Notas iniciais
Oiiii amores. Como eu tinha avisado no grupo, eu só voltaria a postar em "o judeu" quando doce inferno terminasse. Como só falta o ultimo capitulo de D.I resolvi retomar as postagens. Espero que ainda continuem comigo.

Esse capitulo é super legal. Vocês vão gostar... Preparadas? Vamos lá... Boa leitura o/

"Perdoe e esqueça. É o que todos dizem. É um bom conselho, mas não é muito prático. Quando alguém nos magoa, queremos magoá-la de volta, queremos feri-los. Quando alguém nos engana, queremos ter razão. Sem perdão, velhas rixas nunca serão resolvidas. Velhas feridas nunca cicatrizam. E o máximo que podemos esperar é que um dia tenhamos a boa sorte de esquecer”



O ódio é um sentimento terrível e por causa dele centenas de pessoas morriam a quilômetros da minha casa. O ódio pode ser também a mais nefasta e sombria mancha na alma de uma pessoa, ele é poderoso, tanto que levou um homem a ter seu sentimento nefasto compartilhado por milhares de pessoas que o adoravam como a um deus e seguiam fielmente seus malditos ensinamentos. Eu não queria ter aquele sentimento dentro de mim, não queria aquela mancha escura na minha alma, não queria ter que odiar o meu próprio pai e me destroçava o coração saber que aquilo já estava acontecendo

Uma semana havia se passado desde o terrivel incidente e as memórias dolorosas atormentavam os meus dias. Me bastava apenas fechar os olhos para que as imagens tomassem conta da minha cabeça fazendo-me reviver cada segundo daquele sofrimento.

Era fim de tarde, eu estava sentada de frente para a penteadeira do meu quarto escovando os cabelos e olhando fixamente para o meu reflexo devastado. De repente eu já não era mais a mesma, o mundo no qual meu pai era o homem bom que me colocava para dormir, me levava para a escola, me ensinava os valores da vida e me protegia de todos os perigos simplesmente desmoronou. A realidade para qual fui tragada destruiu qualquer traço de felicidade que havia em mim. As pessoas que eu tanto amava se tornaram monstros desconhecidos e essa era a parte que mais doía, às vezes eu me sentia deslocada, insegura, amedrontada e assustada, como se estivesse prestes a saltar num precípicio e não houvesse ninguém para me convencer a não pular.



Pelo reflexo no espelho pude notar as lágrimas que corriam dos meus olhos. Chorar havia se tornado um hábito tão natural que eu já nem sentia mais o incomodo de ter o rosto molhado. As lembranças tristes e horríveis daqueles malditos acontecimentos jorravam na minha mente sem dó nem piedade.


(Flash back on)


–Pare, já chega! – Charlie gritou, mas eu não tinha certeza se o soldado havia realmente parado de me golpear, pois ainda sentia a dor espalhada pelas minhas costas.

Naquele instante eu quis morrer. Desejei com todas as forças da minha alma que a morte me buscasse e me levasse para longe de tudo aquilo. Tudo era tão surreal e tão monstruoso que eu já nem sabia mais se era real ou não... Afinal, uma fábrica de morte realmente podia existir? Um pai podia ordenar que surrassem sua filha só porque ela protegeu uma criança inocente? Que mundo era aquele que eu havia descoberto? O cheiro da morte estava impregnado em todo lugar, em todo canto... Por que ela simplesmente não vinha me buscar de uma vez? Permaneci de olhos fechados, imersa naquela escuridão que me protegia da cruel realidade, o rosto enterrado no chão, incapaz de me mexer por causa da dor e ardência em minhas costas, braços e pernas.

–O que faço agora, senhor? – O soldado perguntou com a voz fria e impassível.

–Leve-a para a enfermaria – Charlie respondeu no mesmo tom.

Senti as mãos do soldado tocando-me e me debati recusando-me a aceitar seu toque, os movimentos faziam a dor se espalhar de forma arrasadora. Felizmente ele recuou.

