente de coragem, era algo quase ameaçador as vezes.
A professora Samanta virou-se vermelha de raiva para a lousa e começou a passar o conteúdo da matéria. Nossa, como eu odiava química. Sempre me esforçava para entender, mas ainda assim, tirava notas tão vermelhas quanto a cara dela. Em biologia, eu ainda conseguia gostar da matéria apesar da dificuldade. Agora, química... e pra variar, com uma professora chata dessas.
Permaneci concentrada na matéria, copiando o conteúdo da lousa e ouvindo as explicações, até que a porta da sala bateu. De inicio, ninguém se importou em atender, mas bateram de novo e mais forte, então a nossa querida professora Samanta foi até a porta abri-la e dar um possível esporro em quem quer que estava interrompendo a aula dela.
– Oh, Olá Joshua, o que deseja? – Ah, vai se ferrar, e lá se vai o esporro.
Não consegui ouvir o que ele disse, mas a professora virou-se para a classe e falou que o Joshua ia passar um recado importante da direção do colégio e que era para fazermos silêncio. Pensei seriamente em jogar uma cadeira na cabeça dela e sair correndo dali.
Joshua entrou a passos largos e um sorriso zombeteiro nos lábios. Como eu odiava aquele sorriso. E aqueles lábios. Como eu odiava aqueles lábios.
– A partir de agora – ele começou a falar, assumindo um tom de voz sério mas que não disfarçava como ele se divertia com a situação – os alunos não poderão sair para ir ao banheiro com menos de trinta minutos de aula após o intervalo, e também estão proibidos de sair para buscar materiais no armário – ele continuou passando o recado, e os alunos manifestavam sinais de revolta as vezes, mas eu não me importava. Abaixei minha cabeça e comecei a rabiscar a última página do meu caderno, desenhei um bonequinho enforcado com o mesmo cabelo cacheado e ruivo do Joshua.
Dado certo momento do recado, nossa professora começou a tossir. Primeiro, ela tossia baixinho, depois foi se tornando mais alto e houve uma série de interrupções aos recados do Joshua. Fiquei imaginando se ele estaria com raiva da professora e acabei me divertindo um pouco com a situação.
– M-me Descu-culpe eu não... – e retornava a tossir. Uma aluna levou uma garrafa com água para ela e um outro começou a dar alguns tapinhas nas costas dela.
“Deve ter engasgado com a própria felicidade, graças a essas regras ridículas da direção” pensei, talvez tenha murmurado na realidade, mas não faz diferença.
Os alunos continuaram se aproximando dela, todos sem conseguir esconder a curiosidade.
– Gente! Vão buscar ajuda! Rápido! – uma voz masculina dizia isso, mas ninguém ia buscar ajuda de algum inspetor ou algo assim.
De repente, uma das meninas da minha sala, a Melissa, deu um grito assustada, daí começou uma bagunça na sala. Alguns corriam para um lado pedindo pra pegar um pano, um garoto, o Gabriel, disparou porta afora gritando por socorro. O rosto de Joshua continuava imóvel, sem expressão, então ele caminhou pacificamente para o lado de fora. “Será que ele foi buscar ajuda?”
Levantei e fiquei próxima o suficiente para ver o que estava acontecendo. A professora ainda tossia, mas agora, junto de sua tosse vinha sangue.
– Gente! – o pânico começou a me dominar, e acredite, eu não sei lidar muito bem com ele – Leva ela pra coordenação e peçam ajuda! Vão logo! – Como é possível perceber, eu estava mais assustada que as garotinhas idiotas, quando percebi isso, me senti ainda mais idiota e acabei sentindo vergonha de mim mesma.
Mas fiquei ainda mais assustada quando a tosse parou.
Quando a tosse cessou, ninguém falou nada. Ninguém se moveu. Ela estava morta. Não dava pra acreditar que ela havia morrido do nada, na nossa frente, e aparentemente, sem motivo nenhum.
– O que será que aconteceu?! – Jéssica correu e segurou meu braço, assustada. O corpo da professora perdia a cor rapidamente e não parava de sair sangue da boca dela.
– Jéssica, eu... – A verdade é que eu estava tão assustada que mal conseguia expressar qualquer reação. Um dos inspetores foi para a sala de aula e, vendo a professora já morta, mandou que saíssemos da sala com calma e que fossemos para o pátio.
Como ordenado, fomos ao pátio. Algumas meninas choravam assustadas. Jéssica não soltou o meu braço de jeito nenhum, tanto ela quanto eu não conseguíamos esboçar qualquer tipo de reação, estávamos em choque. Eu não conseguia pensar direito, eu não conseguia sequer me mexer direito. Foi só depois de um tempo que eu consegui formular uma única pergunta na minha mente.
“O que foi aquilo?”
Alguns minutos depois, todas as aulas foram suspensas e os alunos estavam todos no pátio. Conversavam sobre o que havia acontecido, ninguém falava alto, estavam assustados.
Vi Jéssica, de súbito, arregalar os olhos e não entendi o por quê. Vi também alguns alunos se afastarem com pequenos passos e o pátio inteiro fez um silêncio súbito. Então eu ouvi. Havia outra pessoa tossindo, e muito.
