Na hora do almoço, notei que Hannah chegou atrasada. Assim como Travis.

— Você viu isso? — disse cutucando Jane, que derrubou um pouco de arroz para fora do prato.

— Vi o que?

— Hannah e Travis, chegando atrasado para o almoço.

— Hmm— Jane disse com um sorriso malicioso no rosto — Isso deve significar que deu tudo certo entre os dois. Quer dizer, para eles terem se atrasado. Eu já me atrasei uma vez com Henry, sabe? Foram uns beijos tão...

— Ai tá bom, Jane. Já entendi que você e Henry se pegaram. Muito. Várias vezes. Mas como será que Hannah está? — perguntei.

Jane tomou um gole do seu suco.

— Sei lá. Acho que vamos ter que esperar ela vir falar com a gente. Eu não quero ir chamá-la e a interromper seu momento com Travis.

— Nem eu — falei.

Assim que nós terminamos de comer, voltamos para a Torre da Corvinal. Jane estava ajudando Henry a terminar um trabalho de Aritmância, enquanto eu terminava de dissertar sobre "Quais as consequências do desrespeito da Cláusula 73, de 1750, do Estatuto Internacional de Sigilo em Magia?".

Lá pelas 16:40, após eu ter que brigar alguns alunos do segundo ano para que não jogassem fogos de artifício dentro das armaduras da escola, encontrei Hannah.

— E aí?! — falei indo até ela — Como foi?

Ela sorriu.

— Preciso contar tudo para vocês. Onde está Jane?

— Na sala comunal — respondi.

— Vamos chamar ela então.

Nós duas fomos até a Torre da Corvinal, onde eu entrei para chamar Jane.

— Hannah está nos esperando, vamos — falei.

— Okay, vou buscar minha capa.

Hannah estava esperando perto das escadas, observando um dos vários retratos de Hogwarts.

— Para onde vocês querem ir?

— Algum lugar que não tenha ninguém — Hannah falou — Odiaria que alguém escutasse e começasse a fazer fofoca.

— As salas de aula estão vazias agora — comentei — A de Runas Antigas é a mais próxima, vamos.

Nós três seguimos para o sexto andar, onde ficavam algumas salas de aula. Tudo estava vazio, já que sábado não tinha aula.

— Alguém feche a porta — Jane disse quando nós entramos e eu fui fechar a porta — Hannah, conte tudo.

Ela deu um suspiro.

— Ok. Depois que os garotos subiram para a sala comunal, muitos alunos foram cumprimentá-los e parabenizar pelo jogo, essas coisas. Eu fiquei em uma poltrona, perto das janelas, só esperando tudo ficar vazio.

Eu olhei para ela com um risinho no rosto.

— Só que aí, foi ele que veio até mim! Eu estava nervosa pra caramba e tentei disfarçar. Ele sentou do meu lado e perguntou se eu tinha visto o jogo e as defesas dele. Óbvio que eu não perdi a oportunidade de elogiar o desempenho dele, não sou boba. Eu reuni toda a coragem que eu tinha e perguntei se ele queria dar uma volta. Nós descemos e fomos para os jardins da escola... Já estava perto da hora do almoço e não tinha quase ninguém ali.

— E aí? — perguntou Jane animada — Desembucha!

— Aí que nós paramos perto do lago e sentamos. E eu falei que precisava contar uma coisa para ele!

Ela falou num tom de voz alto e animado, que eu quase levei um susto.

— Hannah, fale baixo, pelo amor de Deus.

— Desculpa — ela respirou fundo — E daí eu contei que eu tinha sentimentos por ele, essas coisas... Disse que eu achava que ele não fazia a menor ideia de quem eu era e foi aí que ele me interrompeu com um beijo!

Eu e Jane soltamos uns gritinhos de empolgação.

— Ele contou que já gostava de mim fazia um tempo, mas que nunca teve coragem de falar comigo até aquele dia do jogo de quadribol, lembra Chloe?

Eu assenti.

— Ai meu Deus — Hannah disse por fim — Eu estou tão feliz que eu não consigo nem andar por aí sem ficar sorrindo como uma boba.

