O legado de Kyle
3 Demônio Interior
Notas iniciais
Posso deixar uma coisa clara pra vocês? Sim, eu posso.
Lúcifer sempre foi um cara com um belo senso de humor e um humor que chega próximo de um espírito brincalhão. Sua brincadeira aquele dia foi ter colocado minha casa ao chão e ter me queimado como um espetinho de Kyle. E claro, devem estar se perguntando “Como sobreviveu tio Kyle?” a resposta é óbvia: Anjo e demônio interior.
Eu me levantei sem saber o havia acontecido, com meus ferimentos curados e sem dor alguma e me perguntando “Mas que porra é essa?” toda hora.
Levando em conta também a pessoa ou coisa que disse para eu aprender a controlar ele e a outra parte, o que me deixava mais confuso ainda e com uma tremenda dor de cabeço.
Levantei-me do chão e apenas minhas roupas estavam rasgadas e queimadas.
— Por que comigo?
Murmurei e olhei o estrago em volta. Agora eu já poderia ir pra uma ponte qualquer e brincar de pesca como sobrevivência e talvez arrumar uma namorada que morasse na rua e me aceitasse como sem teto.
Não demorava muito e os malditos vizinhos começavam a surgir e vir até o “acidente”.
— O que houve aqui?
Eu não sabia o que falar então apenas olhei para o rapaz e retruquei:
— O Diabo, Belzebu, Tinhoso, Príncipe das Trevas, mas, basicamente? O cara que transou com minha mãe.
Eu olhei para os lados e me perguntei de onde eu tirei aquelas palavras, parecia que algo havia mudado em mim.
Antes de prosseguir, gostaria de tirar outra dúvida de vocês.
Lúcifer saiu do inferno há 20 anos, atualmente estamos no ano 2021, tenho 20 anos, estamos contando a época em que eu tinha 17 anos, em 2018. A guerra dos cinco dias ocorreu em 2020, é, acho que é isso. — A cronologia disso aqui é bem bagunçada, não me julga. –
Ao contrário do que foi escrito em bíblias, não foi o fim da Terra, nem houve o apocalipse, Luci apenas mostrou sua volta de uma forma triunfal, assim como foi a queda dele. Em 2000 meu pai conheceu a Amy e daí vocês já sabem, não é?
O senhor das trevas se mostrou pra todo mundo e todos os humanos temeram e diziam: O inferno é a terra!
Lucifer viu a grande desgraça que estava no planeta de vocês e disse pra si mesmo:
— Eu gostaria de puni-los, mas vocês já fazem isso entre si.
Papai era bem sério naquela época — Não a merda que era em 2018 – Então, ele retornou ao inferno, mas desta vez livre, mas antes, pegou umas vadias. — desculpa de novo, mamãe. —
Voltando à nossa historinha no ano de 2018.
Eu comecei a caminhar em direção ao povo e eles iam se afastando e em certo momento em parei e me virei para minha casa, me escorei em um dos curiosos.
— Eu gostava dos meus livros de Harry Potter.
Balancei a cabeça como negação e continuei a seguir.
Algo realmente havia mudado em mim, eu não estava preocupado, estava sem roupas e sem nada agora.
— Garoto.
Eu ouvi uma voz que se dirigia até mim.
— Enfim surgiu, o herdeiro da escuridão.
Eu me virei e vi um rapaz com um capuz preto — ta isso é clichê, mas foi verdade – e um sobretudo até o chão.
— Você é algum agente da S.H.I.E.L.D? Ou é o cara que vem chamar pros Vingadores?
— Pelo jeito teve contato com o demônio, o humor é ruim.
Ergui uma sobrancelha e continuei a olhar o rapaz.
— Siga-me, vou mostrar a verdade.
Ele se virou e começou a caminhar, aquele momento eu achei que seria estuprado ou simplesmente morreria ou talvez até fosse estuprado e depois morto, era uma infinidade de coisas que podem ser relacionadas a um estupro, mas não foi nada disso. Atualmente, eu sinto falta desse cara.
Eu o segui, andamos poucos metros entre um beco e logo ele parava e se virava para mim, seus olhos eram brancos, ele tirou o capuz e mostrou seu cabelo ruivo.
— Você é o contrário. Eu tenho o cabelo branco e você os olhos.
Apontei e comecei a gargalhar.
— Maldito filho do demônio, pare com as piadas.
Ele olhou para a parede e a tocou, uma luz começou a brilhar, arregalei meus olhos com medo e dei um passo para trás, aquele era o mesmo brilho do livro infernal.
Me surpreendi quando se cessou, um portão havia surgido em uma parede de tijolos antigos.
— Se você me falar que esse é o portão do inferno, cara, a gente vai ter uma discussão de relação. Você nem pagou o lanche.
— Não acredito que vou ter que seguir você, garoto.
Ele adentrou o portão estranho e desapareceu.
Fiquei acanhado até que ele colocou a cabeça para fora do portão
— Isso é um portal para o Limbo, entra logo!
Quando ele disse “limbo” minha mente procurou cada história sobre ele.
