O espinho e a rosa
3 Capítulo 3
— Aaaah, até que enfim! Onde se meteu?
Sandra andava para lá e para cá no quarto do irmão, impaciente. Já estava vestida para sair, como sempre fazia no final da tarde, para ir até a praça atrás de Candinho e saber do medalhão.
— Ande logo, se arrume, Celso, ou ficará muito tarde!
— Hoje não vou. – avisou o rapaz, friamente.
Sandra arregalou os olhos, parecia não acreditar no que ouvia.
— Como é?
— Não estou disposto.
— O que há com você hoje? Levantou com o pé esquerdo? Primeiro no café da manhã, e agora essa? O que está a acontecer afinal?
— Não está a acontecer nada! – disse Celso, irritado – Apenas não quero sair!
Estreitando os olhos, a irmã do rapaz adivinhou o que se passava.
— Aaah, entendi. Soube por titia, Maria adoeceu. Está preocupado com aquela perdida?
Celso soltou o ar dos pulmões, ainda mais irritado.
— Eu já disse, Sandra, não quero sair. E não é por que Maria está doente! Apenas penso que ir todas as tardes à praça levantará suspeitas!
— Suspeitas de quem, criatura? Do caipira é que não é, ele é um completo idiota!
— As pessoas podem surpreender. E se aquele professor de filosofia estiver hoje por lá? Candinho pode ser ingênuo, mas o outro com certeza não é! Já mostrou que é perspicaz, fazendo o filho de titia esconder o medalhão. Pense, Sandra! Ir até lá todos os dias com tanta frequência perguntar sobre o medalhão é no mínimo esquisito, mesmo para um caipira!
— Você se preocupa demais!
— Sim, eu me preocupo! Sua ambição está a limitar a sua visão. Precisamos ir com calma! Ernesto já subornou o novo detetive, ele é carta fora do baralho. O medalhão pode ficar escondido por meses. MESES, Sandra!
— Por isso mesmo que devemos…
— Não, não devemos! – interrompeu Celso, sem paciência – Mas já que você está tão ansiosa, pode muito bem usar as pernas que tem para ir sozinha à praça. Ficarei em casa hoje, e você não me convencerá do contrário!
— Você não era assim, Celso. O que tornou esse seu coração tão mole?
O rapaz precisou de todo o autocontrole para não falar desaforos para a irmã; de tudo que passou pela cabeça dele para responder à Sandra, disse apenas:
— Apenas comecei a ver as coisas de outra maneira, diferente de você, irmãzinha.
Sandra balançou a cabeça e saiu do quarto, muito contrariada. Celso sentou-se na cama, respirando fundo a fim de se acalmar. Numa coisa Sandra estava certa: Maria era o motivo de seu nervosismo. Saber que a vida de mãe e bebê poderia estar em risco o tirou do normal. Relembrou todos os momentos em que tratou mal a pobre moça – muitas vezes a fazendo chorar – e sentiu-se responsável. Talvez fosse ele o motivo de Maria estar doente. Talvez?
“Ela não pode se estressar”. “Não pode sofrer fortes emoções”. As recomendações do Dr. Lauro ecoavam na mente de Celso. O que ele havia feito com Maria, a não ser contrariá-la? “Porque sempre começa a conversar gentil e termina rude?” a moça perguntara uma vez. Nem ele próprio tinha certeza.
Foi até a janela, de onde a havia observado pela manhã. Em seu íntimo, uma decisão definitiva era tomada: tornar a vida de Maria mais tranquila naquela casa. Sem discussões, sem brigas, a fim de preservar-lhe a saúde. Quem sabe assim, todo e qualquer risco seria devidamente anulado e a moça poderia ter o seu bebê em paz – mesmo que isso significasse sua partida tão logo estivesse em condições.
O que ele poderia fazer além disso?
…......
