“(...) abri os olhos, renovado ou transformado, sem ter a mínima razão do que eventualmente eu poderia ter me tornado.”


Já passava das dez quando reiniciei minha escrita, a Lua estava exuberante, o céu... Um quadro negro universal com estrelas radiantes alfinetadas, o vento trazia-me um torpor estranho, que me forçava a escrever, a minha última alternativa a ser assinalada, e quando isso acontece, pode ter certeza que algo foge de suas metas.
Sentei, peguei na pena, e com o sofrimento acarretado entre os ossos do dedo, risquei as páginas com as minhas letras, aos poucos foi surgindo alguns poemas, expressões pessimistas e prazeres solitários.
Certamente sou um escritor focado na escola barroca, com escrita deformada, linguagem robusta e um feísmo exacerbado, todavia vivendo em estado de pleno arcadismo, esperando o locus amenus e o carpe diem casarem de uma vez por todas. Sou como Bocage, iniciante na arte do romantismo, sem ao menos saber que um dia essa escola existiria, focado em um auto-ódio que obviamente não é saudável.
Conforme a inspiração surgia, senti a presença de algo, ou de alguém, entre o som da ventania, ecoavam na minha cabeça passos repetitivos, não acreditei no que ocorria e continuei a criar, até que fui interrompido subitamente quando a eloquência daquele barulho massacrou a eloquência dos meus pensamentos.
Entre os passos, uma música uníssona começou, logo percebi que não estava sozinho, e a verossimilhança daquela suposta alucinação foi capaz de invadir a realidade, e a me provar que aquilo acontecia realmente, a tribo Uivana é real! Eles cantavam, “Ha-hu”, algo assim, não tinha astúcia necessária para abrir a porta e confrontar aqueles lendários canibais, afinal, sou apenas um escritor arquitetando o mesmo castelo de cartas que já vi ruir um dia.
Corri para o baú da indecência e peguei o livro do velho, procurei alguma passagem semelhante a que se passava. Encontrei. Redijo para você: “Diante do meu estudo aprofundado sobre a Tribo Uivana Sapei, seus alvos não são mortos quando encurralados, são preparados para o abate, diante do que vejo e sinto, essas pinturas nas faces negras desses homens e mulheres, e essas palavras ditas em um ritual de fogo, as tochas que se confrontam, estão dispostas a me dizer que o antigo ritual do abate começou”. Compreende? Estou sem barco, sem vida, sem esperança, agora sendo o prato principal de uma alimentação coletiva, e repito as palavras desse defunto escritor: “(...) o antigo ritual do abate começou”. Posso dizer que Dikens foi mais valente que o meu ego, soube sair de casa e encarar cada face que se alimentou até de seus dejetos.
Pelas janelas, corpos ambulantes e sombras fantasmagóricas dançavam em coro, agradeciam seu alimento ao deus mor enquanto eu me cozinhava em um caldeirão de sentimentos, tentava sair do ciclo vicioso, todavia mantive posição, e esperei tudo terminar, imaginando que fosse as tempestades da juventude que tardavam ir embora, no entanto, davam trégua ao Sol.
Após longos meios minutos, o som se esvaiu, não tive a sensação de terem ido embora, e nem se afastado com as suas melodias mórbidas, pareciam ter repousado ali, estagnado toda a festividade e simplesmente partirem... Tornarem ao pó, de onde vieram. Um inescrutável fenômeno cultuou aquela noite.
Não consegui pregar o olho, a madrugada tornou-se minha morada e em questão de segundos a raposa velha diurna, repousou sobre o urso noturno, em eterna vigia. Os dias seguiram com um tom misterioso pairando sobre os céus nublados da remota ilha. A paranoia transmutou-se em instinto.
Não recordo-me bem, de qual tarde precisamente pude encontrar a pedra. A pedra de Amajur. Uma energia percorria a solidez da rocha, a insensibilidade de corações rochosos nunca se igualariam ao fulgor daquelas partículas concretas.
Para sair da ociosidade daquelas tardes monótonas, comecei a percorrer o campo como se descobrisse pedaços do meu próprio corpo, um chocalho estava nas mãos do ar, que enfeitavam meu passeio com vocais gregorianos.
Desde a minha chegada, o locus amenus já premeditava que grandes descobertas me aguardavam, em locais escuros ou cristalinos. O bucolismo que varria minha pele, encharcava meus poros de liberdade. Uma minúcia de pensamento brotou dos meus cafundós, “Será mesmo que sou dotado de tanta liberdade?”, questiono a você, meu amor. Poderia ser nomeado liberdade estar preso entre as costas de uma natureza esquecida e não poder fugir pelas águas, pois movimentos truculentos inflariam meus pulmões com águas ferventes? O doce mel que goteja da minha boca enquanto descubro partes de um quebra-cabeça sem fim vão relembrando o fel da solidão, um sentimento que por eremitas deveria ser abolido, quando saí afora, em busca de um novo sentido vitalício, pensei estar preparado, e o maior tolo é o ensimesmado.
Andando sem sentido e rumo, percorri os meus passos, passei por locais já visitados, procurando visões que ainda não tivessem sido obtidas, e enigmaticamente encontrei a bendita Pedra de Roseta da tribo, em um âmbito onde eu escreveria com o meu sangue que já havia passado por ali, meus pensamentos deveriam ter me desviado em algum momento indesejado. Aproximei-me do monumento místico, e na sua presença pude abrir a porta da minha mente, para uma conexão zen com os antigos deuses, que justificadamente arrependeram-se de ter-nos criado, não é necessário explicar, apenas revise os seus piores atos, aqueles que ainda te atormentam e você não compartilha, apenas algumas doses concentradas de tristeza e alegria fariam seu pensamento mudar.
Ajoelhei defronte, olhei aos céus erguendo a face ao jardim etéreo, fechei os olhos estabelecendo uma corrente entre as ninfas abandonadas por seus amados e os deuses arrependidos, naufragados em copos lotados de prazeres terrenos.
Diante da pedra repousava outra obra dos benfeitores, chamada Pedra de Amajur, os antigos crentes tinham em mente que aquela pedra poderia prever o último eclipse solar total, segundo as arcaicas escrituras, a primeira escuridão foi necessária para a criação de tudo que existe, e a segunda, seguindo a mesma linha, seria necessária para extinguir todo o tipo de vida.
Sinceramente, não esperava ouvir algo, nem ter um sinal de que eles ainda rogavam por nós, e inesperadamente, adivinha? Uma voz ecoou na minha cabeça, parecendo surgir de grutas próximas, cativaram minha tendência mística e os meus tímpanos.
“No bosque de carvalhos, na sombra das velhas árvores. Eu estou sozinho”, não sei te dizer o que ao certo significa, apenas solitude, apenas medo... Alguém estava preso, um sofrimento funesto abrigava o local, para terminar a sublime aproximação, o mesmo confidente disse: “Vá, vá embora enquanto pode, quando a Lua for engolida, só restará destroços de uma ilha sem vida...”, abri os olhos, renovado ou transformado, sem ter a mínima razão do que eventualmente eu poderia ter me tornado.

Notas finais
O que estão achando da história?