Notas iniciais
Ola Umpa Lumpas e humanos também. A fanfic finalmente chegou ao fim, mas antes de postar o capítulo: 1. Vai ter um capítulo epílogo que será publicado depois do Natal. 2. Este capítulo foi feito com muito amor e carinho e cuidado também. Então se você assistiu ao filme de 2005 recentemente ou já assistiu ele trocentas vezes como eu, espero ter colocado pontos de nostalgia o bastante para que o capítulo final seja mágico. 3. Obrigada pela leitura e comentários. Escrever é bem gostoso, mas conversar sobre é muito mais!

A viagem de volta para fábrica foi um pouco torturante, com Charlie o mimando e zelando até que chegassem à fábrica e o lembrando de tudo o que estava para perder, tudo o que Amanda Funk estava para ganhar.

O chocolateiro travou a mala e suspirou. Willy sabia, sempre soube, que corria os riscos de colher aquela fruta amarga, mas jurava que já o tinha colhido. Anos antes ele já teve receitas roubadas, anos antes ele já teve a fábrica invadida, anos antes ele já fora traído. Depois de tanta coisa ruim ele havia plantado tanta semente boa que perdê-las parecia injusto.

Agora, depois ter sentido ciúmes, depois ter sido paparicado, depois de amado, ele não sabia se sobreviveria a perda de Charlie. Estava com o corpo bem¹, mas a alma destroçada.

Gemeu. Amanda Funk estava para chegar.

W.W.

Charlie ainda não tinha se recuperado da ressaca que o tutor havia tido. Não importava o quão pequena fosse a dose de álcool que Willy ingeria, se fosse maior do que um toco de chocolate, ele teria uma ressaca de dois dias ou mais.

Em sala de aula, Charlie estava preocupado. Willy podia ter uma recaída, podia voltar a ficar verde como quando chegou à fábrica, podia ser acamado por conta das dores de cabeça e, ainda que estivesse passando mal, ele negaria cuidados caso algum Umpa Lumpa perguntasse se estava tudo bem. Willy era bem cabeça dura e tinha necessidade de grandeza, mas era muito preocupado com quem ou o que amava e isto podia acabar matando-o.

Os dedos do herdeiro batucaram contra a mesa, ao lado do caderno que deveria receber as anotações que o professor fazia ao explicar a matéria. Era dez e meia, segundo o relógio sobre a lousa, e a espinha de Charlie se arrepiou por completo. Os pelos de todo o corpo se ergueram na tentativa de arrancar ele dali, pedindo que fosse salvar a fábrica, que fosse salvar…

— Willy.

O professor parou a aula, a turma todo olhou o herdeiro da fábrica Wonka com um misto de curiosidade e preocupação. O herdeiro jogou as coisas na mochila mesmo que o professor protestasse a quebra de ritmo da aula, depois correu até a fábrica que o chamava.

Willy estava para fazer asneira e seus instintos estavam berrando isto.

W.W.

Willy andou de um lado para o outro. Charlie estava na faculdade, o senhor Bucket estava no hospital e os Umpa Lumpas estavam ocupados demais para notarem que o chocolateiro estava tão estressado ao ponto de ficar zanzando de um lado para o outro na ala de recepção. Ele olhou o relógio, dez e meia de uma manhã fria e nem um pouco aconchegante.

No cantinho da recepção, perto da porta lateral que poucos sabiam existir, estava a malaa com roupas e algumas bugigangas. Willy pensou que era muito bom ter feito as pazes com seu pai, pois precisaria de um tempinho para se reerguer – isto se conseguisse se reerguer.

Olhou o relógio de novo. Dez e trinta e um. A campainha soou estridente, congelando o coração do chocolateiro, prendendo a respiração dele no peito.

Amanda Funk parou em frente a porta de madeira. Realizaria um grande desejo, mas não se sentia satisfeita com isto. Era como se não quisesse, e lá no fundo sabia que não queria, fazer o que estava para fazer.