–Basta – Uma voz desconhecida gritou – Vou esperá-lo em seu escritório até que resolva esse problema familiar, Charlie.

Pelo som dos passos firmes no cascalho o homem provavelmente já tinha ido.

–Eu já mandei levá-la para a enfermaria seu inútil!

–Ela se recusa a me deixar tocá-la, senhor.

Finalmente criei coragem para abrir os olhos, as imagens pareciam borrões de tinta era um pouco difícil enxergar com clareza. Meus olhos estavam embaçados por causa das lágriamas e da maquiagem borrada.

–Alguém tire minha filha desse maldito chão! Andem seus soldados inúteis! Obedeçam-me!

–Não... – Falei entre dentes, minha voz estava rouca e falha, mas consegui falar de maneira audível. Provavelmente aquele pedaço inteiro do campo havia parado para presenciar aquela cena e talvez por isso o local estivesse tão silencioso – Não quero que nenhum deles toque em mim... Nenhum deles...

Eu não podia enxergar com clareza a expressão de Charlie naquele momento, mas a julgar pelo jeito como ele andava de um lado para outro, mostrava com certeza que ele estava transtornado, irado, para ser mais exata.

–Eu não posso tirá-la daí – Ele disse – Você sabe que tenho um dos braços comprometidos... Não consigo pegá-la no colo!

–Não quero que você toque em mim também...

–O que eu faço então, porra? – Era a primeira vez que eu o via tão desesperado e desnorteado, mas não importava o que ele estivesse sentido, nada mudaria o fato de que ordenara que me surrassem.

Àquela altura a dor estava se tornando tão insuportável que eu custava a me manter acordada, as vozes pareciam estar longe... Bem longe.

–Eu posso carregá-la – Alguém disse hesitante, a voz tomada por uma emoção paupável.

–Não – Charlie respondeu brucamente de imediato – Não vou permitir que minha filha seja tocada por um judeu.

–Mas, por um soldado sim? – Perguntei e minha voz quase pareceu um sussurro – Prefiro ser carregada por um judeu do que por você ou seus soldados malditos...

De repente além de arder e doer os ferimentos começaram a latejar e eu gritei.

–Tudo bem – Charlie berrou – Leve-a para a enfermaria, rápido.

Fui erguida do chão. Não importava mais quem estivesse me carregando, eu só queria que me levassem a algum lugar que fizesse aquela dor parar.

–Está tudo bem, logo a dor vai passar – Disse a pessoa que me carregava, meu nariz estava perto de seu peito e percebi que ele cheirava a suor e tabaco. Mas, não era um cheiro ruim... Era algo confortante – E não se preocupe eu sou um judeu.

–Obrigada... – Sussurrei baixinho, feliz por ele não ser um dos monstros de Charlie.


Eu estava cansada, tonta e depois que voltei a fechar os olhos não consegui mais abri-los. Quando recobrei a consciência eu estava deitada em uma maca num lugar que tinha um cheiro nauseante de álcool e água sanitária. Felizmente a dor em minhas costas já havia amenizado, mas ainda latejava e ardia.

–Querida – Olhei para o lado e vi minha mãe me olhando preocupada – Que bom que acordou.

–Mãe... – Senti lágrimas brotando nos meus olhos.

–Eu sei meu bem eu sei – Ela chorava – Por que você foi desafiar o seu pai?

O que? Ela estava atribuindo toda culpa a mim? Justo a mim? Eu não havia feito nada além de proteger o garotinho... Oh Deus... O garotinho! Sentei-me depressa na maca e fiz uma careta de dor.

–Onde está o menino – Perguntei aflita me livrando do fio de soro ligado ao meu braço.

–Isabella acalme-se – Renneé disse segurando-me pelos ombros tentando me deitar na cama novamente.

–Eu preciso saber o que houve com o menino!

–Vejo que acordou – Disse um homem vestido com um jaleco branco entrando na sala.

