O judeu

4 O inferno


Notas iniciais
novo capitulo. Espero que gostem.


“Lixo, queimam lixo” Essa maldita frase não saia da minha cabeça. Por alguma razão o jeito como aquele soldado falara me deixara intrigada, mamãe disse-me que sempre fui curiosa e desconfiada desde muito pequena sempre quis saber de tudo e perturbava todo mundo com minhas perguntas e ao crescer não havia mudado, eu continuava curiosa e desconfiada.

–Algum problema Bella? – Mamãe perguntou tirando-me dos pensamentos. Estávamos sentadas na sala bordando.

–Não.

–Parece preocupada.

–Mãe – Larguei a agulha e o lenço para encará-la – A senhora sabe o que produzem naquela fábrica?

–De novo essa história Isabella? Seu pai e eu já lhe explicamos que não é nada demais. Eles produzem artefatos de guerra, munições, armas essas coisas.

–Mas, e aquele cheiro ruim? Queimam comida estragada por acaso?

–Eu não sei Isabella, provavelmente são restos de comida. Há muitos soldados por lá, imagine a quantidade de alimentos que são desperdiçados... – Ela suspirou irritada – Por que não esquece isso? Do jeito que você fala parece até que seu pai está cometendo um crime!

–Não é o jeito que eu falo, mas a maneira como vocês se comportam. É tudo tão misterioso...

–Já lhe disse que não há nada demais. Não acha que já é madura o suficente para não criar fantasias em sua cabeça? Cresça Isabella. Às vezes tenho a impressão que você trocou de lugar com Natalie!

–Eu só quero entender, mãe.

–Não há nada a ser entendido. Estamos no meio de uma guerra mundial e seu pai está dando seu melhor para garantir nossa segurança, apenas seja grata e não se meta em assuntos que não lhe interessa!

Poucas vezes vi minha mãe irritada e nunca havia sido comigo, aquela era a primeira vez. Mais do que nunca eu estava convicta que existia muita coisa oculta naquela história, ninguém protegeria tanto alguma coisa se não fosse importante. Renée calou-se e voltou a bordar, notei que estava muito irritada, talvez eu realmente estivesse passando dos limites, mas algo me dizia que eu precisava investigar o que estava acontecendo e não sossegaria até descobrir o que era.

–A professora dos meninos já chegou? – Perguntei tentando mudar de assunto e esquecer aquilo por hora.

–Já, estão tendo aula neste instante.

–Oliver deve estar odiando não poder ir à escola.

–Ter aulas em casa não é tão ruim, ele se acostuma.

–Vou ver como estão indo – Levantei-me – Com licença.


Ela não me respondeu, com certeza estava muito irritada. Fui até a saleta onde meus irmãos estavam em aula com a professora Camile, já que estávamos naquele fim de mundo seria impossível para os dois frequentarem uma escola normalmente então Charlie optou por contratar uma professora particular.

–Já estou cansado – Ouvi Oliver reclamar assim que entrei na saleta.

–Mas, ainda temos duas horas de aula – A professora disse séria. Ela tinha a mesma carranca azeda e mal humorada dos soldados, qual era o problema daqueles nazistas?

–Eu já li um capitulo inteiro e não entendi nada... – Oliver fez um bico e cruzou os braços, a professora suspirou irritada.

–Algum problema aqui? – Perguntei e eles me olharam, Oliver sorriu como seu eu fosse um anjo que havia ido lhe salvar.

–Nenhum – A professora disse – Estamos revisando algumas matérias, mas seu irmão se recusa a cooperar.

–Bella – Ele disse choroso – Você sabe que eu não gosto de ler...

–Ler é ótimo Oliver, os livros são uma fonte de conhecimento. O que estavam lendo?

Mein Kampf* – Natalie respondeu me mostrando o exemplar.

–Não é um livro muito apropriado para crianças...

–Senhorita Isabella – A professora sorriu nervosa apertando a ponte do nariz – Por acaso está insinuando que não sei o que é bom para os meus alunos?

–Não, de maneira alguma. Só acho que eles não deveriam estar lendo esse livro tão... Adulto.

Na verdade eu queria dizer monstruoso e preconceituoso, mas me contive.

–Eles precisam aprender a ideologia do nosso povo e receber o ensinamento de nosso mestre.

–Mas isso tudo é muito chato – Oliver protestou e pegou o livro – Veja só Bella – Começou a ler — "A eficiência de um verdadeiro líder nacional consiste essencialmente em impedir a divisão da atenção das pessoas, e em sempre concentrá-la em um único inimigo." Eu não entendi nada!

–Você é um idiota – Natalie disse bufando – Como pode não entender uma coisa tão inspiradora?

