O legado de Kyle
2 Anjo Infernal
Notas iniciais
Quando eu finalmente descobri que era filho de um dos caras que foi jogado para a Terra pelo próprio Deus, eu simplesmente achei que era tudo loucura e que aquilo iria acabar, já que agora eu era um órfão, bem, dezessete anos já era um adolescente com a cabeça feita e provavelmente eu não iria para a cidade mais próxima vender drogas às crianças ou vender pilulas para os velhos que precisavam para fazer seus instrumentos subirem. — parei para pensar nisso agora, eu poderia ter vendido muita droga... —
Já havia passado dois meses após a morte da minha mãe e da revelação dela pra mim e sem contar a questão mais alta da minha vida naquela época: Shay.
Após minha ira ter se elevado com meus parentes e eu ter me olhado no espelho e visto algo bizarro no reflexo, comecei a ouvir vozes mas, não eram poucas vozes, eram milhares.
“Socorro”, “me ajude!”, “alguém tem vodka?” — Essa eu nem imaginava quem poderia ser, se fosse atualmente eu acharia que fosse um satanista que gostava do local. — “porque não me ajuda?”.
No terceiro mês após os ocorridos, era dia 10.
— Eu não aguento mais essa droga!
Aquela era a frase que eu mais usava enquanto meus olhos estavam abertos. Meu cérebro já estava acostumando-se e eu já havia esquecido a dor de ter pedido minha família e já estava certo de que o Inferno realmente existia.
— O Inferno é minha mente. – Murmurei.
Só havia uma forma de parar aquelas vozes e a mesma era quando eu fechava meus olhos e pensava em meu pior medo: ser rejeitado. —Ah! Qual é? Eu tinha 17 anos, era um cara novo, nunca havia beijado ninguém e mesmo sendo rejeitado pelos humanos ao meu redor, não era aquela rejeição de que eu tinha medo. – Não entendia o fato de pensar em meu medo fazer aquelas vozes acabarem mas, era por pouco tempo.
— 5 minutos.
Era o tempo que durava a calmaria.
Peguei um bíblia em seguida um caderno e uma caneta, estranho? Não.
Por ter uma família religiosa demais eu sabia orações fortes, sabia que eu tinha um anjo comigo, um anjo que todo mundo tem mas que nunca vai ver, apenas senti-lo, mas pra isso acontecer você teria que ter fé e era o que eu menos tinha e era algo que estava crescendo em mim naquele momento.
Ao ler versículos e mais versículos vi que aquilo não iria me ajudar, a bíblia foi escrita por um homem e foi modificada no decorrer dos anos, não era a história original que estava ali, tudo bem que ela é bem grande e tudo mais, mas não era a verdadeira.
Eles não colocaram os outros apocalipses, pra você que não conhece isso, são apóstrofos, capítulos perdidos que não foram postos em nenhum “livro sagrado”.
Alguém batia na porta.
Me assustei e vi uma faca sobre a mesa, esgueirei-me até a mesma e a peguei, cautelosamente fui até e fiquei do lado dela, girei a maçaneta e aguardei a pessoa entrar foi então minha surpresa.
Pele clara, cabelos longos, olhos negros como a escuridão.
A faca já estava em seu pescoço, mililitros para cortar sua garganta e fazê-la sangrar e agoniar até a morte.
— Harl- ley... – Minha voz falhou.
Meus olhos estavam paralisados ao ver a garota em minha porta, o que diabos estava acontecendo? — Agora vou falar um segredinho pra vocês: eu só não me excitei por que eu não sabia o que fazer. Juro. –
— Kyle, abaixa essa faca. – ela disse com um tom de medo.
Eu a soltei na hora que ouvi a voz da garota. Era como um estrondo em minha mente, eu nunca havia ouvido sua voz ou visto ela tão de perto e nem imaginava que um dia aquela cena iria acontecer, digo, a cena de falar com ela e não de ter apontado uma faca para seu pescoço quase tirando a vida da pequena menina.
— O.K. O que quer?
— Você não vai à escola há quase 3 meses.
Engoli minha saliva a seco e tentei processar o que ela havia dito.
— V-Você percebeu minha ausência? – perguntei pasmo.
— Sim.
Ela disse com firmeza, mas assim que eu ia abrir a boca para falar algo:
—Meio notável não ver o garoto de cabelo branco sendo zoado.
Suspirei fundo e semicerrei os olhos.
— Normal. – murmurei.
Tá bem, ela havia notado minha ausência, já era um ponto positivo pra mim, mesmo que a preocupação dela fosse o fato de eu não ser mais zoado na maldita escola. Mas, aquele momento eu não havia ligado, ela estava em minha casa, sozinha. — Não galera, eu não estuprei a garota, tá? – Era algo que eu nunca imaginei.
— Seu cabelo está enorme e onde estão seus pais?