–Quero sair daqui – Falei ofegante.

–Tudo bem, mas precisa se acalmar primeiro – Ele estendeu a mão para mim – Sou o médico do campo, é um prazer conhecê-la senhorita.

Apertei a mão dele mais por obrigação do que por interesse, nem sequer me dei o trabalho de lhe dizer meu nome.

–Onde está o garotinho?

–Há muitos garotos aqui senhorita.

–E onde eles estão? Quero vê-los.

Ele e minha mãe trocaram um rápido olhar.

–Isso não será possível no momento e...

–Estão mortos não é? – Falei encarando o chão – É isso que fazem aqui... Matam pessoas...

–Filha...

–Quero ir embora daqui mãe... Me tira daqui.

–Tudo bem meu amor vou chamar seu pai.

–Não. Charlie não.

–Certo, nós podemos ir doutor?

–Sim. Vou lhe entregar os remédios que ela deverá tomar para alivio das dores e para evitar infecções.

–Ótimo.

–Espere só um momento, senhorita.

Os dois saíram do pequeno cômodo e me deixaram sozinha. Olhei tudo ao meu redor e imaginei o motivo de terem uma enfermaria em uma fábrica de morte, qual era o sentido? Havia tantos mistérios, tanta sujeira oculta naquele lugar. Tudo que eu desejava era ir para casa... Para longe, bem longe.

(Flash back off)


Quando despertei das lembranças meu rosto estava banhado em lágrimas. Aquele fora o pior dia da minha vida, nunca esqueceria tudo que vi, ouvi e senti naquele lugar. Reneé tentou interceder por Charlie explicando-me ou tentanto explicar milhões de vezes os motivos que o levaram a fazer o que fez, mas nada que ela ou qualquer outra pessoa dissesse poderia justificar. Charlie era monstro e as cicatrizes nas minhas costas causadas pela surra que levei de seus capachos não me deixavam esquecer disso.

–Filha – Reneé disse entrando no quarto – Está pronta? Os convidados já chegaram.

–Ainda não – Respondi sem olhá-la, concentrando-me apenas em escovar meu cabelo.

–Estava chorando de novo? Por Deus Bella isso aconteceu há tanto tempo... Seu pai nunca levantou a mão para você... Será que não pode relevar uma surrinha apenas uma vez na vida?

–Surrinha? – Me virei para ela e a encarei com raiva, minhas mãos tremendo.

Coloquei-me de pé e abri o robe que vestia revelando meu corpo nu.

–Bella...

–Isso foi uma surrinha? – Virei-me de costas para ela para que avaliasse pela centésima vez as marcas da violência que fizeram contra mim. Minha pele era muito branca e as pancadas, nas quais muitas rasgaram pedaços da pele por causa da fivela do cinto, deixaram manchas tão negras quanto graxa.

–Por favor, vista-se – Reneé desviou os olhos para o outro lado do quarto. Fechei o robe de volta.

–Charlie não me bateu. Foi um maldito soldado dele... Meu próprio pai deixou que um homem três vezes mais forte do que eu me espancasse e ficou lá assistindo.

–Ele estava transtornado... Você o desafiou e...

–Pare de defendê-lo – Falei entre dentes voltando a chorar, olhei para minha mãe com toda a tristeza que havia dentro de mim – Não percebe o que ele está fazendo? Pelo amor de Deus mamãe... Charlie mata pessoas naquele campo! Pessoas inocentes! E você sabia disso desde o inicio e nunca disse nada, nunca fez nada!

–Nós estamos numa guerra, Isabella – Respondeu se recompondo e vestindo sua máscara de indiferença – Seu pai só estava fazendo o necessário para que tenhamos sucesso nela.

–Não sei como isso pode ajudar em alguma coisa – Cheguei bem perto dela – Sinceramente? Vocês me dão nojo.

