O filho do Pirata - Fase Dois
12 Alternativa
Pela manhã, um tumulto é iniciado quando as pessoas percebem o chão do pátio central coberto por moedas de ouro. Era um presente dos forasteiros. Isso distrairia a atenção para o roubo ocorrido e atrapalharia a busca.
– Por que não roubou um pouco mais de água, ladrão? – rosna Killian. – Já que se atreveu a agir sem nós, poderia ter trazido maior quantidade.
Andreas empurra o peito do pirata e avança como um gato feroz.
– Você quer restaurar o feijão ou tomar banho, pirata?
Os gemidos altos de Gold chama a atenção dos dois homens. O advogado estava cada vez mais fraco e não resistiria por muito mais tempo.
– Vamos tentar a restauração. – Killian afasta-se com o odre nas mãos.
Uma hora depois, o grupo ainda oberva o feijão queimado dentro da água. Nada havia acontecido e mais uma vez a frustração invadia suas almas.
– Da outra vez, o feijão murcho do gigante foi restaurado.
– Este estava queimado, Capitão. Sementes queimadas não germinam. – murmura Martino tocando o braço do pirata.
– Não há mais vida dentro dela, por isso. – lamenta-se Killian afastando-se frustrado. – Mas talvez funcione em alguma coisa feia e com vida.
Todos olham para o pirata e o encontram em pé ao lado de Gold.
– Andreas, ajude-me aqui! – ele se ajoelha rapidamente e recebe a ajuda do filho. Ambos acomodam Gold sentado e o obrigam a beber o restante da água.
Dois pratos de ensopado comidos, muita hidratação e Gold já se sentia apto para continuar a jornada sem ser amparado. Continuava sem seus poderes, mas estava vivo e poderia curtir a presença de seu filho adotivo, mesmo que o jovem estivesse amnésico. Iria encontrar uma forma de saírem dali.
– Precisamos ir para o litoral e encontrar algum navio. Eu sugiro que encontremos o navio do Barba Negra. Ele tem muitos conhecimentos e talvez nos indique um nome para conseguirmos outro feijão ou outro instrumento que abra o portal. – Andreas continua dividindo o restante do ouro em dois odres.
– Barba Negra não gosta de mim e não é tão bem informado, assim.
– Barba Negra é como eu: um porco que chafurda e alimenta-se de ouro. Por ouro ele conseguirá a informação. Este ouro é suficiente para pagar Cosme e Martino e ainda sobrará para negociarmos com o Barba.
Cosme e Martino entreolham-se.
– Acha que iremos retornar? – indaga o homem grisalho. – E terminar essa aventura como covardes? Vamos todos juntos até a abertura do portal!
– Bom, companheiros, então pezinhos na estrada! – a ordem é dada pelo Capitão da equipe.
E todos seguem viagem. Durante dias, caminham pelas estradas e matas, atalhos até conseguirem avistar ao longe, as luzes de uma vila próxima ao litoral. Mais adiante, avistam os barcos e os navios típicos daquele reino.
Killian sonha acordado, desejando o reencontro com sua Jolly Rogers. Um dia, ele sabia, a teria de volta e conseguiria ver Andreas a comandando.
– Precisamos de rum e alimento. Um grupo irá descer para a cidade. – a ordem estava dada e é obedecida.
Killian, Martino e Marlene chegam ao vilarejo logo no início da noite. Era mais fácil a camuflagem e as pessoas ficavam com a língua mais solta, devido ao cansaço do trabalho do dia. Queria livrar-se logo das perguntas, sobretudo, de forasteiros.
O som conhecido vindo de uma taverna atrai a atenção do velho pirata. Nostálgico, ele não se sente obrigado a resistir e vai até o estabelecimento. Lá dentro, a mesma bagunça de qualquer outra taverna: risos, disputa de atenção, piadas, palavrões e bebidas sendo ingeridas aos litros. Por que não se divertir um pouco, agora que as preocupações estavam menores e nenhum dos companheiros corria risco de morte.
Não havia como passar despercebido naquele inferninho barulhento, entrando acompanhado por um belo animal de crina longa e porte militar. As vozes cessam e os olhares fixam-se nos recém-chegados. Killian acha graça.
– Podemos entrar os três?
– O cavalo também bebe? – alguém pergunta e provoca gargalhada geral.
Marlene caminha firme até o piadista e bate o casco dianteiro contra o banco onde o fulano estava sentado. Ele se estabaca no chão.
– O único cavalo que bebe, acabou de ceder a mesa para uma égua que não bebe.
