Notas iniciais
Olá! Faz um tempo que sumi do Nyah e também um tempo que não escrevo histórias. Essa veio de forma completamente aleatória, porque sempre quis escrever sobre isso: fantasia fantástica com elfos e arco-e-flecha e lobos e dragões. Sou uma fanática por isso! Finalmente criei coragem para escrever. Só uma breve introdução, e aproveitem :)

Ainda que resolva contar os acontecimentos das páginas seguintes, talvez não possa dizer que sou a personagem principal.

A minha jornada interligou aqueles que foram importantes para a história do que ficou conhecido como o Espelho de Arret, e eu faço questão de dispensar mérito a todos que estavam lá.

Primeiro, permita-me explicar como funcionava Arret, o nosso mundo, naquela época. Três grandes povos residiam em Arret: Magos, Anões e Seres da Natureza – estes últimos chamados de todo tipo de nome cômico por se intitularem de forma tão egocêntrica e orgulhosa. Os Anões dominavam as montanhas e a forja, os Magos detinham o conhecimento da magia em sua forma elemental, e os Seres da Natureza tinham sua força na própria vida e no domínios de seus arcos.

Segundo, para fins futuros, lhe contarei uma lenda que ninguém sabia de onde havia surgido e com qual propósito havia sido criada, se ela fora real ou apenas uma história contada às crianças pelos anciãos. A lenda sobre uma bela dama que, de tanto amar a vida, com toda vida acabou.

Poderia um ser amar tanto a vida, ao ponto de exterminá-la completamente? Derramar lágrimas diante de um ser morto, sendo aquele que chora o responsável pela perda?

A Dama de Gelo era uma bela moça de enorme coração. Seus cabelos prateados caíam leves até a altura do queixo, e seus olhos de prata líquida transmitiam sua pureza.

A mulher nascera como Ser da Natureza e, por isso, tinha uma forte ligação com a vida em sua forma mais primitiva.

Ao se aventurar para além da floresta, encontrou uma alcateia, que logo reconheceu a compatibilidade de suas almas e curvou-se perante a força que provinha de seu amor.

A Dama de Gelo dominou os Lobos.

Retornando ao seu lar com os fiéis companheiros, foi a ela concedido o ofício do arco e da flecha. Aquela mulher prateada construía as melhores ferramentas e, como uma legítima mestra, era perita no uso das mesmas.

A Dama de Gelo dominou o Arco.

Ao encontrar um homem que carregava um par de espadas pesadas, o seu amor se modificou, e ele não foi capaz de contrariar o poder daquela pessoa que brilhava como uma estrela solitária, acabando por ensiná-la a sua própria maestria.

A Dama de Gelo dominou a Espada.

Mas a Dama muito a vida amava e, por isso, não queria lutar. Como sabemos tão bem, quanto maior o amor, maior a dor, e aquela mulher sofria todos os dias quando alguém desfalecia.

A cada nascer do sol, a tristeza sua beleza diminuía, e o homem a deixou. Se recusou a produzir ferramentas que causariam ainda mais morte e dor, e o seu povo a expulsou.

Com seus lobos ela embora foi e entendeu a profundidade com a qual a alma daqueles animais espelhavam a sua: destinados a serem solitários e complexos, observadores do mundo que vagavam em eterna perda.

Alcançou uma enorme cidadela branca, e logo se identificou. Ali foi recebida calorosamente e aprendeu o que aquela gente sabia. A magia era elemental, transformando seu uso numa dança lado a lado com a vida.

Com o passar do tempo, porém, a Dama sentia cada vez mais o ódio, rancor e ambição que possuíam os Magos. Aquilo a fez tomar uma decisão.

Levar a vida daqueles que tiravam a vida sem compreender o valor que ela possuía, era isso que agora fazia.

Aquela escolha lentamente a corrompeu e seu poder logo cresceu além de seu alcance, além de sua alma, além de seu controle.

Seus cabelos, cílios, lábios, unhas e, principalmente, seu coração, foram congelados, já que o elemento de sua alma era frio.

Seu poder o mundo não suportou, e por ela sucumbiu.

E, assim, o Gelo dominou a Dama.

Dessa forma a lenda acabava, e quase sempre um longo silêncio se estendia para que assimilassem o que ela dizia.

