O fantástico mundo de Eldarya
8 Capítulo 7- Quase morri mas tô viva
Notas iniciais
Deitada e plena, eu comecei a abrir os olhos lentamente e percebi que estava no meu quarto de merda. Tava tudo embaçado, parecia que eu tinha fumado muito cogumelo. A enfermeira com certeza me drogou, aquela filha da puta. Fui acordada por uma voz bem sexy, e depois de me acostumar com a claridade do lugar, consegui ver o homem da minha vida.
— Mozão..._ sorri.
— Que bom que me reconheceu...
— Reconheceria o dono dessa voz em qualquer situação. Que que aconteceu?
— Bom, você já está dormindo há dois dias.
— Meu Deus, quais tretas eu perdi?
— Deveria falar com a Miiko, ela quer te ver.
— Vish, que bosta. O que a himedere quer agora?
— Ela só queria te ver assim que acordasse. Se não estiver muito bem, eu te acompanho.
— Hm, eu aceito. Vamos aproveitar e dar uns beijos._ o moreno apenas riu e me ajudou a levantar._ "Que frieza." Antes que eu me esqueça, se estou aqui em vez de na enfermaria, alguém me trouxe. Por acaso foi você quem me vestiu? Adoraria saber que me viu do jeito que vim ao mundo, mas queria que isso acontecesse enquanto estivesse acordada.
— Não vou revelar isso. Ah, e aqui estão suas chaves. Foi muito bom ter elas comigo para te trazer._ as chaves giraram entre seus dedos antes que as entregasse a mim e em seguida se aproximou para me fazer um cafuné._ Vamos ver a Miiko?
— Ah, claro. A Miiko.
Eu estava tão submersa nos meus pensamentos e com o que o mozão tinha feito que esqueci totalmente daquela palhaça. Com várias coisas ainda na minha cabeça, o moreno se adiantou para avisar a himedere sobre a minha chegada enquanto eu caminhava com muita vontade para a sala do cristal. Devido a minha demora porque eu estava literalmente arrastando os pés para chegar naquela sala, o loiro brotou novamente.
— Ei, tudo bem? Me falaram que você despertou.
— Pois é, Eldarya News nunca decepciona._ o loiro meio moreno ri._ Ok, essas respostas espontâneas ainda me são estranhas.
— Como se sente?
— Como se tivesse quase morrido e voltado pra merda.
— De qualquer forma, é bom que tenha se recuperado.
— Só pra me foder de novo._ revirei os olhos.
— Não diga isso... Bem, queria conversar mais mas tenho coisas pra fazer agora.
— Sem problemas, eu ainda tenho que falar com a kitsune.
— Saiba que se quiser conversar, estarei aqui pra você.
— Não quero, não com você._ voltei a arrastar meus pés até chegar a sala detestável.
Chegando lá, a raposa falava com o mozão. Bem estranho, porque ela vivia gritando. Mas enfim, eu era o centro da conversa. O moreno anunciou minha chegada, como se eu fosse uma princesa. Não tava errado, eu sou mesmo. Ok, vamos focar na história. Continuando, ele foi embora e a kitsune me fuzilou com os olhos. Porra, nem fiz nada. Tinha acabado de acordar naquela merda.
— Como está se sentindo?
— Morta com apenas um olhar. Tem alguma coisa pra me culpar agora?
— Só queria confirmar que está tudo bem, queria te ver mas você acabou sendo mais rápida.
— Tô estranhando a sua gentileza, tá querendo que eu faça alguma coisa pra você?_ digo, cruzando os braços.
— Na verdade, preciso que você escreva seu relatório sobre a missão.
— Zero surpresas. Vou escrever lá que quase morri.
— Mas antes, acho melhor você passar na enfermaria.
— Eu tô viva apesar de tudo, não preciso passar lá.
— Melhor prevenir...
— Ô pora. Ok, eu vou._ suspiro e saio da sala do cristal, indo direto para a enfermaria.
E chegando lá, encontro a desgraçada que me drogou com os cogumelos. Ela me recebeu como se nada tivesse acontecido.
— Acsa? Faz muito tempo que acordou?
— "Filha da puta cara de pau..." Não, despertei do meu sono profundo faz alguns minutos.
— Ah, então já foi falar com a Miiko?
— Já fui cobrada, nem parece que quase morri. Mas ela pediu pra eu vir aqui pra garantir que não morra antes de terminar o caralho do relatório.
— Entendi. Vou ver se sua saúde anda bem, pode deitar aqui.
— Osh, pra quê? O que tu vai fazer comigo?_ olhei pra ela desconfiada.
— Exames normais: ver se está com febre, checar sua respiração... O que achava que eu faria?
— Sei lá, não tô no meu mundo. Vai que você ia abrir a minha barriga._ ela ri._ "Nossa, rindo de deboche. Vou socar ela."
— Claro que não, nós aprendemos muito com o seu mundo.
— Hm, que assunto interessante. Quero saber da parte onde vocês descobrem como eu volto.
— Percebeu como temos objetos mais avançados?_ ela me mostrou um troço bem estranho.
— Olha, não quero saber desses bagulho não. Começa rápido essa porra de exame pra eu terminar meu relatório logo e ficar vadiando o resto do dia.
Ela suspirou e começou a passar o objeto próximo ao meu peito, franzindo a testa como se estivesse muito concentrada.
— O que você tá procurando aqui?
— Está com dificuldades para inspirar?
— Eu não, tô boazinha.
— Se sente cansada? Irritada?
— Isso eu tô sempre, mas não acho que faz diferença. Quer saber do meu emocional agora?
— Só estou verificando seu estado. Tenho medo que se afogue, acabou de passar por um trauma.
— Se eu for me afogar vai ser no Nevra mozão.
— Bom, é porque você pode se afogar no seco.
— Ué, me afogar com o ar?
— Dificuldades de respirar por ter resquícios de água nos pulmões.
— Puta merda, quer dizer que eu posso me afogar sem mais nem menos?
— Não, você está ótima fisicamente. Mas e emocionalmente?
— Olha, eu estou cansada de correr atrás do mozão. Ele é muito lerdo e não entende que quero pegar ele._ digo, emburrada.
— Acsa, estou falando do seu trauma com água.
— Ah, então acho que tô de boa.
— Sério? Se quiser conversar, tudo bem. Não vou contar pra ninguém.
— Caralho, já falei que tô de boa.
— Bem, então vou te fazer uma última pergunta. O Chrome me contou os ingredientes que usou para a poção. Se vocês utilizaram as mesmas coisas, significa que você precisou de água. De quem a pegou?
— Eu não peguei, recebi de presente. O fedô que me deu a dele.
— Fedô é aquele kappa que você machucou?
— Machuquei uma porra, ele caiu enquanto brincava de amarelinha feito trouxa. Mas o que tem isso?
— Seu lado faeliano deve ter rejeitado a poção, e acredito que como o kappa estava fraco isso também influenciou na sua rejeição. Vou passar isso para a Miiko, acho que encontrei o problema.
— Uau, gênio hein._ digo, fingindo animação.
— Então, terminamos seu exame por aqui.
— Finalmente. Falou, vou fazer o caralho do relatório.
Antes de conseguir sair da enfermaria, ela continuou me alertando sobre sintomas pós-traumáticos que eu poderia ter. Também me pediu para avisar a coelha que não tem chance nenhuma de eu ser uma sereia, levando em conta a bosta que quase me aconteceu. Não acreditei em nada disso de trauma e segui para a biblioteca assim que consegui me livrar da traficante de cogumelos. No caminho, acabei encontrando o avatar maldito.
— Agora pronto, tá tentando parecer homem com esse bigode tosco?
— Acsa, você já acordou?
— Não, tô na porra da cama ainda. Essa que vos fala é meu espírito.
— Sem graça, estragou tudo!
— Meu, não me culpa pelas merdas que tu faz não.
— Você acordou muito cedo, está abusando.
— Ah, vai tomar no cu, Ezarel.
De volta ao meu objetivo original, já próxima a biblioteca, acabo encontrando o moreno da minha vida. Aparentemente, ele estava com as cópias das minhas chaves entre os dedos.