–Natalie – Repreendi – Não fale assim com ele. Oliver é um garoto muito esperto e tenho orgulho de saber que ele não se deixa poluir com essas coisas.

Camile olhou-me estupefata. Eu havia feito um breve discurso anti-nazista na frente de uma nazista com certeza aquilo me traria graves consequências.

–Se me permite senhorita Isabella, preciso terminar a aula.

–Sim – Respondi me virando para sair – Desculpe.

–Você irritou o papai, irritou a mamãe e até nossa professora – Natalie disse amarga como sempre – Qual seu problema?

Sai de lá antes que respondesse qualquer coisa estúpida. Aquela história toda estava acabando comigo... Havia algo muito misterioso naquelas pessoas, o jeito de olhar, de falar, de agir... Eram tão frios, tão sem emoções. Eu precisava urgentemente de respostas e já sabia quem poderia me ajudar.

Miriam estava descascando algumas batatas na pia quando entrei na cozinha. Seu macacão listrado havia sido substituído por um uniforme de empregada e embora ainda tivesse a expressão triste e cansada parecia um pouco mais apresentável. Assustou-se quando me viu, tanto que começou a tremer dos pés a cabeça.

–Cuidado – Falei – Você vai se cortar...

–D-Desculpe — Respondeu baixinho, quase num sussurro e sem me olhar, percebi que estava se esforçando para parar de tremer. Vê-la sempre com tanto medo só deixou-me ainda mais intrigada.

–Eu não lhe dei uma ordem Miriam, apenas me preocupei que se machucasse.

Aos poucos ela foi se acalmando e voltou ao serviço. Sentei-me numa das cadeiras da mesa e fiquei observando-a. Pude notar o quanto estava tensa e nervosa.

–Acalme-se – Sorri – Você age como se eu fosse matá-la ou algo parecido. Não lhe farei nenhum mal... – Eu precisava sondá-la, mas tinha que ser cautelosa, por isso procurei falar de maneira mais natural possível – E então você mora lá na fábrica?

–Fábrica?

–Sim, a fábrica que meu pai comanda.

Ela pensou por um momento e então assentiu. Seria difícil fazê-la falar...

–Você é judia? – Ela não respondeu e uma ponta de irritação começou a brotar, suspirei — Escute Miriam. Eu realmente quero conversar com você, pode, por favor, me responder? Não precisa olhar para mim se não quiser, mas fale. Tudo bem?

Ela assentiu novamente.

–Você é judia? – Voltei a perguntar.

–Sim, senhorita.

–Todos que trabalham lá são judeus?

–A maioria.

–É bem legal o que estão fazendo por vocês não é? Construírem um campo para trabalharem e terem comida, abrigo e algum dinheiro.

–Sim... – Ela disse suspirando.

–Eu sei que vocês fabricam muitas coisas por lá, mas eu queria saber por que queimam tanto lixo.

–C-Como assim? – Um tremor percorreu seu corpo.

–A fumaça que paira no céu todo dia, por acaso não vem das pilhas de lixo que vocês queimam?

Pela primeira vez ela virou-se para mim encarando-me de uma maneira esquisita.

–A senhorita realmente não sabe nada sobre aquele lugar?

–Só o que meus pais e alguns soldados disseram. É uma fábrica de artefatos de guerra não é? Os nazistas construíram várias delas nos campos para darem trabalho e alimento para vocês que precisam em troca dos serviços, não é isso?

Ela não me respondeu, apenas virou-se e voltou a descascar as batatas. Eu ia questionar o motivo de seu silencio, mas fui interrompida quando um homem entrou na cozinha carregando uma caixa de papelão. Para o meu espanto ele trajava o mesmo macacão listrado de Miriam, mas seu estado era ainda mais deplorável que o dela. Seu corpo era tão magro e franzina que chegava a aparecer os ossos e o cheiro de suor, sujeira, fumaça e podridão que ele exalava embrulhou-me o estomago. Fiquei tão pasma que não consegui dizer nada.

–São as compras – Ele disse numa voz tão cansada que pensei que ele fosse desmaiar.

Eu quis perguntar se ele aceitaria um copo de água ou se desejava se sentar e descansar, mas não pude. As palavras morreram na minha boca e quando percebi ele já havia ido embora.

–T-Todos vocês usam a mesma roupa – Falei encarando o vazio – E parecem tão fracos, cansados e desesperados... O que está acontecendo?

–Senhorita – Miriam disse sem me olhar – Ás vezes a ignorância é uma benção.

–Eu não quero ser abençoada – Falei me levantando e indo até ela, segurei seus ombros e a virei de frente para mim – Diga-me que tipo de fábrica é aquela?

