O filho do Pirata - Fase Dois
8 Greias
– Não gosto dessas bandas. Essa neblina toda provoca uma sensação triste em minha alma. – diz Cosme escorregando outra vez numa pedra. É seguro por Killian. – Não entendo porque Andreas sempre insistiu em caminhar por estas terras.
– Estaremos mais seguros por aqui. – responde Martino. – Principalmente, com a presença constante dos cavaleiros da Senhora de Ferro. Sabe que eles estão ávidos por novos escravos. Além disso, Andreas não está em plena forma como Colombo.
– Por que os camponeses não aceitam treinamento para lidar com esses cavaleiros? – Marlene pergunta.
– Elisa Verbenas criou uma política de assistencialismo com os aldeões e eles se acostumaram a ser defendidos. Colombo sempre liderou seus homens em pilhagens, sustento e defesa das aldeias. Acabamos por criar pessoas acostumadas a receber. São muitas mãos abertas para pedir e poucas mãos fechadas para dar algo. – Martino auxilia Gold a sentar-se numa pedra e entrega um dos odres com água.
Killian olha em volta e estreita os olhos.
– Onde estamos exatamente?
– Na fazenda das Greias, amigas de Andreas.
Os olhos pesados de Killian fixam-se em Cosme.
– E por que paramos aqui? Para que precisamos delas?
– Precisamos de alimento e roupas mais quentes. Daqui para frente, a temperatura costuma cair muito. – o homenzinho com cara de rato indica o pequeno aclive por onde teriam de ir.
O grupo aproxima-se da entrada da casa, um arco feito em pedras cuidadosamente polidas. Passa sob o arco e dirigem-se a uma imensa varanda de uma casa também confeccionada em pedras.
Andreas age com tamanha familiaridade e arrasta a porta, abrindo-a para que todos passem para dentro da casa. O vento frio começava a arranhar as peles pouco protegidas.
Lá dentro do salão iluminado por lamparinas, o grupo é convidado a acomodar-se. Andreas faz as vezes de cicerone. Ainda não havia conversado com seus companheiros e tentava digerir a verdade sobre estar ao lado do pai e não o ter reconhecido.
De repente, o som de pessoas aproximando-se do grupo é ouvido. Eram três mulheres que vinham caminhando apoiadas uma na outra. Mesmo com a semiescuridão, os visitantes veem que elas não tinham os olhos. Seus rostos eram lisos.
Cosme abaixa a cabeça e prefere não continuar olhando para aquelas mulheres. Martino faz o mesmo e maneia negativamente a cabeça.
– Quem está aí? – pergunta uma delas com sua voz rouca.
– Sou eu, Andreas Verbenas, e trouxe alguns amigos!
– Prove que você é mesmo o nosso Andreas! Pegue o nosso olho na prateleira onde está sempre guardado!
– Eu não vou pegar aquela coisa nojenta e gosmenta!
As três mulheres gargalham freneticamente e abrem seus braços na direção da voz do rapaz.
– É você mesmo, menino nosso! Venha nos dar um abraço!
Ele sorri e caminha até as três mulheres. É um abraço coletivo.
– Meu amor! Queremos que receba nossos sentimentos por Elisa! – diz uma delas. – Queremos que saiba que terá três mães em nossas pessoas! Nossos braços e nosso amor sempre serão seus! Nossos pêsames profundos!
Andreas desvencilha-se delicadamente e as olha como se elas pudessem ver sua expressão.
– Por que pêsames? Minha mãe está na Terra do Nunca! Ela não está morta!
As irmãs movem seus rostos como se estivessem entreolhando-se. Uma delas caminha até a prateleira citada anteriormente e apanha o único olho guardado numa caixa. Encosta-o em sua testa e fita Andreas.
– Pela sua expressão, falamos demais.
Andreas vira-se para Cosme e Martino. Fala:
– Qual é a outra surpresa além de ser informado que o meu pai estava comigo o tempo todo?
Cosme mantém a cabeça baixa e Martino o imita. O rapaz encara Killian.
– Vocês sabiam da morte de minha mãe?
– Sem suas memórias, seria imprudente contar a verdade. – Killian mostra-se inalterado, mas tudo o que desejava era tomar seu filho nos braços e cobri-lo de beijos.
Outra mulher apanha o olho e visualiza os visitantes. Alarga um sorriso banguela.
– Ora, vejam só! Quantas pessoas bonitas! O velho Cosme e Martino! Que criatura linda! – ela se aproxima de Marlene. – Por que fizeram isso com você?
A terceira mulher tira o olho da mão da irmã e fita os outros dois visitantes. Ela emite um grito agudo e rouco.
– O Capitão Gancho e o Sombrio dentro de nossa casa!!! O que está acontecendo aqui?
Gold gesticula mandando a mulher calar-se. Estava sentindo-se fraco, dolorido e muito cansado. Qualquer som incomodava assustadoramente.
– Ele não está se sentindo bem. – Andreas aproxima-se do homem e acalma as três irmãs. – Estou ajudando-os a retornar ao seu reino, mas não conseguiremos seguir sem mantimentos e roupas quentes. Poderiam nos ajudar?
As três irmãs gargalham e continuam disputando o olho para admirarem a beleza de Killian. Riem e tocam o corpo do homem, que tenta desvencilhar-se dos ataques.
Marlene avança e bate várias vezes os cascos no chão, amedrontando as irmãs.
– Deixem o Capitão em paz! Ele não será rude, mas eu poderei ser!
As irmãs afastam-se do Capitão e vão alucinadas na direção de Andreas, abraçando o rapaz como se ele fosse apenas um bebê.
– Não fique triste, menino amado! Nós seremos suas mães, agora!
– Aqueceremos e alimentaremos você, além de cantarmos para que durma! – diz outra gargalhando.
Andreas olha para seus companheiros e percebe os olhares de risonhos e debochados. Cosme gesticula para que o rapaz torne-se mais receptivo e aproxime-se das três irmãs.
Horas mais tarde, depois de ser bem alimentado com o ensopado encorpado feito pelas Greias, o grupo recebe os mantimentos necessários para a continuidade da jornada. Recebiam também capas, casacos, gorros e luvas para enfrentarem as intempéries climáticas.
– Não temos botas e calças, mas costumamos tecer cobertores e mantos para aquecer os viajantes que passam por aqui. – uma das irmãs exibe seu sorriso banguela.
– Nós agradecemos a boa vontade de vocês. – Andreas toca o ombro da mulher e ela sorri maliciosa. Ela o fareja.
– Vamos dançar antes que vocês durmam. – a mulher conhecia cada um dos detalhes daquela casa e mesmo cega, mostrava intimidade com o lugar.
Andreas a segue e gesticula para que Killian o acompanhasse. O pirata acha graça e decide participar do convite. Marlene bate os cascos no soalho e vai animadamente mostrar seus dotes de dançarina.
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