O espinho e a rosa
6 Capítulo 6
Maria estava encantada… Aos poucos conseguia montar um bom enxoval para o seu bebê, e sua maior satisfação era ver as peças uma por uma. Tentava imaginar seu filho vestido com uma camisa bordada, fraldas e sapatinhos de tricô, saindo da maternidade aquecido com a manta que acabara de comprar. Só de imaginar, a emoção tomava conta de seu coração. Apenas lamentava não ter tido dinheiro suficiente para comprar uma chupeta, mas essa ficaria para a próxima.
Havia conseguido com o irmão Braz uns bons cortes de tecido, sem o conhecimento do pai, para costurar uma bolsa em que pudesse guardar o enxoval. Deixando de lado a modéstia, havia ficado muito bom. Inclusive, pensava em ir até a pensão de Dona Camélia perguntar se poderia ajudá-la com algum trabalho de costura, assim que o bebê nascesse. Qualquer trabalho seria bem vindo para ter o suficiente para criar seu filho.
Pôs as peças dentro da bolsa e a guardou no armário. Seu dia de folga estava acabando, e logo teria que ir servir o jantar. Sentou-se na escrivaninha, olhou alguns papéis, anotações, quando ouviu a porta de seu quarto abrir.
— Celso…
O rapaz sorria divertido, com as mãos para trás, escondendo algo.
— O que foi, Celso? Por que o sorriso?
Ele nada respondeu, apenas estendeu os braços, revelando nas mãos uma pequena caixa. Maria sentiu o coração pular, tomou o objeto para si e logo a abriu.
— Ah, uma chupeta!
Como ele havia adivinhado?
— Vi numa loja e achei que fosse gostar. – disse Celso, sorrindo ainda mais ao ver a expressão de surpresa dela, muito satisfeito.
— Sim, eu havia visto mais cedo, fui comprar uma manta… Nossa, Celso, como adivinhou?
Ele apenas sorria divertido, como se escondesse um segredo. Virou-se e sentou-se na cama.
— Sei que anda a comprar o enxoval de seu bebê aos poucos. Pensei em algo para lhe dar. Então…
— Então, comprou uma chupeta… Sim! Todo bebê precisa de uma!
Ficaram em silêncio por alguns segundos, Celso a olhava de um jeito que fez Maria corar, embaraçada. Como ela ficava linda corada, pensou novamente o rapaz.
— E como se sente hoje?
— Bem melhor, agradeço por perguntar.
— Sua barriga já está bem aparente…
— Sim, já estou com quase sete meses. Mal posso esperar para ter meu bebê nos braços.
O rosto de Maria se iluminou com a expectativa, e Celso sorriu diante de tamanha alegria. Era o que tanto admirava na jovem: apesar de tudo, nunca, nem por um segundo, deixou de amar a criança. Maria, com certeza, seria uma mãe e tanto.
— Muito obrigada por se lembrar de mim. – disse a jovem – Agradeço o presente, foi muito oportuno.
— Não me agradeça. Fiz de coração. Fiz por você.
Ao ouvir essas palavras, o coração de Maria bateu mais forte. Celso levantou, tomou uma das mãos da jovem e ternamente a beijou. A moça estremeceu diante do gesto, completamente inesperado. Inesperado? Ultimamente, o rapaz agia de modo completamente diferente de quando se viram pela primeira vez. Estava mais gentil, se preocupava com ela, estava sempre por perto quando a irmã não pedia sua presença.
— Até mais, Maria.
— Até mais…
Ao ver Celso sair, Maria levou a mão que ele havia beijado ao próprio rosto, o coração batendo tão forte que parecia querer sair do peito. Virou-se para o espelho, e observando o próprio reflexo, deixou escapar um suspiro tão profundo ao admitir para si mesma aquilo que já era óbvio.
— Estou apaixonada… Como é possível?
Abriu a caixinha que ele havia acabado de lhe presentear, olhou a chupeta e acariciando o ventre, disse com todas as letras.
— Meu Deus… Eu amo o Celso.
E mal disse a frase, sentiu o bebê movimentar-se dentro de si pela primeira vez, como se confirmasse o que havia dito.
— Você também gosta dele, meu filho? – comentou, entre risos.
Os olhos de Maria encheram-se de lágrimas ao sentir seu filho se mexer novamente. Chorou de alegria, e concluiu que apesar de todo o pesar sofrido desde que Leandro morreu, Deus nunca a havia desamparado. Em pensamento, agradecia a Ele por tudo.