Engoliu a saliva quando a porta se abriu. Seu antigo pupilo estava tão pálido, que qualquer pessoa conseguia notar o quão mal ele estava, até mesmo as mais distraídas. Os olhos castanhos dele ficaram parados encarando-a, arregalados por puro pânico, deixando bem claro que não estava, nem um pouco, pronto para abdicar tudo.

Amanda sentiu o peito apertar até quase sufocá-la. Oh céus, seria muito difícil se fazer de forte e mais difícil ainda de se agarrar numa raiva que ela tinha implantado em si. Raiva, ela precisava sentir raiva de ter sido roubada, era a lei que as pessoas pareciam impor.

— Está frio. — Ela resmungou.

Willy arfou. A voz de Amanda Funk provava que ela estava ali, que não era uma ilusão, que não estava delirando. A voz dela provava que ela tinha lhe ameaçado, que parte da planta da fábrica poderia vazar sob a ardilosa criação visual de um pirralho que um dia visitou a fábrica.

Ah, aquela fábrica tinha sido construída nos mínimos detalhes, planejada desde o começo para ser um mundo infiltrado no subsolo como um iceberg. Tinha sido construída por humanos — a parte exterior — e por Umpa Lumpas — afinal, não caberia tudo e todos naquela pequena estrutura que os humanos viam e os Umpa Lumpas eram muito bons e criar.

O chocolateiro deu um passo ao lado, deixou a antiga tutora entrar e lacrou a fábrica.

— Lhe trouxe os papeis de transferência. — A mulher falou.

Jogava uma maleta sobre uma mesa e já a destrancava. Se demorasse, perderia a coragem.

Willy e Amanda, juntos, olharam a hora. Ela em seu relógio de pulso, ele no de bolso. Dez e trinta e sete. A hora estava voando.

— Onde está o garoto? — A mulher caçou os olhos de Willy.

— Faculdade. — A voz dele estava baixa, os olhos presos no ponteiro do relógio que se mexia lentamente.

— Vocês são sócios...

— Não se preocupe. — Willy Wonka ergue os olhos para a mulher que lhe ensinou a fazer a maior parte das coisas que levava como base para as receitas. — Charlie, para mim, é tão dono da fábrica quanto eu, mas por contrato, não. Eu preciso falecer.

A loira colocou uma das mãos na cintura.

— Não imaginava que você desconfiava dele.

Willy guardou o relógio. Ele não desconfiava de Charlie nem mesmo quando ele era só um menino visitando a fábrica.

Tinha olhado para o garotinho de sorte e então um arrepio desceu por suas pernas. Sentia que ele, que Charlie, tinha tido tudo e mais um pouco para ser tão amargurado quando Willy era, mas o amor da família escreveu uma história diferente. Sentiu que a fábrica gostava daquele garoto, que ele tinha uma energia confortante.

E depois, quando Charlie negou a fábrica em nome da família, Willy sentiu o coração congelar e parar de bater. Gostou daquele garoto, mas nunca soube o motivo, ficou mal por não ter a companhia dele e só soube o motivo anos depois.

Charlie lhe deu uma nova vida. Ensinou que confiança é algo que tem chances de ser quebrado e não tem como descobrir se devemos ou não confiar em alguém. A vida é um jogo que repentinamente pode ter os controles falhando e então nos machucar.

Charlie ensinou Willy a fazer algo que poucos sabiam fazer: confiar e amar.

— Eu não desconfio. — Willy falou com força e convicção. — Mas fiz o contrato antes de conhecer ele.

Amanda engoliu a saliva. Cada vez se sentia mais mal pelo que estava para fazer. Uma guerra interna que a lembrava do roubo que seu pupilo tinha feito, mas também lembrava que ela tinha permitido.

Por que ela tinha deixado ele lhe roubar?

— Você pode ler os papeis, Willy. — Ela estendeu um maço de folhas. — Conforme combinamos. Você sai, eu entro, o resto fica imutável.

