O judeu
2 Triste despedida
Notas iniciais
Beijos e boa leitura.
Foi um pouco difícil descobrir por onde começar. Eu poderia dizer que minha história começou há muito tempo, quando por um acaso meus pais se encontraram e se apaixonaram e eu nasci, ou quando tive uma vida perfeita de garota rica, mas acabei me convencendo de que de fato só vivi quando o conheci, minha história realmente começou no instante que houve um beijo dentro de uma enfermaria, um beijo que mudou meu destino e me fez descobrir o que era o amor. Mas, nada daquilo teria acontecido se não fosse os fatos que aconteceram em agosto de 1944 e me levaram até ele...
–Ainda não acredito que você vai embora...
Disse Rose, minha melhor amiga, com a expressão triste. Eu também não estava acreditando que realmente teria que ir embora de Berlim. À nossa frente várias pessoas dançavam animadamete ao som Drum Boogie de Gene Krupa na sala de minha casa que havia sido transformada num imenso salão festivo. Era uma festa de comemoração, pois meu pai havia recebido uma patente importante naSchutzstaffel (SS), a tropa de proteção do partido nazista.
–Rose, não me deixe mais triste do que já estou – Pedi esforçando-me para não chorar.
–Eu só não me conformo com isso – Ela suspirou e segurou minha mão – Você é minha melhor amiga.
–Nós não vamos deixar de ser amigas... Nunca. Prometo que lhe escreverei sempre que puder e também telefonarei.
Ela sorriu tristemente.
–Você já sabe para qual cidade irá se mudar?
–Acho que Cracóvia, meu pai não nos deu muitos detalhes.
–Será que tem homens bonitos por lá?
–Ora essa – Cruzei os braços numa falsa pose de censura – Será que você só pensa em garotos?
Ela deu de ombros
–E tem coisa melhor para se pensar?
–Claro que sim!
–O que, por exemplo?
–Estudos?
–Ultimamente não vale à pena estudar... Eles só falam sobre coisas chatas de História! Eu odeio essa matéria!
Ela sorriu e eu acompanhei, Rose era dois anos mais nova do que eu e ainda frequentava a escola, que para ela era uma tortura. Seu maior desejo era torna-se bailarina, mas o balé russo era um sonho praticamente impossível na situação em que estávamos.
–Eles continuam pregando os ideais nazistas?
–Sim – Ela revirou os olhos – Cada dia que passa a coisa fica mais feia. Ontem aprendemos que por culpa dos judeus muitos alemães passaram fome.
–Que absurdo – Balancei a cabeça – É muito fácil colocar a culpa nos outros!
–Psiu – Ela sussurrou e me deu um cutucão – Quantas vezes tenho que alertá-la sobre as consequencias da sua opinião anti-nazista?
Rose morria de medo de que eu fosse castigada ou presa por “trair” minha pátria. O pai dela havia sido torturado e morto por ter se negado a filiar-se no partido nazi e às vezes eu esquecia que isso a deixava extremamente depressiva.
–Desculpe...
–Não peça desculpa a mim. Por Deus Bella, você acha que seu pai não tem coragem de castigá-la só porque é filha dele? Esses nazistas são uns loucos fanáticos!
Ela tapou a boca imediatamente e eu gargalhei, Rose às vezes era paranóica, sempre achava que havia um nazista à espreita se bem que naquela noite estávamos rodeadas por eles, tanto civis como militares.
–Você precisa relaxar Rose... Eu sei que o que aconteceu com seu pai foi terrível, mas não significa que precise se sentir ameaçada dessa forma.
–Eu falo sério quando te peço para ter cuidado... Um dia você pode acabar descobrindo do que eles realmente são capazes.
Olhei-a intrigada e curiosa a respeito do comentário esquisito, como assim do que eles realmente são capazes? Eu sabia que os alemães nutriam um grande ódio pelos judeus, mas não passava disso... Ou será que não?
–Como assim Rose? Do que está falando?
–Droga – Ela suspirou – Eu e minha boca super falante!
–Diga-me, o que você sabe?
–Bom, ouvi dizer que os judeus são levados para uns tais campos...
–Campos? Que campos?
Não houve tempo para respostas, meu pai, agora o comandante Charlie Müller havia entrado na sala e logo a saudação nazista “Heil Hitler” ecoou pela sala e em seguida ele foi aplaudido e ovacionado.