Já estava anoitecendo quando Maria despertou. Ainda se sentia fraca, e não quis arriscar a levantar da cama. Mas estava com tanta sede… Ergueu-se devagar, até quase sentar-se.
— Maria.
A jovem puxou os lençóis para si, com o susto. Celso estava na poltrona próxima à janela, alerta a qualquer movimento.
— Celso, você aqui?!
— Como se sente?
— Há quanto tempo está aqui?!
Celso levantou-se, encheu o copo com a água de um jarro que Quitéria havia trazido, e o entregou à Maria.
— Deve estar com sede. Beba.
A moça assim o fez. Maria não sabia o que dizer. Por um lado, estava contrariada por um homem que não era seu irmão se encontrar em seu quarto; mas por outro, ao olhar nos olhos de Celso, um sentimento de alegria teimava em aquecer seu peito.
— Há quanto tempo está aqui? – repetiu.
— Não muito. – respondeu o rapaz, dando de ombros – Quitéria vem aqui de tempos em tempos. Titia teve que ir visitar uma amiga e eu me prontifiquei a ver como você estava para poder dizer à ela quando voltasse.
— Estou melhor, obrigada.
Celso sentou-se na cama e pôs as mãos no rosto de Maria, que não pôde evitar que seu coração saltasse. Ele a olhava fixamente nos olhos, atento, as mãos percorrendo as feições dela, de uma forma que a fazia estremecer.
— A febre baixou, que bom!
— Sim… foi só um susto, acho.
Ele suspirou e sorriu. Maria por um momento pensou que estivesse sonhando: Celso atencioso, gentil, sem mudar de humor de uma hora para outra, era quase impossível de acreditar que era real. Se ela fechasse os olhos, ele a beijaria? Podia sentir a respiração dele próxima...
— Vou pedir para Quitéria trazer algo para você se alimentar. Com licença. – disse o rapaz, erguendo-se.
— Celso!
Chamou-o por um impulso, agarrando-lhe a mão. Celso voltou-se para ela, surpreso.
— Ah… É… – gaguejou, largando a mão dele, completamente envergonhada do rompante – Onde está o livro que você me trouxe hoje de manhã? Amo poesia, e quero ler.
Sorrindo, o sobrinho de Anastácia foi até a escrivaninha do quarto, onde havia deixado o volume no momento de toda a confusão.
— Aqui está.
— Ótimo, vou começar a ler agora mesmo.
— E eu falarei com Quitéria.
Quando ele saiu do quarto, Maria respirou fundo, mortificada. Nunca havia agido assim… O que estava acontecendo com ela? Suspirando, folheou o livro que ele a havia dado, e logo deparou-se com a poesia que dava título à obra:
Eu queria a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã
(…)
Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa?
Eu quero a estrela da manhã
(…)
Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas
[comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples
Que tu desfalecerás...*
Um sorriso escapou-lhe dos lábios ao ler tais trechos, e afinal constatou: ela realmente quase havia desfalecido com aquele Celso, tão bom, tão gentil e atencioso que acabara de sair do seu quarto… Nem ao menos conseguia definir o que sentia. De repente um pensamento atravessou-lhe a mente: Celso dissera que não estava ali há muito tempo, mas afirmara que Quitéria “vinha de tempos em tempos”. Como ele saberia disso, se não estivesse no quarto há um tempo considerável?
Enquanto isso, no corredor, Celso repassava na mente tudo o que havia acabado de acontecer. Várias vezes durante aquele dia ele teve que lançar mão do autocontrole para não criar situações no mínimo complicadas, mas nada era comparado aos momentos em que estava próximo de Maria. Observá-la dormindo por todo aquele tempo, vê-la despertar bem melhor, e corar quando ele se aproximou... Quase não dominou a vontade que teve em unir os lábios aos dela. Quase.
De um lado e outro da porta daquele cômodo, dois corações que sequer imaginavam bater no mesmo compasso.
Até quando?
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