….
Celso entrou no quarto com o peito transbordando de tanto contentamento. A expressão de Maria ao ver o presente dele superou sua imaginação, e isso o deixava tremendamente feliz. “Poderia fazer isso mais vezes”, pensou, “apenas para vê-la daquele jeito novamente!”
— Sim, é isso que farei. – disse para si mesmo, andando em círculos pelo quarto – Do que mais um bebê precisa?
Sentou-se na escrivaninha, pegou papel e caneta, e pensou. Anotou alguns itens que observara na loja em que vira Maria pela manhã, no entanto nada lhe parecia de acordo com o que queria. Isso o frustrou bastante.
— Não, quero algo grande dessa vez. Algo que a surpreenda mais do que a hoje.
Jogou o papel no lixo, e quando tomou outra folha de papel, batidas na porta interromperam seu raciocínio.
— Entre.
— Trancado no quarto a essa hora, irmãozinho?
Celso não pôde conter um suspiro de decepção ao ver Sandra adentrando o cômodo. Por um momento, achou que fosse Maria, para agradecer-lhe mais uma vez pelo presente. Com um beijo, talvez?
— O que quer agora, Sandra?
— Apenas dizer que titia irá dispensar o detetive. – disse Sandra com ar de vitória. – Ela está a conversar sobre isso com Dr. Araújo na sala. Saí de lá agora a pouco, com a desculpa de que chamaria você para o jantar. Claro que não sem antes consolar a nossa pobre titia.
— Bom para você, irmãzinha.
— Por que me olha assim, Celso?
— Por nada.
— Não, eu o conheço bem, caro irmão. Está a pensar em algo.
— Sim, estou sim. E não é da sua conta!
— O que foi? – perguntou a loira, fazendo bico – Ah, por que ainda pergunto? Foi ver Maria, não foi?
— E se eu tiver? O que tem com isso?
— Ora, meu irmão, o que pretende com a empregadinha? Usá-la e jogá-la fora?
Celso levantou-se bruscamente, não suportando mais as provocações da irmã.
— Não fale assim dela! Maria é uma mulher digna!
— Uma mãe solteira! Uma perdida! Sabe-se lá por quantas mãos ela já passou!
— Com certeza não mais que você!
Sandra sentiu o golpe e ergueu a mão para estapear o irmão, mas Celso, prevenido, agarrou o pulso da irmã.
— Não ouse! – avisou o rapaz.
A loira puxou com força o pulso magoado, visivelmente estupefata pela reação de Celso.
— Você não era assim, meu irmão.
— Mais uma palavra sobre Maria, Sandra, e eu não respondo por mim!
— Então fique aí, a pensar na sua empregadinha. Se duvidar, daqui a pouco estará a preparar mamadeiras e a ninar bebês em berços!
Sandra saiu batendo a porta. Celso ainda bufava de raiva com a irmã por tudo que ela havia dito, quando uma ideia passou pela sua cabeça. Uma que o deixou muito feliz, a ponto de esquecer o que havia se passado.
— Um berço! Claro! Um bebê precisa de um berço!
Pegou um papel de cima da mesa e anotou o pensamento, muito empolgado. Quem imaginaria que Sandra acabaria por ajudá-lo?
— Amanhã mesmo vou fazer a encomenda: um bom berço para o bebê de Maria. Ficarei a lhe dever essa, irmãzinha!
Quando Celso desceu para o jantar, não existia mais nenhuma sombra da contrariedade causada pela discussão recente – ao contrário de Sandra, claramente mal-humorada. Ele percebeu que Maria também estava alegre e isso o deixou ainda mais feliz. Anastácia notou a animação do sobrinho que, questionado, apenas disse:
— Apenas me sinto bem, titia. Mais que o normal.
E cruzou o olhar com o de Maria, que tentou reprimir um sorriso. Mas o brilho de seus olhos claros revelou quase todo o seu sentimento a Celso, e o sorriso dele mostrava à Maria qual, ou quem, era o motivo de tanta alegria.
“Mal posso esperar para lhe dar o próximo presente, Maria! Que surpresa terá!”, pensava o rapaz.
E naquela sala de jantar, nenhum outro coração batia em ritmos tão semelhantes quanto os de Maria e Celso, de tão unidos que estavam pelo mesmo sentimento.
Agora só restava admitir um para o outro. Quando?
… Quando o coração mandasse.
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FIM.
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