— Hm, a tentação de me ver dormindo durante a noite te impediu de devolver essas chaves?_ perguntei, sorrindo.
— Essas são as do meu quarto.
— Sério? São tão parecidas com as do meu quarto..._ olhei-o desconfiada, sorrindo maliciosamente.
— As chaves são parecidas mesmo.
— Entendi...
— Sabia que essa história rodou o QG inteiro?
— Do que tu tá falando?
— Eu ter feito uma cópia das suas chaves...
— E você fez?
— O quê? Claro que não._ ele negou na hora, aparentemente bem culpado. Mas logo voltou com aquela cara de pau que eu adoro._ Minha reputação foi a baixo por sua causa.
— Puxa, que peninha.
— Por sua culpa, estou sendo maltratado._ eu o olhei entediada.
— Você não tá exagerando muito não? Já tá parecendo novela mexicana.
— Tô nada, são todos muito maus.
— Quer um beijinho?
— Quero._ eu me inclinei e quando estava prestes a beijá-lo, ele me puxou pela nuca e sussurrou no meu ouvido._ Talvez numa próxima vez?_ logo depois se afastou, sorrindo._ Não se preocupe, só disse isso para te provocar. Minha reputação vai muito bem._ e foi embora sem mais nem menos.
— Mas que desgraçado amor da minha vida, te amo._ sussurrei, sorrindo.
Depois de muito procrastinar, finalmente consegui entrar na biblioteca. Só para encontrar o ruivo que me deixou sozinha naquele caralho de mar.
— Oh! Acsa. É você! Como você está?
— Bem, mas não graças a você. Seu puto, me deixou sozinha. Quase morri naquela desgrama._ ele me olhou bem triste.
— Eu estou contente por te ver acordada._ eu cruzei os braços, levantando uma sobrancelha.
— Não posso dizer que não estou feliz em te ver também. Mas então, o que aconteceu?
— Logo você vai saber.
— Ah, para de fazer cu doce e me conta logo.
— Não, porque posso acabar te influenciando.
— Influenciando no quê?_ ele começou a ir embora._ Ow, volta aqui, vira lata!_ e me deixou sozinha._ Que vadio.
— Nossa, você acordou._ o platinado brotou.
— Senhor amado! Você tem que parar de brotar do nada.
— Desculpe, não queria te assustar. Mas já está rodando o QG? Não deveria estar descansando?
— Queria, mas a himedere me mandou fazer a porra do relatório e agora tô esperando a Ykhar e o Keroshana aparecerem.
— Boa sorte, esse negócio é muito chato.
— Eu imagino, por isso quero terminar bem rápido. Mas o povo não tá me ajudando. Eles podiam se pegar outra hora._ o platinado me olhou meio desconcertado antes de se despedir._ Nossa, é muito bom que eles me entendam agora. A expressão de espanto deles é maravilhosa._ tive uma crise de riso e no meio dela, surgiram a coelha e o Keroshana.
— Como vou saber se você não me diz nada?_ disse Ykhar.
— Bom... É difícil de falar com você, as vezes...
— Hã? Como assim não estão se beijando?_ falei de braços cruzados com um sorriso travesso no rosto.
— Acsa? Você já está acordada?
— As perguntas inteligentes de vocês não deixam de me surpreender..._ digo, entediada.
— A-Acsa, isso é coisa de se dizer?_ o unicórnio parecia ser o único incomodado com o que eu disse.
— Ah, para de se fazer de santo, Keroshana. Então, podemos ir logo pra parte onde vocês me ajudam a fazer o relatório?
— Caramba, é que agora nós estamos ocupados e...
— Ykhar, você pode continuar o que ia fazer com o Keroshana mais tarde, de preferência entre quatro paredes.
— Acsa!_ o unicórnio grita, extremamente ruborizado._ Nós vamos te ajudar, então pare com isso.
— Não sei do que você tá falando._ virei o rosto, assobiando.
Começamos a separar um maço de folhas e um caderno de notas, em seguida sentamos próximos uns aos outros.
— Como faremos, Kero? Você faz as perguntas e eu anoto ou trocamos dessa vez?
— Não, deixamos assim. Minha letra é horrível.
— Ela está bem melhor desde que você começou caligrafia.
— Oh, sério Keroshana? Escreve alguma coisa aqui no cantinho da folha.
O unicórnio escreveu uma palavra em um canto da folha e eu encarei tentando entender, enquanto segurava o riso. Ykhar me olhou um pouco nervosa, isso só fez com que eu não conseguisse me segurar e risse bem alto. Sério, se vocês acham que a letra de alguém é ruim é porque não viram a do Keroshana. Ele é terrível, pior que letra de médico.
— Ok, foi mal. Por favor, Ykhar, faça as anotações. Eu quero que a himedere entenda o relatório.
— Tudo bem. Geralmente as primeiras missões de um novo integrante são orientadas por um instrutor. Você teve sorte de ir com um chefe de Guarda.
— Está falando daquela que procurei o fedô? Se tirar o tanto que ele ficou reclamando, então sim._ digo, cruzando os braços.
— Sério? Mas eu pedi para ele fazer esse favor._ a coelha perguntou, espantada.
— Então ele tava de cu doce.
— Ele sabe muito bem que esse é o protocolo! Ele vai se ver comigo...
— Tu podia ter me falado isso desde o começo né? Seria bem mais fácil.
— Ué, eu não falei?
— Falou nada.
— Certeza?
— Ykhar, acho que tá na hora de você tomar uns remédios pra memória.
— Ai caramba..._ começou a ficar verde.
— Ok ok, nada de vomitar aqui._ digo, afastando os papéis dela.
— Calma, vocês duas. Ninguém morreu por causa disso._ o unicórnio se meteu.
— Eu to calma, a outra que tá passando mal aqui._ apontei para a coelha.
— Eu estou bem..._ disse, respirando rápido._ Vamos continuar.
Resumidamente, nas primeiras missões eles veem se os caras novos são bons ou não. Se forem inúteis, nem recebem mais missões. E levando em consideração o tanto que eu tenho trabalhado naquela merda, eu era muito foda. Enfim, a parte do relatório era mais para explicar porque fizemos o que fizemos e pra ver o quão caótico estava Eldarya. Quem orientava nessa parte era a Ykhar, o Keroshana ou os dois juntos se fosse muito difícil. E como era meu primeiro relatório, eles tinham que me ajudar. Eles prepararam um formulário pra mim, dizendo que na próxima vez eu teria que me virar sozinha. Eu sempre me virei sozinha naquela merda.
— Certo. Está pronta, Acsa?
— Já nasci pronta, mulher.
— Ok, primeira pergunta!
Do nada, minha visão ficou escura.
— Caralho, que isso? Efeito dos cogumelos ainda?
— Agora você terá que responder ao questionário._ uma voz surgiu de sei lá onde.
— Mas que porra...
— Você deverá responder à perguntas relativas a sua missão nas Terras de Jade. Você é livre para dizer a verdade ou para mentir, mas saiba que as suas respostas terão consequências na sua história e/ou na sua afinidade com os outros personagens.
— Tá, me deixa responder logo. Quero vadiar.
Logo depois, minha vista voltou ao normal e lá estavam Keroshana e Ykhar me encarando como doida.
— Que é?_ perguntei.
— Você estava olhando para os lados e falando sozinha.
— Mencionou uns cogumelos...
— Ah, é porque a enfermeira desgraçada me drogou. Mas tô bem agora, vamo começar.
Os dois se olharam preocupados, até Keroshana decidir começar. Finalmente.
— Vamos perguntar sobre o trajeto. Segundo as informações, vocês demoraram mais do que o esperado para chegar nas Terras de Jade. Você pode explicar o porquê?
— "Ok, eu ainda tô puta com aquele vira lata. Mas não vou ferrar com ele." A gente só seguiu a bússola.
— Ah, foi isso que o Chrome nos disse._ a coelha disse.
— Que bom.
— Você quer dizer mais alguma coisa sobre isso?_ o unicórnio perguntou.
— Hm... não, tá de boa.