Charlie estava com a mão sobre a maçaneta. Se alguém olhasse para a porta, notaria que alguém estava pronto para entrar. O herdeiro voltou à mão aos poucos, ainda sem acreditar no que tinha escutado.

— Me dê. — A voz de Willy surgiu.

O coração do herdeiro bateu dolorosamente, imaginava a fábrica sem Willy, imaginava como seria não vê-lo todos os dias e se sentia bem deprimida.

Então a mente do pupilo estralou. Se estivesse certo, e ele duvidava estar errado, Dóris estava por perto. Ele largou a mochila no chão, saiu pela porta que levava ao corredor secundário, contornou a recepção por este corredor e encontrou quem queria.

Dóris sabia que seu salvador não estava bem e sentia nas entranhas que ele estava escondendo um segredo. E ela estava escutando tudo por detrás da porta com os olhos prontos para derrubar uma cachoeira de lágrimas, entretanto seria forte por Willy e pelos outros.

— Dóris!

Ela olhou para a esquerda. Seu coração bateu aliviado. Sabia que Charlie cuidaria de tudo.

W. W.

Amanda esperou pacientemente que Willy terminasse de ler o contrato. Mesmo que só soubesse agora que Charlie só poderia ter a fábrica quando William morresse, ela não mudaria nada. Nem se importaria de passar a fábrica para ele depois da morte do criador, pois já planejava largar tudo nas mãos do herdeiro.

Ela até podia fingir que queria a fábrica, mas sabia que não tinha a mínima ideia do que faria com tanta responsabilidade e poder. E o dinheiro? Ela já tinha o bastante pra viver sem precisar de mais nada, então o que faria com tanta grana?

Olhou seu antigo pupilo. Ele estava concentrado, certificando que tudo estava conforme tinham combinado.

Aquele homem já tinha sido um garoto que só precisava de um empurrãozinho para dominar o mundo que amava.

A mulher arregalou os olhos, algo que Wonka não percebeu por culpa da concentração em que estava.

Ela queria ver Wonka ser quem é atualmente. Queria dar àquele garoto algo que quase ninguém tinha, queria crescer a confiança dele nele mesmo. Ela provaria para quem o havia abandonado e para o mundo, o quão grande era aquele garotinho abandonado pelo pai.

Amanda sempre teve um fraco para os ignorados. Para aqueles que possuem um sonho pela frente, mas só são vistos como uma massa de modelar que podem se tornar o que os outros querem. Ela tinha se desvencilhado da família justamente por isto. Ganhou uma herança gorda, a mesma herança que a bancava na atualidade, justamente por isto e encontrou Wonka, que passava por isto.

Carregar aquela fábrica seria pesado demais para ela, mas o orgulho não deixaria desistir. Ela jogaria tudo nos ombros de Charlie e sumiria, mas nunca assumiria que sabia ser incapaz de guiar aquela marca.

Willy se levantou e apoiou as folhas sobre uma mesa. A caneta pronta para deixar seu rastro. A fábrica estralou em repulsa pelo ato, mas o chocolateiro resolveu que era melhor ignorar este chiado tão vivo que aquela construção conseguia fazer.

— Primeiro as damas. — O chocolateiro disse.

Amanda pegou a caneta. Ela era numa mescla de vermelho vinho e roxo, a cor que seu pupilo mais amava, com as iniciais dele cravejadas com pequenas pedrinhas de diamante.

— Bela caneta. — Comentou enquanto assinava.

— Foi um presente.

— É bom saber que tem bons amigos. — Ela lhe devolveu o objeto. — Amigos são os melhores apoios para quem precisa se reerguer.

Willy curvou contra a mesa, começou a assinar e viu a caneta falhar. Ela nunca falhava. Deu duas batidinhas com a ponta sobre a mesa e quando viu a tinta saindo, voltou-se ao papel.

O.K. Amanda Funk teria a sua fábrica e o chocolateiro teria a paz que tanto queria ou, pelo menos, não teria mais contato com sua velha tutora. Dinheiro ele teria para sobreviver durante o resto de sua vida, satisfação ele daria um jeito, ou assim pensava, de arranjar.