–Amigos – Ele disse assim que o barulho cessou – Quero agradecer a presença de cada um de vocês nesta noite maravilhosa. Estou imensamente honrado com a promoção ao qual fui contemplado. Farei o meu melhor para ajudar nosso país a tornar-se um lugar melhor. Obrigado por compartilharem dessa alegria comigo e minha esposa, Heil Hitler!
–Heil Hitler – Todos repetiram e então a música voltou a tocar.
–Boa noite moças.
Era só o que me faltava, o soldado James Strauss ali parado nos cumprimentando com aquele sorrisinho irritante na cara.
–Boa noite – Rose respondeu simpática e educada como sempre.
–Boa noite soldado – Falei ríspida, sem me importar em polir a irritação na voz.
–Tenente – Ele abriu um sorriso arrogante – Também fui contemplado com uma promoção.
–Parabéns – Rose o cumprimentou com um aperto de mão.
–Que bom pra você – Falei.
–Parece que o vento da sorte soprou nessa região – Ele disse me encarando.
Dei-lhe meu melhor sorriso falso e forçado.
James Strauss era o soldado, aliás, o tenente mais idiota, narcisista, egocêntrico e arrogante que eu já havia tido o desprazer de conhecer e para minha infelicidade cismou de se engraçar comigo.
–Gostaria de dançar? – Ele perguntou estendendo a mão para mim.
–Claro – Respondi e ele sorriu presunçoso, mas assim que puxei um convidado qualquer que passava por ali para dançar o sorriso deu lugar a uma carranca zangada e furiosa.
Quando James saiu pisando duro Rosalie caiu na gargalhada, nenhuma de nós gostava dele, mas ao contrario dela eu sabia ser mal educada.
–Obrigada pela dança – Falei ao desconhecido que me olhava com cara de bobo. Quando o soltei tive a impressão de que ele suspirou aliviado. Voltei para o lado de Rose que ainda sorria de minha travessura.
–Você sabe como perturbar um homem Isabella! James saiu daqui cuspindo maribondos.
Dei de ombros
–Ele mereceu.
–Aquele homem com quem dançou também pareceu perturbado...
–Provavelmente estava se borrando de medo por dançar com a filha do comandante. Poucos têm essa coragem.
–James teria.
–Argh – Fiz uma careta – Preferia que não tivesse.
Rose me estudou com seus belos e enormes olhos azuis.
–Será que um dia você ainda vai se casar com alguém?
–Claro que não – Respondi convicta – Eu já te falei qual é meu objetivo de vida.
–Trabalhar como médica ajudando os necessitados?
–Sim. Exatamente... É a minha vocação. O que eu quero fazer.
–O comandante jamais vai permitir que sua primogênita viva por ai a mercê de doentes.
–Meu pai não me impedirá, nada nesse mundo será capaz de mudar meus planos.
–Nem mesmo um grande amor?
–Já falei que não terei amor algum... Não há espaço para homens na minha vida.
–Que desperdício – Ela balançou a cabeça – Não vejo à hora de me casar...
Inconscientemente Rose olhou para Rudy, um dos oficiais que estava conversando animadamente com meu pai. Ela era apaixonada por ele desde a infância, mas também era covarde o suficiente para não lhe declarar seus sentimentos.
–Se você não fizer outra fará – Falei, também olhando para ele.
–Eu sei – Ela respondeu abaixando a cabeça – Pode ter certeza que eu sei.
–Então porque nunca tomou coragem e se declarou?
–Pelo mesmo motivo que você nunca pegou suas coisas e foi embora estudar medicina.
Não era preciso dizer mais nada. Rose e eu éramos duas covardes e isso era inegável.
–Eu só não consigo entender... Você já namorou tantos garotos e nunca teve medo, mas nega-se a tentar algo com Rudy.
–É diferente com ele – Ela suspirou – Os outros garotos são apenas por diversão, são alvos fáceis... Rudy é diferente, eu o amo... Só a ideia de ser rejeitada por ele despedaça meu coração. Eu não suportaria ouvi-lo dizer que não quer nada comigo. Eu o amo demais, Deus sabe o quanto eu o amo!
–Isso é tão lindo Rose... Esse amor...