— Então, vamos continuar. Depois disso, vocês atracaram na praia, certo?
— Isso.
— Pode contar um pouco sobre isso?
— A gente chegou na praia, eu fui com o moleque até chegar perto do vilarejo. Eu não pude entrar porque eles tem frescura com gente linda como eu, então o mestre Kappa veio até nós. Entregamos as rações e o fedô. Não demoramos muito, mas quando voltamos pra praia, a canoa e o barco tinham sumido.
— Mas como? Vocês não amarraram a canoa?
— Exatamente, o Chrome amarrou. Mas algum filho da puta aparentemente cortou a corda.
— Alguém cortou?_ a coelha perguntou.
— Sim, a gente encontrou um pedaço da corda na praia.
— É verdade, o Schwarz trouxe ela junto com outras coisas._ Keroshana confirmou._ E isso tudo leva a uma pergunta que vai te deixar brava..._ ele me olhou com um pouco de receio.
— Puta, você quer dizer? Isso eu já tô, pode perguntar.
— O navio... Você não tem pistas do desaparecimento? Vocês jogaram uma âncora, além de amarrá-lo?
— Na verdade, eu não lembro. Não prestei atenção nisso._ dei de ombros.
— Não se preocupe. Então, você acha que foi roubado?
— Claramente, um puto cortou a corda!
— Você acha que foram os kappas? Ou alguém seguiu vocês?_ a coelha perguntou.
— Não, nós falamos com eles. Eu e o moleque concordamos que os kappas não eram os culpados. E ninguém nos seguiu.
— Kero, você acha que ele pode ter seguido eles?
— Como?
— Não sei, vocês olharam o navio inteiro? As cabines, o porão...
— Sim, eu mesmo olhei. Você acha que ele ficaria a viagem toda no porão? Parece improvável...
— "Eles devem tá falando do mano de máscara."_ os encarei.
— Bom, vamos continuar._ disse o unicórnio, me tirando dos meus pensamentos.
— Fala que a gente tá acabando, pelo amor de Deus.
Keroshana só riu, aquele palhaço. Enfim, contei tudo o que aconteceu. Como encontrei todas as pistas incorporando o Sherlock Holmes, como cacei comida e como construí uma cabana de luxo. Ah, não deixei de fora que virei uma sereia de categoria. A coelha me parabenizou. Claro, eu fui incrível.
— Então, quer dizer que o Chrome não ajudou muito?
— Ajudou, eu busquei os ingredientes mas sem ele não teria conseguido preparar. "Boa mentirosa eu sou, hein?"
— É verdade, pra idade dele é um ótimo alquimista._ elogiou Ykhar.
— "Um alquimista filho da puta. Cópia canina do avatar maldito."
Continuei contando o resto da história até chegar na parte onde desmaiei e fui parar na enfermaria. Enfatizei como o Nevra mozão me salvou e que essa parte tinha que parecer um clichê romântico. Ykhar só riu e disse que não podia colocar isso no relatório. Eu mandei ela se foder.
— Então, para finalizar. Se você pudesse redefinir a atitude do seu parceiro durante a missão, o que você diria?_ perguntou o unicórnio.
— Em uma palavra._ complementou a coelha.
— Hm... suporte.
— Uau... não esperava isso._ Ykhar me olhou surpresa.
— "Nem eu." ¬¬ Então, acabamos?
— Sim, acabamos.
— Finalmente!_ me levantei da cadeira, correndo até a porta. Mas antes de sair, me virei para eles._ Agora podem se pegar.
— Acsa!!_ o unicórnio gritou, envergonhado.
Eu ri e saí da biblioteca, ouvindo a minha barriga roncar no caminho para o quarto.
— Puta merda, demorei tanto no relatório que agora tô morrendo de fome. Vou ter que passar na cantina._ suspirei.
Fui até lá arrastando os pés, encontrando o casal do momento lá.
— Agora é na cantina também?_ sorri.
— Estávamos com fome.
— Que tipo de fome?
— Acsa!_ o unicórnio não sabia onde esconder a cara.
— O quê?_ olhei ao redor._ Mas nossa, isso tá as moscas.
— Sim, está bem calmo. Até porque já está tarde para almoçar.
— Quero ver não me darem o que comer.
Fui até a cozinha e pedi a sabe lá quem algo pra comer. Me deram uma gosma estranha, afirmando que era o melhor da casa. Eu não queria saber qual era o pior. Voltei para onde estavam os pombinhos, com uma cara de nojo.
— O que foi?
— Isso é comível?
— Não se preocupe, o gosto é bom._ a coelha afirmou.
Comi por necessidade e falta de escolha. Enquanto isso, conversamos sobre como minha vida estava uma merda em Eldarya, sobre o relatório de hoje e como vou me foder para fazer os próximos sozinha. E então, começaram a me deixar de fora da conversa.
— Você teve alguma informação sobre isso, Kero?
— Não encontrei muita coisa, na verdade.
— Do que vocês estão falando?
— Durante a sua missão, algumas crianças do vilarejo vizinho desapareceram.
— Quê?
— Sim, é muito estranho.
— E onde os pirralhos sumiram?
— Principalmente na floresta... Eu passei algumas missões, mas preciso de mais informações.
— Então parece que temos um lobo mau desgraçado.
— Eu espero encontrá-los logo... O Chrome tinha dito que uma mulher jovem sequestrou os kappas, né?
— Caralho! Nem falei isso pra vocês!_ bati a mão na testa._ Esqueci.
— Não se preocupe, Acsa.
— Mas sim, quem nos disse isso foi o Mestre Kappa. O fedô foi sequestrado junto.
— Talvez essas informações estejam relacionadas.
— Se for, então é uma vagabunda.
— Podemos mudar de assunto, por favor?_ o unicórnio se manifestou do nada, parecendo desconfortável.
— Você faz isso toda hora._ disse a coelha.
— Hm, sério?_ sorri, encarando o Keroshana.
— Pois é. O Nevra é muito indelicado! O Ezarel, muito malvado... E.. Valkyon! Ele nunca fala comigo, buá, buá, buá..._ Ykhar fingiu um choro.
— Típica atriz de novela mexicana, merece um óscar._ Keroshana riu do meu comentário._ E também tem eu, que não recebo nem um salário mínimo.
— Quer minhas maanas?
— Quero sim, pode me dar.
— Sem chance.
— Dá o doce e depois tira, caralho.
— Ela é assim mesmo, nunca me ofereceu nem uma bebida.
— Porra, que mão fechada hein? Vai deixar essa pobre alma sem maana para comer?
— Bom, eu pago a sua comida._ a coelha se dá por vencida ao ouvir um choramingo do unicórnio.
— E a minha?_ perguntei, esperançosa.
— A sua não.
— Toma no cu._ remexi a comida._ Saudades comida do meu mundo._ suspirei.
— Eu acho que o Karuto está melhorando.
— Sério?_ perguntei com muita ironia.
— E comer aqui faz com que eu lave menos louça._ declarou o unicórnio.
— Preguiçoso, parece eu.
— Nós sempre comemos assim, não acho que seja ruim.
— "Senhor do céu, eles acham esse modo de vida aceitável."_ os encarei, com pena.
— Sabemos que não somos bons cozinheiros, mas acho desrespeitoso dizer dessa forma.
— Caralho, calma._ suspirei._ Vamos mudar de assunto. O moleque falou sobre uma "missão de abastecimento", o que é isso?
— Ah, nós usamos os portais-
— YKHAR!_ o unicórnio tentou interromper, mas foi tarde demais.
— Portais é? Sei que essa é uma forma de ir ao meu mundo, que tal falarmos mais sobre?_ sorri, apoiando meu queixo nas mãos.
Os dois ficaram bem sem graça, se encarando. A Ykhar estava até suando de tanto nervosismo. Até que os dois receberam uma chamada e me ignoraram completamente. Eu me levantei bruscamente, com meu prato nas mãos e bastante irritada. Deixei ele na cozinha e andei com passos firmes. Bati a porta do meu quarto com força, me joguei na cama e bufei estressada.
— Putos do caralho.
