O lado escuro da lua

2 01. Minha vida antes — POV Renesmee


Notas iniciais
Capítulo revisado em 20.06.2025


Pov Renesmee

Renan Jr estava novamente em frente a nossa garagem batendo aquela bola ridícula de basquete. Para meu irmão de dez anos, aquele era um ritual quase que sagrado que acontecia toda as tardes enquanto ele esperava o nosso pai, que mal saia do carro retirava o paletó, afrouxava a gravata e se juntava a ele por alguns minutos até a nossa mãe colocar os dois para dentro.

Nos moramos em Denver, Colorado desde que eu me entendo por gente. Sei que meu pai já viveu em vários outros estados e cidades até se fixar aqui. Ele e minha mãe se conheceram em uma das viagens dele para a cidade natal dela, San Diego na Califórnia, minha mãe viveu em um abrigo para menores até completar sua maioridade. De acordo com eles foi amor a primeira vista. Minha mãe se chama Esme e meu pai Renan. Não imaginam a minha felicidade por ter um nome tão estranho assim e ter que ficar repetindo pronúncia e até mesmo soletrar algumas vezes.

— Renesmee venha me ajudar- ouço a voz altiva da minha mãe, deixo meu celular encima do sofá mesmo e corro pra cozinha pra ajudar ela com nosso jantar, ontem foi o Renan e hoje é a minha vez.

Uma coisa que eu não podia reclamar nessa casa era de ter que fazer todas as tarefas domesticas por ser a filha mulher, minha mãe dividia tudo igualmente aqui.

Enquanto cortava os legumes, ouvi o carro do papai estacionando. Minha mãe ergue os olhos em minha direção, contorcendo os lábios de uma maneira estranha ao perceber que papai chegava acompanhado por alguém.

— Quem será dessa vez? – ela sempre detestou ter mais alguém no momento da refeição, em seu ponto de vista era o único momento em que a família inteira podia se sentar e conversar abertamente sobre o seu dia sem nenhum estranho pra ouvir a conversa.

Lavou as mãos, secando-as no pano de prato e saiu pra ver quem era o nosso visitante da noite. Conseguia ouvir as vozes deles, mas não conseguia entender muito bem o que falavam. Ela voltou depois de dez minutos.

— Corte mais legumes, o filho da mulher do seu tio está na cidade e vai passar uns dias com a gente.

Eu só tinha um tio e esse morava em uma cidadezinha em Washington, cujo nome eu nunca consigo lembrar. Coloquei os pratos, copos e talheres a mesa com um lugar a mais para o nosso convidado. Olhei pela janela que dava vista para a parte da frente da garagem e vi a figura morena e bem alta jogar com meu pai e meu irmão. Não consegui ver o rosto, mas já estava bem satisfeita com a visão que tinha.

— Fecha a boca se não a baba escorre.- mamãe brincou, colocando sua mão embaixo do meu queixo e pressionando pra cima sem realmente fazer força pra isso. – Não deixe seu pai perceber ou o rapaz vai ficar sem ter onde dormir.

Uma diferença significativa entre meus pais era que ele era extremamente ciumento, já mamãe sabia exatamente quando eu me interessava por alguém e ainda me dava ajudinha para despistar os ciúmes possessivos dele.

Quando terminava de por a mesa, ergo meus olhos em direção a porta de entrada por onde passavam meu pai, meu irmão e o estranho misterioso. Nesse momento tive vontade de sumir da face da terra, pois já conhecia o rapaz e o pior tinha me apresentado a ele com nome e idade falsa pois tínhamos ido a um bar ontem a noite e lá não entram menores. Assim que me viu o rapaz estreitou os olhos, sorriu de lado como se compreendesse a situação e disfarçou bem quando meu pai me chamou.

— Renesmee, este é Seth Clearwater, filho de Sue. De Sue você deve lembrar, eles estiveram aqui três anos atrás. – dizia Renan

Com a cara mais imparcial possível eu segurei na mão estirada de Seth.

— É bom finalmente conhecer a sobrinha favorita do chefe Swan. – ele faz referência ao cargo ocupado por Charlie. Céus, eu tô ferrada.

Fiquei em silêncio durante todo o jantar, meus pais perceberam e eu tive que mentir novamente e dizer que estava com dor de cabeça. A segunda mentira da semana, já que ontem eu não estava na casa de Deby como havia dito a eles. Me retirei mais cedo da mesa.

Também não consegui dormir aquela noite, depois que todos já haviam ido dormir a algum tempo eu resolvi descer pra tomar um pouco de água na tentativa de me acalmar.