–Desculpe... Eu não posso... Se não a contaram é porque não pode saber e se eu contar eles podem querer me matar...

–Oh meu Deus... É tão grave assim? Por favor, Miriam diga-me o que está havendo – Minha voz começava a se alterar.

–Não...

–Diga – Eu a sacudia e ela chorava – Que tipo de fábrica é aquela?

–É uma fábrica de morte! – Ela gritou em meio ao choro.

Soltei-a e precisei piscar várias vezes para espantar a tontura que me invadiu.

–Fábrica... de morte?

–Por favor, não conte a ninguém que eu lhe disse... Por favor...

–E o lixo? Por que queimam lixo?

–Não é lixo – Ela soluçou com o choro – São corpos... Muitos corpos...

De repente todo o ar me escapou dos pulmões. Eu sabia que havia algo errado, mas jamais pude imaginar algo assim... Não podia ser verdade, ela estava mentindo, tinha que estar mentindo. De qualquer maneira eu não ficaria na dúvida. Sai correndo da cozinha, já sabia o que tinha que fazer. No meio do caminho esbarrei em Natalie.

–Aonde vai? – Ela perguntou.

–Na fábrica.

–O papai não nos permite ir lá.

–Não interessa. Eu preciso saber o que está acontecendo.

Precisei bolar um plano rápido, eu sabia que nenhum dos soldados a serviço de Charlie me levariam para um “passeio” no campo se eu simplesmente pedisse, portanto resolvi ir até o escritório de Charlie e peguei uma pasta qualquer e então fui para o quintal onde havia um soldado limpando o carro.

–Preciso que me leve até o campo – Falei firme polindo perfeitamente o nervosismo em minha voz. O soldado olhou-me desconfiado.

–Não tenho permissão – Respondeu sem interromper o serviço.

Respirei fundo tentando conter a raiva antes de voltar a falar.

–Meu pai, seu comandante precisa destes documentos urgentemente, pode fazer seu trabalho e me levar até lá soldado?

–Eu posso levar para ele.

–Não, ele pediu a mim. Por acaso terei que ligar para ele e dizer que se recusou a obedecer uma ordem?

–Não senhorita.

–Então pode me levar?

Ele assentiu e abriu a porta do carro para mim. Logo estávamos na estrada rumo ao campo. Quanto mais nos aproximávamos de lá mais nervosa eu ficava. Minhas mãos tremiam e eu suava.

–Algum problema, senhorita? – O soldado perguntou olhando-me pelo retrovisor central.

–Nenhum, apenas dirija.

Após alguns minutos chegamos ao campo. Vê-lo de perto era muito intrigante. O que mais me chamou a atenção foi a placa no portão de entrada que dizia “O trabalho liberta”, aparentemente aquele era realmente um local de trabalho.

–Abram o portão – O soldado gritou para fora da janela e ele se abriu.

Aquele era um lugar bem esquisito. Havia várias construções ao longo de perímetro como se fosse uma pequena cidade. Enquanto o soldado seguia dirigindo o carro pude ver ao longo do caminho pessoas vestidas com macacões listrados carregando madeiras, empurrando carrinhos de mão e havia também soldados armados por todo o lado, era medonho.

–Qual é o nome deste lugar? – Perguntei ao soldado.

–Aushwitz-Birkenau, senhorita.

Quando o soldado parou o carro desci imediatamente e olhei ao meu redor espantada com tudo aquilo... O perímetro era totalmente cercado com arame farpado, cheguei a me aproximar de um deles, mas o soldado me fez parar.

–Está eletrificado, senhorita. Não toque neles.

Afastei a mão pousando-a ao lado do corpo. O cheiro da fumaça ali dentro era ainda mais insuportável, como conseguiam respirar?

–Vou levá-la ao comandante.

–Espere – Falei e engoli em seco – Será que pode me levar ao local onde queimam os corpos? Eu estou curiosa e...

–Os fornos não são agradáveis, senhorita. Recomendo que não vá até lá, apenas entregue o que seu pai solicitou e vamos voltar para sua casa.

Os fornos... Então era real, eles matavam pessoas ali. Senti uma náusea tão grande que teria desmaiado se não tivesse me apoiado no carro.

–A senhorita está bem?

–Sim – Respondi tentando manter a calma.

De repente houve um barulho enorme ali perto e à frente do portão havia um trem parado e várias pessoas descendo dele sendo brutalmente orientados por soldados que gritavam e os empurravam. Logo começaram a marchar para dentro do campo e o silencio que antes pairava naquele local foi quebrado pelo som das vozes, dos passos arrastados e do choro das crianças...

–O que é isso? – Perguntei perplexa.

–Os judeus.