O silêncio é total. Um espanto entre os beberrões, funcionárias da taverna e prostitutas que buscavam algum lucro naquela confusão. Marlene sapateia no soalho de pedra e provoca o esvaziamento da mesa. Ela sacode a crina.
– Vocês foram gentis em ceder a mesa para meus companheiros! – ela se senta no chão como um cachorro. – Eles querem rum e eu quero água!
Como se tivessem ensaiado, todos começam a gargalhar e rodeiam o local onde o animal estava. Killian e Martino acomodam-se e são servidos conforme os pedidos.
Todos queriam ouvir Marlene falar e aos poucos o ambiente torna-se divertido. Em meio a tantas pessoas, alguém mantém os olhos fixos no homem com um gancho no lugar da mão e o receio impedia o reconhecimento público. Aquele dali era conhecido!
Lá pelas tantas, o desejo de sanar a curiosidade ou causar alguma celeuma é maior que a racionalidade.
– Você é o Capitão Gancho!
Uma nova onda de gargalhada invade a taverna e depois dá lugar a um silêncio sepulcral.
– Sim. Sou Killian Jones, mas a vida tornou-me Capitão Gancho. E aqui estou, perdido e bem acompanhado. – ele ergue uma caneca com cerveja. Todos brindam.
– O senhor quer jogar? – o homem atreve-se e senta-se à mesa. – Eu tenho ouro para apostar!
Martino sorri amplamente e exibe um olhar suplicante ao Capitão. O pirata aceita a brincadeira. Por que não? Os bêbados e jogadores sempre têm muitas informações.
Na manhã seguinte, a água fria bate no focinho de Marlene, enquanto Andreas esfregava um pano embebido com ervas para melhorar seu estado atual.
– Você é um irresponsável, Martino! Como permitiu que ela bebesse? – ele banha o animal que pouco se importa com a temperatura da água. – Já fiz muitas loucuras, mas permitir que um animal beba cerveja, é cruel demais!
– Ela não bebeu nada, além de água! – defende-se o homem penteando seus cabelos longos e grisalhos. – Ela ficou agitada e trôpega depois de comer beterraba!
Andreas para o que está fazendo e encara o companheiro. Mostra-se incrédulo.
– Enquanto jogávamos, ela comeu todo o estoque de beterraba que havia na taverna! Tivemos de pagar por tudo! Agora, veja o resultado!
Killian observava sorrindo a pequena discussão. Ainda não havia compartilhado a boa nova. Preferira ficar observando o encanto que era o seu menino grande. Como adoraria ter participado da criação dele! O menino seria um pirata? Um soldado? Ou mesmo um ladrão? O certo é que não seria um jovem comum, sereno e que procuraria uma jovem tímida e donzela para casar-se e criar inúmeros filhos. Não seria diferente do que era.
– Algum sinal de vida inteligente aí dentro?
O pirata salta para fora do devaneio e encara o filho. Percebe a aproximação de Gold e de Cosme, interessados na discussão e final dela.
– Eu estava imaginando se tivesse a oportunidade de participar da criação de meu filho...
– Certo, muito romântico e familiar! Mas por favor, não cometa essa atrocidade outra vez, ou ficarei irracional!
– Irá perdoar a mim e Martino, filho, quando ouvir a nossa descoberta. – o pirata mantém seu sorriso cínico. — Como sei que não irá perguntar o que descobri, vou falar. Há um espelho que pode abrir o portal. Ele tem o mesmo poder que o feijão e o chapéu do maluco.
O silêncio é geral. Aos poucos as expressões vão suavizando e todos mostram-se mais animados.
– Essa é a notícia boa. A notícia ruim é que o espelho está numa aldeia abandonada e assombrada. Mas quando se referem a assombro, é um assombro, literalmente, assombroso.
Os homens se entreolham e voltam a encarar o pirata. A notícia não era muito animadora.
– Mas o que seria um assombro literalmente assombroso? – Cosme pergunta temeroso.
Inspirando profundamente e espremendo os lábios, Killian busca alguma definição que pudesse causar menos impacto, sobretudo, em Cosme que já mostrava sinais de mudança em seu rosto.
– Quando vemos o inimigo, atacamos; quando ouvimos o inimigo, respondemos; porém, quando apenas o sentimos por perto, a única arma é o próprio sentimento.
Silêncio geral.
– Meus sentimentos serão meus inimigos? – Andreas arrisca a pergunta, já imaginando o naipe de resposta vindo de Marlene. Mas ela está calada.
– Nessa aldeia sim. Os moradores que não fugiram, morreram.
Os ouvintes entreolham-se. Desta vez estavam temerosos.
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