–Um dia você encontrará um amor assim Bella, pode apostar.
–Eu já tive um e você sabe. Foi uma coisa ridícula.
–Não pode chamar aquilo de amor – Ela balançou a cabeça desaprovando – Você apenas se encantou com a poesia dele...
–Eu sei – Suspirei – É que aquelas palavras são tão lindas.
–Então você se apaixonou pela poesia e não pelo poeta.
Talvez Rose tivesse razão, mas a questão é que desde que vi aquela poesia publicada no jornal há cinco anos jamais deixei de sonhar com o dia em que a ouviria da boca do próprio autor, mas era um sonho ridículo e patético, pois quando publicada a poesia teve como referencia “autor desconhecido”. Talvez ele fosse um velho, talvez estivesse morto ou quem sabe morasse em outro país, a questão era que as palavras dele me tocaram de uma maneira tão profunda que eu jamais esqueceria delas.
Rose e eu passamos o resto da festa conversando sobre nossas aventuras juntas e coisas do passado das quais jamais esqueceríamos. Quando finalmente chegou a hora de nos despedirmos não consegui conter as lágrimas que tanto escondi durante a noite.
–Vou sentir sua falta – Falei abraçando-a.
–Também sentirei a sua – Ela respondeu soluçando.
–Vamos querida – A mãe de Rose chamou e ela me soltou.
–Promete que vai me escrever?
–Claro, não vamos deixar de nos falar.
–Eu te amo Bella...
–Também te amo Rose, você é uma irmã para mim.
Ela assentiu e correu chorando para o carro da mãe.
–Boa viagem querida. Sentiremos sua falta.
–Também sentirei de vocês.
Ela me abraçou e foi para o carro. Rose acenou para mim pela janela e então o carro se foi levando para longe de mim a pessoa mais especial da minha vida.
Quando entrei em casa meus pais e meus irmãos estavam sentados no sofá da sala tendo uma conversa bastante animada. Fui até eles e me sentei numa cadeira.
–Oh querida – Minha mãe Renée falou, meu irmão caçula Oliver dormia em eu colo – Eu sinto muito, você e Rose são tão amigas...
–Bobagem – Natalie, minha irmã do meio falou – Papai não podia deixar de cumprir sua obrigação só porque você não quer se separar da sua amiga. Sabia que nós temos um dever para com a pátria? Nosso pai será um herói!
–Essa é minha garotinha – Ele disse sorrindo para ela, revirei os olhos.
–Bella – Mamãe disse – Seu pai comprou presentes para vocês.
–Presentes? – Arqueei a sobrancelha – Por quê?
–Você questiona tudo! – Natalie falou – Não pode simplesmente ficar agradecida?
–Não briguem – Mamãe disse suspirando e então nos entregou as embalagens. Para mim ele havia comprado um vestido de linho branco, uma bola para Oliver e para Natalie uma boneca.
–É lindo – Falei – Obrigada.
–Uma boneca? – Natalie disse fazendo careta – Por que não me deu um vestido igual ao da Isabella?
–Ora – Papai falou – Você só tem treze anos e meninas da sua idade não usam aquele tipo de vestido.
–Eu não sou mais criança – Ela jogou a boneca no chão e correu para as escadas subindo para o quarto. Ouvimos quando bateu a porta com força.
–Oh céus – Meu pai suspirou esfregando as têmporas vermelho de tanta raiva.
–Querido – Mamãe disse tentando amenizar a situação — É normal que meninas da idade dela passem por uma fase difícil.
–Não é normal uma filha falar com o pai naquele tom – Ele se levantou e começou a desabotoar o cinto – Terei uma conversa com ela.
–Não – Pedi me levantando – Natalie está abalada com... Com... as regras.
Tanto ele quanto minha mãe me olharam espantados.
–Essas coisas mexem com a cabeça da gente, não é mãe?
–Ah... Ah sim – Ela respondeu entendendo meu plano – As regras mexem com os nervos.
–Se é assim tudo bem – Ele voltou a se sentar – Não quero me meter nesse assunto de mulher. Mas, que ela não ouse falar comigo de novo daquela maneira.
–Vou conversar com ela – Eu disse.
–Sim faça isso – Renée respondeu.
–Boa noite, com licença.