Quando se aproximaram mais pude observá-los melhor, seus olhos eram grandes demais em seus crânios minúsculos, olhavam confusos para todos os lados como se buscassem uma explicação para estarem ali, todos eles só queriam entender. Os pobrezinhos estavam sujos e suados e pareciam exaustos, famintos e sedentos, suas pernas cambaleavam à medida que eram empurrados para frente pelos soldados. Alguns chegavam a cair no chão e então eram chutados até que com muita dificuldade conseguiam se levantar e voltar a caminhar.

Ao meu lado o soldado parecia divertir-se com a cena que presenciava e até fazia comentários grosseiros. Precisei reunir todas as forças da minha alma para parecer indiferente àquela monstruosidade.

–A senhorita queria visitar os fornos, mas creio que agora tem algo muito melhor para ver — Ele disse rindo.

Dei-lhe um sorriso forçado.


Os judeus passaram por nós cabisbaixos, pude ver em cada semblante o sofrimento, a humilhação... O desespero e também havia as crianças, oh Deus as criancinhas agarradas às mãos dos pais trêmulas de medo. Alguns dos judeus chegaram a olhar para mim, mas não pareciam querer ajuda nem nada do tipo, a única coisa que seus olhos transmitiam era “Por quê?” e acredito que os meus olhos lhes diziam o mesmo.

–Para onde vão agora? – Perguntei ao soldado.

–Vão ser divididos. Alguns irão para o banho e outros não.

–Posso ver a divisão?

–A senhorita já permaneceu aqui tempo demais, disse-me que o comandante precisava urgentemente desses papéis.

–Bom... Eu...Eu...

–Entendo que esteja curiosa, mas realmente não deve ficar aqui.

–Então será que você pode entregar os documentos para ele enquanto espero aqui no carro? Não estou me sentindo muito bem.

–Sim. Mas, permaneça aqui.

–Tudo bem.

Assim que ele se foi e desapareceu no meio das construções corri para onde os judeus haviam sido levados. Todos eles estavam num pátio ali perto e sendo separados em grupos. Escondi-me atrás de uma pequena casinha e fiquei observando-os por um bom tempo. O Jeito brutal como eram tratados era impressionante, as crianças eram arrancadas dos pais sem a menor piedade, mas o que mais me impressionou foi um garotinho que se atreveu a enfrentar um dos soldados chutando-lhe a perna com força. Com certeza não havia causado nenhuma dor, mas o irritou profundamente. O soldado segurou-lhe pelo braço e o empurrou no chão e em seguida desabotoou o cinto.

–Judeuzinho desgraçado – Ele gritou – Vai aprender a respeitar...

Aquilo já era demais para eu aguentar, num gesto de puro instinto corri até lá ao mesmo tempo que o soldado levantava o cinto para bater nele.

–Pare – Gritei ofegante.

Todos olharam para mim espantados.

–Quem é você? – O soldado perguntou profundamente irritado.

–Bella? – A voz de Charlie me deixou com muito mais raiva. Ele veio até mim e segurou meu braço – O que está fazendo aqui?

–Vim conhecer seu honrável local de trabalho, papai – Falei com escárnio.

–Vá para casa agora!

–Não – Me soltei de seu braço – Não vou! E você – Falei para o soldado – Não se atreva a encostar nesse garotinho!

–Charlie – Um homem disse ao meu pai – Quem é esta garota?

–É minha filha – Respondeu com profundo desgosto.

–Sua filha está impedindo o castigo de um judeu?

–Ele é só uma criança... – Falei indo até o garotinho abraçando-o.

–Mas isso é um ultraje! – O homem disse.

–Isabella – Charlie falou – Afaste-se agora!

–Não... Não!

–Saia ou pagará por essa afronta!

–Já disse que não!

O que aconteceu a segui foi muito rápido. Com um simples acenar de cabeça Charlie permitiu que fizessem aquilo comigo. Num instante senti o couro do cinto do soldado marcar minhas costas, ardeu no iniciou e depois começou a queimar e doer... Os golpes acertavam meus braços, minha nuca, meu rosto, mas não importava o quanto doesse eu jamais deixaria que acertassem o garotinho, quanto mais o soldado me batia, mais eu protegia o menino com meu corpo. Foram longos minutos naquela tortura, até que a dor se tornou tão insuportável que não aguentei mais, caí no chão num baque. Ali caída olhei para o céu que estava coberto pela fumaça negra dos corpos queimados e senti uma lagrima correr dos meus olhos, foi então que pude descobrir que o inferno existia e o diabo que o comandava era o meu próprio pai.


Notas finais
Mein Kampf* : É um livro escrito por Adolf Hitler.
O encontro com o Edward fica pro próximo capitulo, ok? Vocês gostaram? Não deixem de comentar! Bjs