Uma folha caiu na minha cara. Eu a peguei e joguei no chão. O quarto foi uma ótima vingança do avatar maldito, tinha que admitir. Só de olhar me dava ódio. Encarei o teto, tentando me concentrar para dormir. 30 minutos depois, e nada. Bufei e me sentei na cama.
— Eu finalmente tenho o dia pra mim e não vou conseguir dormir nessa porra, vai se foder!
Me levantei e saí do quarto. Já que não conseguiria dormir, ia andar. Fui direto para a biblioteca.
— Olha aí, você de novo._ a coelha me recebeu com um sorriso.
— Nós poderíamos conversar sobre aquele assunto inacabado, mas não vim pra passar mais nervoso.
Ykhar encarou o chão, sem conseguir me olhar nos olhos. Ela era legal, mas estava escondendo alguma coisa de mim. Todo mundo estava, era bem óbvio. Eu estava com raiva, mas suspirei e tentei manter a classe.
— Vamos deixar isso de lado por enquanto. Eu vim pegar um livro.
— Você terminou o que eu te dei?
— Orra, faz uma era já.
— Nossa, achei que demoraria mais, com a missão que teve. E o que achou?
— É bonzinho, eu preferia um mangá. Mas né..._ dei de ombros.
— Bom, não temos muitas opções.
— Vocês deveriam variar de vez em quando._ andei entre as estantes e segurei uns dois livros que me interessaram._ Vou levar esses aqui. Já deixei no lugar aquele que me emprestou.
— Ah, ok! Boa leitura.
— Valeu falou._ acenei, saindo da biblioteca.
Voltei para o quarto pra deixar os novos livros em uma mesinha e saí de novo. Ykhar e Keroshana tinham falado sobre umas missões pra achar crianças perdidas, quem sabe eu podia ajudar a achar essa vagabunda e dar uma surra nela. Seria bom, pra descontar meu ódio. Pensando nisso, eu fui até a biblioteca de novo.
— Acsa?
— Em carne e osso. Quero pedir uma coisa.
— O quê?
— Uma missão, pra arrancar sangue de desgraçados.
— Uau, agora? Eu não tenho...
— Você tinha falado sobre um caso de pirralhos desaparecidos. Dá pra me incluir nisso aí?
— O QUÊ?_ a coelha pulou de surpresa. Entendeu? Pulou. Tá, parei.
— Que, oxi? Eu acho melhor isso do que ficar contando as folhas do meu quarto, já que não consigo dormir naquela merda.
— Mas você acabou de acordar!
— Isso prova que eu não morri, né. ¬¬
— Eu não sei... Acho que precisamos falar com a Miiko.
— Porra, a himedere de novo._ joguei as mãos para o alto.
E lá vamos nós para a Sala do Cristal. Encontramos a kitsune com um pergaminho na mão, enquanto falava com Keroshana. Ela se interrompeu assim que nos viu.
— Ykhar? Acsa? O que estão fazendo aqui?
— Ela me pediu uma nova missão-
— Então dê uma nova missão pra ela._ a kitsune deu de ombros.
— Viu? Me dá logo essa caralha._ cruzei os braços, batendo o pé no chão.
— É que ela pediu uma em andamento...
— Qual?
— A missão dos pirralhos que estão sumindo, e parece que vocês tão precisando de ajuda.
— Ah... Então é não.
— Oi?
— Você ainda está frágil pra uma missão como essa.
— Olha, eu tô estranhando o modo super protetor que você tá incorporando desde que eu acordei. Tem alguma coisa que eu precise saber?
— Pode se sentir bem fisicamente, mas tem que considerar também seu estado mental. Não posso te dar essa missão do jeito que está agora.
— Tá me chamando de louca?
— Você pode estar com traumas da última missão.
— Eu passei na enfermaria e a mulher que me drogou com cogumelos disse que tô ótima. Sou uma quase adulta, isso se eu já não tiver feito aniversário porque nem sei quanto tempo já passou desde que cheguei. Então eu sei cuidar de mim mesma, obrigada._ a himedere suspirou._ E se eu conseguir pegar essa vagabunda que sequestrou o fedô e os outros pirralhos, vai ser a chance perfeita de acalmar meu modo assassino.
— Ok, eu vou te dar uma missão.
— Que missão?_ levantei uma sobrancelha.
— Kero, explique pra ela._ jogou tudo nas costas do coitado.
— Oh, então... recebemos uma mensagem dos kappas. Eles agradeceram a entrega do bebê e também falaram sobre a visita de vocês na terra deles. Nós... quer dizer, a Ykhar, escreveu uma carta resposta, né?
— Sim, terminei um pouco antes da Acsa aparecer._ Ykhar mostrou um rolo de papel.
A kitsune a pegou e a colocou dentro de uma garrafa com inscrições estranhas.
— Calma, vocês querem que eu trabalhe como pombo correio?
— Essa é sua missão: colocar essa garrafa no mar da praia.
— E ninguém mais pode fazer isso, né? Só a otária aqui.
— Você queria uma missão, não queria?
— "Amas olha só."
A himedere desgraçada colocou a garrafa entre as minhas mãos e ficou falando na linguagem da putaria, me pedindo pra repetir. Sei nem o que falei, talvez tenha invocado um Black Dog.
— Você sabe chegar até a praia?
— Sei, pode ir arrumando outra coisa pra eu fazer quando voltar._ saí da Sala do Cristal arrastando os pés.
Pra quem tava arrastando os pés, eu tava até rápida. Quando estava perto do mercado, um ser lindo e maravilhoso me chamou.
— Mozão, com saudades?_ ele riu._ "Por que, Deus?"
— Você nem acordou direito e já tá rodando o QG?
— Ah, então é preocupação. Fica calmo, amor. Só vou deixar uma carta na praia a pedido da Miiko.
— Uma missão já?
— Eu tava tão entediada que estava começando a contar as malditas folhas do meu quarto. Esse é o trauma que o avatar maldito deixou na minha vida.
— Você deveria passar no meu quarto, a gente encontraria com o que se ocupar...
— Hm, já tô calejada com você. Faz cu doce na hora do vamo vê. Quero ver você passar no meu quarto._ sorri.
— E se um dia eu passar lá?_ sorriu.
— Bom, então eu acredito na sua conversa fiada._ de repente, ele me puxou pelo queixo e ficamos bem próximos.
— Então pode me esperar._ sorriu, soltando o meu queixo._ Eu posso te acompanhar até a praia.
— Sério?
— Sim, no momento estou livre.
— Bora então.
O menino tava ficando ousado, moço lindo. Enfim, estávamos andando juntos como um casal, só faltava as mãos dadas. Quando eu pensei no que estava acontecendo, minha mente deu um clique. Eu acabei de passar por uma experiência de quase morte com o mar, a puta himedere me deu uma missão que envolve água, o mozão me acompanhando até a praia...
— Vocês estão achando que eu vou surtar, né?
— O quê?_ o moreno pergunta com o rosto bem próximo do meu.
— Eu sou tão linda assim?_ provoquei.
— Mais do que imagina.
— Ok, tá ficando bem brega. Você tá desviando do assunto principal.
— Que é?
— Vocês não confiam no perfeito estado psicológico em que eu estou._ cruzei os braços.
— O que te faz pensar isso?
— Tudo o que está acontecendo agora. Embora eu não ache que pareço, não sou trouxa. Vou deixar bem claro._ o moreno me encarou com um sorriso no rosto._ O que é agora?
— Você fica fofa quando está brava.
— Já está passando dos limites._ bati a mão na testa._ Vamo logo, vou cobrar outra missão quando voltar.
Conforme nos aproximávamos da praia, o calor estava aumentando. Tirei meu casaco e vi que o mozão seguiu o meu exemplo, tirando a manta dele. Eu o olhei por cima do ombro.
— O que foi, amor? Difícil demais de resistir?
— Você não é tudo isso, querido._ sorri, continuando a caminhar.
