O estranho eremita

7 Ato 7 - Páginas velhas


“Após a arte rupestre, não lembro-me de nada do que poderia ter acontecido, a minha vida simplesmente havia terminado e voltado a acontecer na manhã que conheci-te no porto.”


Como já mencionei anteriormente, memórias de um passado incerto são o que importam para a construção de uma personalidade, posso ter dito através dessa carta muitas das lembranças, entretanto uma que me esgota assola essas noites frias de um inverno infinito.
Eu e a minha família, excluindo a minha tia, fomos visitar a madrinha do meu pai. Fomos aconchegados no seu antigo carro, quando chegamos no âmbito, ela e a sua cuidadora estavam de saída em uma locomotiva, a ponto de dar a partida, quando nos viram a felicidade foi tamanha, entre beijos e abraços ela se desabou em lágrimas.
Cega parcialmente dos dois olhos, com o corpo débil e uma voz levadiça, audição longe de aguçada, os ossos substituindo a carne. Enquanto minha mãe conversava com ela, fitei o olhar na mulher, perdi-me entre aqueles olhos sem brilho, procurei vida nos lábios que remexiam sem sentido, tentando conter o choro de um reencontro que não durou muito, dali por diante, em um momento de profunda reflexão, com o céu se tornando plano de fundo e o Sol varrendo a minha face excitando respingos de suor, percebi que a minha missão, a minha fé, consistiu em não me tornar “aquilo”.
A minha meta transformou-se em filosofia de vida, fazer o que for necessário para não cair no conformismo de uma velhice penosa, tinha uma verdadeira identidade com ela, afirmo com concreção que nasci velho e por isso me afeiçoei a esses problemas mundanos que vem com a vida, por mais estranha que se pareça.
Distanciei-me da locomotiva onde residia meu espelho da velhice, todas as minhas objeções estavam grafadas naquela alma, de longe fisgava o olhar na face derradeira.
Esse acontecimento foi um tempo depois da minha punição por mal comportamento, lembra-se de quando contei-te sobre a minha ingenuidade que me fez agarrar uma garota? Refresque minha memória, relatei o que aconteceu após? Foi no jantar, minha tia guardou o acontecimento junto a si para declamá-lo em uma hora cordial, onde o silêncio era a melhor melodia que um dia pudera ouvir.
Ela mastigou lentamente o cozido de avestruz, dispôs os talheres ao lado do prato, levantei levemente o olhar, rogando mentalmente para que os deuses me fizessem acreditar neles, porém foi inevitável, eu já havia morrido antes do tiro.
Encarou-me em uma fração de segundos e deu início a penação: “Não deram educação a esse menino? Hoje o peguei fugindo de casa, isso não é uma falta de gratidão exuberante?”. Roí meus dentes feito materiais metálicos em decomposição, esperava pelo menos sofrer pela verdade e não por uma mentira mal contada, meus pais estagnaram as mandíbulas e esperaram o decorrer do relato. Para meu espanto, acreditaram.
“E além disso está abusado, gritou comigo quando o pedi gentilmente para entrar em casa, ofendeu-me, diga a esse pobre jovem que ofender superiores é blasfêmia”.
Não havia como me defender, minha sina era engolir aquele ácido aos poucos, deixando queimar o meu estômago sem contorcer-me ou berrar.
“E acredito que saibam, que crimes merecem punições severas, e felizmente não será diferente com o nosso filho”. O que dizer? Não conhecia nenhuma ofensa para dirigir aquela mulher deformada, englobada na própria gordura que obstruía seu estado perverso e monstruoso de espírito. Deixei-a continuar, sem modo de sair do abate.
“Mas terei piedade, apesar de tudo, sou uma dama de classe, hoje farei o papel de mãe, e pelo jeito a unha do pé do meu querido filho está muito grande, Margaret, deixe a tesoura de pano sobre a penteadeira, darei um trato nela”. Seu sorriso já premeditava um circo de horrores, contudo não imaginava que a crueldade de um ser humano poderia chegar a um ponto horrendo. Os 120 dias em Sodoma duraram uma eternidade.
Meu pai suava frio, minha mãe deixava lágrimas escaparem de olhos lacrados, mantive a frieza na face compungida e após o jantar adentrei o quarto. Diante do espelho segurava uma tesoura de tecido, apontou o banco a sua frente, sentei-me sem pestanejar, bateu levemente a mão no colo, olhando aos meus pés, que no caso, estavam limpos e com as unhas perfeitamente aliadas, sabia que daquele ordenamento não sairia amor e nem cordialidade.
Sem a mínima coordenação, alojou as pontas da tesoura na pele de meu dedo, cerrei os dentes, mas não fui capaz de fechar os olhos, o guerreiro sofredor experimentava a dor física ligada intimamente ao pavor do sofrimento moral.
Do outro lado da rua, minha “querida amada” tocava flauta, uma trilha sonora lúgubre para pavimentar e emoldurar um momento que seria eternizado anos depois em uma carta a minha verdadeira confidente sentimental.
A pureza de uma criança me barrou, impedindo-me de cometer qualquer atrocidade. Tomei o coquetel ensanguentado com a traqueia aberta, a mente fechada e com ouvidos captando o leve e abrupto ressoar da lâmina cortando a carne, senti o sangue viscoso descer pelos meus pés e também pelo meu tutano.
As lágrimas habituais invadiram meus beiços, beijando-me com convicção, para me acalmar, procuravam um estado zen para que eu não fosse consumido pelos meus demônios que hibernavam no chão.
A sua voz endiabrada abusava da minha tendência mística, lembrava-me os meus piores pesadelos, aqueles que você tem quando criança e lembra até hoje, pelo seu aspecto dantesco.
“Espero que isso te ensine a nunca desrespeitar as normas de uma nobre família...”
Seus cortes aleatórios assemelhavam-se aos movimentos que são feitos para cortar papéis, ela estava literalmente fazendo um scrapbook com a minha pele, esfolando meus poros.
Após a arte rupestre, não lembro-me de nada do que poderia ter acontecido, a minha vida simplesmente havia terminado e voltado a acontecer na manhã que conheci-te no porto.

Notas finais
Gostaria de saber dos leitores, o que estão achando da obra.