O judeu
3 Um estranho lugar
Notas iniciais
No capitulo de hoje Isabella irá conhecer seu novo lar...
Espero que gostem. Bjs boa leitura o/
A manhã estava fria e ventava bastante, acho que o clima estava combinando com meu estado de espírito e por alguma razão aquele estranho pressentimento ruim não me abandonava por mais que eu tentasse expulsá-lo.
Nosso café foi improvisado por minha mãe já que havíamos dispensado a empregada, portanto a refeição se resumiu a pães, queijo e chá verde, tudo perfeitamente organizado na pequena mesa da cozinha, um dos poucos móveis que não levaríamos de Berlim.
–Bom dia querida – Renée falou sorrindo.
–Bom dia – Respondi me sentando.
–Quer chá?
–Sim, obrigada – Ela me serviu uma xícara e peguei um pedaço de pão.
Percebi que meu pai não estava mais zangado com Natalie já que os dois liam animadamente um jornal. Ultimamente minha irmã do meio desenvolveu um estranho apresso à guerra e tudo que acontecia nela ao contrário de mim que a evitava ao máximo. Aproveitando a oportunidade resolvi esclarecer logo o assunto inacabado com Rose. Aquela dúvida estava me massacrando.
–Pai – Falei hesitante.
–Sim? – Ele respondeu calmo bebendo um gole do chá.
–O que são os campos para onde os judeus são levados? – Perguntei direta e objetiva, ele engasgou com o chá. Minha mãe correu até ele e bateu em suas costas até que parasse de tossir.
–Q-Quem te falou sobre campos?
–Todo mundo comenta – Dei de ombros – Eu só queria saber... Tem algo errado?
Ele e Renée trocaram um olhar esquisito.
–Não – Papai respondeu por fim voltando a sua postura calma e indecifrável – Nada de errado. São campos de trabalho, Isabella. Judeus pobres são levados até lá para trabalhar nas... Nas fábricas e em troca recebem um teto, comida e uma remuneração.
–Isso não é incrível? – Natalie disse animada – Nosso pai é muito bondoso assim como todos os oficiais.
–Sim – Falei sorrindo – Eles são.
Alguma coisa na expressão de meus pais não me agradou nem um pouco, havia algo estranho acontecendo e aquela conversa deixou-me ainda mais intrigada.
Fomos pegar o trem logo após o café. Enquanto um soldado nos levava de carro para a estação olhei uma última vez para minha casa, minha rua, minha cidade... Alguma coisa me dizia que seria última vez que eu estaria ali. Ao meu lado minha mãe segurou minha mão e sorri para ela com carinho.
–Vai dar tudo certo querida – Ela disse e eu assenti desanimada.
No trem nos foi concedido dois vagões especiais, meus pais ficaram em um e eu e meus irmãos em outro. Já era noite e lá fora caia uma chuva pesada, fiquei encarando as gotas caindo por minha janela perdida em meus pensamentos.
–Mal posso esperar para chegarmos logo – Natalie disse empolgada como sempre.
–Eu não queria ir embora – Oliver disse desanimado.
–Você não passa de um bebê chorão.
–Não sou um bebê chorão sua feiosa!
–Hei – Falei suspirando – Não briguem.
–Foi ela que começou Bella – Oliver disse fazendo bico e cruzando os braços – Me chamou de bebê chorão.
–Vem aqui – Estendi os braços e ele se aconchegou no meu colo, afaguei seus cabelos macios – Não há problema algum em se sentir triste – Falei encarando Natalie, ela revirou os olhos.
–Desse jeito ele nunca vai crescer já tem sete anos e você não para de mimá-lo!
–Por que você não vai ler alguma coisa, Natalie? – Eu já estava ficando irritada com ela.
–Não trouxe livros.
–Pode pegar um dos meus.
–Você só lê porcaria. Eu não gosto desses poemas.
Ela já estava passando dos limites. Fechei os olhos e respirei fundo contando até dez, caso contrário iria esganá-la.
–Será que terei novos amigos, Bella? – Oliver perguntou tristonho.
–Claro que sim meu amor – Sorri e afaguei seu rosto – E você Natalie não vai sentir saudade dos seus amigos?
–Não. Amigos posso encontrar em qualquer lugar.
Resolvi deixá-la de lado, mais uma palavra arrogante e eu perderia o controle.
–Está na hora de irmos dormir – Falei me deitando e aninhando Oliver ao meu lado – Natalie faça a oração.
–Tudo bem, fechem os olhos. Senhor Jesus cubra-nos com a tua misericórdia e sua graça. Que o teu amor e a tua esperança alcance todos os necessitados, proteja-nos de todos os males e nos dê paz e alegria agora e para sempre, amém.