E Charlie estaria lá para cuidar da fábrica. Era só o que importava, pois era a garantia de que a fábrica estaria segura, que o herdeiro teria boa vida, que o fluxo atual não teria alteração. Os filmes que Mike Teavee poderia produzir, e era isto que fez com que Willy desistisse de lutar contra Amanda, ficariam apenas na memória ou o garoto receberia um belo processo que o desbancaria para o resto da vida.

Willy suspirou, concentrou-se em assinar.

— Vamos lá Willy, vamos assinar juntos.

Os olhos castanhos do maior chocolateiro do mundo se ergueram. Charlie estava parado à porta, olhando-o com papel e caneta na mão. Parecia irritado e até magoado, mas extremamente firme a seguir em frente, ameaçando assinar um documento de folha única, um documento que não tinha uma aparência amigável.

— O que?

— Acha mesmo que eu estaria aqui para cuidar da fábrica? Que eu aceito ter outro tutor que não seja você? — Vendo Willy recuar contra o papel que estava para assinar, o pupilo se aproximou.

Charlie jogou os papéis sobre a mesa.

— Nem começa, Charlie. – Wonka poderia perder tudo, mas se soubesse que a fábrica seria tão amada quanto quando era cuidada por ele, tudo estaria bem. — Eu só confiaria minha fábrica a você! — E também não poderia ver Charlie voltando para o mundinho em que vivia antes da fábrica.

O herdeiro curvou-se contra o papel enquanto cuspia as palavras:

— Não vou continuar sem você. Se você desiste da fábrica, então eu renuncio a ela e ao seu sobrenome. — Os olhos claros de Charlie queimaram a pele de Willy. — Eu não entrego o meu futuro a ninguém mais, eu não quero ficar ao lado de ninguém mais!

Amanda Funk escutou Charlie Bucket e sentiu inveja.

O herdeiro tocou a ponta da caneta que deixou uma pequena mancha, um alerta de que não estava brincando. O coração do herdeiro berrava que não queria aquilo, socava o peito do mais novo na tentativa de fazer com que percebesse a loucura, enquanto a mente dele tentava manter as lágrimas presas nos olhos. Charlie tinha medo de perder a fábrica e tinha um medo tão intenso de perder seu tutor que nunca poderia descrever.

E este medo indescritível não era só dele, este também era o medo de Willy Wonka.

Quando Willy desviou os olhos do herdeiro, tentando achar uma solução para tudo aquilo, ele captou algo mágico, algo que o fez ir longe, sumir do mundo por alguns segundos e entender que, independente de quão pesada fosse a luta, ele só tinha um lugar para estar.

Os dedos abriram o armário decadente. A portinhola quase não foi sustentada pelas dobradiças enferrujadas que anos antes foram forte e firmes. Tinha ali...

Dóris o olhava. A roupinha impecavelmente passada, os dedos da mão esticados sob a maquete branquinha que um dia Charlie Bucket montou. A fábrica montada em tampinhas de pasta de dente deformadas era coroada por um Willy Wonka reinando em frente à construção, com a cartola sobre a cabeça e o carinho em cada peça.

Willy piscou os olhos. Estava mais uma vez vendo o herdeiro no presente, o corpo alto, os olhos desafiando-o a assinar o documento de transferência.

Charlie era capaz de lhe fazer mergulhar nas lembranças mais gostosas de sua vida, então por que não tinha confiado que ele aceitaria ter outro tutor? Por que imaginou que ele não seria contra?

"Se lembra da primeira bala que comeu?"

"Não." Mentiu ele. A voz saindo aguda, sussurrada. Os olhos mergulhados nas lembranças de quando experimentou aquele docinho que escapou da lareira.

Um devaneio. Naquele dia ele teve um devaneio e agora tinha outros. Antes, era sobre uma infância triste, sobre a péssima relação com o pai, agora era com Charlie invadindo sua vida e a mudando por completo, tornando-a doce e viciante.

