O guerreiro e o Heroi
30 O guerreiro e a surpresa de aniversário
Notas iniciais
O sol da tarde banhava as terras de Bravan, encerrando mais um dia quente. Havia nuvens escuras se formando no céu, o cheiro de chuva se aproximava e Katsuki ordenou que os animais fossem recolhidos, caso chovesse naquela noite. Ele caminhou pelos corredores largos do castelo de pedra, chegando até o pátio central, onde encontrou os pais dançando por entre os barris de vinho que era descarregado.
Katsuki cruzou os braços e observou os dois como jovens adolescentes apaixonados, rindo e fazendo bobagens, como se não tivessem vergonha de fazer aquelas coisas na frente das pessoas.
— Vão para um quarto. — Ele disse, afinal, ouvindo uma risada como resposta.
— Eu até tentei, mas sua mãe não quis deixar você aqui sozinho com os preparativos para o baile. — O pai falou, dando alguns beijos no ombro da esposa. Katsuki girou os olhos e descruzou os braços.
— Um filho não precisa saber que os pais fazem essas coisas. — Katsuki não tinha muito o que fazer sobre aquele baile. Não queria uma festa de seu aniversário, não queria chamar atenção de ninguém, muito menos encontrar pessoas interessantes, como estavam insistindo. Mas, pensando melhor, era uma boa chance de beber e ver as pessoas do Clã se divertirem. Afinal, já fazia um tempo que não os via tão felizes.
Desde que retornou para seu mundo, há quase um ano, Katsuki vinha trabalhando diariamente e sem folga. Seus pais o ajudavam, mas eles pareciam mais interessados em se divertir e aproveitar o tempo perdido. Não havia como culpá-los por isso. Ficava feliz em vê-los juntos novamente, por isso se sentiu responsável pelo Clã.
O tempo que passou no outro Universo, foi significativo para ele pensar sobre as prioridades que deveriam focar. Por isso decidiu estreitar os laços de amizade com a família real do reino de Aarghus, promovendo mudanças significativas na relação das cidades do reino.
Adquirindo uma postura mais política, e visando a melhoria de vida dos camponeses, Katsuki aceitou que seu aniversário fosse comemorado naquela noite, convidando pessoas importantes de vários outros reinos. Poderia aproveitar o momento para discutir algumas leis.
Ele suspirou, ajeitando a camisa de algodão feita sob medida, olhando em seguida no espelho, quando Kirishima colocou a capa vermelha nos ombros dele.
— Vou falar uma coisa, mas não me leva a mal. — Kirishima inclinou a cabeça e puxou mais a capa. — Você tá bem bonito.
Katsuki riu, movendo a cabeça.
— Obrigado, a roupa não é tão ruim. — Ele disse, mas o sorriso morreu rápido em seus lábios.
— Não quero ser chato, nem nada, mas você não parece nem um pouco animado para a festa. Se continuar assim vai ser um pouco constrangedor.
— Eu sei, eu sei. — Katsuki moveu a mão. Kirishima era como um irmão para ele, cresceram juntos e desde então sabia que ele estaria ao seu lado em qualquer situação. Por isso achava tão estranho ver Bakugo no outro mundo apaixonado por ele, não fazia muito sentido.
— Você ainda pensa naquele rapaz igual ao Deku? — A pergunta fez Katsuki parar no meio do quarto. — Desculpe, eu não queria trazer esse assunto assim.
— Não tem problema, você sabe que eu não gosto de falar nisso, mas não é como se eu fosse usar a espada caso fale. — Katsuki sentia calor com aquela roupa, por isso abriu todos os botões dourados da camisa, passando as mãos nos cabelos loiros. — Vamos acabar logo com isso.
A comida era boa e a bebida também, Katsuki estava sentado com a família em uma grande mesa no salão, voltado para as outras demais mesas de seus convidados. Os músicos tornavam o ambiente mais animado, assim como as dançarinas que giravam suas longas saias bordadas. Um brinde foi feito em sua homenagem e Katsuki agradeceu, erguendo a caneca ao qual bebia.