Jane levantou e foi abraçar Hannah.

— Eu espero que dê tudo certo com vocês dois. Ai que orgulho.

— Vocês formam um casalzão — eu disse.

E Hannah só conseguia sorrir, literalmente.

>>>

Quando segunda-feira chegou, em uma das aulas, eu vi que Arthur já tinha voltado às atividades regulares.

Ele sentou na janela, uma mesa ao lado da minha e ficou (como de costume) empurrando minha cadeira com o pé.

— Pelo visto sua perna já está excelente — sussurrei para ele.

— Ah sim — ele disse sério, porém ainda me dando uns empurrões — Graças à Madame Pomfrey e ao seu sapo de chocolate. Inclusive ela descobriu, ficou muito brava por você levar doces antes do almoço aos doentes. Tirou 20 pontos da Corvinal.

— O que?! — falei perplexa.

Nunca dava para saber quando ele estava brincando ou quando estava falando sério.

— É brincadeira — ele disse com um sorriso — Você precisava ver sua cara.

Bufei, irritada.

— Pare de empurrar minha cadeira, obrigada.

— Mas o que está acontecendo aí, Srta. Wood? — a professora de Runas Antigas perguntou — Será que a minha aula está atrapalhando a sua conversa com o Sr. Harris?

A sala toda virou para nos encarar. Eu senti minha cara ficar vermelha e olhei feio para Arthur.

— Não, pode continuar, professora. Me desculpe.

Ela deu uma última olhada em nós dois e voltou a explicar o conteúdo.

— Eu te odeio — sussurrei para ele, que estava tampando a boca para não rir.

Idiota.

Ao final da aula, enquanto me dirigia às masmorras com o resto dos alunos da Corvinal, Arthur parou do meu lado.

— Você fica uma graça quando está envergonhada. Você precisava ter se visto quando levou um esporro em Runas.

Eu dei um tapa no ombro dele.

— Cale a boca, Harris.

>>>

No mês seguinte eu tive que lidar com vários comentários dos alunos da Corvinal e da Grifinória, que decidiram pegar no meu pé e brincar que eu e Arthur éramos um casal. Aparentemente nós tínhamos recebido até um nome (muito ridículo, por sinal): Archloe.

— Ah, eu shippo muito— Jane não se cansava de dizer.

— Vocês são o melhor casal não-casal de Hogwarts — Hannah falou.

— Gente, já deu. Eu já falei que não gosto dele dessa maneira. Ele é meu amigo e ponto final. Sem mais nem menos.

Quando eu cheguei numa tarde, após o almoço, para aula de Transfiguração, o quadro TODO estava encantado com coisas do tipo "Archloe", "Arthur, pede a Chloe em namoro", "Casal Grifinal", além de vários corações e desenhos que se mexiam.

A maioria dos alunos da Corvinal e da Grifinória já estavam lá, com risinhos, vendo minha reação ao ver o quadro. Eu tentei de tudo o que era jeito apagar, mas não saía. E o pior, daqui a pouco Arthur iria entrar na sala.

— Eu odeio todos vocês — falei à classe — Apaguem isso!

Ninguém me deu ouvidos. Sentei na minha mesa e Jane e Henry vieram até mim.

— Gostou da decoração? As duas casas se uniram para fazer isso para vocês — Henry disse.

— Eu odeio vocês. Que vergonha.

E então Arthur entrou na sala, seguido de Brice e logo depois de Travis, que vinha de mãos dadas com Hannah. Ele deu uma boa olhada no quadro e continuou o seu caminho, sem se abalar. Como se não se importasse.

— Já tentei tirar — falei quando ele se aproximou — Está enfeitiçado.

— Ah, eu gostei assim — ele disse, dando de ombros e indo se sentar.

Henry foi logo atrás para conversar com ele.

— Não ligue, Harris. Tem dois tipos de garotas: as fáceis e a Chloe. Você tem que tentar um pouco mais — ele falou.

— Eu estou me esforçando — Arthur respondeu.

— Vocês vão ficar falando da minha vida nas minhas costas? — perguntei virando para trás.

Eles deram de ombros, me ignorando.

Ótimo.