Reneé respondeu-me com um tapa na cara tão forte que me desequilibrei e cai no chão. Ergui o rosto afagando o local em que ela havia acertado e a encarei perplexa . Reneé colocou a mão no peito e arfou aterrorizada pelo que acabara de fazer. Virei meu rosto virou para o lado e fiquei encarando o chão sem mudar a posição da cabeça, as lágrimas caindo no tapete.

–Bella... – Ela suspirou – Meu amor me desculpe... Você está passando dos limites! Não entende que com essa atitude rebelde só irá piorar as coisas? Se você se compadeceu por aqueles judeus e quer ajudá-los e alguma forma comece persuadindo o seu pai... Alie-se a ele, perdoe-o e aos poucos vá fazendo com que ele pegue mais leve... Aconselhe-o. Bater de frente com Charlie só vai piorar a situação!

Reneé saiu do quarto chorando e batendo a porta. Eu tremia dos pés a cabeça, chocada, magoada e ultrajada. Minha vontade era pegar todas as minhas coisas e fugir para bem longe dali e eu até faria isso, mas sabia que não iria muito longe. Provavelmente Charlie colocaria a SS interia atrás de mim. Joguei-me na cama e chorei por longos minutos relembrando aquelas cenas malditas e então, de repente uma das lembraçanças me fez parar de chorar. Fechei os olhos e lembrei da sensação de ser tirada do chão, do peito forte de encontro ao meu nariz... Do cheiro de suor e tabaco, a voz melodiosa me dizendo que estava tudo bem, que a dor ia passar. Meu coração se aqueceu ao me lembrar dele. O homem misterioso que por um instante me fez sentir segura.

Sentei-me na cama, limpei as lágrimas e respirei fundo. Eu precisava ver aquele homem de novo, agradecê-lo. Meu peito se contraíu ao imaginar que talvez ele já pudesse estar morto. Expulsei esse pensamento e fiz uma prece silenciosa para que ele estivesse bem.

Encontrá-lo de novo seria uma missão quase impossivel, primeiramente como eu voltaria ao campo? E depois como o encontraria no meio de tantas pessoas? Quem era ele? Comecei a pensar no que minha mãe dissera e concluí que só havia uma pessoa que poderia me ajudar, mas para isso eu teria que engolir meu orgulho, minha mágoa e me aliar ao monstro que certa vez eu chamara de pai.

Naquele momento tomei uma importante decisão, uma decisão que mudaria tudo. Conclui que quando estamos caminhando tranquilamente pela rua e de repente caimos no chão na frente de várias pessoas temos duas opções : Ficarmos deitados, constrangidos e sentido pena de si mesmo ou nos levantarmos, erguermos a cabeça e seguir em frente como se nada tivesse acontecido. Eu havia optado pela segunda opção. A vida tinha me dado uma rasteira, mas eu me reergueria e enfrentaria tudo de frente. De repente passei a ver minha residencia em Cracóvia não como um castigo, mas como um presente. Resolvi que era melhor pensar que ao invés de me submeter a um inferno eu traria o paraíso para mais perto. Ajudar os judeus daquele campo, principalmente o que havia me pegado nos braços, seria a missão da minha vida e eu não sossegaria até que conseguisse isso.

Levantei-me da cama num salto. Corri até o guarda roupa e comecei a me vestir. Escolhi um lindo vestido azul marinho que combinava com a minha pele alva e que escondia bem as marcas pelo meu corpo. Também tive que colocar meias, já que minhas pernas também estavam manchadas. Voltei para o espelho, limpei a marca das lágrimas e fiz uma maquiagem que escondesse as olheiras e a palidez do rosto. Quando finalmente estava pronta sai do quarto, passei pelo corredor e ao descer as escadas coloquei meu melhor sorriso no rosto. Uma nova Isabella havia acabado de nascer.

Charlie e Renneé estavam dando um jantar para comemorar nossa chegada à Cracóvia, era algo bem íntimo com poucos convidados, cuja marioria eram homens. Quando cheguei na sala onde todos estavam reunidos, as conversas e risadas cessaram e as atenções todas se voltaram para mim. Por um momento um silêncio constrangedor se formou no lugar, me mantive o mais passiva e sorridente que podia.

