Retomam sua caminhada nas primeiras horas da manhã, depois de alimentarem-se. Teriam de repor o tempo perdido com a luta contra os trolls e da limpeza do corpo e das roupas. Não poderiam parar por qualquer causa e por isso o advogado tinha sido obrigado a montar a égua para serem mais rápidos.
Uma parada é feita apenas para hidratação e descanso do animal. Andreas e Gold afastam-se do grupo e vão sentar-se à sombra de uma árvore.
– Você tem ideia do que houve às suas memórias?
– Não. Eu devo ter sido acertado por algum golpe em uma luta...- Andreas risca seu nome na areia do chão, usando um graveto.
– Qual é a última coisa de que se lembra?
– Evoquei memória e recordo-me de minha mãe desenhando algo em meu braço...uma espécie de código para ser entregue como mensagem secreta. É típico dela. – Andreas fixa os olhos num ponto qualquer adiante. – Tenho flashes de um confronto com ciganos e algo insiste em vir em meus sonhos: vejo minhas mãos presas e enxergo o mundo através de grades.
Gold arqueia o sobrolho. Sabia que eram as lembranças do rapto sofrido pelos mercadores de escravos.
– Você conheceu seu pai?
Uma máscara de desentendimento surge no rosto bonito de Andreas. Ele estreita as sobrancelhas. Ia responder quando um som atrai mais sua atenção. Levanta-se vai olhar para uma clareira, logo abaixo de onde estavam.
– O que foi? – Gold aproxima-se com dificuldade e olha na direção indicada.
– É a equipe de Jota Ruivo! O mercador de escravos!
– Que azar! – rosna o homem mais velho.
– Que sorte, você quis dizer! – o jovem segura o braço do advogado e praticamente o arrasta dali, retornando para junto do grupo.
Alguns minutos depois, Jota Ruivo levanta os olhos ao identificar o som de cascos de cavalo aproximando-se de seu acampamento. Alarga um sorriso e exibe seus dentes grandes e amarelos ao ver a figura imponente de Andreas sobre o mais belo animal já encontrado. Aquele par iria fazê-lo rico novamente.
– Ora, quem vejo aqui! Andreas Verbenas, consorte da Dama Triste! O que aconteceu? Ela encontrou alguém mais jovem ou você a matou? – ele fala cuspindo os pedaços de ovos mastigados.
– Nem uma situação e nem outra. Vim porque estava com saudades de você!
O ruivo gargalha. Aponta o rapaz para seus dois empregados.
– Vejam quem voltou para nós!
– Poderíamos fazer um acordo, Jota Ruivo. – Andreas apeia do animal. – Que tal se formássemos uma parceria?
Os três mercadores entreolham-se e gargalham. Aquilo cheirava a ouro!
– O que sugere, menino?
– Você me leva como mercadoria para alguém muito rico e recebe o pagamento. Como bom ladrão que sou, abro as portas para que você e seus homens entrem na casa. Roubamos o que pudermos carregar e continuamos aplicando um golpe simples e rentável. Certamente dividiremos o lucro.
O mercador gargalha.
– Eu tenho ideia mais interessante: prendo você, vendo pelo seu peso em ouro, depois invado a casa e o resgato. Mantenho você como minha joia rara e fico com o lucro! Essa ideia é melhor!
– Bom, eu tentei negociar com você.
Jota Ruivo levanta-se e sacode as migalhas de sua roupa suja. Cambaleia e consegue ficar em pé. Aponta a faca usada para cortar carne, na direção de Andreas.
– Eu não sei como fez para escapar da Dama Triste e não me interessa! Vou pegar você e vender de novo!
– Ah, eu penso que não! – Marlene raspa o casco dianteiro no chão e depois solta bufadas pelo nariz.
O mercador arregala os olhos e rapidamente apanha sua espada. Seus empregados fazem o mesmo, mas estacam-se em seguida, ao verem surgir mais homens armados que certamente estavam em companhia de Andreas.
Furioso e histérico, Jota Ruivo reconhece a figura imponente do Capitão Gancho. Olha imediatamente para Andreas e vê o mesmo olhar e o mesmo sorriso. Rosna alto.
– Ataquem! Mas o Capitão Gancho é meu! – ele explode e parta para ofensiva.
Chocado, Andreas volta sua atenção para Killian e abaixa a guarda. É atacado por um dos mercadores, mas o homem é atirado contra uma árvore e cai zonzo com o impacto. Era a intervenção fraca de Gold na defesa do filho adotivo.
Marlene diverte-se com aquela situação e desfere os mais acrobáticos coices em várias direções, atingindo Cosme por engano. Estava aprimorando-se naquilo!
Um tempo após o confronto...
– Seus cavalos foram libertados e acredito que terão um pouco de trabalho para resgatá-los. – Killian empurra o pé de Jota Ruivo. – Eu deixei cantis com água e algum pão, mas terão de ser rápidos e livrarem-se das cordas, antes que seu mantimento seja alimento de algum animal. Quanto ao seu ouro, vamos levar um pouco e o restante deixaremos na praia para quem quiser encontrar.
– Maldito pirata peçonhento! Foi você quem resgatou seu filho da prisão de Minerva, não foi? Como conseguiu as nossas pistas? Solte-me e vamos acertar nossas arestas somente os dois!
– Noutra ocasião, eu aceitaria o seu desafio, porém agora tenho assuntos mais importantes para resolver.
O pirata busca encontrar o filho e o vê parado ao lado de uma árvore, prestando atenção na conversa. Tinha o rosto inexpressivo.
– Vamos retomar nosso trajeto. Já perdemos tempo demais. – ele apoia Gold e o auxilia a subir em Marlene. – Não poderemos mais desperdiçar nossas energias.
Após uma hora de caminhada, Andreas não se contém. Aproxima-se de Killian e emparelha-se, caminhando ao seu lado.
– Ele o chamou de Capitão Gancho e Pirata peçonhento.
– Prefiro Capitão. – Killian mantém os olhos fixos na estrada.
Num gesto bruto, Andreas o detém pelo braço e obriga a parar.
– Por que não me contou desde que chegou à aldeia? Veio atrás de mim apenas para afastar-me de meus amigos! Com qual intuito?
Killian apoia as mãos na cintura e encara o filho. Ambos olham-se fixamente.
– Abrimos o portal acidentalmente e com isso provocamos essa situação tensa. Tudo o que queremos é encontrar uma maneira de retornar ao nosso reino. Gold está fraco e precisa de atendimento especial.
– Eu me recordo de receber a ordem de minha mãe: encontre seu pai e traga um mapa com coordenadas da Terra do Nunca...isso aconteceu?
– Estou aqui, não estou? – Killian recomeça a sua caminhada.
– Você é Killian Jones...meu pai Capitão Gancho... não é James!
O pirata apenas maneia afirmativamente a cabeça e não fala nada. É seguido por Andreas.
– Cosme sabia de você?
A resposta vem com um movimento desdenhoso dos ombros.
– Você não se importa?
Parando e virando-se para o filho, Killian toma-o de assalto com uma expressão zangada.
– Amei Elisa e sempre vou amá-la. É tudo o que precisamos saber por enquanto. Agora, cumpra a missão para a qual foi contratado, Colombo!
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