O lobo e a raposa

5 Tratamento das feridas


Capítulo 05: Tratamento das feridas


Embora o rio possuísse uma leve correnteza e sua água não fornecesse um reflexo completamente claro, ainda podia ver minha imagem quando me inclinava sobre a água.

Cabelos loiros, olhos azuis, três pequenas marcas em cada bochecha, essa era minha aparência humana.

Mas apesar de possuir uma aparência humana, eu não era de fato um humano, afinal os demônios foram excluídos dessa categoria há muito tempo. Ao olhar para a minha imagem, mesmo na forma humana, às vezes podia até mesmo ver uma vaga sombra de um par de orelhas e nove caudas.

Suspirei profundamente e parei de prestar atenção a mim mesmo, me concentrando em lavar o pequeno pote mal feito de madeira. Quanto ao motivo para ele ser mal feito, é porque eu mesmo o fiz.

Uma semana se passou desde o dia em que fiz um acordo com o lobo prateado. Ah! Não, era Kakashi agora.

Como estávamos em um relacionamento cooperativo, finalmente trocamos nomes. Ele me permitiu lhe chamar de Kakashi e eu disse a ele que meu nome é Naruto.

Assim como lhe prometi, comecei a curar suas feridas. Não era que eu soubesse algo relacionado ao tratamento de feridas ou medicina, mas que tinha algo comigo que podia ajudá-lo a se curar e isso era: meu sangue.

Se o que herdei do clã Uzumaki de minha mãe, foi a poderosa chama que não se apaga. Do clã Namikaze de meu pai, herdei o sangue raro com capacidade curativa e de regeneração inimaginável. Esse sangue foi o que me manteve vivo por tantos anos apesar das constantes perseguições e lesões.

Embora meu sangue tivesse um efeito muito mais fraco em outros, ele não era inútil. Então a cada vez que ia tratar Kakashi, pegava um pouco de folhas, amassava e depois pingava um pouco de meu sangue, criando uma pasta vermelha que usava para aplicar em suas feridas.

O pote de madeira mal feito foi criado para preparar o remédio, mas como minhas habilidades nessa área eram zero, o pequeno pote era lamentável.

Preparei o remédio daquela manhã e depois regresse para a caverna. Sim, agora tinha permissão para entrar na caverna, embora fosse apenas enquanto aplicava o remédio em suas feridas.

E durante aquela semana, assumi minha forma humana e não regressei a ser uma raposa. Embora preferisse minha forma animal e estivesse mais acostumado com ela, era muito difícil tratar alguém sem a conveniência das mãos.

Quando cheguei, ele estava deitado e como sempre, na mesma posição. Barriga para baixo, patas dianteiras dobradas e cruzadas enquanto sua cabeça se apoiava sobre elas. Sempre que o via, sentia dores no corpo ao imaginar ficar tanto tempo na mesma posição.

— Vou trocar seu remédio — avisei, indo até mais fundo na caverna, pegando um pedaço de pano rasgado que já havia deixado ali e molhando-o em um pequeno córrego que passava por ali. Em algumas idas e voltas, lavei toda a ferida com dificuldade e depois apliquei o remédio, sempre me esticando ao máximo para alcançar as feridas mais altas e algumas vezes até tendo que subir em cima dele.

— Você é muito grande — Não pude deixar de reclamar.

— Não sou eu que sou grande, mas você que é pequeno — retrucou, me fazendo cerrar os dentes com raiva. Se eu estivesse na forma animal, nesse momento teria "explodido" todos os pelos do meu corpo e saltado para longe com raiva.

Nesses dias que passei aqui, já estava acostumado com seu jeito. Não é que ele não gostava de falar, era apenas que tinha preguiça de fazer isso e na maioria do tempo ficava em silêncio. Mas agora que estávamos mais próximos, ele muitas vezes se pronunciava, entretanto, nem sempre isso era algo bom.

— Ainda estou em fase de crescimento!

— Com essa velocidade de crescimento, você será tão grande quanto um filhote.

— Pois, fique sabendo que quando eu for uma raposa adulta, posso usar uma técnica de família para ficar muito maior que você! Dezenas de vezes maior! — garanti.

— Vou esperar para ver. Por enquanto só vejo um pirralho — Sua voz continuava lenta e calma, mas mesmo assim ainda podia ouvir a zombaria.

— Então espere! — decretei por fim e disse a mim mesmo em meu coração que no futuro iria crescer e vencer esse lobo metido!

Terminei rapidamente com o corpo e fui até a cabeça. Novamente corri algumas vezes até a água e limpei sua ferida, depois comecei a aplicar o remédio com grande cuidado, mesmo que ainda estivesse um pouco zangado. Afinal, aquela ferida foi causada para me proteger.

Seus pelos prateados estavam muito limpos agora e destacava ainda mais a pasta vermelha sobre a ferida que cortava sobre seu olho direito. Mesmo que ele fosse um demônio, essa ferida provavelmente nunca iria se curar por completo e ficaria uma cicatriz.

Depois de aplicar o remédio, toquei levemente seu olho e me senti triste por sua ferida. Assim como me senti feliz pela ausência de perguntas.

Kakashi era um demônio lobo e seu olfato era ótimo, ele com certeza sabia que havia sangue nesse remédio e talvez até soubesse que era meu próprio sangue, mas nunca fez perguntas, isso para mim era uma agradável surpresa.

Continuei alisando calmamente seu olho e deixei que o tempo passasse, sem notar que já estava ali há muitos minutos, foi só quando ele abriu seus dois e me encarou com confusão que percebi o que realmente estava fazendo. Sorri sem jeito e afastei a minha mão, me xingando em minha mente por ser tão descuidado.

Embora ele estivesse de bom humor recentemente, tivéssemos um acordo e ele já mostrou ser um bom lobo, mas… ainda era um lobo! E eles o chamam de rei da floresta por um bom motivo!

Peguei meu potinho de remédio e saí dali o mais rápido possível, lembrando a mim mesmo que era uma raposa, não um gato. Só tinha uma vida e precisava cuidar bem dela, portanto…

Nada de fazer carinho no mortal lobo prateado! Por mais fofo e inofensivo que ele parecesse, não podia esquecer que em um momento de descuido, posso virar churrasco de raposa!