–Boa noite – Falei com simpatia – Desculpem a demora.

–Sem problemas – Um dos convidados de Charlie falou – Está muito bonita senhorita.

–Obrigada – Respondi com um largo sorriso – E então podemos jantar?

Charlie, Renneé e Natalie me olhavam com curiosidade e espanto durante todo o jantar assim como o restante dos convidados. Era muito embaraçoso fingir indiferença quando todos sabiam o que havia acontecido comigo, mas me mantive o mais natural que pude, fui simpática e graciosa. Ao findar do jantar eu já tinha conquistado todas aquelas pessoas e quando foram embora fizeram questão de deixar claro que voltariam para me visitar.

Como boa atriz que eu estava sendo me fingi de grata, lhes disse para voltar com certeza e dei graças a Deus quando foram embora e tiraram seus corpos nazistas preconceituosos da minha casa.

–A senhorita está bem melhor hoje a noite – Miriam disse-me quando fechei a porta.

Cheguei mais perto dela e sussurrei em confidencia.

–Aquilo tudo foi um teatro. Não suporto essas pessoas. Miriam, eu vou ajudar você e o seu povo, eu prometo. Farei o que eu puder para aliviar esse pesadelo que recaiu sobre os judeus.

Não fiquei lá para ouvir sua resposta. Fui direito para a sala de estar onde a familia tomava chá. Todos estavam silenciosos, inclusive Oliver, o que tornava tudo ainda mais estranho.

–Obrigada por ter acompanhado nossos convidados – Reneé disse sem me olhar. Provavelmente envergonhada pelo que fizera no quarto.

–Você está esquisita – Natalie disse olhando-me dos pés a cabeça – Pensei que nem desceria para jantar. Foi gentil demais com os amigos do papai, por acaso está querendo alguma coisa?

Apertei as mãos em punhos firmes e respirei fundo. Qualquer hora eu perderia a paciência com Natalie e lhe daria uma boa surra.

–Eu só quis ser gentil – Respondi fulminando-a com o olhar. Ela sorriu desdenhosa e voltou a bebericar o chá sem me dar atenção.

–Estamos gratos por isso – Reneé voltou a dizer.

Sem rodeios fui direto ao assunto.

–Pai, preciso falar com o senhor.

Ele olhou para mim, arqueou uma sobrancelha e deu de ombros.

–Diga.

–Em particular... – Olhei de Oliver para Natalie.

–Crianças subam.

Charlie disse num tom que sequer a lingua ácida de minha irmã seria capaz de retrucar. Obedientemente os dois se levantaram e atravessaram a sala, Oliver me deu um beijo antes de seguir para as escadas, enquanto Natalie saia bufando de raiva.

–E então, Isabella o que quer quer conversar?

Sentei-me no sofá de frente para ele e Reneé. Respirei fundo.

–Bom, eu quero dizer que perdôo o senhor.

Reneé olhou-me estupefata.

–Oh filha – Ela disse sorridente – Isso é incrivel! Que noticia boa.

–Sei – Charlie disse olhando-me desconfiado – E por que eu sinto que tem uma condição nisso?

–Porque realmente tem.

–E qual seria o valor a pagar pelo seu perdão, filha?

–Como deixei bem claro não sou a favor dos ideais nazista, não concordo com eles. O senhor sabe bem que sempre fui muito sensível a dor alheia e me partiu o coração o que vi no campo de concentração. Tenho um instinto humanitário que me impulsina a ajudar os outros... Tanto que protegi aquele garotinho.

Charlie se remexeu desconfortável com o rumo da conversa. Prossegui sem me intimidar.

–Não quero fazer nada que atrapalhe o trabalho do senhor, mas ao mesmo tempo tenho um desejo devastador de ajudar aquelas pessoas de alguma forma.