Oliver e eu dormimos abraçados, ele adorava dormir comigo desde muito pequeno e aquilo já havia se tornado um hábito. Meu irmão caçula era uma criança doce e carinhosa ao contrário de Natalie que a cada dia se tornava menos sociável. Naquela noite voltei a sonhar com meu poeta desconhecido, um sonho lindo e mágico como nunca havia sido antes.
Chegamos ao nosso destino no meio da tarde, alguns oficiais estavam à nossa espera e nos levaram de carro à casa nova. Mamãe parecia muito animada durante o caminho, mas pude notar que ela estava tão confusa quanto o restante de nós. A cidade não era como imaginávamos, havia pouquíssimas casas ao longo da estrada e muitas árvores e vegetação cobria grande parte do local, parecia que estávamos em uma zona rural.
–Estamos quase lá – Papai disse animado.
–O que é aquilo? – Natalie perguntou apontando ao longe para uma imensa construção bastante esquisita cercada por arame farpado.
–É a fábrica – Meu pai disse e tanto ele quanto o soldado gargalharam.
–O que fabricam lá? – Perguntei interessada.
–Muitas coisas querida.
A resposta ficou por isso mesmo e a pulga que já me coçava atrás da orelha tornou-se insuportável. Viajamos em silencio por mais alguns minutos parecia que um clima pesado se instaurara dentro do carro.
–Vejam só – Minha mãe disse se animando de repente – É a nossa casa.
Dois soldados ao lado de seus cães abriram um imenso portão para nós e o carro parou em frente a casa. Mais uma dúzia de soldados descarregavam um caminhão com nossos móveis, será que eles eram pagos para fazer aquilo também ou apenas puxavam saco do comandante? Todos desceram depressa para conhecer nosso novo lar, desci em seguida e fitei a imensa mansão à minha frente. Parecia ser uma construção bem antiga, as paredes de pedra eram escuras e alguns corvos faziam ninho no telhado, de repente fiquei toda arrepiada, não que fosse uma casa feia ela apenas não me parecia... Um lar.
–Então o que achou querida? – Meu pai disse afagando meu ombro.
–É bem grande.
–Isabella – Ele sorriu e balançou a cabeça – Você é difícil de agradar, parece até a sua mãe. Venha vamos entrar.
O interior da casa era ainda mais tenebroso. O chão antigo de madeira fazia um imenso barulho ao pisarmos, as paredes eram pintadas de cinza, as escadas eram negras e parecia haver pouca iluminação natural. Oliver e Natalie subiram correndo para escolher seus quartos, fiquei lá embaixo tentando sentir alguma familiaridade com o lugar, mas era quase impossível.
–É bem diferente não acha? – Renée disse olhando tudo a nossa volta.
–Sim ainda mais com todos esses soldados aqui dentro... Parece que eles vivem com raiva.
–É verdade – Sorrimos – Mesmo após tantos anos não consegui me acostumar.
–Mamãe, a senhora não achou estranho o fato de estarmos no meio do nada?
–Seu pai havia me dito que a casa ficava afastada da cidade por causa do local de serviço dele.
–Mas, há uma cidade por aqui?
–Creio que sim.
–Ainda bem eu já estava me sentindo sufocada com tanto mato.
–Querida – Ela me fitou com uma expressão séria – Você já tem vinte anos, é maior de idade e entende bem as coisas. Você sabe que é um momento importante na vida de seu pai, não sabe?
–Sim mãe, eu sei.
–Ele precisa da nossa compreensão. Eu sei que não vai ser fácil nos acostumarmos com esse lugar pacato, mas precisamos fazer isso por Charlie. As crianças são mais flexíveis entenderão qualquer coisa que dissermos, mas você já é moça feita e tem que saber que na verdade nossa situação não é lá das melhores.
–Tenho consciência disso.
–Charlie me disse que o trabalho é provisório, logo outro comandante virá e ele será transferido para um cargo de administração em Munique. Você poderá ter sua vida de jovem novamente, mas por enquanto isso aqui é tudo que temos.
–E a senhora como se sente em relação a tudo isso?
–Oh querida – Ela sorriu – Eu amo seu pai, fizemos um juramento ao nos casarmos... Na alegria e na tristeza.
–No momento parece muito mais tristeza – Suspirei desanimada.
–Essa casa não vai se tornar um lar se não o criarmos. Você vai ver como logo isso aqui ficará lindo, basta organizar tudo. Não quer ir procurar seu quarto? Natalie e Oliver já estão lá em cima.
–Acho que vou – Fui para a escada.
–Querida – Renée disse e olhei para ela.
–Sim?
–Obrigada.