"Tome, prove um pouquinho, vai lhe fazer bem. Parece até que está com fome." O futuro pupilo sorriu para ele, recebeu o chocolate derretido perfeitamente misturado pela cachoeira que apenas aquela fábrica tinha e depois dividiu com o avô.

"Delicioso". Charlie exclamou com um dos sorrisos mais belos que o chocolateiro tinha visto dentro de quinze anos.

— Willy. — Charlie ainda tinha aquela voz rouca de quando era criança, mas também tinha maturidade e força. — Eu não deixaria quem amo por nada neste mundo.

"Eu não deixaria minha família por nada. Nem por todo o chocolate do mundo."

— Não sei o que ela disse. — Willy foi puxado para o presente como se tivessem jogado um balde de água gelada. — Não sei o quão amarga ela quer tornar nossas vidas, mas chocolate amargo também é usado para alegrar a vida e para fazer doce. Isto é o mais incrível, Willy, é o que torna a vida doce!

"Chocolate não precisa ter sentido, é por isto que é doce."

— Charlie. — O chocolateiro sussurrou, mas não foi escutado.

— Eu não viria sem minha família.

"Sim é claro. Quer dizer, tudo bem se minha família puder ir?"

— E não fico sem você.

— Ninguém fica. — A voz de Dóris era grossa como a de um Umpa Lumpa, mas carregava a suavidade da verdade. — Falo por todos. Se você assinar, Charlie assina e nós partimos.

Willy a olhou. Ela, a pequena criatura que gerenciava tudo, zelava por tudo. A melhor amiga da fábrica Wonka. Dóris não podia partir.

— Não pode. — Gemeu o chocolateiro. — A fábrica morreria.

— Só estamos tentando nos proteger. — Charlie explicou. — Tentando te proteger!

"Geralmente eles só tentam te proteger porque..."

Amam você. — Willy se via cara a cara com o pequeno Charlie, aquele visitava a fábrica pela primeira vez, que passava fome. Falavam juntos.

O pequeno sorria, passava confiança, parceria; mas o chocolateiro apenas o olhava abismado com o que sentia, com a capacidade que tivera para esquecer o verdadeiro motivo por amar Charlie, cansado de tudo o que aguentou sozinho.

Naquele momento só havia o Charlie criança e Willy Wonka. O ambiente sumiu, tornou-se negro, com as duas personagens brilhando com uma luz própria.

"Senhor Wonka" Um senhorzinho franzino surgiu ao lado do pequeno. No fundo negro das lembranças, a mão enrugada segurava um dos ombros e os olhinhos se fechavam em fendas fininhas por culpa do sorriso bobo.

"Charlie, meu neto, é o único que sobrou."

Ah. — Gemeu Willy.

Amanda soube, naquele segundo, que Willy era o cara mais amado do mundo. Amado e protegido. Ela havia dado o empurrãozinho, mas a vida tinha se encarregado de entregar o verdadeiro presente que ele tanto mereceria. A fábrica nada mais era do que o caminho entre Willy e o amor que ele sempre mereceu. E, se ela um dia teve coragem de pensar em tomar a fábrica, agora sentia vergonha de tais pensamentos.

Os dedos enluvados de Willy Wonka agarraram o papel que transferiria a fabrica. Ele tinha os olhos vidrados no herdeiro, mas não o via de verdade. Não via o companheirismo que ele passava enquanto os olhos tentavam furar a alma do chocolateiro até ele perceber a cagada que estava fazendo.

Ele deve ser um egocêntrico.

"E tem um cabelo engraçado."

Willy nunca soube se o pupilo tinha dito aquilo por raiva, para alfinetar ou se realmente achava que ele tinha o cabelo engraçado e isto não era de todo ruim.

"O que você tem contra os meus pais?" O garotinho brilhava contra o ambiente nulo.

Eu não posso proteger você dela.— O chocolateiro sussurrou ao Charlie pequeno.