–Vá direto ao ponto Isabella – Disse ríspido – Não gosto de delongas.

–Certo. Eu perdôo o senhor se me deixar trabalhar no campo.

Reneé engasgou com o chá que bebia e Charlie colocou-se de pé num pulo.

–Ficou louca? – Disse-me – O que pensa que poderia fazer naquele lugar?

–Trabalhar na enfermaria. Vocês têm uma lá, não têm?

–Sim, mas...

–Posso ajudar lá de alguma forma. Eu sei que nem todos os seus prisioneiros são mortos assim que chegam – Um calafrio me percorreu a espinha, ignorei a sensação e continuei a falar – Alguns trabalham e com certeza devem se machucar. O senhor poderia me colocar como auxiliar de enfermagem.

–Isso é um absurdo – Ele balançava a cabeça andando de um lado para o outro, eu já devia imaginar que Charlie nunca aceitaria aquilo.

–Charlie – Reneé interveio – Talvez seja bom para a Bella ter uma distração.

–Não vou deixar minha filha à mercê daqueles judeus imundos!

Me encolhi ao ofendê-los daquele jeito. Minha raiva aumentou um pouquinho mais.

–Coloque-a sob a supervisão dos soldados. Não vai acontecer nada com a nossa filha. Deixe-a distrair um pouco a cabeça.

–Não. Definitivamente, não.

–Essa é sua resposta final?

–Sim.

–Ótimo – Me levantei – Boa noite.

Corri para o meu quarto. Meu sangue fervia nas veias, eu tinha vontade de quebrar tudo... Gritar, espernear. Sentei-me na cama, fechei os olhos e fiquei meditanto por horas, tentando controlar a raiva que me fazia tremer. Ele não aceitara negociar o meu ‘perdão’, no fundo eu já sabia que ele não ia aceitar. Charlie não se importava comigo.

–Bella – Minha mãe chamou batendo na porta.

–Entra – Falei suspirando, cansada de discutir.

Ela entrou e se sentou ao meu lado.

–Conversei com seu pai. Ele concordou em deixá-la trabalhar na enfermaria.

Me sentei depressa entusiasmada.

–Sério? O que disse para ele.

Ela deu de ombros.

–Só a verdade. Que você vai trabalhar lá, continuará vendo os horrores que acontece e logo vai ficar tão espantada que não vai querer saber de campos de concentração nunca mais.

Ouvi-la dizer aquilo só me deixou com ainda mais raiva. Assim como Charlie, Reneé pensava que aquilo era só uma birra minha... Que eu esqueceria logo logo. Mas, os dois estavam muito enganados, ajudar os judeus havia se tornado a missão da minha vida e eu faria isso, nem que minha vida dependesse disso.

–Obrigada.

–Meu amor – Ela afagou meu rosto – Espero que saiba o que está fazendo.

–Eu sei perfeitamente, mãe. Nunca tive tanta certeza de algo na minha vida.

Três dias depois eu estava de volta ao campo de concentração. Enquanto caminhava para a enfermaria tentei espantar da minha mente as lembranças do fatídico dia em que conheci aquele lugar e ignorei momentaneamente o cheiro da fumaça negra que saia das ernormes chaminés.

–É aqui senhorita – O soldado encarregado de me acompanhar disse parando ao lado de uma porta.

–Certo – Falei entrando – Obrigada.

O lugar em que eu havia sido atendida da outra vez não era bem uma enfermaria, pelo menos era isso que Charlie havia dito, por isso ele fizera uma nova para mim num cômodo desocupado. Eu desconfiava que havia algo mais naquela história, o médico que trabalhava lá era muito estranho e havia algo sinistro nele, mas não quis questionar demais, descobriria isso depois.