Ela era bem aleatória. Ela podia falar de cabelo e de pais ao mesmo tempo, aquela menina realmente era impressionante.
— Minha mãe morreu e meu cabelo tá realmente grande.
Sobrei para cima tirando uma mecha em meu olho.
Falei sobre minha mãe com uma calmaria intensa e naquele momento eu percebi que havia passado mais de cinco minutos do meu transe e eu já não ouvia as suplicações.
— O que? Como assim? E você está sozinho?
Olhei em volta e me segurei para não responde-la mal.
— Se olhar naquele canto da parede, tem sangue. – apontei — E ali tem uns livros de Harry Potter amaçados e se olhar bem, tem uns de Percy Jackson. – acenei com a cabeça
E antes que ela perguntasse “você matou sua mãe?” eu completei minha resposta:
— Minha mãe morreu de algum vírus, o sangue foi causado por uma espécie de demônio que matou meus parentes.
Novamente a calma me preenchia.
— Demônio? – um sorriso surgiu no rosto dela — Tá brincando né? – ela começou a gargalhar.
Aquele momento, eu me perguntei seriamente se aquela garota era normal ou se ela tinha algum problema mental, eu havia acabado de dizer que um demônio havia matado minha família e ela sorriu.
— Eu acreditaria se você me mostrasse um demônio de verdade. Fora isso, ainda acho que aquilo é ketchup vencido.
Sim, agora eu achava que ela tinha problemas mentais.
— Harley, qual seu problema?
— Meu? Você que diz merdas e eu que tenho problemas?
Por um momento eu refleti sobre o que eu havia dito. Eu havia passado por algo sobrenatural e que provavelmente ninguém acreditaria, ninguém olharia o lado do garoto de 17 anos sem pais ou família. Harley foi o ponto crítico para que eu pensasse antes de falar.
— Tem razão. – dei um sorriso no canto da boca — Desculpe.
Ela me olhou confusa por alguns segundos e logo retirou a bolsa das costas.
— Eu trouxe meus cadern-
Eu ergui minha mão e ela foi interrompida.
— Eu não vou mais à escola, garota.
Ela voltou com o caderno para dentro da bolsa e a fechou. Parecia frustada.
— Tudo bem.
Eu não respondi sua última afirmação, fiquei alguns segundos olhando para seus olhos e ela por incrível que pareça, fez o mesmo. — Eu havia lido uma vez que quando uma garota te olhava muito é por que ela queria te dar, mas não vem o caso aqui, era uma parte triste poxa. – Eu me virei e fui até a mesa onde eu estava.
— Bíblia? Sabe que isso é uma perca de tempo não é?
— Escrita por humanos, sem toque angelical, uns pedaços de papéis antigos, nomes e pregações, inicio, meio e fim. Eu sei que não é nada, apenas estava procurando uma coisa.
Harley era bonita, inteligente e ateia. A garota não acreditava em Deus ou diabo ou qualquer outra coisa que envolvia religião.
— Seu pai? Você não tem um pai?
Ela me perguntou logo após olhar ao redor da casa.
A garota havia me perguntado algo difícil, o que eu iria responder? “Ah, meu pai é o diabo, ele deve tá de boa no inferno punindo os idiotas”.
— Me diz, se seu pai fosse alguém que é tratado como monstro e criador de desgraças, você teria orgulho?
A pequena garota me olhou com um olhar de duvida.
— Eu não tenho pai ou mãe, fui abandonada e não sei o que é orgulho.
Aquele momento, quando ela disse aquela frase eu me senti um lixo por ter feito aquela pergunta. Harley era como eu, mas eu tive uma mãe, não fui bem abandonado, mas agora estava sozinho no mundo.
— O que eu posso dizer que veio de meus pais é isso...
Ela colocou a mão dentro da gola da blusa e abaixou começando a mostrar seus seios— Opa, seus pervertidos desgraçados eu sei que vocês já estavam com a mão no pequeno guerreiro e vocês garotas na guerreira de Esparta, mas se controle, o legado não é pornô. – e logo puxava um colar e logo de primeira eu reconheci aquele simbolo.
— Bruxa.
Eu olhei para ela com um sorriso no rosto.
— Você provavelmente deve ser descendente de bruxos. É um bom sangue, Harley.
— Bruxaria? Tá achando que a droga da vida é um livro ou filme de Harry Potter, Kyle?
A mente dela era mais fechada do que eu imaginava.
— Bruxaria não envolve isso, não é uma varinha e praguejar “Cruccio” e torturar. É sabedoria. Você pode criar dimensões, poderia fazer uma imensidão de coisas.
Ela me olhou e guardou o colar e suspirou fundo.
— Com isso veio um livro...