— Parece cansado. Tem trabalhado demais. — A mãe falou baixinho. O pai concordou e perguntou se estava tudo bem.
— Eu disse que não queria uma festa. — Ele respondeu, mas depois mexeu na cadeira.
— Querido, veja como as pessoas estão se divertindo, você uniu vilas e conseguiu até mesmo trazer o príncipe Todoroki aqui. Eu estou orgulhosa. — A mãe continuou falando. — Mas também estou preocupada, você não está feliz.
— Não se preocupe com isso, mãe, eu estou fazendo o que é certo para todos. — Katsuki virou a caneca na boca e terminou de beber o conteúdo.
Ele estava cansado de fingir que tudo estava bem. É verdade que a sua liderança naqueles últimos onze meses foi de grande valia para várias pessoas. Contudo, algo parecia faltar. Ele se sentia sozinho, mesmo estando em um salão com mais de cem pessoas comemorando seu aniversário de vinte e três anos.
Estava quase desistindo de permanecer naquela festa, quando o pai pediu para que ele esperasse um momento, já que ainda não havia dado seu presente de aniversário. E como ele havia se ausentado nos últimos anos, queria que esse presente fosse uma surpresa a altura do homem que ele havia se tornado.
Depois de seu discurso, Masaru bateu a colher na taça de bronze, fazendo um barulho, foi quando as portas duplas do salão se abriram. Katsuki inclinou o corpo mais pra frente na cadeira, quando as luzes de vela do salão não foram o bastante para que ele pudesse ver a pessoa que passava pela porta naquele momento.
— Pai, o que você fez? — Katsuki perguntou, sério, olhando para ele.
— Eu fiz o que todo pai faria pelo seu filho. — Masaru sorriu. Katsuki levantou-se e deu a volta na mesa, caminhando pelo salão. As pessoas ao seu redor não tinham mais importância, ele não estava mais ouvindo nem mesmo a música ou o barulho das pulseiras das dançarinas.
Parado na porta do salão estava Deku, olhando de um lado para o outro, mas quando seus olhos se fixaram nos de Katsuki, ele sorriu amplamente e não desviou mais o olhar.
Katsuki o abraçou com força, erguendo-o do chão.
— Como isso foi possível? Você está bem? — Ele perguntou, em seguida, segurando o rosto de Deku com as duas mãos. — Não houve problemas quando você passou pelo portal? Espera, desde quando você chegou aqui?
Deku sorriu, voltando a olhar ao redor, todos estavam os encarando, e um burburinho iniciou por entre os convidados.
— Eu cheguei hoje cedo. — Revelou, segurando as mãos dele. — Seu pai queria fazer surpresa.
— Como? Eu andei pelo castelo o dia inteiro.
— É, mas você não foi na biblioteca. — Eles começaram a andar e Katsuki levou-o para se sentar à mesa com sua família. — O que está fazendo?
— Apresentando você para meu Clã. — Katsuki segurou firme a mão dele, não sabia se era normal sentir aquela euforia, mas seu coração não conseguia se controlar dentro do peito.
A apresentação veio com um pouco da história sobre a troca de mundos, que todos já conheciam, já que eles conviveram com Kirishima, Bakugo e Mina por um tempo. E agora, Deku havia passado pelo portal.
Todos aplaudiram e a música voltou a soar animada. Katsuki sentou-se e Deku também. Mas, pensando melhor sobre o que estava acontecendo. O pai precisava dar uma boa explicação, já que ele havia colocado em risco a vida de Deku.
— Eu estou bem, é sério, não aconteceu nada de errado. — Deku o tranquilizou. — Além do mais, seu pai teve uma ajuda.
Katuski não estava entendendo, por isso Masaru explicou que, antes deles retornarem para Aarghus, Mei Hatsume estudou seus poderes junto com a equipe de análise da escola U. A High. Deku disse que ela era uma estudante graduada assim como ele, que ajudou a criar vários dispositivos para os super-heróis.