O meu local de trabalho era pequeno, mas suficiente. Havia uma maca ao lado da janela, uma mesinha com alcool, algodão, ataduras, remédios, tesouras e outros utensílios para curativos. Como eu tinha pouco treinamento com enfermagem Charlie designara uma enfermeira formada para me ajudar e me ensinar tudo que eu precisasse aprender. O gesto dele parecia ser muito generoso, mas eu sabia as verdadeiras intenções por trás dele. Principalmente nos primeiros dias quando comecei a atender os prisioneiros feridos, muitas vezes eu desconfiava de que eles haviam sido machucados de propósito com o intuito de me fazer sair correndo de lá, mas eu não cedia. Buscava aprender cada vez mais com a enfermeira Anita e às vezes com o médico esquisito. Ampliei meus conhecimentos e com o tempo nem precisava da supervisão de Anita. Se Charlie pensava que ia me fazer desistir estava muito enganado.

A Isabella que viera da Alemanha era uma garota totalmente diferente da que eu me transformara. A dor da decepção com a familia, com a guerra e com a vida havia modificado meu interior, forçado-me a amadurecer mais depressa e aflorara meus instintos de solidariedade. Afastei minha raiva, minha tristeza, minhas frustações e meus medos e me concentrei na minha missão de vida que era dar meu melhor pelas pobres almas que sofriam naquele inferno chamado campo de concentração.


Conheci muitos judeus no primeiro mês em que trabalhei na enfermaria, mas nunca consegui encontrar entre eles o que havia me pegado nos braços no dia em que tanto precisei. Perguntei a Charlie se ele sabia me dizer, mas ele respondeu com um ríspido “ Como vou saber? Aqueles porcos imundos são todos iguais para mim”. Perguntei também a alguns soldados, mas também não sabiam me dizer.

–Bella? – Anita disse me cutucando.

–Sim? – Virei-me para olhá-la.

–Preciso ir para casa. Hoje estou com muita dor de cabeça, se importa em ficar sozinha?

–Não, não tem problema. Pode ir e descanse.

–Obrigada – Ela sorriu me deu um abraço e saiu da enfermaria.

Suspirei entediada, sentei-me na maca e fiquei olhando pela janela. O campo estava silencioso e a enfermaria muito pouco movimentada. Para mim isso era uma boa coisa, sinal de que ninguém havia sido ferido, mas o tédio estava me incomodando. Peguei o meu livro “A Mulher Silenciosa dentro da bolsa, um dos considerados proibidos pelos nazistas, e comecei a ler, pela centésima vez. Era proibido porque em 1933 os nazistas iniciaram uma perseguição aos escritores que criticavam ou tentassem desviar a população dos padrões de vida estabelecidos pelo nazismo. Centenas de milhares de livros foram queimados nas praças da Alemanha, inclusive muitos livros de Stefan Zweig, que era um dos meus escritores favoritos e autor de a mulher silenciosa. Quando a campanha começou Charlie conseguiu tirar muitos dos meus livros, mas alguns eu consegui salvar e esconder.

–Com licença, senhorita Swan – Disse-me o soldado que montava guarda na porta da enfermaria.

–Sim? – Respondi e rapidamente escondi o livro atrás de mim.

Ele não pareceu notar, ou se notou não se importava.

–Tem um ferido aqui fora.

–Sério? – Me levantei depressa – Por que já não o mandou entrar. Mande-o vir.

O soldado assentiu, saiu e voltou com um prisioneiro. O rapaz era bastante jovem, tinha a cabeça raspada, o mesmo traje listrado e sujo dos demais prisioneiros e um corte na testa.

–Venha – Puxei-o pelo braço – Sente-se na maca.

Ele assentiu e sentou-se, estava cabisbaixo.

–Precisa de algo senhorita? – O soldado me perguntou.

–Não, pode ir lá para a fora. Vou cuidar dele.

–Qualquer coisa me chame.

Disse encarando feio o prisioneiro. Revirei os olhos, como se o pobre coitado fosse capaz de me fazer algum mal. Quem havia marcado minhas costas havia sido um soldado. Fui preparar os curativos, coloquei tudo numa bandeja e voltei para perto do prisioneiro.