Olha, preciso ser sincera. Ele é muito gato, gato pra caralho. Mas depois que eu acordei e todo mundo ficou louco me respondendo do jeito que queria, ele ficou com um ego muito alto, extremamente alto. Acho que esse é ele de verdade, e tava começando a me tirar do sério. Eu ia mandar ele tomar no cu. Finalmente chegamos na praia, e então eu avancei com a garrafa na mão. A água parecia bem calma, com ondas pequenas. Até que tocou na minha bota e eu recuei por instinto.
— "Mas que porra..."_ eu encarei o mar._ "Sou eu ou a personagem?"
— Acsa, tudo bem?
— Tudo ótimo, maravilhoso.
— Ah, é? Porque faz 5 minutos que você está encarando a água.
Eu bufei e avancei ainda mais, segurando firme a garrafa.
— Foda-se, é só deixar essa merda aqui._ e lá estava eu, sem conseguir soltar a porra da garrafa.
— É normal ter medo depois do que passou.
— Cala a boca, eu tô normal. "Personagem ou seja lá o que for, para de frescura no cu e larga essa garrafa!"
— Não está não, eu consigo sentir o cheiro do seu medo. Me dá essa garrafa, eu cuido disso.
— Você não vai pegar essa caralha da minha mão, nem ouse._ minha voz estava tão firme e sombria que até eu me assustei.
— Acsa...
— Olha aqui mar, eu não tô nem aí que quase me matou!_ finalmente, soltei a garrafa enquanto pronunciava a recém aprendida linguagem da putaria. Sorri em vitória._ Agora a gente pode voltar.
Eu avancei enquanto o moreno me encarava, aparentemente surpreso. Claro, eu ultrapassei os limites da personagem. Ninguém me controla. Voltamos para o QG, o mozão continuou me acompanhando. Pra quê? Não sei. Quando chegamos na Sala das múltiplas Portas, eu senti sua mão tocar no meu ombro.
— Me separo de você aqui.
— Ok. Mesmo que essa missão tenha sido bem bosta, acho que preciso escrever o cu do relatório.
— Boa sorte._ sorriu.
— É, vou precisar. Negócio chato da porra._ bufei, mas sorri logo depois._ Valeu por me acompanhar.
— Sempre que precisar-
E do nada, uma puta dos mares caiu em cima de mim. Nevra pareceu contrariado, eu entendi totalmente o que estava acontecendo. Ciúmes.
— Oh, me desculpe, Acsa! Você está acordada? Eu não sabia, ninguém me disse nada!
— Não, eu tô dormindo. Você caiu em cima do meu espírito._ me levantei, limpando minha roupa.
— Desculpe... Mas estou contente em te ver de novo.
— "Falsa." ¬¬
— Esse lugar sem você é muito chato.
— "Naja dos mares." ¬¬ Eu tô realmente surpresa de ver que conseguiu falar tudo isso sem ficar vermelha de vergonha. Mas preciso escrever um relatório, então...
— Nós ainda não terminamos, Acsa. Eu estava falando com você, lembra?_ o moreno se manifestou.
— Ah. '-'
— Será que pode nos deixar tranquilos, Alajéa?
— "Um soco direto no estômago."
— Sobre o que vocês estavam falando?_ antes que o moreno pudesse se impor, eu o fiz.
— "E ela não sentiu o impacto da indireta direta." É uma conversa entre nós dois.
— Oh, por favor, podem me contar. Sem problemas.
— Falou a garota mais fofoqueira e falsa de Eldarya!
— Eu?
— Que eu saiba, o Nevra é homem._ cruzei os braços.
— Mas...
Eu e Nevra a encaramos, e então ela finalmente fingiu que percebeu. Ela tinha percebido faz tempo, fingida desgraçada. Então, se virou e foi embora furiosa. Ui, que medo.
— Então, você queria falar mais alguma coisa comigo?
— Não, só queria que ela fosse embora pra fazer isso._ se aproximou e me deu um beijo na bochecha._ Vá fazer o relatório._ sorriu, indo embora.
— Mas o quê... Eu não entendo esse homem.
Com a mente dividida entre gostar ou odiar o mozão, porque ele é muito chato porém é um gostoso da porra, eu fui para a biblioteca. E estava vazia, perfeita para pensar em como fazer meu primeiro relato sem ajuda de ninguém. Procurei pelos papéis em uma cesta e lá estavam os formulários que usamos mais cedo.
— Tudo bem?_ a voz do unicórnio me surpreendeu.
— Ai porra! Keroshana, quer me ver morta?
— N-não...
— Então não faça mais isso.
— É que você está bisbilhotando as coisas.
— Eu tô o quê? Repete, repete se for homem.
— O que você está fazendo?
— "Sabia que não era." Estou procurando os papéis pra escrever meu primeiro relatório sozinha, licença.
— E você não podia me esperar?
— Essa não é a definição de 'sozinha', então..._ ele me encarou com uma cara estranha._ O quê? Vai dizer que tá errado?
— Bom, já que você encontrou, vou te deixar fazer o resto.
— Agradecida.
Eu olhei para o formulário e encarei o Keroshana, que já estava de costas. Aquela porra estava vazia, sem nada. Nada mesmo. Que caralhos de formulário é esse que não tem uma questão ou campo pra preencher? Quando percebi, Keroshana estava me olhando preocupado.
— Algum problema?
— Ah sim, que tipo de formulário não tem nada pra preencher? Vocês me lotaram de questões.
— Nós te ajudamos porque era uma missão complexa, mas realmente não tem questionário pra preencher. Por isso eu e a Ykhar ajudamos nos relatórios de missões tipo A e B.
— Que maravilha hein..._ revirei os olhos._ Eu vou fazer e te entrego pra ler, beleza?
— Tudo bem.
Decidi descrever tudo o que tinha acontecido, como se fosse uma historinha. Falei sobre como foi no caminho, esbarrando romanticamente com o mozão. Opa, tive que tirar o 'romanticamente', a coelha reclamou da última vez. Enfim, deixei de fora as provocações sexuais que sofri no trajeto e fui direto ao ponto. O momento que cheguei na praia e hesitei um pouco. Foi estranho, mas não podia dizer que achava ser uma reação da personagem. Eles nem iam saber o que significa. Só contei então como superei meu trauma e deixei a porra da garrafa na água. Não disse como xinguei o mar de todas as formas possíveis, eles iriam se assustar. Com a orientação do Keroshana, assinei e entreguei o relatório pra ele ler.
— Está certo._ ele disse depois que leu._ Vou arquivar aqui então.
— Valeuzão._ acenei, saindo da biblioteca.
A caminho da Sala do Cristal pra pedir uma outra missão que valesse a pena, meu estômago roncou.
— Puta que pariu, tô com fome de novo! Aquela gosma não cheirou nem fedeu no meu estômago, devo ter feito a digestão muito rápido._ bufei._ Tá, bora pra cozinha achar algo comestível.
E fui arrastando os pés, na maior empolgação. No caminho, encontrei o vira lata safado. Ele parecia bem distraído.
— Acsa para cheira cu, tudo bem?
— Não...
— Quer parar de frescura e contar o que é?
— Eu não quero falar sobre isso. Desculpe._ e foi embora.
— Ah, então não quer deixar de frescura._ dei de ombros e continuei arrastando os pés.
Cara, a caminhada até lá foi mais longa do que pensei. Também, eu demorava 5 minutos pra dar um passo. Preguiça tava reinando em mim. Depois de eras, cheguei na cantina e o mozão estava sentado lá, aparentemente vadiando.
— Olha só, vadiando na cantina?_ sorri, provocando.
— Acsa, o que está fazendo aqui?
— Geralmente a gente vem na cozinha quando está interessado em comida, então... Mas parece que você veio fazer outra coisa aqui._ me sentei na cadeira em frente a dele.
— Eu só estava pensando.
— Hm... em mim?
— Na verdade, sim. Quer dizer, a forma como seu medo sumiu de repente naquela hora.
— Eu sei, eu sou incrível.
— Não duvido disso, mas é como se... fosse uma pessoa totalmente diferente.
— Como assim?
— É como se tivessem dois cheiros em uma só pessoa. É difícil explicar.
— Eu não dormi com ninguém ainda._ levantei os braços, enfatizando minha inocência.
