Retardado pela fraqueza de Gold, o grupo deixa mais quatro dias para trás.

Caminhavam por um período, paravam para hidratarem-se ou alimentarem-se com o que Killian conseguia na floresta e depois seguiam viagem. Gold começava a demonstrar traços de depressão e angústia pela falta de seus poderes e pela sua atual condição de mero camponês manco.

— O cheiro da mata está misturado ao cheiro de humanos. – Marlene diz no começo daquela tarde. – Estamos perto de um vilarejo. Além disso, olhem um descampado sob aquelas árvores. É sinal de que pessoa e animais costumam passar por ali.

Killian sorri e auxilia Gold a levantar-se, prendendo-o pela cintura.

— Por que não aceita montar em Marlene?

— Montar em minha nora é no mínimo, deselegante, pirata. E não tenho forças para manter-me sobre o lombo de um cavalo.

— Eu ouvi! – grita Marlene.

Mais duas horas correm numa ampulheta invisível e o grupo avista uma aldeia um pouco mais adiante. Bastante movimentada e cercada por um cinturão verde e um pasto repleto de animais.

— Andreas está bem no coração desta aldeia. – Gold fala, antes de quase desfalecer. – O que está havendo comigo?

— Marlene, fique com o crocodilo. Eu vou descer e buscar ajuda!

— Não! – Gold luta e consegue pôr-se em pé. – Vamos todos juntos! É um trabalho de equipe, mesmo que não morramos de amor um pelo outro.

Ele estende um dos braços e Killian entende o pedido de ajuda. O pirata sorri de si para si: iria usar aquela situação para provocar o inimigo sempre que surgisse a oportunidade. Não poderia deixar cair no esquecimento!

Um tempo depois...

— Cosme! Cosme! – um jovem entra na casa e toma o homenzinho com cara de rato, de assalto. – Há forasteiros aproximando-se da entrada da aldeia! Podemos prendê-los para trazê-los para você?

— Obviamente que não. – Cosme levanta-se e caminha para a saída da casa.

Um belo equino negro e de longas crinas aproxima-se da aldeia ladeando dois homens. Um dos homens estava visivelmente fraco e provavelmente ferido.

— Salve, salve, forasteiros! – Cosme ergue a mão e sinaliza para que os visitantes parem. Alguns homens grandes aproximam-se empunhando espadas. – O que vieram fazer por estas bandas?

— Precisamos de ajuda e este foi o lugar mais próximo. – Killian deposita Gold sentado no chão e aponta para ele com o dedo indicador. – O meu...meu...amigo está recuperando-se de um ferimento grave. Perdeu sangue e não consigo alimentá-lo adequadamente.

Cosme estreita os olhos e aproxima-se do grupo. Congela-se e para de súbito ao conseguir ver melhor as feições de Killian. Olha-o como se estivesse vendo uma assombração. Engole seco e mesmo tentando controlar-se permite que as feições de um rato surjam em seu rosto. Era um dos homens ratos.

— Levem o homem ferido para dentro de minha casa e providenciem alimento e o que precisarem. – ele se recompõe e gesticula para Killian acompanhá-lo. – Levem o cavalo para o estábulo e cuidem dele!

— Cavalo é o seu digníssimo genitor, seu cara de ratazana! Sou uma égua!

Cosme não consegue responder. Embora convivesse com as mais diversas bizarrices naquele reino e em suas andanças, nunca havia se deparado com um animal falante. E como era linda aquela criatura!

— Sim...e é a égua mais linda que eu já vi!

— Deixe-me dizer meu nome, já que meu digníssimo companheiro de viagem delegou-me à mera coadjuvante nesta história! Eu sou Marlene e não estou ao seu dispor! Viemos em busca de mantimentos e da ajuda do Colombo!

Cosme arqueia o sobrolho escuro. Seu coração agita-se no peito e o temor invade sua alma: estavam ali para retirar Andreas do seio de seus amigos.

— Eu sou o Colombo e podem conversar comigo agora! – ele ergue o queixo em sinal de desafio e tentativa de demonstração de falta de medo.

Killian emite muxoxos e caminha para próximo ao homenzinho. Usa a sua estatura para intimidar o anfitrião.

— Companheiro, eu percebi que você me reconheceu. E por isso, sei que você sabe que sabemos que você não é Colombo. – ele ri de sua brincadeira com as palavras. – Vamos evitar fadiga e leve-nos até o Colombo.

Já dentro da casa grande e confortável, nem Killian, Marlene ou Gold haviam aceitado bebida ou comida alguma. Permaneciam em pé no centro da sala, em companhia de Cosme e de um homem de longos cabelos grisalhos. Todos silenciosos.

O som dos saltos de botas é ouvido e todos os olhares são direcionados para um dos corredores. Dali, vestido com roupas semelhantes as que havia atravessado o portal pela primeira vez, surge Andreas, descabelados e com o rosto parcialmente sujo de fuligem. Nem isso era capaz de diminuir a sua beleza!

Killian alarga o mais bonito dos seus sorrisos, enquanto Marlene emite uma bufada. Queria sorrir, mas não sabia como.

— Andreas, onde estava? – pergunta Cosme aproximando-se do rapaz. – Estes forasteiros vieram para nossa aldeia apenas para conversar com você, mas já estão de partida!

— Precisamente não! – diz Killian tocando no ombro de Gold que tenta levantar-se da poltrona. O advogado mostra-se abobalhado. – Viemos para conversar muito com você não vamos embora tão cedo, Colombo!

Andreas olha-os com a típica frieza com que se olham desconhecidos na rua. Sorri encantado com os traços daquele homem e o que sua familiaridade provoca em seu estômago. Leva os olhos para Gold e percebe algo suave saindo daqueles olhos escuros. Depois, aponta para Marlene.

— Por que a égua está dentro de minha casa?

Ela relincha alto como se gargalhasse. Bate os cascos dianteiros no chão e depois se recompõe.

— Aleluia! Finalmente alguém com sensibilidade!

— Uma égua falante! Isso é lindo!

O tom de voz usado por Andreas provoca uma súbita tristeza na alma de Marlene. De fato, Killian estava certo quando deduzia que o menino estava amnésico. E como era horrível aquela situação!

— Por que não há uma mesa farta para nossos visitantes? Por que estão sem conforto algum? E o que há com este homem?

— Eles não querem ingerir nada. O homem está se convalescendo e...

— Trate de confortá-los em quartos limpos e veja o que a égua quer como acomodação. – ele interrompe Cosme de forma grosseira. Seu tom de voz é rude. Encara Killian e mostra raiva em seus olhos. – Não tenho o hábito de envenenar pessoas dentro de minha casa! Quando quero atacar alguém uso a espada!

Killian sorri irônico.

— Sentiremos quando a usar.

Uma onda de tranquilidade invade a alma do rapaz. Ele inclina a cabeça para o lado e admira a beleza daquele homem diante dele.

— Eu espero que consigam descansar esta noite. Dou minha palavra de que estarão seguros dentro de minha casa. Pessoalmente irei cuidar da saúde do seu amigo.