–Por acaso você fala o meu idioma? – Perguntei a ele e ergui seu rosto.

–Sim – Ele respondeu me encarando.

Por um instante quase perdi o fôlego. Os olhos dele eram a coisa mais linda que eu já havia visto na vida, pareciam duas esmeraldas derretidas. Duas orbes verdes límpidas e cintilantes. Aliás, ele era todo bonito, cada traço de seu rosto era lindo.

Ele pigarreou e eu pisquei algumas vezes e engoli em seco, sentindo as bochechas avermelharem de vergonha.

–Desculpe – Falei por fim recuperando a compostura – Vou limpar o ferimento, vai arder um pouquinho.

Calcei as luvas, limpei o ferimento, embebi um pedaço de algodão no iodo e cuidadosamente comecei a tratar da ferida, felizmente o buraco na testa dele não era muito grande. O prisioneiro se mantinha quieto o tempo todo, espiando-me com seus intensos olhos verdes a cada movimento meu, vez ou outra fazia uma careta quando comecei a dar os pontos. Eu não sabia o que estava dando em mim, mas notei que minhas mãos tremiam ligeiramente.

–Pronto – Falei assim que terminei o curativo – Está bem melhor agora.

–Obrigado – Ele respondeu estendendo a mão para mim.

Tirei as luvas, toquei a mão dele e um leve tremor percorreu meu corpo. O prisioneiro me olhava intensamente enquanto segurava minha mão e suavemente a levou aos lábios depositando um beijo leve. Fiquei totalmente desorientada com o gesto e muito encantada também.

–E então – Falei pigarreando assim que ele soltou minha mão – Como se machucou?

–Um amigo me acertou com uma pedra – Ele disse com um sorriso divertido nos lábios.

–Nossa... Isso que é amigo – Falei sorrindo também.

–Sim, ele me fez esse favor.

–Favor? – Arqueei a sobrancelha – Como assim?

–Bom – Ele deu de ombros – Eu precisava vir até a enfermaria, mas para isso eu tinha que estar ferido.

–E porque precisava vir aqui? Por acaso é viciado em algum tipo de remédio ou algo parecido?

–Não – Ele riu divertido – Longe disso. Eu só... Eu só queria ver você.

Meu coração martelou no peito ao ouvir aquilo. Engoli em seco.

–O... O que?

–Sei que isso é estranho... Por favor não se assuste. Sabe, eu queria fazer isso desde que soube que você estava trabalhando aqui, mas meu amigo é muito teimoso e foi dificil fazê-lo me ajudar... Eu não quis provocar nenhum soldado... Sabe como é né, eles podiam me matar.

Havia um milhão de perguntar que eu queria fazer, mas só uma me escapou dos lábios.

–Por que?

Ele voltou a me olhar profundamente e inclinou-se mais para perto.

–Eu queria te ver de novo. Saber se estava bem... Fiquei preocupado desde a última vez que te vi.

Quase perdi o fôlego naquele momento. Como eu não havia notado antes? A voz dele... Era a mesma voz da minha lembrança...

Está tudo bem, logo a dor vai passar”

Tive de me apoiar na maca para não cair. O prisioneiro segurou meu pulso com a intenção de me ajudar e uma descarga elétrica percorreu meu corpo.

–Está tudo bem? – Perguntou preocupado – Eu não quis assustá-la.

–Estou – Falei quase num sussurro.

Ele abriu um lindo sorriso para mim.

–Meu nome é Edward e estou muito feliz por poder vê-la de novo.

–Sou Isabella – Respondi encarando os orbes verdes lindos e gloriosos.

Meu coração saltava no peito de alegria, euforia e surpresa. Eu não precisei mais procurá-lo ele viera até mim... Edward, o lindo rapaz de olhos verdes era o judeu.

Notas finais
E ai gostaram? Amaram? Odiaram? Me deixe saber a opinião de vocês amores. Beijos e até o próximo.