Ele me olhou e sorriu, um sorriso bem diferente dos provocantes que ele dá. Acho que consegui tirar a preocupação dele naquela hora. Eu seria uma esposa perfeita, hein? Não é pra fazer propaganda nem nada não, só falando mesmo. Só comentando. Eu sorri e bufei.
— Ah, mas hoje eu só fiz relatório. Cansei. Essa vida é triste._ espreguicei minhas costas na cadeira.
— Bem-vinda à Guarda de Eel.
— É um prazer ser escravizada por vocês._ fingi reverência, o que rendeu uma risadinha do moreno._ Mas pelo que o Keroshana disse, são importantes pra saber o quão fodida Eldarya tá.
— É, mas são bem desorganizados também.
— Eu percebi, nem sei quando preciso de ajuda ou não pra ir em uma missão.
— Você se acostuma com o tempo._ deu de ombros._ Eu não esperava que você reagisse daquela maneira.
— O quê? Voltamos a minha performance na praia?
— Como você se recuperou tão rápido?
— Hm... esse interesse repentino me incomoda. É algum questionário que a puta das chamas mandou fazer?
— Eu bem que achei que você desconfiaria. Eu avisei.
— É porque você sabe ser bem sutil._ apoiei meu queixo nas duas mãos.
— Não fique brava. Desde que acordou, a Miiko e a Ewelein pediram pra mim e os caras ficarem de olho em você.
— Oh! Então não foi uma esbarrada romântica que rolou na frente do mercado!_ coloquei a mão no peito, fingindo tristeza._ Então você não tava afim de me acompanhar.
— Estava. Eu me preocupo com você, mesmo que a gente brigue algumas vezes.
— Ownt.
Eu fiquei toda bobinha. Depois desse momento meloso, voltamos ao assunto principal: meu trauma com água. Expliquei tudo o que passou pela minha mente quando estava cara a cara com o que quase me matou. Mas eu não me tremeria de medo e ficaria sem fazer nada, foi isso que me impulsionou a jogar a garrafa no cu do mar. O mozão me ouviu atentamente, como se eu estivesse contando a melhor história de superação do mundo. Conversa vai e conversa vem, logo meu estômago roncou.
— Tava até demorando. ¬¬
— Está com fome?
— Foi pra isso que eu vim pra começo de conversa né? Enfim, vou preparar alguma coisa porque se eu comer aquela gororoba de novo, vou morrer._ o moreno me deu um grande sorriso e lambeu os lábios._ Hm, se continuar me olhando desse jeito, vai ficar bem quente por aqui._ provoquei.
— O que você vai cozinhar?
— Não sei, vou ver o que dá pra salvar.
— E você sabe cozinhar?
— Claramente, quem vos fala é uma cozinheira de primeira.
Meu ego foi às alturas. Fui até a despensa e dei de cara com vários guardas. Olhei confusa para o mozão, que pareceu entender a minha pergunta só pela minha cara.
— Potes de mel sumiram, a Miiko perdeu a paciência._ deu de ombros.
— Não é o puto azul não?
— Nah, acho que não.
— Acsa._ o suíno chamou.
— Olha só quem apareceu._ cruzei os braços.
— Você bem?
— Com uma puta fome, mas de boa. Aliás, dá licença pra eu pegar comida?
— Você tem ração?
— Eu passei dois dias sem comer, então...
— Eu vou verificar.
— Ô pora... ¬¬
Por incrível que pareça, ele foi bem rápido e confirmou o que eu já sabia. Estava liberada para pegar minha própria comida, ebaaa toma no cu viu. Mesmo liberada, o cara de javali ficou me seguindo por trás, junto com o mozão.
— O que você vai preparar?
— Sei lá, qualquer coisa que pareça boa.
Por sorte, encontrei carne e um pouco de batatas. Pulei nos ingredientes e os abracei. O moreno e o porco me olharam assustados.
— O que? Eu to com fome, porra.
Com os ingredientes nos braços como se fossem as coisas mais preciosas que já vi, voltei para a cozinha e peguei toda a tranqueira que precisava para cozinhar.
— O que você vai preparar para nós, chefe?
— Oi? Eu não lembro de ter dito que ia cozinhar para duas pessoas.
— Hã?_ o moreno me olhou confuso.
— Quer comer? Faz alguma coisa então.
Senti que o mozão me encarava enquanto fui para perto do fogão, e então um homem apareceu. Aparentemente, era o dono da caralha da cozinha.
— Que bagunça é essa? O que você está fazendo?
— Ai, sem escândalo. To com fome, vou preparar minha comida._ digo, passando por ele, quando de repente senti que ele me segurou pelo ombro.
— E você sabe cozinhar?
— E isso importa? Quem vai comer sou eu. Agora, tira a mão.
O cara me soltou, me encarando com cara de poucos amigos enquanto eu fazia minha comida. Foda-se, tava cagando pra ele. Nevra se aproximou de mim, parecia bem surpreso.
— Que cara é essa? Fala logo.
— Você viu o jeito que falou com o Karuto?
— Quê? Naruto? Que que tem?
— Eu to surpreso que ele não perdeu a linha.
— Ah moço, te garanto que eu perder a linha é bem pior. Agora, vai fazer alguma coisa da sua vida. Cortar aquelas cebolas ali seria um bom começo.
E como esperado, depois de alguns minutos o mozão começou a chorar. Mas, sem reclamar de nada. Eu sorri, ele era bem durão na queda.
— Não ria, eu não sei porque estou assim.
— Não to rindo, seu otário. Você tá chorando por causa da cebola.
— Valeu.
— Às ordens._ provoquei, sorrindo.
Até que não estávamos demorando muito. Depois de prepararmos o recheio, eu peguei uma das batatas que estavam quentes para começar a rechear ela até estourar. Com certeza, essa seria minha. Nossa, eu tava com muita fome. Enfim, o mozão tentou fazer o mesmo. Obviamente, ele não estava preparado para o quão quente a batata estava. Agora sério, se ele não aguenta esse calorzinho, como que ele vai conseguir me segurar? Tá, parei.
— Porra, tá muito quente! Como você consegue segurar?
— Opa, esse acontecimento é raro! Mozão falando palavrão, vou gravar na minha memória._ sorri. Ele aparentemente não ficou menos bravo. Suspirei._ Segura a batata com a sua manta pra não se queimar. Eu consigo segurar porque tenho prática.
— Pff. Você tem sorte, deixo isso contigo então.
— Se sorte é a palavra que você quer usar, tudo bem._ sorri, dando de ombros.
— Mas o que vocês estão fazendo?_ e lá veio o histérico, de novo.
— Cozinhando, como eu disse antes. ¬¬
Ele avaliou o recheio que fizemos e jogou um líquido estranho nele, logo depois foi embora. Esse projeto de Naruto tava me deixando irritada. Enfim, continuei recheando as batatas. Quando terminei, Nevra me ajudou a lavar a louça e nos sentamos na mesa para comer. O líquido que o Naruto aposentado jogou no recheio não deixou as batatas ruins, então ele estava perdoado. Aproveitando nosso momento de casal juntos, resolvi tirar algumas dúvidas sobre quando ele ia me pegar. Mentira, só perguntei sobre a culinária de Eldarya. Basicamente, eles tinham muitas receitas antigas mas então a caralha toda foi destruída e o que restou eram só porcarias. Logo, o moreno começou a puxar o meu saco.
— Você é muito talentosa.
— É comível.
— Tá zoando? A carne estava incrível, só queria que estivesse mais...
— Crua né?
— Isso.
— Já imaginava, mas não dá pra fazer isso nessa receita.
— Não posso reclamar, estou muito satisfeito.
— Hm, parece que conquistei alguém pelo estômago.
— Mas uma parte de mim está apaixonada por você.
— Ah, que lindinho._ digo, irônica.
Como sobraram batatas, porque eu claramente peguei a maior e mais recheada, decidi deixar as restantes para o resto do povo. Sim, eu estava fazendo uma ação voluntária. Eu sou uma pessoa de bom coração. Deixei até para o Naruto, mas quando ele provou fez uma careta toda estranha dizendo que não estava bom. Eu o encarei com tédio, logo seguindo meu caminho para espalhar paz e felicidade aos necessitados. Encontrei o suíno.
