Pela manhã, todos os pertences já estão arrumados para o retorno da jornada. Killian prepara um ensopado reforçado para dar forças e energias ao se grupo. Leva um pote com o ensopado para Gold, mas ele se recusa a comer.

Andreas vai se sentar ao lado do advogado e apanha o pote deixado por Killian.

– Você precisa chegar com vida ao nosso destino. Senão, que raio de guia eu serei se perder um de meus guiados?

O homem esboça um sorriso fraco.

– Faça de conta que eu sou seu pai e por isso devo ajudá-lo na alimentação. Abra a boca, apenas.

Obediente, Gold permite ser alimentado pelo filho adotivo. Ter o filho tão perto dos olhos e longe do coração era uma sensação amarga demais.

– Eu tive um filho...

Todos os olhares fixam-se em Gold. Uma pequena figura patética, encolhida e trêmula, amparada por alguém que sequer sabia sobre sua trajetória poderosa. Nada importava para aquele jovem, senão alimentar o homem quase moribundo.

Algo incomoda a garganta de Killian e ele sente o sinal quente da chegada de lágrimas. Chorar pelo crocodilo? Quem imaginaria isso?

– Eu tive um filho e fui covarde demais para mantê-lo junto de mim. Ele estava caindo e eu não quis soltar uma adaga que me dava poderes extraordinários. Meu filho foi engolido pelo portal, porque eu não usei minhas duas mãos para segurá-lo. Passei muito tempo depois procurando por ele e quando o encontrei, me odiava.

– Eu o odiaria também. Imagine ser trocado por uma adaga qualquer! – Andreas retruca.

– Não era uma adaga qualquer...era a adaga do Senhor das Trevas.

– Grande bosta! Onde está a poderosa adaga que não o salva agora? Dedicou sua vida è ela, sacrificou seu filho por isso e agora está sentindo o hálito quente da morte em sua nuca! – Marlene fala alto e desdenhosa.

Por segundos todos ficam em silêncio, até Marlene recomeçar.

– Eu também preciso dizer algo mais. Os senhores perceberam...

– Chega, Marlene. Cale-se por um momento. – Andreas intervém e volta-se para Gold. – Voltou a ver seu filho e depois...

– Vivemos um tempo curto e ele morreu em meus braços. – Gold aponta para o pirata. – Killian o conheceu bem e o amou muito também. Quando Neal morreu, nós dois sentimos a dor da perda de um filho. Quando pensei que não sentiria a felicidade de ter um filho nos braços, eu recebi minha pequena Maya.

Os homens se entreolham. Preocupam-se com o estado físico e mental do advogado.

– Maya veio frágil, delicada e não fosse a intervenção de um jovem surgido do nada, ela teria morrido. – Gold sorri abobalhado. – Esse jovem surgiu para invadir minha alma e fazer renascer um sentimento que estava adormecido. Esse jovem surgiu impiedoso e tão atrevido que se estabeleceu aqui dentro do meu coração.

Silêncio.

– Ele veio avassalador como aqueles gafanhotos nas plantações. Devorou cada gota de resistência que eu possuía e apossou-se de cada espaço dentro de minha alma. Todo o amor que eu sentia pelo meu filho Neal foi roubado por esse jovem.

Silêncio. Gold acaricia os cabelos e o rosto do filho adotivo. Andreas sorri gentilmente.

– O velhinho está delirante! O que você pôs na sopa dele? Cogumelo? – indaga Marlene.

– Shhhh! O crocodilo está nostálgico! – rebate Killian.

– De onde venho isso chama-se Delirium Tremens. Daqui a pouco ele vai olhar para mim e vai ver a Beyoncé! I’m single lady! I’m single lady” ! – a égua dá dois passos para um lado e depois mais dois para o outro, mas para com a dança quando Killian toca nela. Silencioso, ele pede para que se contenha.

Andreas ajuda Gold a levantar-se e ajeita suas roupas para melhorar seu aspecto.

– Senhores, preciso falar...

Killian gesticula para a égua, pedindo um prazo maior de silêncio.

– Senhores, algum de vocês percebeu que o teto da caverna está mais baixo do que estava ontem pela noite? – Marlene usa o tom alto e chama a atenção para si. – Lembram-se da boca imensa sem dentes?

Em questão de segundos, a caverna está vazia novamente. Acelerados, os homens retiram-se dali para não saberem o que poderia estar agendado para eles. Retomam sua jornada.

Na manhã seguinte avistam o rancho onde se cultivava a plantação de feijões mágicos. Pelo menos encontram o que restou do lugar. Tudo estava devastado, incendiado e vazio, num cenário deprimente e arrasador.

Calados, eles andam pelo que antes havia sido uma vasta plantação. A casa era apenas ruínas e o teto não existia mais. Pela primeira vez na viagem, Marlene não tinha nenhuma palavra a ser dita. Mas Cosme tinha o que falar:

– Nossa missão acaba aqui. Fomos contratados para trazê-los até o rancho e a missão foi cumprida.

– O rancho está destruído... – Killian tenta argumentar.

– Não fomos nós quem fizemos o mundo. São fatos da vida! Podem ser fatos ruins, mas são fatos da vida!

– Penso que devemos acompanhá-los até alguma aldeia mais próxima. Deixá-los no meio de nada não é ato humano. – Martino retruca. – Eu me proponho a fazer isso e creio que Andreas também não se furtará.

Cosme encara o amigo e não demonstra alteração alguma. Dá de ombros e vai sentar-se numa pedra, aguardando a decisão já conhecida, de Andreas.

– Onde estão Andreas e Marlene? – mancando e cansado, Gold vai sentar-se ao lado de Killian.

– Procurando encrencas, na certa. – Killian boceja e alonga-se. – Quero dormir!

Minutos depois, os desaparecidos surgem correndo e animados. Haviam encontrado algo e poderia ser promissor. Os outros homens ficam atentos.

– Encontramos um feijão! – grita Andreas ofegante e excitado. Para de correr repentinamente e é atropelado por Marlene. Cai aos pés do pirata, que o olha sem acreditar naquela cena. – Achamos um feijão!

Ele abre a mão e exibe um feijão. Mas o grão está murcho e seco. Todos se inclinam para ver o grão e afastam-se decepcionados, menos Killian que sorri vitorioso. Sua mente flutua.

– Um feijão queimado é de pouca ajuda.

– Mas há um modo de restaurarmos o poder desse feijão, Martinho.

– Desconheço, Capitão.

– Hum, temos de retornar para a Floresta Encantada e encontrar o lago aberto pela bruxa Cora, por onde ela e eu chegamos a Storybrooke pela primeira vez. A água tem o poder de restaurar esse grão.

Andreas levanta-se e entrega o feijão para Killian. Parecia um menininho que havia acabado de apanhar um filhote de ave caído do ninho. Exalava felicidade!