Gold usa parte da reserva de seus poderes e consegue transportar o grupo de volta para a Floresta Encantada, nas redondezas do vilarejo onde Cora e Killian viveram por vinte e oito anos antes da maldição ser quebrada.

– Estou esgotado, pirata. Não vou conseguir ficar sobre a égua. Vai ser um esforço muito grande.

– Você pode usar a última reserva de poderes e criar uma carroça de algum pedaço de madeira qualquer. – sugere Killian.

Com muita dificuldade e com gestos lentos, Gold utiliza-se de um toco de madeira e consegue criar uma carroça bastante rude, mas forte o suficiente para carregá-lo.

– E agora o digníssimo Capitão irá puxando, né? Pensa mesmo que eu irei permitir que acoplem uma geringonça no meu lombo para arrastar o velhinho moribundo? Sou uma égua de estirpe e não um jumento!

Com carinho e bastante sedutor, Andreas avizinha-se da égua e passa a acariciar sua longa crina negra. Fala baixinho:

– Faça de conta que você estará carregando muitos e muitos torrões de açúcar na carroça.

– Não.

– Faça de conta que estará carregando um fardo de capim fresco, colhido a pouco na beira de um lago.

– Não.

– Faça de conta que estará me carregando adormecido e...despido.

Gold é acomodado na carroça, aquecido e meia hora depois o caminho até o lago é retomado, para ser alcançado antes do anoitecer. E é o que acontece. Chegam ao entardecer à beirada do lago...seco.

– Falar em azar seria pouco para o nosso grupo! Posso afirmar que juntaram a merda das nereidas, dos ogros, das greias e dos trolls e jogaram sobre nossas cabeças. O que está acontecendo? – Marlene bufa e sacode-se tentando livrar-se da carroça. – Ah, eu estou cansada!

Passando a mão pelos cabelos, Killian busca paciência para transmitir aos demais. Afinal, ele era o Capitão e não poderia abandonar seus companheiros.

– Martino, poderia libertar Marlene e tirar os arreio e cela? Vou fazer o nosso jantar.

Já liberta, a égua afasta-se do grupo e vai buscar seu alimento na mata ao redor do lago. Por longos minutos fica ali esquecida de tudo e de todos. Alimenta-se e senta-se como se fosse um imenso cachorro escuro.

– Que linda!

A voz de uma mulher chega aos ouvidos de Marlene e ela se levanta pronta para atacar.

– Que animal lindo! Está perdida, querida? – a mulher aproxima-se e começa a acariciar o focinho do animal. – Quem perdeu você?

– Na verdade ninguém me perdeu. Eu me afastei do meu grupo porque estou com raiva!

Quando termina a frase, Marlene vê a mulher escondida atrás de uma árvore, a alguns metros de distância. Protegia-se do que via como desconhecido.

– Não vou fazer mal a você. – Marlene senta-se novamente. Observa a mulher caminhar lentamente para ela.

– O que fizeram a você?

– Foi uma punição por ser falastrona e desobediente. Quem é você?

– Meu nome é Serena e moro nas redondezas.

– Ah, isso é bom! Sabe o que aconteceu ao lago com águas restauradoras?

Serena vai aproximando-se e senta-se distante de Marlene.

– Com o passar do tempo, o lago foi secando. Algumas pessoas armazenaram a água que conseguiram pegar e venderam para mercenários e quem pagasse mais.

– É lamentável, mesmo! Preciso muito de um pouco desta água. – Marlene levanta-se novamente. – Será que algum aldeão ainda possui um pouco desta água?

Serena fica pensativa e depois de um tempo em silêncio, exibe um sorriso largo.

– O curandeiro da aldeia ainda a possui e a usa em momento de extrema necessidade para salvar alguma vida. É para isso que você quer?

– Poderia dizer a ele que pago bem por apenas um cálice da água?

Pouco mais de uma hora depois, Marlene retorna para o acampamento. Caminha lenta e aproximando-se de Andreas, inclina o focinho para perto do rosto dele.

– Posso falar com você a sós? – ela cochicha.

O homem a acompanha para um lado mais afastado dos demais companheiros.

– Eu encontrei alguém a pouco e recebi a informação de que poderemos obter um cálice da água para restaurar o grão ressequido.

– E como conseguiremos?

– O curandeiro da aldeia das redondezas, ainda guarda a água como remédio emergencial. Mas teremos de pagar bem por ela.

– Temos o ouro que pegamos do Jota Ruivo. – ele acaricia a longa crina do animal. – Marcou encontro? Onde e quando?

– Vou encontrar-me com a moça chamada Serena e ela me indicará o caminho. Obviamente que não irei sozinha. Faremos proteção da retaguarda.

Andreas concorda com um movimento de cabeça.

Naquela mesma noite, Andreas, Killian e Marlene apresentam-se no local combinado. Iriam negociar a aquisição da água para restauração do feijão seco. Não se mostram muito amistosos ao verem a chegada de uma jovem acompanhada por dois homens armados.

– Fico feliz que tenha aceitado nossa negociação. – Serena aproxima-se da égua e beija-lhe o focinho. Leva os olhos gulosos para Killian e Andreas. – Quem são seus amigos?

– Estes são Andreas e Killian!

O pirata empertiga-se e assume sua postura militar, pronto para uma ofensiva. Seu coração palpita acelerado, temendo ser reconhecido, não pela garota, mas pelos homens mais velhos. Olha rapidamente o rosto do filho e o encontra assumindo a mesma postura.

– O curandeiro está aguardando vocês. Poderiam vir conosco?

Silenciosos, o trio segue os anfitriões até o centro de uma aldeia barulhenta. São recebidos com olhares hostis e curiosos, além de ouvirem alguns comentários pouco elegantes.

