Olhou em sua roupa, mas não vira vestígio algum de tinta, nem em seu apartamento, nem nas suas mãos, nada. Observou minuciosamente cada detalhe delas e percebeu que não havia pinceladas no papel. Achou tudo muito estranho. Perguntou-se onde tinha arranjado aqueles cavaletes, já que tinha vendido tudo para o dono da galeria. Mas após um tempo cansou-se de pensar no que poderia ter ocorrido naquela noite e deixou tudo como estava.

Maynard estava decidido a colocar as pinturas de que mais gostou em exposição, quando uma voz um tanto autoritária começou a chamá-lo.

— Ei, onde pensas que vai?

— O que?Quem disse isso?

— Eu. Não estas me vendo?

— Onde?

— Na sua mão ora!

Quando ele olhara para a pintura que estava segurando, soltara-a rapidamente e emitira um grito interrompido. A mulher do quadro estava se mexendo.

— Isso é algum tipo de truque? Disse Maynard, acanhado com uma voz esganiçada.

— Que truque?Já não me reconheces?Disse ela andando em sua direção passando do papel, para o assoalho.

— Fique longe de mim, assombração de Salvador Dali. Disse ele, se arrastando para trás.

— Fique longe ou eu te rabisco com esse lápis aqui!

— Que lápis? Ela estava a ponto de ter uma crise de gargalhadas.

— Esse! E pegou uma colher.

— Estas me achando com cara de tola?

— Não. Por favor, não me amaldiçoe! Disse agora de joelhos.

— Por que tem tanto medo, se ontem tu dissestes que me amava?

— Não me lembro de nada que aconteceu ontem.

— Ah.Que lastima a minha.Seu tom era de profunda lamentação.

— Desculpe o incomodo então. Estava voltando para sua posição original na pintura

quando Maynard gritou:

— Espere!

Mas já era tarde. Nessa exata hora ela já estava perfeitamente posicionada, com

apenas uma diferença em sua expressão.Sua feição já não era mais de puro tédio e sim de pura tristeza.