–Boa noite filha, não demore a dormir que amanhã partiremos cedo – Papai disse.
–Sim senhor.
Sai da sala e fui até o quarto de Natalie e bati na porta.
–Natalie sou eu Bella, abra a porta.
–Vá embora – Ela gritou.
–Papai me pediu para conversarmos e você sabe que ele odeia ser desobedecido.
Ela acabou cedendo e me deixando entrar. Percebi que já não havia nenhum tipo de brinquedo em seu quarto, perguntei-me se ela os tinha guardado nas caixas de mudanças ou jogado-os fora. Sentei-me na cama ao seu lado.
–O que está acontecendo com você? – Perguntei preocupada.
Ela bufou e se levantou de braços cruzados e com a cara emburrada.
–Todos ficam me tratando como se eu fosse uma criança!
–Mas, você ainda é criança Natalie.
–Não sou nada!
–Escute – Falei já perdendo a paciência – Você sabia que meu pai quase veio aqui te bater de cinto? Não deve respondê-lo daquela forma nunca mais entendeu? Eu tive que inventar que você estava nervosa com as suas regras e por isso falou daquele jeito.
–Minhas regras ainda não vieram. Você mentiu para o nosso pai?
–Tive que fazer isso ou a essa altura você estaria marcada de cinto, sabe o quanto ele é intolerante.
Ela ficou pensativa por um momento, mas então a carranca zangada voltou a estampar seu rosto.
–Preciso terminar de fazer minhas malas, pode me deixar sozinha?
–Claro – Me levantei e fui lhe dar um beijo – Durma bem.
–Você também.
Fui descansar a noite havia sido longa. Tomei um banho quente e relaxante. Quando voltei para o quarto peguei minha caixa de preciosidades e tirei de lá minha jóia mais preciosa, o recorte do poema que tirei do jornal. Estava um pouco velho e as letras quase apagadas, mas eu o lera tantas vezes que já o havia decorado. Fechei os olhos abracei o pequeno papel e recitei as lindas palavras que nele continha.
Acordei e os dias são cinza,
Nublado segue meu coração.
Olho ao redor a grande mancha vermelha,
Está impressa em mim, marcada feito brasa.
As ilusões se foram, a vida me pesa.
Posso transpor essas paredes?
Essa neve que cai sobre mim
Deixando um gosto amargo.
No meio dessa tempestade
Um clarão se fez presente.
Era você que jamais pensaria que viesse.
A alma obscura, os gestos incoerentes.
Ainda sim uma esperança vã veio até mim.
O gosto do seu beijo que pensava ser de fel,
Mas que trouxe com ele a ponta de um sonho.
Tornei-me prisioneiro da armadilha que jamais pedi.
Nesses dias cinza, o que era meu carrasco
Tornou-se meu alento e tormento.
A ilusão de um por vir,
Meu Doce Inferno sem razão,
Esperando o futuro que há de chegar
Levei o papel aos meus lábios e o beijei. Aquelas palavras resumiam a minha vida, talvez fosse esse o motivo que me levara a idolatrar quem as escreveu. Parecia que ele também era incapaz de realizar seus sonhos, era prisioneiro de sua própria sorte assim como eu, entretanto ele tinha esperança e isso era o que tornava o poema tão especial. Por diversas vezes Rose dissera que podia ser uma mulher quem havia escrito, mas eu sentia no fundo da alma que não era verdade. Guardei meu precioso de volta na caixinha e mergulhei nos cobertores. Em breve aquele não seria mais o meu quarto e Berlim não seria mais minha cidade. Eu estava indo para um lugar desconhecido e depois do papo inacabado com Rose uma série de dúvidas atormentavam minha cabeça. Será que os nazistas estavam fazendo algo muito ruim? Por algum motivo todos os pêlos do meu braço se eriçaram e uma sensação esquisita me percorreu, de repente senti medo e temi não gostar nada do que me esperava em Cracóvia, afastei os maus pensamentos e aos poucos fui adormecendo.
Naquela noite sonhei com meu poeta desconhecido.
Notas finais
A poesia foi criada pela Fran Borges, linda né? Eu amei.
Essa aqui é a musica que eles estavam dançando na festa, um clássico da década de 40: http://www.youtube.com/watch?v=qRjQzSwmEHw&feature=related
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