Lá dentro da casa onde Cora e Killian haviam vivido, a maior casa da região, um homem vestindo roupas escuras os aguardava sentado numa poltrona que poderia ser chamada de trono. Era a poltrona preferida de Cora, quando queria sentir-se rainha outra vez.

– Sejam bem vindos! – ele se levanta e abre os braços, esperando algum movimento dos visitantes e isso não acontece. – Esta é minha casa e quero que se sintam à vontade! Estão com fome ou sede?

– Agradecemos a hospitalidade em “sua casa”, porém já estamos alimentados. – Killian toma a iniciativa como o comandante que era. Ouve um gemido risonho vindo do filho. – Serei direto como praxe. Precisamos de um cálice da água restauradora.

– E eu poderia saber por que querem? – o homem se aproxima de Marlene e acaricia seu focinho.

– Precisamos restaurar um feijão mágico para irmos embora deste reino.

O homem continua com seus carinhos atrevidos em Marlene, até ser interrompido por Andreas que afasta o animal das mãos do desconhecido. O curandeiro ri e olha o rapaz com curiosidade. Admira-o e volta seus olhar malicioso para Killian.

– Seu garoto é muito bonito, Capitão!

– Filho de uma mundana! Ele me reconheceu! – murmura Killian de si para si.

– Acha mesmo que seu rosto ficaria incólume em minha memória? Vivemos sob o seu domínio por vinte e oito anos. Eu poderia entregá-lo ao julgamento do povo.

O pirata sorri de forma irônica.

– Faça isso e perca todo o ouro que poderíamos dar você.

– Posso matá-los e roubar seu ouro.

– Sim. Pode matar a todos nós e roubar o pouco ouro que temos, mas jamais saberia a fonte dele.

Os olhos do curandeiro aumentam em seu tamanho. Atrevido, ele toca as pontas dos cabelos do filho do Capitão. Vê o rapaz retesar-se.

– Mas vamos negociar, Capitão. Ambos sairemos ganhando mais. – o curandeiro caminha até sua poltrona e senta-se ali. – Não sei o que houve para que retornasse a este reino e nem me interessa saber. Vou entregar-lhe um cálice da água e além do ouro, eu quero ainda mais.

Inquieto, o homem sai de onde estava e aproxima-se mais uma vez de Marlene. Tenta tocá-la, mas se afasta ao receber um ataque de mordida. Ele ri.

– O cálice com a água será pago com ouro e com este belo animal! – ele segura as rédeas de Marlene com rudeza, mas é violentamente afastado por um golpe de Andreas.

O homem cambaleia e antes que pudesse compor-se é agredido novamente. Os dois seguranças avançam para defender o curandeiro e são golpeados pela lâmina da espada do ladrão, provocando feridas superficiais. Andreas volta-se para o curandeiro e recomeça sua agressão sem dar chance para o homem defender-se. Golpeia várias vezes e somente para quando Killian o afasta usando a mesma violência.

– O que pensa que está fazendo, Andreas?

– Viemos negociar e deixamos claro que pagaríamos com ouro e não com vidas! – ele rosna para o curandeiro que se levanta cambaleante. – Caso me encontre outra vez, não se atreva a tentar tocar naqueles a quem amo. Ou ficarei irracional!

– Não terão a água, desgraçados!

Andreas avança novamente contra o curandeiro, mas encontra o corpo do pai como impedimento.

– Não ficaremos com a água, mas lhe dou minha palavra de ladrão, que você também não ficará.

Tudo estava silencioso naquela madrugada. O frio mostrava-se intenso e impiedoso. Todos os humanos e animais da aldeia estavam protegidos e aquecidos, exceto duas figuras escuras que se atreviam a enfrentar o frio noturno para conseguirem infringir leis locais.

Dois ratos escorregadios e atentos, esgueirando-se pelas sombras até encontrarem o que alimentaria sua sede de pilhagem. Camuflam-se pelos becos até identificarem uma pequena construção em pedra, com a entrada lacrada e sendo vigiada por dois infelizes quase congelados.

Empertigando-se, Andreas ajeita o capuz sobre a cabeça e caminha suave até os dois vigilantes. Para diante dos dois congelados e sorri.

– Serviço ingrato!

Os dois homens tremiam. Mesmo assim empunham suas espadas e ameaçam o invasor. Rasteiro e rápido, Andreas golpeia os homens e não cessa enquanto não os vê inconsciente.

O lacre da porta é arrebentado e Andreas entra no local iluminado por algumas tochas fracas. Logo à vista, está a entrada de um pequeno buraco redondo no chão, protegido por um muro baixo circular. O curandeiro havia criado um local para armazenar a água restauradora.

– Eu sabia que você viria em busca da água, criança linda. – a voz do curandeiro é ouvida e ele sai do meio da camuflagem, acompanhado por Serena que empunhava arco e flecha.

– E eu deduzi que o encontraria à minha espera. – Andreas dá um passo para o lado e sorri.

Serena grita e leva a mão à coxa, percebendo que havia sido alvejada por um dardo. Arranca-o da carne e dá alguns passos para trás. De trás de Andreas, surge Cosme empunhando uma zarabatana. O homenzinho sorri.

O curandeiro espalma as mãos ao lado da cabeça mostrando-se servil. Estava calmo demais e sequer se altera ao ver Serena cair desacordada. Mesmo quando outros homens surgem do meio da escuridão, o homem mostra-se inalterado.

– Quero o filho do Capitão, com vida. – passa a língua nos dentes grandes e emite um som semelhante a um rosnado.

Enojado e enfurecido por deparar-se com um canibal, Andreas não se contém e ataca. Evoca todas as forças que conhece dentro de sua alma e avança. Cosme sente acuado e age como qualquer ratazana acuda agiria: ergue os braços como uma armadeira e ataca.