Quanto a terceira e última coisa, admito ser um Ser da Natureza que não foge tanto à regra de sua fama. Chamo-me Analu, e a minha aventura começa em um longo sono profundo.

~~~

Levantei de uma só vez quando ouvi o primeiro grito.

Caí logo em seguida ao me desequilibrar com o peso anormal do meu corpo.

Esfreguei o tecido sob minhas mãos e dei batidinhas onde quer que eu estivesse sentada. Aquilo era tão macio quanto algodão. Pisquei algumas vezes enquanto observava o lugar onde estava.

Parecia uma casa de Anões — embora tudo fosse proporcional ao meu tamanho —, porque as paredes (que não eram feitas de madeira) deviam ser construídas com alguma pedra polida que eu não era capaz de reconhecer e, segundo o que ensinavam na academia, essa era a principal matéria-prima daquela raça.

Olhei para onde estava sentada e vi que a estrutura se tratava de uma cama. Na minha casa, elas eram mais bonitas e refinadas, cuidadosamente montadas com galhos entrelaçados, mas definitivamente aquela era mais macia.

Uma sensação estranha de vazio me dominou, me fazendo pensar se era fome. Meu corpo estava mais pesado que o normal, então quem quer que tivesse me levado até ali deveria ter me colocado alguma magia ou me dado alguma planta entorpecente.

Tentei concentrar Energia nos pés, e descobri que não conseguia fazer isso. Era como se ela não existisse no meu corpo. Aquela que fluía por todo o meu sangue e podia ser direcionada para amplificar minhas habilidades. Não havia nada.

"É só um sonho. É só um sonho. É só um sonho."

Meu coração disparou quando ouvi as palavras em minha mente. Em um momento de surpresa, tentei concentrar Energia para bloquear a telepatia de quem quer que fosse, só para me lembrar que não estava possibilitada para fazer isso.

"Quem é você?" Indaguei mentalmente.

Dialogar era minha melhor chance de descobrir onde estava e tentar fugir. Àquela altura, meus pais já deveriam ter mandado uma equipe de busca atrás de mim ou até estariam eles mesmos vindo me procurar; mesmo assim, eu precisava fazer alguma coisa para o caso deles chegarem tarde demais. Para o caso de ser uma estratégia dos Magos.

Os Magos eram seres traiçoeiros que viviam nas sombras e possuíam clãs secretos. Dizia-se que eles se reuniam de tempos em tempos para decidir se atacariam ou não, analisando a situação do nosso povo e dos Anões, descobrindo se estávamos fragilizados por alguma disputa interna.

Meus pais me contavam que, há muitos séculos, os Magos eram aliados dos Anões, e ensinaram parte de seu conhecimento para aquele pequeno povo, conhecimento este que continuou sendo passado sob as montanhas através das gerações, mesmo depois que muitos daquela raça foram brutalmente assassinados por Magos, e que se aliaram a nós, os Seres da Natureza.

Por esse motivo, entre os Seres da Natureza, era lei jamais utilizar magia, pois ela apenas causava dor a quem fazia e a quem era infringida; quebrar essa regra levava à pior das punições: o corte de nossos cabelos e pontas das orelhas, a quebra de nossos arcos e a drenagem da Energia que nos era fornecida pela Árvore da Vida quando nascíamos para que pudéssemos ser leves, velozes e telepáticos; logo em seguida, obviamente, éramos banidos para sempre do Vilarejo Azul, o lar do nosso povo.

Aquele pensamento me fez entrar em pânico.

Chamei por Arco, esperando ouvir seu zumbido familiar vindo em minha direção, o que não aconteceu. Minhas mãos se moveram automaticamente até minhas orelhas, e fui dominada pelo desespero quando senti as bordas pequenas e redondas.

"Não, não, não!" Gritei mentalmente. Eu não havia feito nada! Não havia usado magia ou sequer conhecido um Mago. Nem mesmo um Anão eu havia visto.

Tentava me lembrar do que havia acontecido, mas minhas últimas lembranças eram de ter ido dormir após o Festival de Inverno.

"Festival de Inverno?" O fio de voz veio de tão fundo na minha mente que estremeci.

Eu não diria nada sobre os festivais. Por mais inocente que aquela pessoa parecesse, por mais que ela soasse tão familiar quanto meus próprios pais, eu não poderia lhe confiar informações das nossas tradições.

"Eu só queria acordar. Esse sonho está me enlouquecendo. Será que é uma daquelas coisas que a gente sente quando acorda, de estar semiconsciente e não conseguir se mexer? Não... Não. Parece mais um sonho. Um sonho desses que parecem filme, mas ainda um sonho. Ou um pesadelo."

A voz continuou tagarelando e, como nada do que ela dizia fazia sentido, simplesmente tentei ignorar.

No quarto havia vários objetos de metal, cipós pretos, folhas estranhas e coloridas e pequenos pergaminhos retangulares encapados que se assemelhavam à forma do cordão que todo Ser da Natureza carregava ao redor do pescoço.

Batidas na porta desviaram minha atenção do processo de reconhecimento. Tentando me habituar àquele corpo tragicamente puxado contra o chão, como se a força gravitacional fosse maior ali, rolei para trás da cama, me agachando.

— Senhorita, está na hora de levantar ou vai se atrasar para a escola.

"Escola?" Pensamos eu e a estranha voz em uníssono.

"É só um sonho. É só um sonho. É só um sonho." Eu quase podia imaginar a pessoa por trás daqueles pensamentos se balançando de forma descontrolada.

E aquilo estava começando a me tirar do sério.

— Isso não é um sonho! — repliquei em voz alta.

E foi só então que me dei conta de uma coisa tão óbvia e incrivelmente assustadora: a voz em minha cabeça não era desconhecida, aquela era a minha voz.

Notas finais
Yeeey! Dizem que os loucos conversam com eles próprios, será que Analu está alucinando? :V Teorias, críticas, elogios e sugestões: viva os reviews! shahsauhsuh Até o próximo, amores :3