Os dias seguiram sem maiores problemas. Maria já havia se restabelecido por completo, e voltado a trabalhar nos serviços da casa – agora um pouco menos penosos, já que sua barriga estava mais crescida. Celso passou a frequentar a cozinha quase que diariamente, e a jovem até se surpreendia com a cortesia que o rapaz passou a tratá-la. Claro, vez por outra, ele deixava escapar a rudeza que lhe era característica, para logo depois se recompor e retomar a gentileza nos modos. Para Maria, Celso lembrava um raio, que em noite de tempestade atravessa o céu por um momento e o ilumina completamente, para logo depois assustar com o barulho do trovão. Imprevisível e ao mesmo tempo fascinante.

Celso por sua vez, tentava esconder de todos, e até de si mesmo, o quanto que a jovem grávida mexia com seus sentimentos e, principalmente, com a sua consciência. Não demoraria muito para Sandra finalmente conseguir realizar qualquer que fosse o plano que ela tivesse em mente, e Celso duvidava se deveria seguir a irmã, como sempre fez – afinal, ele amava a tia, e o afeto que Anastácia tinha por ele era o mais próximo de sentimento materno que conhecia, e não queria de jeito nenhum perder isso. Quando via a cumplicidade de Maria com o irmão Braz, cheia de amor fraternal, conseguia enxergar o quão distante que a relação deles estava da sua com Sandra, e por várias vezes, se pegou pensando se não estava na hora de parar de apoiar a irmã ambiciosa, que não perdia a oportunidade de atirá-lo na fogueira quando bem entendia.

À noite, foi para o Dancing; dançar era o que mais gostava de fazer, ele conseguia esquecer completamente de tudo enquanto bailava com alguma taxi girl. Mas não esquecia de Maria… Seu olhar, seu sorriso, o calor de seus lábios… Era como se ela o chamasse de volta, para perto dela.

— Ai! – gemeu Olga – Hoje você está muito distraído! Já é a segunda vez que pisa no meu pé!

— Perdoe-me – respondeu Celso, contrariado – Não estou bem hoje.

— É? Então trate de ficar melhor rápido, para o bem dos meus dedos!

Não foi uma boa ideia sair, logo pensou. Não demorou muito e desistiu, indo embora do Dancing. Ernesto estava lá, ouviu-o gracejar sobre seus erros, mas não se importou. Aquela noite não era de dança de que ele necessitava. Era de paz. E a única pessoa capaz de lhe dar o que tanto precisava estava sentada no jardim da casa de Anastácia, como de hábito.

— Maria…

A moça virou-se para ele, pega de surpresa, como da primeira vez.

— Não devia estar aqui – repreendeu o rapaz – Dr. Lauro recomendou que não ficasse sob o sereno.

Maria amarrava o roupão, tomada de pudor.

— Só estava respirando um pouco. – disse, corada.

Ele sorriu. Ela ficava ainda mais bonita quando estava embaraçada.

— Como sempre. E como se sente? Está melhor mesmo?

— Sim, me sinto a cada dia mais forte. Obrigada por perguntar.

Ela havia lhe dado as costas, impedindo que ele a olhasse nos olhos, e tudo o que Celso queria naquele momento era ver o rosto dela. A presença de Maria lhe dava conforto; mas a paz que tanto queria ele só encontrava quando o olhar dela encontrava o seu.

— Queria muito ter te conhecido antes, Maria.

O coração da jovem bateu mais forte ao ouvir aquelas palavras, provavelmente ditas sem pensar. Teve certeza disso quando se virou para ele, e o rapaz a olhava completamente envergonhado, como se tivesse deixado escapar algo que deveria ser segredo.

— Desculpe. Pensei alto demais.

— Não – sorriu Maria, corando – Não há porque se desculpar.

— É melhor eu entrar… – disse o rapaz, virando-se para a porta.

— Celso! – chamou Maria, como da outra vez, por impulso. Imediatamente, o rapaz parou, e virou-se para ela. O peito parecendo que explodiria a qualquer momento.

— O que foi?

— Eu queria agradecer tudo o que fez por mim quando adoeci.

— Não há o que agradecer, Maria.

— Claro que tem – retrucou a moça – Não sei o que teria acontecido comigo e com meu filho se você não estivesse por perto quando desmaiei.

— Você sempre pode contar comigo, Maria. Sempre que precisar, estarei do seu lado.

Ela notou a emoção, que ele inutilmente tentou reprimir, daquelas palavras. Não sabia o motivo, mas Maria sentia que Celso precisava de alguém, um apoio, melhor dizendo, uma direção. Contudo, o que ela poderia fazer? Conhecia o rapaz o suficiente para saber que ele não falaria sobre o que o afligia. Então, como ajudá-lo?

Não teve dúvidas; Maria correu para Celso e o abraçou, surpreendendo-o.

— Também quero que saiba – disse a jovem ao ouvido dele – Que também pode contar comigo no que precisar. Estarei sempre aqui, para te ajudar, para te ouvir, Celso, sempre!

Uma lágrima rolou pelo rosto dele, há muito represada. Maria ali, em seus braços novamente; sentindo o calor do corpo dela, era como estar sob a proteção de um anjo. Beijou-lhe o rosto em agradecimento, contudo, tamanha proximidade com os lábios dela lhe foi irresistível.

Foi um beijo ardente e ao mesmo tempo urgente. Maria novamente pôde sentir o quão profundo era o sentimento que Celso nutria por ela, assim como ele sentia o dela. Era um beijo de amor, sem dúvida, contudo, uma sombra insistia em pairar sobre esse amor, como das outras vezes.

Celso afastou-se de súbito, como se tivesse acordado de um sonho. Maria o encarou, temendo que ele mudasse de humor e a ofendesse, como antes. Porém, o rapaz deu-lhe as costas e simplesmente disse:

— Desculpe.

E foi embora sem maiores explicações, deixando Maria sem entender o que havia acontecido.

Ao entrar no quarto, Celso foi direto à janela. Viu a moça ainda no jardim, sentada, olhando para o céu, e o rapaz imaginou que ela pensava nele. E no jardim, Maria, que de fato pensava em Celso, acariciava o próprio ventre enquanto olhava para as estrelas, que brilhavam ainda mais naquela noite sem nuvens.

— Há sim um sentimento que nos une, eu sei, eu senti, eu sinto. Então, por que…?

Do quarto, Celso, apesar da pequena alegria daquela noite, era tomado por um pensamento que ultimamente teimava em invadir seus pensamentos, causando-lhe uma insegurança quase insuportável.

— Eu não a mereço, Maria… Não a mereço.

Notas finais
Continua