Segundo o catolicismo, crianças que morriam sem o batismo não iriam para o céu e nem para o inferno por não terem pecados, elas ficavam no limbo. Uma espécie de universo paralelo, não era ruim e não era bom. Morrer nunca é bom, não é, amigos?
Eu poderia ir pro Limbo, não tinha pecados. É sério, eu não tinha.
Eu fui para o portal e entrei.
Sabe a sensação de estar sendo puxado? É a sensação de entrar em um portal para o mundo inverso.
Ao entrar, vi o rapaz parado e ele deu um sorriso de canto.
Olhei em volta e não era nada daquilo que eu havia pensado. Existiam crianças, mas...
— Demônios.. – murmurei.
— Errado, esses aqui são bons.
Olhei confuso para o garoto que aparentava ter minha idade. O observei bem, ele tinha uma energia estranha.
— Eu sou um anjo.
Recuei para trás.
— Anjos, demônios, filho de Lúcifer, livro que explode chamas do inferno, bruxaria. O que ta acontecendo?
— O que já era previsto.
Ele começou a caminhar novamente e eu calmamente fui seguindo-o processando tudo o que estava acontecendo.
— Meu nome é Ariel e fui mandado por Gabriel, o Arcanjo.
— Ariel é nome de mulher.
— Você só se interessa pelo nome?
— É um belo nome.
Ele me olhou com cara de irritado.
Um anjo estava na minha frente enquanto eu via demônios e crianças brincando.
— O Inferno é pra brincar também?
— Meu irmão gosta de uísque barato e torturar, acha legal?
Repensei antes de abrir a boca pra respondê-lo.
— Não. Claro que não.
Ele parou em frente a uma casa e quando eu a olhei eu vi que era minha residência, entretanto, sem nada destruído. Aquele momento comecei a entender como o Limbo funcionava. Era o mundo onde eu morava sem humanos, apenas almas.
— Gabriel me mandou para ensiná-lo e treinar você para o confronto contra Deus e Lúcifer.
— Você ta brincando não é? Eu to no meio disso por quê?
— Você é humano, anjo e demônio.
— Ah sim.
Ele me olhou com duvida no rosto.
— Já aceitou?
— Já, não tenho o que falar, há alguns minutos atrás um livro explodiu, eu não morri, você aparece, abre um portal pra cá, eu to na minha casa que foi destruída, tem crianças lá fora e aqui dentro, fora os demônios. O que eu tenho que aceitar mais? Que eu vou matar Deus e Lúcifer e ser o novo regente da Terra?
— Sim.
— Acho que – eu parei e olhei para Ariel — O que? – gritei.
Esse foi o momento em minha vida quando eu percebi que eu estava destruído, sabia que eu iria me ferrar muito e sabia ainda mais que Ariel não estava brincando.
— Deus mudou após a saída de Lúcifer, Gabriel e os outros não estão muito alegres com a atitude do pai. Querem mudanças.
— Isso não torna todos vocês traidores?
— Sim.
Ele disse com firmeza. Deus não estava sendo o mesmo após a saída de meu pai, acho que os anjos e arcanjos têm ciúmes também.
Ariel retirou uma espada branca de dentro de um dos baús da minha casa.
— Isso nunca esteve ai.
— Você nunca esteve aqui.
Eu me calei ao ouvir suas palavras.
— O tempo aqui no Limbo não conta como o tempo na Terra, alguns minutos lá, são anos aqui.
— Certo, e como vamos treinar?
Ele jogou a katana em meus braços e eu a peguei.
— Isso é uma espada angelical, ela pode matar anjos, demônios ou qualquer outro tipo de anormalidade. E essa...
Ele sacou sua espada, aquela era dourada.
— Essa não pode te matar aqui, mas vai fazer seu lado humano sentir dor, então, desperte seu demônio ou anjo interior.
Eu nunca tinha pegado em uma espada antes, eu nunca havia se que lutado antes. Ariel retirava seu sobretudo e se posicionar para me atacar.
— Lúcifer ou Deus não usará armas, eles são fortes pra te explodir com um estalar de dedos, mas, você...
Ele fincou a espada no chão que era perfurado como um papel de seda.
— Você pode destruí-los com seu exercito...
Ele começou a se ajoelhar e a se curvar, eu não estava entendendo.
— Ei... Não quero um oral agora, ta?
Ele curvou-se diante de mim com sua espada ao seu lado.
— Majestade, você precisa matar Lúcifer e Deus.
Engoli minha saliva a seco, olhei para o rapaz que ainda estava curvado e fiquei me perguntando se era brincadeira, se aquilo era mais uma de Lúcifer.
Mas, ele não se ergueu enquanto eu não dava minha palavra, ele se manteve ali, como um soldado.
Foi o momento da minha vida em que eu vi que eu era importante e todos os anos anteriores não passaram de uma droga, não passavam de uma farsa, eu me senti um deus. Mas, não deixei aquilo me levar, eu não era daquele jeito, não era uma pessoa idiota.
—Olha, é sério, levanta não to acostumado com isso.
— Aceite meu modo de treinamento!
A voz dele foi firme, mas com um toque de medo.
— Ariel... – olhei para a espada em minha mão — Eu vou ter estilo quando cravar a espada no chão também?
