O espinho e a rosa
5 Capítulo 5
— Ah, já estou quase sem paciência!
Celso tentava se concentrar no volante do automóvel para não ter que ouvir as reclamações da irmã. Mais uma vez, ele a conduzia até a casa de Ilde, a fim de levar o enteado desta à praça, usando-o como desculpa para se aproximar do filho de Anastácia.
— Você sabia da possibilidade de Candinho esconder o medalhão por meses, Sandra.
— O pior de tudo é ter que aguentar o filho do Dr. Araújo. Aquela cadeira de rodas é muito pesada para empurrar! Ilde tem razão, o menino é um estorvo!
— Não chame o menino de estorvo, ele até que é um bom garoto!
— Celso, poupe-me de suas opiniões que de nada servem, está bem? Não estou de bom humor!
O rapaz reprimiu um suspiro nervoso. A realidade é que era ele quem estava ficando sem paciência também, mas com Sandra. Dia e noite, o assunto era sempre o mesmo: o medalhão de Candinho, necessário para o plano da irmã dar certo. E toda vez que Celso perguntava que plano era esse, Sandra se fechava em copas, gracejava e não dizia um “A”. Isso o deixava no limite. Queria logo saber, pra ter certeza de que a integridade física de Anastácia não estava ameaçada por qualquer que fosse a ideia da irmã.
Ouvir Sandra chamar Claudinho de estorvo trouxe-lhe quase que imediatamente lembranças da própria infância. Sentia simpatia pelo menino, essa era a verdade, pois podia ver-se nos olhos dele quando tinha a mesma idade. Uma criança sem afeto materno reconhecia outra tão logo a visse. Lembrou da mãe, sempre paparicando Sandra, pondo-a no colo, enquanto que ele era deixado de lado. Nada do que fizesse era digno de ser notado por ela.
Como era ser amado por uma mãe? Celso não sabia. Quando chegou à casa dos tios junto com a irmã, depois da morte dos pais, Anastácia o abraçou tão carinhosamente que sentiu vontade de chorar; foi a primeira vez que alguém lhe deu atenção. E nos anos que se seguiram, Anastácia nunca deixou de zelar por Celso, e também por Sandra. Ela era a mãe que a a própria mãe não quis ser para ele. Por isso não queria que nada de mal acontecesse à tia…
— Ora vejam, o pestinha já está a nossa espera. – comentou Sandra ao chegar a casa de Ilde.
Enquanto cuidava de pôr Claudinho e a cadeira no carro, Celso pensava: estava certo ele fazer parte de toda a tramoia? Olhava para o enteado de Ilde, animado com a possibilidade do passeio, sem imaginar que era mais um peão no tabuleiro de Sandra. Era justo? Durante toda a vida, sempre esteve ao lado da irmã, acobertando-a de todas as formas, mas agora, alguma coisa havia mudado.
— Bom, voltarei para buscá-los no horário de sempre. – disse o rapaz, quando chegaram à praça.
E partiu, tomando o caminho de volta. Contudo, algo havia acontecido na rua, algum acidente, e Celso se viu obrigado a tomar outro rumo, mais longo. Passou por uma rua mais movimentada, cheia de lojas, e qual não foi sua surpresa ao ver Maria atravessar a rua.
Deveria ser o dia de folga dela. No impulso, Celso procurou lugar para estacionar e irritou-se por não achar um mais próximo de onde a viu. Quando enfim conseguiu, saiu em disparada do carro, temendo não encontrá-la mais. Andava de um lado a outro, olhando por todo o espaço, em vão. Estava já sem esperanças quando a viu novamente, em frente a uma pequena loja de artigos infantis.
Ao ver Maria olhando a vitrine sonhadoramente, Celso decidiu não abordá-la. Permaneceu à distância, observando a moça. Ela olhou a vitrine por alguns minutos e entrou na loja. Demorou o que pareceu uma eternidade, e quando Maria saiu de lá, trazia um pacote nos braços. Viu-a sorrir, acariciando a peça como se fosse algo precioso, e ir embora.
Celso ficou desconcertado. O amor de Maria pelo filho que esperava era tão profundo que ele não conseguia deixar de sentir uma grande admiração. Quisera ele ter sido tão amado assim pela mãe, tudo teria sido tão diferente! Ele seria diferente! Deus, como quis tanto ser amado de tal maneira, teria feito qualquer coisa por um pouco de tão grande sentimento… Como o bebê de Maria era sortudo por ter uma mãe tão amorosa quanto ela, que o queria tanto!
Tomado por um ímpeto irresistível, Celso entrou na mesma loja. Tão logo ali estava e a vendedora o cumprimentou.
— Sabe a moça que acabou de sair desta loja? – perguntou.
— Ah, sim, eu sei.
— O que ela comprou?
— Bom, ela vem aqui de vez em quando, comprar roupas de bebê. Hoje ela comprou uma manta de lã.
— Sei… Escute, eu não entendo muito de bebês, mas gostaria de comprar algo para dar de presente a ela. Por acaso, ela quis comprar outra coisa além da manta?
— Sim, ela ficou interessada em uma chupeta. Infelizmente, não pôde.
— Poderia vender para mim?
— Sim, senhor.
A vendedora aprontou tudo e Celso saiu da loja com um pequeno pacote, e mesmo da calçada, pode ouvi-la comentando com uma colega:
— Que gesto carinhoso desse pai, não é?
Pai? Celso riu. Não, ele não era o pai.
… Mas bem que gostaria.
………
— Celso! – disse Sandra irritada, na entrada da praça – Atrasou-se!
— Desculpe, tive que fazer outro caminho. Parece que houve um pequeno tumulto. Um acidente.
— Acidente? – comentou Ilde – Essa cidade está a se tornar um caos a cada dia que passa!
— Pois é. Só agora liberaram a via.
— Ah, vamos para casa, já está anoitecendo – bufou Sandra.
— Obrigado, senhorita Sandra. – disse Claudinho – Gosto muito de vir para a praça. Adoro pipoca!
Sandra sorriu dissimuladamente para o menino, acariciando sua bochecha.
— Eu também, Claudinho. Você não sabe o quanto aprecio vir aqui.
Celso estreitou os olhos para a irmã, balançando a cabeça negativamente. Às vezes nem ele acreditava no quanto que Sandra poderia ser falsa.
Mas ao menos, enquanto voltava para casa, poderia fazer outra coisa do que ouvir os disparates da irmã sobre o plano, sobre o medalhão… Imaginar a reação de Maria quando ele lhe entregasse o pacote, que estava guardado no porta luvas, longe das vistas de Sandra.
“O que ela há de dizer?”, dizia em seu íntimo.
E quanto mais Celso pensava em Maria, mais seu coração palpitava.
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