Logo na manhã seguinte, Killian e seus companheiros já estão apostos para a jornada. O pirata havia equipado Marlene com os mantimentos obtidos na casa de Andreas.

– Bom, senhores, como pretendem pagar meus serviços? – Andreas aproxima-se calçando as luvas. Usava roupas grossas e uma capa sobre elas. Seus cabelos estavam revoltosos e continuavam bonitos.

– Temos ouro. – diz Gold sorrindo sem exibir os dentes. – O restante, será dado no final da jornada.

– Temos ouro? – indaga Marlene.

– Por favor, James, apanhe o pequeno alforje na cela de Marlene.

Killian leva seus olhos grandes e curiosos para a cela e depara-se com um alforje que não estava lá. O apanha e sente o peso típico. Entrega a bolsa para Andreas, que a abre.

– Cosme e Martino irão conosco. – ele entrega o alforje para uma mulher corpulenta e feroz.

– Insisto que você permaneça na aldeia. Martino e eu cuidaremos da jornada.

Killian rosna e aproxima-se de Cosme. Ergue seu gancho na altura do rosto do homem e fala entre os dentes travados.

– Não insista nisso, homenzinho. Viemos em busca de Andreas e não iremos partir sem ele. Portanto, não tente dissuadi-lo da ideia de acompanhar-nos. Posso ficar bravo com isso!

Rapidamente e surgida de algum lugar, a ponta de uma espada cola-se ao pescoço de Killian. O pirata permanece imóvel e tranquilo.

– Não se atreva a ameaçar os meus amigos ou serei eu a ficar bravo.

Antes que Andreas perceba, ouve o som do choque de metais e vê o gancho ser preso à lâmina de sua espada. Ela é atirada longe. O jovem observa a espada caída e volta seus olhos encantados para o pirata.

– Isso foi incrível! Pode ensinar-me o truque?

Gold respira mais aliviado e sorri.

– Poderei torná-lo um espadachim melhor do que já é, filho. Nossa viagem não será breve e teremos tempo de muita aprendizagem.

Horas mais tarde, o grupo já está a caminho. Não usariam cavalos e seguiriam a pé até a cidade onde ficava o rancho que ainda cultivava os tais feijões mágicos. Por insistência de Marlene e Killian, o advogado aceita seguir montado, mas sempre resmungando e protestando.

No chão, Killian seguia à frente ouvindo Andreas descrever a região. Na retaguarda, protegendo o homem montado, estavam Cosme e o homem grisalho de nome Martino.

Dois dias depois, algumas paradas e desvios de caminho, o grupo para com o objetivo de encher os odres de água, na beirada de um rio.

– Cuidado com as nereidas. – diz Gold alongando braços e pernas. – Elas gostam de beleza!

Andreas e Killian se entreolham e sorriem ao mesmo tempo, apenas para congelarem a atenção dos demais membros do grupo. O pequeno Cosme sente a dor do reconhecimento da perda iminente do amigo, enquanto Gold sofre com o fato explicito diante de seus olhos. Por mais que quisesse, o menino sempre seria do pirata.

– Elas não atacariam, caso mandassem o Cosme encher os odres. – opina Marlene, provocando risos em Martino. – Não fará diferença se você for junto com ele, velhão!

O homem para de rir imediatamente e vai sentar-se na imensa raiz de uma árvore. Direciona seus olhos escuros para o pai e filho que se afastam para o rio.

– Sabe como procedemos antes de apanhar água nesses rios da região?

– Não. – Killian não se mostra interessado na informação.

– Temos de pedir autorização, caso contrário elas nos levam para dentro da água.

O pirata tranca o rosto e dá de ombros. Aproxima-se da beira da água e introduz o gancho dentro dela. Minutos depois, sorri e fica em pé, apontando três figuras que surgem longe da margem, olhando-os com curiosidade. Eram nereidas.

As nereidas ficam agitadas e começam a emitir risinhos agudos. Acenam várias vezes com ambas as mãos escamosas e depois de exibirem-se com alguns saltos, desaparecem na água.

– O que aconteceu aqui? – Andreas aproxima-se sorrindo. – Você as conhece também?

– Digamos que também tenho história com elas. Podemos encher os odres?

De volta à caminhada, Killian agora se emparelha com Cosme na dianteira do grupo.

– O que fez ao seu filho, Capitão?

– Não fizemos nada contra ele, Cosme, pode crer. Um acidente abriu um portal e todos foram engolidos. Marlene voltou a ser um animal e Andreas perdeu a memória. Tudo o que queremos é retornar para nossa casa.

– Não gosto de você, Capitão, mas respeitarei a confiança que Elisa depositou ao entregar o rapaz aos seus cuidados. Apenas saiba que não atrapalharei o seu intuito, mas não facilitarei.

– Por que disse a ele que Elisa está na ilha de Pan?

– Andreas sabe que perdeu mais de um ano de memória. Não poderia ser rude e dizer da morte da mãe dele. – Cosme para de súbito e toca o braço do Capitão. Volta-se para o restante do grupo. – Saiam da estrada! São os cavaleiros da Senhora de Ferro!

Martino segura as rédeas de Marlene e a conduz para a lateral da estrada, junto à algumas árvores. Gesticula positivamente para Cosme que se esconde com Killian.

Um grupo grande de cavaleiros passa como se voassem, tamanha sua velocidade. Afastam-se em direção o litoral, deixando um rastro de poeira pelo ar. Um tempo depois, o grupo sai dos esconderijos e ainda mantém a atenção voltada para a direção seguida pelos soldados.

– Eles são cruéis e é melhor evitarmos confronto, sobretudo, se estamos em menor número.

Andreas não os conhecia ou não se lembrava deles. Mas seu peito fervia de raiva.

– Não seríamos páreo, mesmo. Sobretudo, tendo um homem convalescente. – ele se mostra bravo e contrariado. Nunca fugia de uma peleja.

– Nós daríamos conta de muitos deles. Tenha certeza! – Marlene opina.

– Nós, quem? Aptos para a luta, temos apenas quatro! Você é uma égua!

– Já fui uma guerreira, seu estúpido! E não sou apenas uma égua!

Andreas ri desdenhoso.

– Deve ter deixado alguém bem furioso, para hoje ser quem é. – ele ajeita a bolsa a tiracolo e recomeça sua caminhada.

– Minha mãe ficou furiosa comigo. – ela fala e o vê olhar por cima do ombro.

– Deduzo que não precise de inimigos, então!

Killian e Gold se entreolham e sorriem. O pirata relembra seu primeiro contato com Emma.

– Quem são os cavaleiros da Senhora de Ferro? – pergunta Killian aproximando-se de Marlene e tocando sua crina.

– São mercenários contratados por uma mulher horrenda que usa uma máscara de ferro para esconder as feições monstruosas. Eles são mesmo cruéis! – responde Martino ajudando Gold a subir na égua.

– Guerrilheiros extremistas? – pergunta Marlene começando a caminhada.

– O que é isso? – pergunta Andreas interessando-se pela expressão usada pela égua.

Ela bufa.

– Nada que seu crânio recheado com grãos de amendoim, consiga entender!

– Experimente explicar para mim, égua!