— Inclusive essa pulseira de recarga, ela potencializa os poderes de quem a usa. — Masaru falou.
— E você levou quase um ano para me contar isso? — Katsuki trincou os dentes, irritado com aquela história, mas a expressão se acalmou quando Deku apoiou a mão no seu ombro.
— Ele não poderia usar, não até a gente conseguir encontrar uma forma de conectar os dois mundos.
— Isso é possível?
Deku moveu os ombros.
— Eu não poderia colocar a vida do seu pai em risco, fazendo-o abrir portais sem ter certeza de que as coisas dariam certo. Existe uma forma de conectar nossos mundos e potencializar os poderes de seu pai com a pulseira, sendo assim, aumenta as chances para que dê tudo certo.
— Parece que há alguma coisa que você não me contou. — Katsuki estava extasiado, mas não poderia se deixar levar pelas suas fantasias. Não se alguém se machucar. E ao olhar para Deku, teve certeza de que havia algum problema.
Antes de deixá-lo falar, chamou-o para dançar. Os dois ficaram em pé e foram até o centro do salão. A dança era um pouco diferente do mundo de Deku, por isso ele o ensinou os passos, até que ele pegou a coreografia.
Quando a música acabou, Katsuki aproveitou que todos estavam agora apreciando a apresentação de uma dançarina com facas flamejantes, para puxar Deku para um corredor vazio. Ele o pressionou contra a parede de pedra e o beijou, abraçando-o pela cintura.
Eles caminharam pelo castelo e Deku parecia deslumbrado com o lugar. Katsuki abriu uma porta e os dois entraram. Era um quarto grande com uma janela para uma varanda, onde Deku apreciou a vista.
— O rio parece mágico. — Disse, virando-se quando Katsuki chegou perto. — Eu senti saudades.
Ele disse, enquanto dava alguns beijos em seu rosto.
— Eu pensei que nunca mais iria te ver. — Katsuki inclinou a cabeça para frente e o beijou novamente. Quando o beijo findou, ele o olhou sério, alisando a ponta dos dedos em seu rosto. — Eu preciso saber tudo, o que vocês estão aprontando?
Deku riu, mas não desvencilhou do assunto.
— Nossos universos coabitam em um ciclo semelhante, seu pai consegue criar uma ponte entre esses universos. — Deku foi falando, enquanto andava de um lado para o outro. — A pulseira projeta energia o bastante para ele criar um portal com 99,9% de chances de dar certo. Mas, o problema, é que a pulseira leva muito tempo para recarregar sem a tecnologia do nosso mundo.
— Como é recarregado?
— Seu pai disse que aqui faz muito calor, então Hatsume-chan criou essa pulseira para ser recarregada com o sol. Infelizmente a tecnologia que ela usou não era compatível com o seu sol, ela ainda não sabe porque.
— Você sabia disso tudo?
— Não até receber a visita do meu ex-sensei da U.A. um dia ele chegou e me falou que havia uma notícia boa e uma ruim. — Deku balançou a cabeça.
— Então vai levar mais onze meses para essa pulseira recarregar novamente?
— Sim.
Katsuki piscou, aturdido.
— Você vai ficar aqui por onze meses? — Ele perguntou, preocupado.
— Ao que parece, sim. — Deku juntou as mãos na frente do corpo.
A novidade fez Katsuki sorrir, mas também o deixou em conflito. Sabia que Deku era uma pessoa que carregava um poder importante e o universo dele precisava de um herói como ele. Além do mais, era seu sonho. E não poderia ser a pessoa que o fizesse desistir desses sonhos. Contudo, ele o amava tanto e aqueles meses afastados deixou claro que os sentimentos eram mútuos. Katsuki o abraçou novamente, beijando-o pelo rosto todo.
— Serão os melhores onze meses da sua vida, eu prometo. — Ele disse, levando-o em direção a cama.
— Eu tenho certeza de que será.
Fale com o autor