— Bem na hora, come isso aqui._ eu entreguei a batata, ele farejou e logo me encarou.
— Acsa não gentil, eu não como carne.
— E como caralhos eu vou saber? Porra, que merda. A gente tenta ser boa e só toma no cu, vão se foder.
Eu estava prestes a espalhar discórdia e ódio, se mais alguém me falasse alguma bosta. Fui até a Sala do Cristal com passos firmes e impacientes, encontrando a kitsune assim que entrei.
— Acsa, o que está fazendo aqui?
— Só come._ lhe entreguei a batata e ela logo beliscou.
— Nossa, que delícia!
— Finalmente, senhor Oráculo!_ levantei os braços, louvando sei lá quem.
— O Karuto te ajudou?
— Mais ou menos, mas o puto achou horrível mesmo assim._ revirei os olhos.
— Sério? Mas está tão bom.
— Foda-se ele e o suíno. Bom, era só isso mesmo. Pode continuar admirando o cristal aí.
— Obrigada pela comida, Acsa.
— Hm, queria poder gravar isso._ sorri, saindo da Sala do Cristal.
Assim que saí, dei de cara com ele. O puto dos putos.
— Puta merda, era só o que faltava.
— Olha só, faz tempo que não escuto essa sua voz irritante._ o azulado provocou.
— Meu dia teria terminado bem melhor se eu não tivesse que ver a sua cara de cu.
— Pena pra você.
— Eu vou resolver isso agora._ avancei, estalando meus dedos me preparando pra dar uma surra naquele avatar maldito.
Antes que eu tivesse a oportunidade de manchar aquela carinha de sangue, ele foi embora. Covarde pra caralho. Cansada de ficar dentro do QG onde podia encontrar mais trouxas, decidi respirar um pouco de ar menos tóxico. Fui para perto de uma árvore enorme e rosada, procurando paz. Mas encontrei um otário.
— Acsa, você está bem?_ o platinado perguntou.
— Eu não vou morrer, só vim me afastar das pessoas. "Será que ele entende indireta direta?"
— Veio organizar seus pensamentos?
— Me afastar das pessoas. "Sai."
— Se quiser, eu posso te fazer companhia.
— Porra, eu quero ficar sozinha! Vai embora!
Como se tivesse ouvido o maior absurdo, o platinado finalmente foi embora. Só que agora, aquele lugar não era mais tranquilo. Ô pora, viu? Quando a gente encontra um cantinho vem um puto e estraga toda a paz e tranquilidade. Decidi então ir pra perto do laguinho onde o fedô tomou banho, o cheiro insuportável já não devia estar mais lá. Só que mais uma vez, encontrei alguém no caminho.
— Ei! O que você está fazendo?_ a coelhinha me perguntou.
— Tentando ficar sozinha. ¬¬
— Ah, eu estou tentando evitar o Chrome.
— Que ótimo, vamos nos evitar então. Tchau._ comecei a caminhar.
— Ele acha que eu causei a suspensão dele._ parei na mesma hora e me virei pra ela.
— Suspensão?
— Pois é, ele foi considerado culpado na missão de vocês e se falhar de novo vai ser banido.
— Porra, e eu?
— Ah não, nada vai acontecer com você. A Miiko responsabilizou o Chrome.
— "Mas como assim?" Vou conversar um pouquinho com a puta das chamas.
E voltei de novo pro QG. Porra, eu não tenho um momento de paz. Fui para a Sala do Cristal, encontrando o casal do ano.
— To interrompendo o casalzinho aí?_ cruzei os braços, encarando a kitsune e o bicolor.
— Hã? Ah, Acsa. O que foi?
— Por que você suspendeu só o moleque se eu tava junto também na caralha da missão?_ ela me encarou bem brava. Foda-se.
— Você não percebeu que estamos fazendo uma reunião estratégica? Acha que não pensamos bastante antes de tomar uma decisão em relação ao seu namoradinho?
— Ah, sinto muito se uma vez mais interrompi a escolha de vocês para o lençol de casal dessa noite._ a encarei.
— Como?!_ as chamas ameaçaram se formar em volta dela, mas parece que se controlou. Acho que ela tava tomando maracugina ainda, não é possível._ Eu não tenho tempo pra isso agora.
— Ah, mas vamo arrumar tempo nessa porra.
Os dois me olharam surpresos e o loiro meio moreno foi o que se rendeu primeiro.
— Acho melhor escutar ela._ contrariada, a himedere suspirou mas assentiu.
— Rápido.
— Fiquei sabendo pela Eldarya News que o moleque foi suspenso por causa da missão. Eu estava junto, então quero explicações.
— Nós levamos em conta que você fez parte da missão.
— Isso daí só deixou tudo mais confuso.
— E daí? Você não precisa entender nossas decisões, nem faz parte desse mundo. Com que autoridade julga nossa escolha?
— Oh!_ coloquei a mão no peito, fingindo estar ofendida._ Como pode dizer isso quando eu claramente não estou aqui por conta própria, tentando voltar para o meu mundo mas vocês obviamente estão pouco se fodendo pra isso?
— O que disse?!_ e pronto, lá tava ela perdendo o controle.
— Eu sei que tem um jeito de voltar pra minha casa, vocês são muito ruins pra esconder informações. Mas eu não vim fazer barraco por isso. Repensem sobre o moleque.
— O que você acha que..._ o loiro colocou uma mão no ombro da himedere.
— Talvez nós precisemos pensar mais um pouco. Não acha, Miiko?_ ouvimos um barulho parecido com um grunhido.
— "Pronto, incorporou o suíno." ¬¬
— Com fome?
— Sim, a última refeição não foi o suficiente.
— Caralho, isso foi seu estômago?
— Ah, se alguém me trouxesse algo pra comer eu até poderia repensar...
— É sério que vou ser feita de cozinheira também?_ suspirei._ Tá._ quando estava prestes a sair da sala, o loiro me segurou no ombro.
— Você sabe cozinhar?
— Porra, to vendo que vou ter que preparar pra mais um.
— Temos uns grãos amarelos na despensa mas só sabemos prepará-los com água quente. Se encontrar uma outra forma para comermos, nós reveremos nossa decisão.
— Agora virou MasterChef Eldarya._ bufei, saindo da Sala do Cristal.
Caminhei preguiçosamente até a despensa, encontrando os tais grãos amarelos. Era milho, obviamente. Então, uma ideia me invadiu a cabeça. Quando estava indo para a cozinha, o javali se colocou na minha frente.
— Você já pegar ração.
— Eu sei, mas esse é para a himedere exaltada. Ela me desafiou a preparar isso aqui.
— Miiko desafiar? Jamon verificar.
E lá fiquei por uns dois minutos esperando o outro confirmar o que eu já sabia.
— Você dizer verdade.
— Eu já sabia. Mano, ainda bem que essa prova não tem limite de tempo._ entrei na cozinha.
Com tudo pronto, comecei a preparar exatamente o que estão pensando. Pipoca salgada, meu amigos. Pra poder comer enquanto via as tretas. Terminado, só faltava levar para os jurados. De volta na Sala do Cristal, os dois pombinhos ainda não terminaram a reunião. Mas eles logo me encararam quando pigarreei.
— Chefes, terminei meu prato. Eu chamo de pipoca feita a base de ódio e instinto assassino.
— Pipoca?
— É o que dá pra fazer com os grãos amarelos vulgo milho.
— Oooh! Me deixe ver._ a kitsune olhou curiosa para o pote, em seguida me encarando com raiva._ Nós falamos pra usar os grãos amarelos.
— E você acha que eu tirei pipoca da onde? Do cu do Ezarel?
— Bem, vamos ver como ficou.
E lá estávamos nós no momento do clímax, os jurados experimentando o prato. Aguardei, ansiosa por uma crítica. Mentira, só queria que acabassem logo com isso. A himedere me olhou com um sorriso, comendo sem parar.