Apenas sorri cansada e subi. Não havia muitos quartos na casa e já que Oliver e Natalie já haviam escolhido seus aposentos só sobraram dois, um no meio do corredor e outro no final. Resolvi deixar o quarto maior para os meus pais. Para minha sorte em meu quarto havia um pequeno banheiro e uma banheira também. Talvez minha mãe tivesse razão e no final poderíamos transformar aquela casa medonha em um lar, queria acreditar naquilo, mas mesmo após ter tudo organizado em seus devidos lugares não me senti confortável, nem por um segundo.
–Bella? – Oliver chamou entrando em meu quarto, eu já devia desconfiar que ele dormiria comigo naquela noite.
–Olá querido – Coloquei meu livro no criado mundo e encarei seus olhinhos azuis — Venha – Ele pulou na minha cama e sentou-se ao meu lado.
–Estou sem sono.
–Não é hora de estar acordado, já é tarde.
–Bella, o que você está achando da nova casa?
–Bom... É muito diferente da antiga.
–Não gosto daqui e também não gosto daqueles soldados que ficam no nosso portão eles são muito sérios.
–São mesmo – Sorri.
–Hoje à tarde minha bola caiu perto de um deles e eu fiquei com medo de ir pegar a Natalie que pegou para mim.
–Ela fez essa gentileza? – Arqueei a sobrancelha surpresa.
–Eu disse que estava com medo dos cachorros – Ele riu – Mas, na verdade tenho medo é dos soldados.
–Eles não vão te fazer mal bobinho – Baguncei seu cabelo – Papai não ia permitir.
–Será?
–Não precisa ter medo – Puxei-o para o meu colo – Eu também protejo você, ainda sei dar aquele golpe.
–O gancho de direita?
–Esse mesmo! Eu acabo com qualquer um que mexer com você. Lembra-se daquele nosso vizinho? Que te derrubou da bicicleta?
–O cara de batata? – Ele gargalhou – Lembro que você o colocou pra correr.
–Sim, ninguém mexe com meu irmãozinho.
–Você é muito legal Bella – Me abraçou – A melhor irmã do mundo.
–E você é o melhor irmão caçula do mundo.
–O que estava lendo?
–Poesias.
–São bonitas?
–Sim, lindas.
–Natalie diz que seus livros são uma droga.
–Natalie precisa reaver seu vocabulário, isso não é nada educado de se dizer.
–Ela está muito estranha, você notou?
–Sim – Suspirei – Precisamos dar um jeito nisso.
–Ela parece uma velha rabugenta, por isso que prefiro você. Me conta uma história?
–Ahá... Então essa bajulação toda era só para eu lhe contar uma história?
–Claro que não, você sabe que eu te amo.
–Eu também amo você, baixinho – Beijei suas bochechas rosadas – O que quer ouvir hoje?
–A de sempre.
–Hmm, promete que não vai pegar no sono?
–Prometo.
Não se podia confiar nas promessas de Oliver. Poucos minutos após eu ter começado a história ele já estava dormido lindo e sereno como um anjinho. Infelizmente não tive a mesma sorte, não conseguia pegar no sono por mais que tentasse. Renée foi ao meu quarto algum tempo após Oliver pegar no sono. Sentou-se aos pés da cama sorrindo.
–Às vezes parece que a mãe dele é você e não eu – Ela disse encarando o pequeno em meus braços.
–Oliver é uma criança muito carente e sou a única pessoa que não o censura por isso. Se ele for para a cama de vocês no meio da noite é capaz de meu pai tirá-lo de lá com o cinto.
–Charlie não é muito tolerante.
–A senhora perdeu o sono também?
–Não, apenas estava terminando de desembalar algumas caixas e resolvi vir ver como você estava, pareceu tão desanimada hoje cedo.
–Estou bem, acho que vou me adaptar.
–Oliver também não parece contente.
–Ele tem medo dos soldados do papai.
–E é o único? – Sorrimos – Eles são muito esquisitos.
–Graças a Deus não sou a única que acha isso.
–Natalie parece ser a única que não está aborrecida.
–Novidade – Revirei os olhos – Ela apóia tudo que papai faz.
–Pelo menos um dos filhos tem que lhe dar este gosto, não?
–Pois é – Bocejei- Pelo menos um de nós.
–Vou deixá-la descansar querida. Amanhã será um longo dia – Ela se levantou e deu um beijo em mim e em Oliver – Boa noite.
–Boa noite mãe.
Na manhã seguinte acordei com barulhos insuportáveis de passos na andar de baixo, definitivamente aquele piso de madeira era um tormento. Desci para tomar café e encontrei-me com meu pai na sala, ele estava acompanhado de outro oficial da SS.
–Bom dia querida. Este é o coronel Ray Smith.
–Prazer conhecê-lo – Estendi-lhe a mão – Isabella Muller.
–Encantado senhorita – Respondeu beijando-a.
