O estranho eremita

9 Ato 9 - O Profeta e o Oráculo


“(...) prendo-me ao meu egoísmo de acreditar que sou o único vivo nessas terras gélidas.”


Antes de abandonar o recinto, peguei a pedra, afinal quem voltaria para ela em uma ilha praticamente deserta?
No meio do percurso, arrepiei-me dos pés ao pescoço, não necessitou muito para que pudesse juntar as peças que havia descoberto, todas elas ilustravam o “gran finale”, o dia da minha morte, a pedra em minhas mãos, as falas do prelúdio e do encerramento, o ritual, tudo apontava para o mesmo percurso sem volta.
Apenas transcrevo a profecia dos deuses para essa folha: “Diante do grande espetáculo, o céu em sua plenitude penumbrosa, apenas um círculo fechado ao alto, os deuses choram e o que resta é uma última oferenda, após o ritual de abate o que resta é abater, ‘quando a Lua for engolida, só restará destroços de uma ilha sem vida...’”. Os milenários criadores passando a mensagem aos terrenos, souberam dizer com palavras focais, que o último homem estaria sujeito ao camarote e ao encerramento de um globo que teve suas épocas áureas, homéricas.
Estive tão conturbado nos últimos meses que para minha desgraça, ou talvez redenção... Acreditei em cada palavra.
Quando a pedra finalmente brilhar, eu olharei para o céu e por mais que a minha vontade de fugir for grande, não haverá saída, a tribo tem a ilha em suas mãos, e os olhos intrincados na minha alma, eles farejarão o meu medo e tomarão um drinque com o meu sangue, em um banquete que já diz muito sobre o seu fim, com a extinção, a verdadeira extinção dos antigos obreiros. No centro da placa tectônica, sujeito ao maior abalo sísmico, regulo meu relógio e espero que a maturidade chegue, e eu possa escolher entre morrer carcomido ou diante de um precipício.
Sim, você namorou este homem por muito tempo, tenho certeza que não tinha ideia que encontraria um depressivo sacrilégio, pode dizer a verdade, se soubesse o que eu era antes de começar o relacionamento, não iniciaria, pois saberia da minha instabilidade. Aceito o seu fato, porquanto que também é o meu.
Sou o profeta aniquilado e a pedra será meu oráculo.
Mesmo depois de turbulentos acontecimentos, estive disposto a pensar na minha vida, no que restava de um pedaço jogado em uma galáxia qualquer.
Obviamente, não é necessário pensar muito para termos a impressão, que somos pequenos, somos micromoléculas em uma receita que precisa de nós, participamos da sinergia e não importa quem morra, toda causa terá um efeito. O que acontece quando é retirado um dos pesos de um lado da balança? Desnivela, admito ter um pensamento ultrapassado, mas no meio de tanto caos em um paraíso sagrado, percebo que a única forma de não me perder entre o sangue derramado, é aderindo aos que acreditam que depois da tempestade, virá o arrebol ou o arco-íris e com seu sorriso radiante, lavar todas as minhas impurezas e perdoar-me por tudo que causei, por todos os perdões que não pude dar, ou desperdicei por um orgulho qualquer. Voltarei a você, minha cara e singela dama, agora trajando vermelho, por algo que não pude impedir, e também retornarei a nossa criança, que ainda repousa em seu ventre.
Estive com uma vontade anormal de compor uma melodia, acredito que seja pelo meu desejo de lembrar músicas do meu passado, todavia não capto nem ao menos um verso, apenas recordo-me de você cantarolando, todos temos nossos problemas em estado de sono rem, o seu, era no mínimo estranho, porém delicioso de ser ouvido, adormecida recitava músicas que ficaram presas entre os seus neurônios. Imagino que deve ser difícil aceitar essa realidade após ter partido, só não te disse enquanto viva, pois remédios e exames restaurariam seu sono pesado, e isso seria lastimável, para um poeta, poemas são água e deles sobrevivo.
Pensando melhor, com minutos de sobra, pude constatar que estou no meio de uma guerra. Afronto-te com a afirmação mais do que clara, quando estamos inseridos em um grupo com afeições igualitárias, por mais contraditório que pareça, conseguimos dar trégua em certos aspectos guerrilheiros que ficam acoutamos por muito tempo em objeções corriqueiras. O exílio, transformando-o em uma personagem a parte, podemos afirmar que quando sabe que o calor humano não é mais alvo de nossas ações, volta a atenção ao nosso interior, repleto de obstáculos, com um matagal queimando em fogo interminável, e então, percebe que será mais fácil o disparo quando em uma cobertura melhor. E adentra o nosso interior por uma fresta que sempre esquecemos de fechar, a fresta da insegurança.
Querida, os meus poemas épicos trouxeram-me aonde eles não habitam, com o foco absoluto, descubro da pior forma, que o meu paraíso estava mais para um inferno aos meus pseudônimos.
As sombras tem formas diversas, tenho uma vontade inarrável de ouvir as suas biografias, quero me espelhar. Na metrópole, fumando calma, conseguia achar em qualquer biblioteca ou museu, um mentor, uma palavra amiga que me fizesse crer que ninguém agradeceria a minha lenda escrita em livros apedrejando-me em uma cruz, com a ironia de oferecer uma coroa (de espinhos).
Dúvidas e pensamentos hereges dignos de livros index sobrevoam a minha torre, sem saber em qual curva irá atingi-la, não sei se respondo de uma vez por todas ou espero o bote.
Será que alguém sentirá minha falta? É uma pergunta tola, idiota, de um escritor parvo. Não há quem sentir falta, não há ninguém para sentir falta de algo, todos estão mortos, prendo-me ao meu egoísmo de acreditar que sou o único vivo nessas terras gélidas.