Ele ergueu sua cabeça com um sorriso no rosto e acenou a cabeça como um sim e logo se levantou.
— Vamos começar.
Ariel estalou os dedos e logo haviam cinco pessoas ao meu redor. Mas, tinha algo de errado.
— Por que estão sem rosto?
— Espectros, são criados para treinar você. Cada um tem um propósito.
Olhei para o que estava em minha frente e apontei.
— Você, me mos- fui interrompido
Ele voou pra cima de mim como um cachorro nervoso, senti o peso de seu punho em meu rosto e vi que ele havia uma espada em sua cintura, ela era como a dourada de Ariel. Eu fui arremessado à 3 metros de distancia e só parei por conta da parede.
— O que eu faço Ariel?! – Exclamei enquanto aguardava o próximo golpe
— Lute.
Aquele cara sabia como me deixar irritado com uma simples palavra, eu não sabia como reagir, então apenas levei minha mão até o punhal da espada branca, um arrepio correu em minha espinha e eu senti como se eu tivesse poder para fazer qualquer coisa. Empunhei a katana e apontei para o espectro.
— Venha.
Em um piscar de olhos, a força do impacto da espada dourada e minha espada me mandavam para trás, fazendo a parede quebrar, as almas de crianças e de demônios se espalhavam assustadas.
O espectro sumiu.
Movimentei minha cabeça para a esquerda e direita e fui surpreendido com uma pontada em minhas costas, eu olhei para baixo e lá estava uma espada atravessada em meu corpo.
O gosto de sangue em minha boca foi inevitável, a dor, a agonia, o modo como aquela ferida ardia como fogo.
Os outros espectros surgiam ao meu redor e cada um deles sacava sua espada.
— Lorde, surja.
Eles diziam em uma única voz.
Todos os outros quatro se aproximavam com suas espadas em mãos e logo as apontava para meu corpo, a cada passo, mais próximos. Eu fechei meus olhos e apenas senti de uma vez todas elas penetrando e atravessando minha pele, meus órgãos. Eu tossi sangue e olhei para Ariel que estava com um sorriso no rosto.
Meus olhos foram se fechando e eu fui perdendo a visão.
— Enfim, juntos Kyle.
Uma voz semelhante a minha eu pude ouvir.
Abri meus olhos e estava em um espaço branco e a minha frente um demônio com apenas uma asa e ao outro lado um anjo com apenas uma asa também, mas, aquelas asas eram perfeitas, já a do demônio, pareciam podres e a cada pena caída, outra surgia.
Levei minha mão até minha barriga e não vi sangue e nem via mais os ferimentos.
— O que é isso?
— Aqui é onde você nos conhece e a gente salva você, entende? – o demônio respondia
— Nós somos aqueles que irão te ajudar Kyle. – retrucava o anjo com calma.
Essa parte, foi a mais importante, a mais bela e a mais calma que eu pude passar durante meus dezessete anos, eu conheci um demônio e um anjo que existiam dentro de mim. Foi confuso de primeira, mas eu logo entendi, eu já sabia o que estava acontecendo.
— Vocês sabem que fizeram de mim o cara que vai matar Lúcifer e Deus não é?
— Sim, sabemos, mas antes, precisa matar os espectros.
O demônio andou até mim e tocou minha cabeça.
— Use o meu poder.
Senti algo saindo de minhas costas, minha camisa se rasgava e a asa daquele demônio estava em meu corpo, às dores já não eram sentidas e ao abrir meus olhos eu senti que não era eu mesmo.
— Olhos negros, asas danificadas. O Demônio surgiu.
Era a voz de Ariel.
Olhei para cada Espectro, os mesmos não demonstravam medo ou qualquer outra emoção.
— Vocês machucaram o corpo humano.
Segurei minha espada firme e manuseei até o rosto vago de um dos mesmos, fazendo-o desaparecer.
Os demais se afastavam retirando suas espadas de meu corpo.
— Ariel, faça uma barreira, vai precisar.
Girei minha espada e levei sua ponta até o chão fazendo-a cravar no solo.
— Espectros?
Eles se posicionavam para atacar novamente.
— Adeus.
Chamas negras começavam a descer sobre a espada branca e ir até o chão, o Limbo começava a tremer como se a realidade fosse para ele, como se fosse um curto circuito em todo o universo. Por instantes olhei para Ariel e ele estava assustado. Forcei mais a espada para baixo e uma explosão ocorreu, uma explosão negra.
O Limbo ficou meio a meio, parte real, parte limbo. As almas se dispersavam junto dos demônios, os humanos não viam nada do que estava acontecendo.
Ao cessar o poder, os espectros haviam desaparecido deixando apenas suas espadas sobre o chão.
Retirei a katana do chão e olhei em volta.
— Não sabia que poderia destruir meu próprio bairro.
As casas, os demônios e almas haviam sido destruídos, mas logo surgiam mais e mais, como se fossem infinitas. Ariel desfez a barreira e olhou para mim.
— Última pessoa que olhou assi- eu senti meu corpo pesar
Fui ao chão e minha asa se desfez em pó. Eu havia desmaiado.
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