–Sua mãe está lhe esperando na cozinha.
–Tudo bem, com licença.
Nossa cozinha era bastante rústica, provavelmente minha mãe estava detestando-a. Os armários eram de ferro pintado de azul com algumas ferrugens, a pia era pequena e estreita e os azulejos das paredes eram negros. Renée e Oliver estavam desembalando uma caixa de louças em cima da mesa quando cheguei.
–Bom dia meu amor, dormiu bem?
–Sim mãe.
–Mamãe me deixou ajudar – Oliver disse contente – Não é legal?
–Claro querido, e Natalie?
–Está organizando o quarto dela.
–O soldado está demorando – Minha mãe disse sentando-se – Charlie o mandou buscar alguém para nos ajudar na casa.
–Precisamos contratar alguém? – Peguei uma maçã da cesta e mordi – A casa é maior que a outra, mas não receberemos mais tantas visitas.
–Somos cinco pessoas aqui Bella com certeza iremos precisar de mais pessoas.
Nesse momento um soldado entrou trazendo uma garota pelo braço, ela era magra e tinha alguns cortes no rosto, seu cabelo também era tão curto quanto de um homem, mas o que mais chamou minha atenção foi a roupa que ela usava: um macacão branco com listras azuis velho e sujo.
–Aqui está a garota, frau* Müller – O soldado empurrou a moça e por pouco ela não caiu – Apresente-se!
–S-Sou Miriam – Ela disse com a voz baixa e assustada.
–Olá – Eu falei e estendi a mão para cumprimentá-la – Sou Isabella, é um prazer conhecê-la.
Tanto ela como o soldado me olharam espantados, será que eu havia feito alguma coisa ruim? Tive de recolher minha mão, pois ela não quis aceitar meu cumprimento.
–Miriam ajude-nos a desembalar as caixas – Minha mãe disse e ela obedeceu rapidamente — Tome cuidado, essas louças são de porcelana caríssima.
–S-Sim senhora.
–Hei garoto – O soldado falou para Oliver – O seu balanço já está instalando no quintal dos fundos.
–Oba – Ele pulou da cadeira – Posso ir brincar mamãe?
–Sim querido, mas tome cuidado.
–Vem comigo, Bella?
–Preciso ajudar a mamãe.
–Pode ir com ele a Miriam me ajuda.
–Tudo bem. Vamos lá?
–Vamos!
Ele agarrou minha mão me arrastando para fora. O balanço fora feito com um pneu e algumas cordas e amarrado num carvalho, perguntei-me se aqueles soldados realmente faziam tudo que meu pai lhes mandava apenas por obediência.
–Isso é muito legal – Oliver se sentou no balanço.
–Viu só? Eles não são tão ruins até fizeram um balanço para você!
–É talvez – Ele deu de ombros – Acho que são apenas zangados.
–Está sentindo isso? – Inspirei fundo um cheiro ruim apareceu de repente.
–Sim – Oliver disse fazendo careta – Que fedor é esse?
–Não sei – Olhei ao meu redor.
–Olha Bella – Ele apontou para o céu onde havia uma densa formação de nuvens negras.
–Parece que estão queimando alguma coisa.
–Acho que vem lá da fábrica onde o papai trabalha.
–Sim – O cheiro estava cada vez mais insuportável – Oliver eu vou terminar de ajudar a mamãe, tome cuidado ao brincar tudo bem?
–Pode deixar.
Beijei-lhe o rosto e voltei para a casa, olhei para o céu notando o quanto aquela fumaça era negra e estranha, como estava distraída acabei esbarrando-me em um dos soldados no meio do caminho.
–Desculpe-me.
–Tudo bem senhorita – Ele respondeu sério – Precisa de alguma coisa?
–Bom... Você sabe me dizer o que estão queimando? – Apontei para a fumaça.
–Lixo senhorita – Ele disse e sorriu – Queimam lixo.
–Deve ser lixo em decomposição porque tem um odor horrível.
–Ah com certeza.
Ele me cumprimentou com um aceno e então se foi. Voltei a encarar o céu intrigada, porque todos eles sorriam ao falar sobre qualquer coisa relacionada àquela fábrica? E a qual tipo de lixo ele se referia? Eu não sabia, mas estava disposta a descobrir.
Notas finais
Então o que acharam do capitulo? Não deixem de comentar hein?
Vocês sabem que o "lixo" que o soldado se referia são os corpos dos judeus assassinados né? No próximo capitulo Isabella irá descobrir toda a verdade sobre a "fábrica" e em que seu pai realmente trabalha, qual será a reação dela ao descobrir? Hmmm não percam hein...
Ahhhh e no próximo capitulo ela irá conhecer o Edward. Bjs pessoal até mais.
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