— Eu adorei! Está muito bom!
— Obrigada, chefe. Ok, agora podemos voltar ao assunto principal?
— Sim, como prometido nós vamos te escutar.
— Caralho, não vou falar tudo de novo não! Só quero que vocês pensem de novo nisso aí.
— Até parece que está apaixonada.
— Para de shippar, porque não vai rolar. ¬¬
— Eu não estava falando sério.
— Sei lá, né. Você é toda instável.
— Bom, eu vou repensar esse caso. Posso diminuir a pena, já que insiste tanto.
— Ele ia pra cadeia e eu não tava sabendo?
— Claro que não. Eu vou falar para o Chrome da sua "gentileza".
— Pode falar, aí aquele cheira cu fica me devendo uma.
Finalmente mais uma boa ação feita sem segundas intenções escondidas. Saí da Sala do Cristal, cansada pra caralho. Fui direto para o meu quarto e me joguei na cama, puxando um monte de folhas e jogando no chão. Lembrei de quando aprendi a cozinhar com a minha mãe, ainda bem que larguei de preguiça. Me perguntei como estavam as coisas no meu mundo, as tretas que tinha perdido na escola... percebendo aonde isso ia parar, me virei na cama e procurei dormir. Porém, claramente um filho da puta não queria me deixar cair no sono.
— Puta que pariu, quem é o desgraçado que tá fazendo essa porra de barulho?_ me levantei, irritada.
Olhando pela janela do meu quarto de bosta, eu consegui enxergar o mano da máscara. Coloquei um casaco pra não morrer de frio lá fora e saí do meu quarto. Estava escuro para um caralho, então fui na base do instinto. Ele não devia estar muito bom porque acabei trombando em alguém.
— Mas que porra.
— Acsa? Desculpe, te assustei?_ o loiro perguntou.
— Não, já me acostumei com a sua cara. O que tá fazendo aqui?
— Estava indo para meu quarto dormir.
— Hm, tarde hein.
— Sim. E você?
— Um pequeno passeio noturno.
Finalmente me livrando do bicolor, fui até a árvore enorme e rosada onde vi o mano da máscara pela janela do meu quarto. Mas, para minha não surpresa, não tinha ninguém lá.
— Eu não sei pra que vim aqui, só pra passar frio mesmo._ quando me virei, o cara tava bem atrás de mim._ Puta que pariu! Outro que brota nos lugares.
De repente, ele se aproximou e levantou a mão pra tocar no meu rosto. Antes que conseguisse, dei um tapa na sua mão.
— Sinto muito, esse rostinho já tem dono._ ele deu um riso, abafado pela máscara._ Vai rindo mesmo.
— Eles mentiram pra você.
— Chegou tarde, já to sabendo._ ele ficou parado por um tempo, parecia surpreso. Não dá pra ter certeza, ele tava de máscara.
— Eles não confiam em você.
— Ok, senhor óbvio. Se você me tirou do meu sono precioso só pra dizer coisas que eu já sabia, vou voltar pra minha cama.
Um barulho nos deixou em alerta e em seguida eu me vi presa entre a árvore e o cara mascarado, com sua mão cobrindo minha boca. Eu o encarei bem feio, até ele me soltar.
— Não faça isso de novo, ou eu arranco um dedo seu com meus dentes.
Antes que ele pudesse responder, outro barulho nos interrompeu. Quando olhei de novo onde ele estava, já tinha sumido.
— Mas virou palhaçada mesmo, levantei pra porra nenhuma. Toma no cu.
Voltei para o meu quarto, indignada. Joguei o casaco em um lugar qualquer e me deitei, dormindo pouco tempo depois. E como se fosse só após uns minutos, o sol nasceu. Abri os olhos, sem a menor paciência. Era manhã, eu estava morta de sono e puta da vida. Me levantei, colocando as únicas roupas que tinha naquela merda e arrumando o meu cabelo com os dedos. Saindo do meu quarto, passei pela porta da Sala do Cristal e fiquei encarando ela por um tempo. Eu perdi meu sono por causa de toda essa merda, mentirinhas que eles nem se incomodaram em esconder direito. Decidi entrar e encontrei a kitsune sozinha.
— Acsa?_ a himedere bocejou.
— Eu sei que tem um jeito de voltar pra minha casa usando os portais. Me explique porque ainda estou aqui.
— Quem te contou isso?
— A falta de habilidade de vocês em esconder as coisas._ cruzei os braços.
— Nós não te prendemos aqui sem dar a escolha de sair, está livre pra ir embora se quiser!_ a puta gritou, como se estivesse na razão.
— Quer que eu faça uma listinha de toda a merda que fizeram comigo?_ eu a encarei e acabei perdendo a paciência, saindo da Sala do Cristal.
Quando eu estava na Sala das Portas, ela segurou o meu pulso.
— Onde você vai?
— Vou dar um jeito de voltar pro meu mundo, já que vocês me adoram ter aqui.
— Chega de drama! Nós nem fizemos nada com os seus pais, então calma.
— Que caralhos meus pais tem a ver com isso?_ a himedere suspirou.
— Confesso que não te contamos toda a verdade.
— Ah, obrigada por ser sincera pelo menos uma vez._ revirei os olhos.
— Fique calma e vamos conversar.
Eu bufei, impaciente. Voltamos para a Sala do Cristal, que agora tinha a presença dos três patetas. Eles pareciam bem preocupados.
— Então, vai falar?
— Vou. Só me dê uns dois minutos, estou pensando por onde começar a explicar.
— Que tal pela parte que me interessa? Como volto pra casa._ cruzei os braços.
— Com os portais...
— Ah, interessante._ falei, sarcástica.
— Deixa ela terminar, Acsa._ o avatar de merda se intrometeu.
— Cala a porra da boca._ eu o olhei, e na mesma hora ele se calou.
— Como te falamos antes, o portal é sentido único. Mas há outras formas de ir do nosso mundo para o seu.
— O legal é que vocês escolheram deixar essa informação oculta de mim.
— Você perderia toda a esperança se te contássemos.
— E por quê?
— É difícil abrir um portal e precisaríamos sacrificar uma viagem para te levar de volta.
— Continue._ eu a ouvi com atenção.
— Nós fazemos essas viagens duas ou três vezes no ano, quando temos sorte. Tem várias guerras pelo controle desses portais e no momento não temos nenhum recurso para abri-los. Você quer outros motivos?
Eles me explicaram, depois de todo esse tempo, que seria muito difícil me levar de volta. Não poderia ir em uma dessas viagens para reabastecimento porque minha viagem seria só de ida e o maldito círculo de drogas só funcionava com seres vivos, então transportar comida por lá seria impossível. Descobri que quem atravessa os dois mundos pelo círculo, vai parar em um lugar ligado a sua essência. E lembram onde eu surgi? Exatamente, na Sala do Cristal. O que isso significa? TAVA POUCO ME FODENDO PRA TEORIAS, QUERIA VOLTAR PRA CASA! Enfim, depois de toda a longa explicação, veio algo que nunca imaginei ouvir.
— Minhas sinceras desculpas..._ sim, a himedere se desculpou.
— Ahh, caralho._ cocei a minha nuca, fechei os olhos e suspirei._ Eu já entendi que to lascada.
— Isso quer dizer que você vai continuar aqui?_ o avatar maldito quebrou o clima tenso, reclamando.
— Infelizmente, também queria me livrar de você._ ele sorriu, mas foi bem diferente do que dava quando me provocava.
— Eu posso te dar uma autorização especial para consultar os arquivos sobre os portais._ a kitsune estava realmente generosa.
— Uau, eu aceito.
— Você vai poder olhar só arquivos referentes aos portais, ok? Eu vou falar com o Kero e a Yk-
— MIIKOOOO!!
— Caralho, quem morreu?_ olhei para a Ykhar, que tava toda aflita.
— O que houve, Ykhar?_ a puta das chamas perguntou.
— Mery..._ a coelhinha disse entre lágrimas.
— O que ele fez agora?
— Ele desapareceu!
— Ô pora, antes era o mascote agora é o dono. ¬¬
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