O senhor não precisa.— O pequeno tomou uma das mãos do mais velho na dele. — Estive com minha família nos melhores e piores momentos. Estarei contigo também.

Eu posso ser ridicularizado.

Nunca te deixarei. Sei que seu pai também não e minha família lhe tem como parte, então sempre será amado.

Willy olhou para a própria mão, para os papeis assinados por Amanda.

Você tem a fábrica, os Umpa Lumpas, amigos lá fora, aqui dentro. E se tudo isto não bastar, Willy,— o pequenino se tornou homem. A mão livre segurou a ponta solta do papel que o tutor segurava — eu farei com que apenas a minha presença baste.

O chocolateiro abriu os lábios. E enquanto falava, ele e Charlie rasgaram o papel que quase os separou.

— Eu te amo, estrelinha.

Charlie segurou Willy. Se o corpo atrasasse um segundo para reagir, o tutor teria caído sobre o chão e até mesmo se machucado.

Estranhamente um punhado de Umpa Lumpas entrou na sala e levou o chocolateiro desmaiado, de maca, para a enfermaria; pareciam esperar pelo pior. Dóris os acompanhou, deixando a maquete na mesinha antes de virar as costas.

Charlie suspirou na tentativa de relaxar a tensão que tinha passado há pouco.

— Que dia. — Murmurou.

— Estou bem preocupada com ele.

O herdeiro ergueu os olhos para a visitante. Sorriu.

— Ele vai ficar bem.

— Me promete? — Amanda fechou a maleta. Os pés pisando sobre o papel rasgado que Willy tinha deixado cair enquanto desmaiava.

— Você será a primeira a saber caso algo de ruim aconteça com ele. Willy é forte, só pensou demais.

O herdeiro sentiu o ar gelado entrar assim que abriu a porta para que Amanda partisse.

— O que te trouxe aqui? — Ela perguntou. — O que te fez vir impedi-lo?

O herdeiro tocou o próprio coração.

— Você sabe. — Ela sorriu. — É por este mesmo motivo que você o deixou levar o livro de receitas.

— É um garoto esperto, senhor Charlie Bucket Wonka.

— Paciente, eu diria. A paciência sempre me fez bem e também me permite perceber detalhes que poucos notam.

— É uma dádiva. — A mulher estava admirada.

— Ah, nem sempre consigo ser paciente. — Ele chutou o chão. Estava um pouco encabulado.

O vento correu balançando os fios loiros de Amanda Funk. Estava sussurrando que a partida estava se postergando mais do que o tolerável.

A mulher girou no eixo e desceu as escadas que levariam ao portão da rua. Sabia que Charlie a acompanharia até que fechasse o portão de ferro que lacrava a fábrica contra a rua. Então, no último degrau, ela parou e o olhou.

Era um garoto suave e recheado de bons sentimentos, aquele que alguns abusam, outros querem por perto para proteger e para ser protegido. Charlie tinha uma energia inocente bem atraente.

— William é fantástico. – comentou a visitante que partia.

— Ele é mais do que fantástico. Ele é único. -Charlie pontuou.

Amanda Funk não conseguia entender como alguém podia se sentir tão humilhado e tão maravilhado, mas ela estava deste jeito. Humilhada por ter seus planos impedidos e descobertos por um garoto tão novo, maravilhada por ter conhecido uma pessoa tão amorosa e límpida. Após conhecer Charlie Bucket, ela se sentia pronta para largar o mundo dos chocolates e deixar que os dois reinassem a sós.

Amanda sorriu.

— Prazer, Charlie. Eu sou aquela que ensinou William Wonka, a ser um chocolateiro fantástico.

Charlie soltou uma gargalhada gostosa e quando Amanda chegou ao portão, ele conseguiu gritar:

— Prazer, Amanda! — Ele se despediu. — Eu sou aquele que ensinará Willy Wonka o que é ser amado.

Notas finais
¹. Depois, é claro, que tomou os chás feitos pelo curandeiro Umpa Lumpa e que a ressaca passou