Dessa vez, ninguém conseguiu ajudar, ninguém sabia o que fazer. Eu somente ouvi a tosse, e em meio a ela, um esganiçado pedido de socorro, mais tosse, alguns gritos de garotas assustadas e depois, o silêncio. Parou de tossir.
O pátio explodiu em pânico e todo mundo saiu correndo em direção á saída da escola. Jéssica se levantou e me puxou em direção á correria, mas quando chegamos na metade do caminho, tomamos um rumo diferente. Subimos pelas escadas do colégio
– Jéssica?! Pra onde a gente tá indo? – Perguntei assustada, correndo pra manter o ritmo e tentando entender o que a gente estava fazendo indo para a última sala do segundo andar.
– Laboratório de química – Ela respondeu num tom de voz calmo que me surpreendeu, de certa forma – Pegar máscaras cirúrgicas.
– Máscaras cirúrgica? Pra quê? – Primeiro eu não entendi, então ela reduziu o passo e eu consegui ordenar meus pensamentos, pensei um pouco e então compreendi o que ela queria dizer – Doença transmitida pelo ar? Tipo epidemia?
– Na melhor das hipóteses – nós paramos na frente da porta – se não for isso, quer dizer que todos nós vamos morrer de algum jeito, e eu não estou nem um pouco afim de morrer tossindo sangue – ela girou a maçaneta e a porta se abriu.
Adentramos a sala. Ela era de azulejos brancos nas paredes e tinha duas fileiras com balcões de mármore, com alguns tubos de ensaio, pia e materiais para estudo. E lógico, as máscaras.
– Toma, pega uma – Jéssica jogou uma máscara para mim, pegou outra e colocou.
Saímos da sala de química e voltamos para o térreo, não havia mais ninguém na escola, todo mundo tinha saído correndo e o que sobrou foram alguns corpos de alunos que foram infectados, e tinha muito sangue, nas paredes e no chão, esguichos de sangue e algumas poças.
Jéssica apertou meu braço com força quando viu os corpos e encostou a cabeça no meu ombro. Andamos o tempo todo tentando ignorar os corpos, era horrível ter de olhar para eles, para rostos familiares, rosto de gente que conhecíamos e ás vezes até mesmo conversávamos durante o intervalo. Pessoas que conhecíamos do ensino fundamental, pessoas com quem crescemos juntos.
Finalmente, conseguimos sair da escola. A entrada tinha um pequeno jardim e um estacionamento. Tinha corpos de alunos e professores do lado de fora, daí eu me dei conta de uma coisa. Esse tempo todo eu fiquei tão focada em tentar entender o que estava acontecendo e conseguir sair da escola que me esqueci completamente da minha mãe e do meu irmão. Não conseguia esperar nada de bom a respeito deles.
– Droga! Jéssica, me escuta, vai pra sua casa, procure sua família, eu preciso ir ver se minha mãe e meu irmão estão bem, entendeu?! – Meu tom de voz era sério, tentei não demonstrar meu desespero.
– T-tá, eu v-vou tentar – E lá se foi a Jéssica que me surpreendeu alguns minutos atrás.
– Eu vou ficar em casa! Se você não encontrar ninguém na sua, venha para a minha – Os olhos dela começaram a lacrimejar — Seja forte e corra para a sua casa! Vai Jéssica!
Ela me soltou, me deu um abraço e saiu correndo pelo portão. Eu também precisava ir, eu sabia que precisava ir, mas antes queria dar uma olhada pelo estacionamento e ver se encontrava alguém.
Andei pelo estacionamento e então ouvi algumas tosses baixas. Verifiquei entre dois carros e tinha um corpo lá. Demorei um pouco até perceber que era o Fernando.
– L-lana – A voz dele estava fraca, ele deu um pequeno sorriso – Foi esperta em pegar a máscara... – tossiu mais um pouco – A jé-jéssica tá bem?
– Feh... – tentei me concentrar em não lamentar e sim a me limitar em responder a pergunta dele. O Fernando não ia gostar de me ver chorar – Ela tá bem sim Feh... ela foi para casa agora, ela também está com máscara... – Senti meu rosto queimar, eu não ia conseguir segurar as lágrimas.
– Ei, n-não cho-chora Lana... – ele tossiu um pouco e sorriu novamente – máscaras hun? Es-espertas vocês... ei – Com muito esforço, ele ergueu um braço e secou minha lágrima com um dedo – Já já eu vou ficar bem, nem dói... só incomoda – então ele parou, tossiu um pouco e disse – Fala pra Jéssica que eu sempre fui louco por ela – um último sorriso, uma lágrima desceu pelas maçãs do rosto e ele teve um acesso forte de tosse, então, morreu.
Eu queria chorar, mas se fizesse isso, ia entrar em pânico. Me permiti ficar sentada ao lado do corpo do Fernando, refletindo. Lembrei das várias vezes que jogamos futebol e competimos no vôlei, lembrei-me também de todas as vezes em que ele me fez rir, lembrei-me de tanta coisa boa. Lembrei de como a Jéssica já tinha me dito que gostava dele. Lembrei de todas as fotos que tiramos juntos, das conversas idiotas pela internet. Lembrei do abraço dele.
“Obrigada Feh.”
Levantei-me e segui em direção a minha casa.
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