O filho do Pirata - Fase Dois
2 Lembranças
Andreas abre os olhos e pisca várias vezes para espantar o embaçamento da visão. Sua cabeça dói e ele sequer tenta levantar-se.
– Cosme, ele acordou! – a voz de uma mulher chega estrondosa aos seus ouvidos, embora ela tivesse falado baixo.
Um homem pequeno, moreno e com fisionomia de um rato aproxima-se da cama e senta-se ali. Beija a testa de Andreas e acaricia seus cabelos.
– Você dormiu por dois dias longos.
Andreas sorri sonolento. Poderia dormir ainda mais e sem esforço algum.
– Como se sente?
– Sede...
Saciado, Andreas é acomodado sentado na cama. Reconhece o seu quarto e o maravilhoso cheiro cítrico que ele sempre teve.
– Onde está minha mãe?
Cosme e a mulher entreolham-se por segundos.
– O que foi? Onde está minha mãe?
– Ah...sua mãe...ela...ela... – Cosme passa a mão pelo rosto e encara o rapaz. – Sua mãe conseguiu as coordenadas e partiu para a Terra do Nunca.
Andreas sobressalta-se com a informação. Olha para Cosme e depois para a mulher. Retorna os olhos para o amigo.
– Ela me mandou encontrar meu pai e trazer essas coordenadas. Não me lembro do que me aconteceu nesse ínterim...
– Não se lembra? Você ficou longe por mais de um ano e não se lembra do que houve?
Os olhos de Andreas tornam-se maiores e começam a brilhar pelas lágrimas. Desde menino, embora fosse vivaz e forte, permitia ser demasiado emotivo. Antes que ele começasse a chorar, Cosme prende seu rosto entre suas mãos pequenas e beija-lha a testa e os cílios longos, como sempre fazia para tranquilizá-lo.
– Encontramos você desmaiado próximo a um barranco. Não se recorda de como foi parar ali?
Fechando os olhos, Andreas acomoda-se sobre o colchão e adormece novamente.
– Informe aos aldeões que Elisa está na Terra do Nunca. Quando Andreas estiver adaptado, contarei a verdade a ele. Não sabemos o que houve com o menino e como estão as memórias dele. Temos de ter cautela.
Os dias continuam caminhando...
No castelo, Gold é tratado com cuidado por Killian. De vez em quando os dois se estranhavam e discutiam sobre qualquer assunto, porém, buscavam o controle e a paz. Precisavam estar juntos para encontrarem o filho perdido.
– Quando vocês dois quiserem, poderemos partir. – Gold não consegue mais terminar a sopa que o pirata havia feito depois da caça. Estava saborosa e havia se fartado.
– Poderemos partir amanhã cedo. – sugere Marlene.
Gold leva os olhos atentos para o pirata. Killian estava olhando pela janela e mostrava-se pensativo.
– O que há, pirata?
Os olhos grandes e pesados de Killian voltam-se para o rosto de Gold e provocam um profundo saudosismo. Era como se estivesse vendo o olhar de Andreas naquele rosto barbado e hostil.
– Observando os mapas, calculei que teremos de caminhar vários dias até o reino de Pedras Desenhadas. Será que você ainda tem uma reserva de força para transportar os três até lá? Economizaríamos muito tempo.
Gold sorri sem exibir os dentes.
– Estou com alguma reserva e posso realizar truques amadores como transportar os três até onde está meu filho. Vou procurar uma bola de cristal e conseguir mais informações sobre Andreas.
Momentos depois, Gold, Killian e Marlene sorriam abobalhados ao verem a imagem de Andreas sobre um cavalo, treinando montaria num pátio de chão de terra. O jovem estava saudável e galopava com elegância e domínio sobre o animal.
– Ele é tão lindo! – diz Marlene.
– Sim! – concordam os dois pais.
– Mas ele parece estar feliz demais para quem se separou da família.
A observação de Marlene provoca mal estar na alma dos dois homens. Não haviam reparado deste detalhe e precisaram ser despertos pelo comentário da jovem.
– Ele deveria estar preocupado ou assustado...- completa Killian. – Mas estaria preocupado e assustado, caso ele se lembrasse de nós. Não existimos para ele!
Os três entreolham-se desesperados. Gold afasta-se e espreme a mão entre a cabeça.
– A minha manipulação no acordo de transformação de Marlene trouxe efeito colateral! O que eu fiz? – ele se volta para Killian esperando algum ataque por parte do pirata.
– Andreas está vivo e saudável. Tudo o que temos de fazer é começar a aproximação dele e verificar a real condição. Não sabemos se ele está sem memória ou se está fingindo. – Killian cruza os braços diante do peito. Estava sem o gancho naquela noite.
– Você está tranquilo demais, pirata!
Um movimento desdenhoso é a primeira resposta de Killian.
– Meu filho tem a mistura do sangue de Elisa e do meu. É um homem safo e sabe o momento exato de agir. Amanhã partiremos cedo e então sugiro que todos durmam bem.
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