– Não aprecio o enfrentamento com os trolls. – Gold movimenta os dedos das mãos, sentindo-os adormecerem. – Caso eu estivesse mais forte...

Killian toca o ombro do homem, consolando-o ou pedindo para evitar comentários. Gold cala-se e continua andando apoiado num cajado.

– Segundo ouvi, os trolls são fortes, mas não são inteligentes. Talvez possamos blefar ou usarmos as habilidades de guerreira de Marlene. – Andreas sorri.

– Minhas habilidades de guerreira estão à disposição do nosso grupo. Já as suas habilidades intelectuais... ops,você é analfabeto, certo?

Andreas a encara indignado e não responde. Mantém sua atenção na ponte suja e empoeirada.

– Vamos juntar as letrinhas, crianças! A letra B com a letra A, formam a sílaba BA! Com a sílaba BA existem palavras como banana, barata e barbudo. Já a palavra “estúpido”, começa com a letra E! – fala Marlene mudando o tom de voz.

Cosme segura o riso e dá uma rápida olhada para Martino, que ri também.

– Agora, vamos a um ditado! Escrevam: os Trolls irão dar um verdadeiro cacete no estúpido Andreas e vão atirá-lo no rio caudaloso embaixo da ponte...- ela para repentinamente e levanta as orelhas.

Lentos, sujos e maltrapilhos, os grandes Trolls começam a subir pelas muretas da ponte e fazem uma barreira para impedir a passagem do grupo. Vinham empunhando machado e maças, rosnando ameaçadores.

– Alto lá, viajantes! Essa ponte é nossa e exigimos pagamento para que continuem!

– Cobram pedágio aqui também? – pergunta Killian sorrindo e provocando uma assembleia entre os monstros.

Um dos monstros bate com a maça na mureta da ponte e rosna. Caminha para Killian e o vê empunhar a espada. Para e rosna mais uma vez.

– Vai lutar, peçonhento? – pergunta o troll.

– Pagaremos o pedágio, caso me faça a pergunta. – diz o pirata sorrindo e mantendo a espada apontada para o monstro.

– Qual pergunta?

Marlene começa a gargalhar e direciona seus passos para o grupo de monstros.

– Você já fez a pergunta, plantinha desinformada! – ela acelera o galope e ergue-se nas patas dianteiras, começando logo em seguida, a dar coices em todas as direções.

Isso é o sinal para que todos os homens partam para o confronto com os monstros peludos e mal cheirosos. Gold não se esquiva da disputa e com um gesto, consegue atirar um dos trolls na água lá embaixo. Em seguida, ele cai apoiado contra a mureta da ponte.

Quando a disputa acaba, os trolls haviam descido pelas laterais da ponte numa fuga alucinada e seria rápida, caso fossem mais ágeis. Os humanos e Marlene comemoram a pequena batalha.

– O troll fez qual pergunta? – Martino pergunta para Andreas.

– Não sei nem porque eu entrei na briga! – ele cambaleia ao receber um empurrão de Marlene, que passa e bate nele seu peito.

– A emoção cozinhou os grãos de amendoim dentro dessa cabecinha linda!

Os dois homens entreolham-se. Não há resposta.

Passam pela ponte e atingem outra pequena trilha na mata. Cosme aponta uma gruta mais adiante e chama a atenção dos companheiros.

– Senhores, estamos com o cheiro dos trolls em nossas roupas e pele. Ali, naquela caverna há uma pequena piscina terma e poderemos nos banhar nela. Andreas irá conseguir ervas aromatizantes para passarmos na pele e nas roupas depois de secas.

– A temperatura está baixa e demorará a secagem. – Killian cheira a manga da jaqueta e faz uma careta ao perceber o cheiro forte.

– Junto à piscina há uma fenda na parede que exala um vente quente e costumamos usar para secar os tecidos. O cheiro dos Trolls precisa ser tirado ou seremos alvos fáceis para outras criaturas da floresta. – o homenzinho com cara de rato aponta para a entrada da gruta. Volta-se para Marlene. – Em quem você confia para ser banhada?

A égua bufa e bate uma das patas dianteira no chão.

– Prefiro que Andreas faça isso. Ele já me banhou outras vezes.

Cosme olha na direção por onde Andreas havia ido e sente-se temeroso, aliviado pela distância e pelo fato improvável de ter ouvido a fala da égua. Olha depois para Gold.

– O senhor quer a minha ajuda para o banho?

– Não. Prefiro que o pirata faça isso. Somos mais íntimos.

Killian não segura a gargalhada.

– Pois eu prefiro voltar e brincar de pera, uva ou maçã com os trolls!

Depois do banho no animal, Andreas esmaga ervas e massageia o belíssimo pelo negro com o sumo conseguido. Desembaraça a longa crina e o rabo, tomando muito cuidado para não efetuar movimentos bruscos e causar desconforto. Enquanto faz o serviço, ele cantarola baixinho.

Marlene olha-o com o mais absoluto amor e admiração, mas seu coração chorava pela distância existente naquele momento. Ela soluça e chama a atenção dele.

– Assustei você?

– Não. Foi apenas um soluço. – ela balança a crina.

– Eu já desejei aprender, mas não encontro alguém que me ensine nada além dos cálculos e da assinatura do meu nome. Nem minha mãe teve tempo para isso. Quis que eu me aperfeiçoasse em luta corporal e com armas, escaladas e demais habilidades que os ladrões devem ter.

Marlene olha-o constrangida.

– Foi apenas uma piada. Pensei que...

– Não sei ler e adoraria. Vivi dois meses num navio e a proprietária me apresentou algumas letras...depois não sei se continuei treinando. – ele passa mais sumo na crina longa do animal. – Quando os meus amigos reencontraram-me caído e desacordado, eu carregava um pequeno livro na roupa que usava. Olho para ele todos os dias e identifico as letras, mas não consigo juntá-las e formar as sílabas, como você disse.

Marlene movimenta-se e enfrenta o jovem. Mostra-se serena.

– Foi uma brincadeira estúpida e grosseira. Peço desculpas.

– Você não é a primeira e nem será a última a chamar-me de ignorante. Não rebato, porque não tenho argumentos.

O animal sacode a crina e direciona-se para a fenda de onde saía o vento quente. Fica ali silenciosa, recebendo o calor em seu corpo gigantesco e musculoso. Ouve os sons típicos e volta sua atenção para ver Andreas despindo-se para banhar-se.

Ela se esquece de respirar. Como era lindo aquele homem! Seus contornos, seus músculos definidos naquele corpo esguio e alto, seus belos pés humanos e seus ombros fortes, enfeitados pelos cabelos escuros que caiam como uma cascata por eles. Em poucos dias iriam casar-se e criar oficialmente uma família junto ao pequeno Petrus, mas aquele acidente causado pela infantilidade dos dois pais de Andreas, havia criado aquela situação horrorosa e triste. Quando retornassem para casa, cada um deles receberia um coice reforçado e caprichado, caso ela ainda fosse um animal.