O estranho eremita
2 Ato 2 - O enigma do velho Dikens
“O dia foi embora num piscar de olhos, foi quando comecei a perder a noção de tempo.”
O livro que te falei anteriormente do velho Dikens era sobre essa ilha, eu não queria ter informação sobre o lugar que ia morar pelo resto da vida, mas fiquei com medo e me envergonho disso, não queria ser atacado por nenhuma peste, queria apenas viver nos moldes que eu criei sem segundas intenções.
Vou ler um pedaço para você: “As grutas são adversas, a tinta fresca que cheira mal escorre pelas rochas, sinto estar sendo observado, mas eu estou sozinho, num território inóspito para criaturas como eu, compunjo a face quando vejo algum vulto, tento não demonstrar medo.”, Não nego, foi uma das últimas páginas que ele escreveu, tenho quase certeza que algo o pegou, só queria fazer as minhas juras em paz, entretanto sinto que estou sendo obrigado a encontrar ele, apenas ossos no estado atual, passou-se muitos anos, a vida ficou enferrujada.
Não aguentei a ansiedade e li a última página, precisava de alguma pista de que gruta ele entrou, foram as seguintes palavras: “O lugar é mais gelado que a noite, as curvas que vejo nas sombras são claramente de mulheres, os relatos são verdadeiros, a Tribo Uivana vive aqui, essa gruta não é nada mais que uma armadilha, se meus estudos estão certos, são todas canibais e pela minha intuição são as minhas últimas palavras antes de ser desossado”. O livro termina assim, enigmático e arrepiador? Não sei o que fazer, mas já tive uma ideia, logo após terminar de ler, abri o casebre e procurei grutas visíveis e altas, quanto mais altas estivessem, mais frias seriam, foi quando percebi duas grutas visivelmente gigantescas do lado do farol, uma de cada lado.
Já escurecia, dormi segundo a cabeceira da cama.
Logo de manhã fiz o percurso do M-16 ao M-17 mais de vinte vezes, quanto mais eu me aproximava das grutas elas desapareciam, eu quero acreditar que não estou enlouquecendo.
Há muitos lugares ainda inexplorados, da minha linha de visão aquelas são as mais altas, tomei coragem e quando abaixou o Sol comecei a andar a direção do sul.
Um espaço em decadência, barcos queimados, contêineres empilhados e abertos, uma destruição total na baía. Não havia pessoas, e nem restos delas, não encontrei papéis e nem gravações, tudo é tão intrigante, uma sensação estranha veio similar a do Dikens, como se os meus dias estivessem acabando, do mesmo modo que acordar a cada novo dia e estar mais perto da morte.
Quando me dei conta, fiquei espantado, o barcos eram da última expedição, que vieram resgatar Dikens, a mídia disse algo sobre aquilo, que apenas alguns barcos voltaram, outros foram engolidos pelo mar agressivo.
Andei um pouco mais e encontrei um poço profundo, senti as minhas pedras no rim mexerem em consentimento, pareciam torcer para que eu fizesse uma loucura.
Então, pulei. A visão escureceu, e uma voz do fundo da minha alma disse: “Regresse!”. Acordei, voltando para a realidade e tornei andar, ao fundo já distante da baía avistei outro casebre.
Aos poucos passos do cume percebi o Sol escurecer, um caminho repleto de troncos, se já existiu árvores nessa ilha, foram cortadas e usadas como direcionamento para casas, formavam uma estrada em linha reta. O vento começou a soprar mais forte.
Do meu lado avistei uma pequena cabana, empalideci com a presença de bandagens, uísque, pinças e sangue, já envelhecidos, manchando o chão da cabana.
Aos poucos me aproximei do casebre, abri a porta que fez um ruído estressante enxotando os pássaros, encontrei um papel, parecia ser um eremita também que se sucumbia ao prazer de escrever: “Propriedade de um emigrante escandinavo, se ler isso a casa é sua, tomara que não leia.”. Pus o papel na mesa e comecei a olhar a casa.
Na parede do que era a sala improvisada havia mais um papel: “Meus últimos dias são marcados por um holocausto de cabra, a praga levou elas e elas me deixaram uma doença como herança.”. Morreu com uma doença de cabra, trágico.
No fundo da casa encontrei mais uma pintura, havia sido ele? Os nativos? Começo acreditar que esses símbolos abstratos são marcas de onde a tribo passa, levando vidas ou pegando suprimentos.
Julgo que já lancei esse livro ao mar diversas vezes, mas ele sempre volta para minha mesa, penso que se eu me jogar naquelas águas agressivas com bendito nos braços, se mesmo assim estará no meu leito de morte, ou voltará para mesa intacto, como se nada tivesse acontecido.
Sai da casa após ver uma mala pronta em cima da cama, parecia que ele planejava morrer longe da morada, desci longos degraus de madeira que os antigos moradores fizeram e vi uma grande caverna a minha frente, o chão repleto de folhas rasgadas e de diversos livros com o mesmo nome: “O Livro do arrebanho”. Perguntei-me do que aquele homem escandinavo trabalhava, seria um homem que trabalhava com gado? Morreu com uma doença de cabra provavelmente, naquele momento Ana, eu ilusionei ou reconstitui a cena, o homem usou a pinça para tirar algumas feridas que deram no corpo dele, depois bebeu o uísque para suprir a dor e usou as bandagens para fechar o ferimento, arrumou as malas achando estar curado, mas só pegou a mala dos livros e foi para caverna, havia algo lá, tenho certeza, só que seus planos foram interrompidos, algo o pegou, de súbito.
Não hesitei e entrei na caverna.
Uma caverna de fósseis, a água pingava e formava lanças que saiam do chão, o azul celeste era belo como a perfeição, andei um pouco e me vi sem saída, apenas um grande buraco a minha frente poderia me levar a algum lugar... Eu não tinha nada a perder, morrer naquelas situações me levariam para o seu lado.
Pulei adentrando aquelas vias extraviadas, o breu preencheu a minha vista por alguns segundos e então caí, havia um longo caminho dentro da caverna a ser percorrido que era delimitado por aqueles fósseis congelados azuis púrpuras que refletiam luz de alguma realidade alternativa.
O dia foi embora num piscar de olhos, foi quando comecei a perder a noção de tempo.
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