O estranho eremita
1 Ato 1 - Uma carta a Ana
“Os dias começaram a ir embora corriqueiramente, a passagem do tempo se tornou monótona, e o frio matinal simples capricho.”
Atraquei no topo da montanha, um casebre se tornou minha morada sobre as tempestades de memórias e risos matinais, a brisa aqui é mais gelada, após a praga ter atingido essa ilha, a situação mudou, tornou-se um paraíso morto no meio do nada.
Tenho péssimas notícias querida Ana, meu barco furou na chegada, uma grande tempestade quase levou o barco e a minha vida, meu único amigo nesse profundo caos inquieto é um livro roubado da biblioteca da rua Hanston.
Não encontro cadáveres e nem gosto dessa palavra, o silêncio é quebradiço com o doce ruído que é causado com o impacto das pequenas ondas e suas espumas contra as grandes rochas que protegem a areia.
Acho que não havia lhe dito que roubei aquele livro, era um livro antigo do velho Dikens, o bibliotecário ignorou quando viu eu pondo aquele tesouro esquecido sobre o meu casaco de lã.
Não chove a dois dias, as nuvens parecem continuar no mesmo lugar, pareço ouvir vozes, mas eu te garanto que estou sozinho nesse lindo fim do mundo.
Encontro símbolos desenhados sobre várias rochas, programei ir numa caverna que encontrei no primeiro dia, foi incrível Ana, as belezas desse lugar foram esquecidas pelo homem, o ar é puro porém não há árvores, apenas vegetação e flores desconhecidas, que cobrem como um cobertor todas essas rochas preservadas da última expedição.
Sabe o que me intriga? Por que tantas latas de tinta jogadas e abertas sobre a ilha? Penso que quando a praga atingiu aqui, as pessoas correram absurdezas esquecendo as crianças e as tintas que viraram apenas plano de fundo do mar, desse oceano de mistérios.
A erosão é clara, imagino que esse pedaço esquecido e isolado do mundo devia ser bem mais bonito, mais incrível do que já é.
O que me atormenta há muito tempo eu ainda não te disse, é a previsão do destino, ser um eremita não é fácil, a própria alma anseia por outra vida, não conversar é como descobrir um baú e não abrir, viver num mundo de carismáticos e assassinos ao mesmo tempo e não dizer nada.
Refleti por alguns segundos, ou milênios nessa morada ... O que nos molda são as escolhas, e a minha escolha é inquebrável como todas as outras, não sei se houvesse modo de voltar atrás se eu estaria do seu lado.
Após o acidente, você sabe... Minha cabeça não funciona como antes, minha imaginação é prejudicada, e não vejo mais graça em socialização.
Eu não estou me sentindo sozinho como você pensa, eu estou sozinho, queria fugir da solidão da cidade grande, estava cansado daquele ar impuro engolfando a minha face toda vez que eu respirava, então, eu vim para cá, nessa ilha paradisíaca com pequenos vestígios que existiu vida.
Estou seguindo a vida, não sei se é do jeito que você imaginava para mim, porém querida Ana, eu ainda a amo, como nunca amei ninguém, minha vida fora desse lugar não existe mais, apenas lembranças, memórias de tempo que nunca se passaram, é como eu disse, eu não estou raciocinando, mas essa ilha está me fazendo bem, o livro serve de veleiro e ela de barco.
Pelejei e pelejei e esqueci de te contar, a caverna era grandiosa, uma água escorria do fundo dela, fazendo uma trilha por onde eu passava, encontrei aqueles símbolos estranhos nas paredes, não sei ainda o que quer dizer, mas te garanto que quando descobrir você vai ser a primeira a saber.
Nunca imaginei ter que me expressar através de você, para ser sincero nunca desejei isso, é como se as minhas palavras fossem inúteis juntadas ao oxigênio que eu só divido com insetos, é duro pensar que é necessário duas almas para se levar a vida, não quero que essas palavras doam em você, se melhorar, digo-te... Você é a melhor das recordações, o chá mais doce, a Lua mais cheia. É até engraçado, eu sentado na cadeira de madeira escrevendo e rindo do que eu escrevo, sozinho, quando olho ao meu redor para procurar inspiração eu desanimo, e preciso sair de novo, pelos confins dessa ilha que anseia me dizer alguma coisa.
Nos últimos dias um agente patológico me atingiu, não precisa se preocupar, é em outro sentido, acho que nunca senti amor, e sim conformismo, ver que seus ideais são controversos e doloridos é duro, quando dormi com isso na cabeça senti que feri sua confiança, e sem dúvidas foi meu sepulcro naquele momento, com os olhos fechados, as mãos atrás da cabeça e as pernas cruzadas, embalsei-me.
Os dias começaram a ir embora corriqueiramente, a passagem do tempo se tornou monótona, e o frio matinal simples capricho.
Fale com o autor