Fui até lá sem acender nenhuma luz, apenas com a lanterna do celular. Abri a porta da geladeira e tive um susto daqueles quando me virei e esbarrei com Seth, quase deixei cair a jarra com água se não fosse a rapidez dele em reagir e a segurar.

— Olá, Elena. – ele pronunciou meu nome falso com desdém. – Eu sabia que não podia ter vinte e um, mas não achei que ainda fosse menor de idade. – ele disse sem arrodeios.

— Por favor, não fala nada pro meu pai. Se ele souber onde estive ontem eu fico de castigo até os quarenta. – supliquei.

— Nunca esteve nos meus planos te entregar. – e como na noite anterior, Seth colocou sua mão suavemente em meu rosto. – Na verdade, fiquei feliz em descobrir a verdade. Eu realmente gostei de ter ficado a noite toda com você.

Me beijou suavemente, mas sem dar chances de fuga. Uma de suas mãos estava em meu rosto, e a outra apertava minha cintura. Quando percebeu que eu estava entregue ao beijo, ele se escorou no balcão onde havia depositado a jarra com água e me levou junto. Perdi a noção do tempo enquanto ele me beijava.

Ele interrompeu, de repente com uma expressão estranha.

— Melhor eu ir pro meu quarto. – e sumiu da minha vista pela escuridão da casa.

A única luz presente era da porta da geladeira que ainda estava aberta. O quarto de hóspedes onde ele estava era o primeiro, bem antes do quarto dos meus pais e agradeci por ele ter entrado no quarto antes do meu pai ter chegado aqui ou eu teria sérios problemas para me justificar.

— Algum problema, Renesmee? – meu pai perguntou

— Só não estava conseguindo dormir. – respondi gesticulando para a jarra e o copo com água. – acho que agora eu consigo.

Seth estava na cidade para um treinamento, a construtora onde meu pai trabalhava iria abrir uma filial em Seattle e ele havia sido indicado justamente pelo meu pai. Ele ficaria em nossa casa por um mês, enquanto o treinamento acontecia.

Aquela não foi a única noite em que trocamos beijos escondidos e mesmo que ele tenha dito que era melhor abrir o jogo com meu pai eu lhe disse um não. Conhecia bem demais Renan para saber que ele colocaria Seth pra fora no instante seguinte. Tanto pelos ciúmes, como também devido a diferença gritante de idade entre nós dois.

Já se faziam vinte dias desde que Seth estava dormindo em minha casa, e sempre que dava trocávamos um beijo ou outro. Eu estava bem, estava feliz com Seth e já ate pensava em de fato assumir essa relação que tínhamos, já que ele me pediu em namoro varias vezes durante esse tempo e eu sempre dava uma desculpa qualquer. Meus pais gostavam dele, diziam que era um bom homem e teciam elogios recorrentes, então talvez não se chocassem muito com a notícia que estávamos juntos.

Tínhamos saído pro cinema em família, Seth não tinha ido conosco pois disse que estava meio doente – o que eu não estranhei já que sempre sentia a pele dele muito quente.

Na volta, eram quase dez da noite quando meu pai parou no sinal vermelho. Eu estava sentada bem atrás do motorista, e tudo parecia em câmera lenta, mesmo eu sabendo que tudo acontecia em segundos. Uma luz forte vinda do lado do meu irmão nos cegou, ouvi a buzina estridente, ouvi o som de pneu queimando no asfalto. Vi nosso carro girar e capotar.

Eu gritei, ao ver que meu irmão e minha mãe haviam sido atingidos pela primeira pancada. Quando o carro parou, eu não tive coragem de olhar pois sabiam que eles estavam mortos. Retirei o cinto e me arrastei para fora do carro, sabia que minha perna estava quebrada mas eu não sentia dor física no momento. Meu pai que estava sem o cinto de segurança foi lançado para fora do veículo.

Essas eram as últimas lembranças que eu teria da minha família.

Com dificuldade eu ia abrindo meus olhos, incomodada com a claridade, sentido meu corpo inteiro doer.

— Não se mecha. – Era a voz de Seth – Eu estou aqui, vou cuidar de você- sussurrava, acariciando meu cabelo.- Vai ficar tudo bem, Charlie já está vindo.

Não perguntei, não precisava perguntar para saber onde eu estava e o que havia acontecido. Comecei a chorar copiosamente, Seth me puxou para seus braços, me acolhendo como a uma criança de colo.

Eu estava sozinha no mundo.