Meus pensamentos voaram aquele momento, a garota tinha tudo para ser uma bruxa e nunca havia pesquisado sobre, eu senti vontade de levanta-la pelo pescoço e destruir cada partícula de seu corpo. Pude até imaginar nossos filhos. — Tá, isso é sério, eu achava ela apropriada para receber minhas sementes. –
Antes de prosseguir com as palavras, vocês estão se perguntando “cadê a ação?”, “cadê os demônios?”. Apenas se aquietem, essa foi a fase que eu estava me acostumando eu ainda estava me descobrindo, eu ainda estava aprendendo sobre mim.
— Harley, você é idiota, não é? Pegue o livro e estude-o!
— Pra que?
— Sabedoria, idiota.
Ela me olhou com cara de imbecil, ela era bela até sendo estúpida, incrível.
A menina sorriu e se virou e começou a andar até a porta.
— Tudo bem, vou fazer isso.
Eu não entendi o que havia acontecido, ela sorriu e se virou, parecia cena de filme quando o principal descobre o que fazer.
— Tudo-
Fui interrompido com o barulho da porta se fechando, ela já tinha saído.
Me perguntei várias vezes o que ela havia pensado e se ela iria estudar aquele livro e saber mais sobre sua origem. Mas logo as perguntas se sessaram, eu havia voltado pra mim.
Eu precisava de algo real, precisava saber o que eu era.
Lúcifer antes de cair era um dos anjos mais poderosos do céu, Gabriel vinha atrás o anjo que ajudou Deus a descer o querido asas quebradas. Eu não sabia se era um demônio ou um anjo.
Passei horas e mais horas olhando livros antigos de religião que tinham em casa, minha mãe acreditava muito em um Deus. Irônico, ela havia transado com o rei do Inferno.
Já estava desistindo de minha busca por sabedoria, até que achei algo que me chamou a atenção, um livro totalmente negro, com símbolos estranhos, pareciam selos. Levei minha mão até sua capa e senti a ponta de meus dedos queimarem.
— O que?
Peguei um pedaço de madeira e mexi no livro e nada acontecia. Joguei o livro no chão fazendo-o cair aberto e ao olhar para a página estava escrito:
— O Anjo Infernal.
“Aposto que você queimou o dedo quando tentou tocar isso não é, filhote?
Espero que seus dons já estejam aguçados, quando esse livro tocar sua mão a primeira vez, será o momento que eu serei avisado...”
— É o que?
Eu peguei o livro do chão e ele já não queimava mais.
— Merda...
“... sua mãe provavelmente está morta, meu garoto deve ter ido te ver, os fatos já devem ter ocorrido. São 17 anos esperando você, mas fazer o que, não é mesmo? Esperei milênios para sair da jaula e ir pegar umas vadias, desculpe pela sua mamãe.”
— Lúcifer...
“Já conseguiu usar suas asas? Já matou alguém? Viu sua metade demônio e metade anjo? Isso é o legal de ser humano, demônio e anjo. Mas só vai poder escolher um, viu? Deixe papai orgulho e dê um jeito de mandar seu avô parar de mandar anjos, mande os de elite, tenho saudade do Gabriel, é um bom irmão.
Ah! Filho, cuidado com o Shayzinho, ele é cabeça quente e não gosta de você, como eu.”
Eu estava lendo aquilo e percebi o senso de humor de Lúcifer, senti o sarcasmo em suas palavras e vi que ele não gostava de mim e descobri também que era um pouco de cada coisa.
“Eu não gosto de você. Só pra constar mesmo e quando você abaixar a guarda, você morre.
Tipo agora...”
A folha havia acabado, eu virei a página e vi um outro símbolo, era estranho, linhas retas envolvidos de círculos e no fim da página um pentagrama e a palavra bem pequena:
— Puff.
O livro começou a brilhar, meus olhos queimaram e minha pele se esquentou, minhas mãos não ficaram para trás, aquele foi o primeiro golpe de meu pai contra mim.
O livro estava mandando chamas do inferno as puras e legítimas chamas do inferno e em alguns instantes ele explodia me mandando contra a parede de casa e a quebrando, metade da cozinha foi destruída, eu estava em meio aos escombros, senti minha pele queimar, senti umas costelas quebradas e senti mais ódio ainda do que estava acontecendo em minha vida.
— Lúcifer, eu vou te destruir.
Murmurei com a voz fraca e meus olhos se fecharam. Por instantes vi que era minha morte, eu não pude fazer nada, eu apenas fui morto por uma explosão de chamas do inferno e iria ficar por aquilo mesmo. Mas foi então que ouvi um sussurro em minha mente.
— Você é um demônio e um anjo. Tem cura de anjo e tem poder de demônio. Porra, vamos aprender a usar a gente. Só vou te ajudar dessa vez, depois, volta aqui pra gente beber um uísque juntos.
Abri meus olhos e senti o peso do entulho em minhas pernas, olhei para o céu e me perguntei:
— Mas que porra é essa?
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